domingo, 12 de maio de 2024

Missão: graça divina, resposta nossa (Ascensão do Senhor - Ano A)

Missão: graça divina, resposta nossa

 “Ide pelo mundo e ensinai todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”

A Solenidade da Ascensão aponta para o fim último de todos nós, a comunhão com Deus, o Céu (ano A).

A ida de Jesus para o Céu, não é a afirmação de Sua partida e ausência, mas é a garantia de Sua eterna presença conosco até que Ele venha pela segunda vez, como afirmamos na Missa: “anunciamos Senhor a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus”.

Antes é preciso assumir com coragem, no tempo presente, a missão por Deus a nós confiada: anunciar o Evangelho a todos os povos, empenhados decididamente no Projeto de Salvação Divina, superando a passividade alienante indo para o meio do mundo, como sal, luz e fermento. 

Nada falta à Igreja, portadora da plenitude de Cristo, para cumprir esta missão, portanto renovemos a alegria de crermos que, após um caminho percorrido com amor e doação, desabrocharemos na eternidade, pela comunhão com Deus, assim como foi a vida de Jesus Cristo.

A passagem da primeira Leitura (At 1,1-11) retrata uma comunidade que vive num contexto de crise (anos 80), marcado pela desilusão e frustração. 

O tempo vai passando e não vê realizar o Projeto Salvador. Quando será enfim realizado?

São Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, escreve em tons de catequese sólida, substancial, e se fazia necessário manter-se firme no testemunho do Ressuscitado, sem jamais vacilar na fé, esmorecer na esperança e tão pouco esfriar na caridade.

Lucas escreve a Teófilo (aqueles que são amados por Deus = amigos de Deus) apresentando o Protagonista maior da Evangelização que é o Espírito Santo e conta com a participação e ação dos Apóstolos na construção do Reino que exige empenho contínuo e nisto consiste o papel da comunidade formada por aqueles que creem e se afirmam cristãos.

Jesus depois de ter apresentado ao mundo o Projeto do Reino, entrou na comunhão plena e definitiva do Pai, e este é também o destino daqueles que percorrem o mesmo caminho. Fica com isto, afastada toda possibilidade de passividade alienante, imobilismo estéril.

Ele nos apresenta a Ascensão quarenta dias depois da Ressurreição: quarenta é um número simbólico, define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir com fidelidade e coragem as lições do Mestre.

A descrição da elevação de Jesus ao céu, assim como a nuvem, os discípulos a olhar para o céu, os homens vestidos de branco têm uma mensagem própria: os discípulos, animados pelo Espírito, devem continuar no mundo a história e obra de Jesus, aguardando a Sua segunda vinda definitiva e gloriosa.

A comunidade não pode ficar “olhando para o alto e de braços cruzados”, precisa seguir o caminho que é o próprio Jesus, com olhar para o futuro, renovando quotidianamente os compromissos com o Projeto de Salvação que Deus tem para a humanidade.

Deste modo, a Ressurreição e a Ascensão de Jesus, nos garantem uma vida vivida na fidelidade ao Projeto do Pai: “Uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo ‘caminho’ de Jesus subirá, com Ele, à vida plena”. (1)

Os sinais e palavras tem mensagens próprias: 

- A elevação aos céus - trata-se do culminar de uma vida;
- A nuvem - sempre um sinal teofânico (manifestação de Deus);
- Olhar para o céu - acena para a segunda vinda de Cristo, que não devemos esperar de braços cruzados;
- Dois homens vestidos de branco - anunciam o mundo de Deus.

Reflitamos:

- Tenho sido fiel à missão que o Senhor me confiou?
- O que gero com o meu testemunho nos diversos âmbitos em que vivo?
- Quais são meus compromissos solidários na transformação do mundo?
- Fico a olhar para o céu ou me comprometo com a transformação em todos os níveis?

A passagem da segunda Leitura (Ef 1,17-23) nos apresenta a síntese da teologia paulina, e o Apóstolo Paulo fala da comunidade como um corpo. Cristo é a cabeça e a Igreja é o corpo.

Trata-se de uma mensagem de confiança e esperança, em que a comunidade é exortada a pôr-se a caminho, numa comunhão sólida, formando um só Corpo, que é a Igreja, cuja cabeça é o próprio Cristo.

A comunidade cristã é um corpo – “o Corpo de Cristo” – formado por muitos membros, e que Paulo já havia dito em outras Cartas, mas agora escreve da prisão, e faz parte das “cartas do cativeiro

Cristo sendo cabeça e a comunidade um corpo, juntos forma-se uma comunidade indissolúvel, da qual Cristo está no centro, e nada falta a Igreja para levar a diante a missão por Ele confiada:

“Dizer que a Igreja é a 'plenitude' ('pleeroma') de Cristo significa dizer que nela reside a ‘plenitude’, a ‘totalidade’ de Cristo.

Ela é o receptáculo, a habitação, onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse 'corpo' onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o Seu Projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse ‘corpo’, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo ‘seja tudo em todos’ (vers. 23)”. (2)

A Igreja é, portanto, a habitação onde Cristo Se torna presente no mundo, em quem Cristo está presente neste Corpo, Ele enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que Ele “seja tudo em todos” (Ef 1, 23).

A Ressurreição/Ascensão/Glorificação de Jesus garantem a nossa própria ressurreição/glorificação, por isto é preciso avançar no caminho superando as dificuldades.

