sexta-feira, 18 de setembro de 2026

“Prepara-te para a tentação”

                                                   

“Prepara-te para a tentação”

Retomemos um trecho do Sermão sobre os pastores, escrito pelo Bispo Santo Agostinho (séc. V), em que exorta a preparação para vencer as tentações ao viver o bom combate da fé.

“Já sabeis o que amam os maus pastores. Vede o que descuidam. ‘Ao enfermo não fortificastes; ao doente não curastes; o machucado’, isto é, fraturado, ‘Não pensastes; ao desgarrado, não reconduzistes; ao que se perdia não fostes procurar e ao forte oprimistes’ (Ez 34,4), matastes, destruístes. A ovelha se enfraquece, quer dizer, tem coração débil, imprudente e desprevenido a ponto de ceder às tentações que sobrevierem.

O pastor negligente, quando alguém se lhe confia, não lhe diz: ‘Filho, vindo para servir a Deus, mantém-te na justiça e prepara-te para a tentação’ (Eclo 2,1). Quem assim fala fortifica o fraco e de fraco faz firme, de modo que, se lhe forem confiados os bens deste mundo, não se fiará neles. Se, contudo, houver aprendido a fiar-se na prosperidade terrena, por esta mesma prosperidade será corrompido; sobrevindo adversidades, ferir-se-á e talvez pereça.

Quem assim edifica não constrói sobre a pedra, mas sobre a areia. ‘A pedra era Cristo’ (1 Cor 10,4). Os cristãos têm de imitar os sofrimentos de Cristo e não, ir atrás de prazeres. O fraco se fortifica, quando lhe dizem: ‘Espera, sim, provações neste mundo, mas de todas elas te livrará o Senhor