Na passagem do Evangelho (Mt 28,16-20), encontramos a descrição do encontro final de Jesus com Seus discípulos no monte da Galileia. 

Jesus voltando para o Pai, e ficando para sempre no meio dos Seus discípulos, confia a eles a continuidade da missão. 

Além de reconhecer Jesus como Senhor, a comunidade recebe d’Ele a missão de continuar o Seu Projeto de Libertação da humanidade, no testemunho do Reino por Ele inaugurado.

Deste modo, com a Ascensão, podemos afirmar que Jesus cumpriu plenamente a Sua missão e reentrou na comunhão do Pai, e assim dá início a nossa missão, sentando-Se à direita do Pai para reinar sobre tudo e todos, através da missão dos discípulos.

O Evangelista Mateus, por três momentos significativos, nos fala da montanha:

- A tentação de se atirar do alto monte (Mt 4,8);
- No Monte Tabor, com a Transfiguração (Mt 17,1)
- E finalmente na Sua Ascensão. No Antigo Testamento, de modo especial, monte é sempre o lugar onde Deus se revela às pessoas (Moisés, Elias etc.).

E ainda mais, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a Sua vida; foi onde começou a anunciar o Evangelho do Reino (Mt 4,12-22). É também lá que se recomeça a missão. Onde tudo começou, foi onde tudo recomeçou...

Viver a Boa-Nova anunciada, em confronto com o mundo, pode gerar desilusão, sofrimento e frustração. Mas é exatamente aqui que o discípulo deve dar razão da esperança que possui, testemunho de n’Aquele em quem confia, Jesus, com a força e ação do Espírito Santo Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade que estará conosco até o fim dos tempos.

Esta certeza alimenta a nossa coragem para que testemunhemos o que acreditamos e professamos; o que nos move e nos direciona rumo ao encontro definitivo com Deus, na mais perfeita e plena comunhão de amor, empenhados, por ora, na construção do Reino de amor, vida, alegria, luz e paz.

Portanto, Celebrar a Ascensão de Jesus é:

- Tomar consciência da missão que foi confiada aos discípulos e sentir-se responsável pela presença do “Reino” na vida dos homens;

- Tomar consciência também de que, como Igreja, comunidade dos discípulos de Jesus, somos a presença libertadora e salvadora de Jesus no meio dos homens;

- tomar consciência do quanto Deus em nós confia;

- Rever como procuramos testemunhar o Reino de Deus em todos os âmbitos da vida;

- Assumir a missão que Jesus confiou aos discípulos, uma missão universal: as fronteiras, as raças, a diversidade de culturas, não podem ser obstáculos para a presença de Sua Proposta libertadora no mundo;

- É a Festa do Envio, da continuidade da missão que Jesus nos confia –“Ide pelo mundo e ensinai todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”;

- É a urgência de não ficarmos apenas admirando, mas nos colocarmos constantemente a caminho, com renovados compromissos com o Projeto da Salvação;

- É viver o Batismo, inseridos na mais perfeita comunidade de comunhão e amor, a comunidade Trinitária: Pai, filho e Espírito Santo.

Reflitamos:

- Tenho consciência da universalidade da missão?
- Como discípulo, procuro aprender, assimilar e viver os ensinamentos de Jesus para que a missão tenha crédito e seja uma luz para o mundo?

- A vida dos discípulos não está livre da desilusão, sofrimento, frustração... Mas também está presente uma certeza que alimenta a coragem do que cremos: “Eu estarei convosco até o fim dos tempos”. Tenho esta certeza em meu coração?

- No seguimento de Jesus não podemos nos instalar. Ser cristão é ser pessoa do tempo, sem medo de novidades. Estou instalado, acomodado, de braços cruzados, ou fascinado por Cristo e pela missão a nós confiada?

- Procuro a sabedoria e força do Espírito para corresponder à altura?
- Ser cristão é ser alguém que deixou se levar pelo grande sopro do Espírito; é saber que pode contar com Ele na missão.

- Quais são os medos que temos a enfrentar no desempenhar na missão evangelizadora?
- Sentimos a presença do Ressuscitado em nossa missão?

- Temos sentimentos de gratidão pela confiança de Deus em nós depositada para levar adiante a missão?

Urge levar a humanidade a viver a comunhão querida por Deus, a fim de que todos sejamos um em Cristo Jesus, de modo que celebrar a Solenidade da Ascensão do Senhor é afirmar uma bela verdade de nossa fé, pois a Ascensão do Senhor liga-se necessariamente à Sua Encarnação, e comunica o seu significado autêntico: O Filho de Deus tornou-Se como nós para nos tornar como Ele.

Exultemos de alegria por sermos continuadores da missão que Ele realizou, e a nós confiou, enviando-nos do Pai o Espírito Santo de Deus, o Paráclito, fato que celebraremos com a Festa de Pentecostes. De fato, o Espírito Santo é derramado, como dom de Amor do Pai, para continuarmos, fiéis na Missão do Cristo, na mais profunda e frutuosa vivência do Amor e da Vida Trinitária.

Como pessoas que creem, deixemos de olhar para o céu, não façamos do cristianismo uma “agência de serviços sociais”, não meçamos esforços para encontrar Cristo, tanto na Palavra como na Eucaristia e nos demais Sacramentos, para que então renovados, revigorados, nos empenhemos apaixonadamente por Cristo na construção do Reino de Deus.


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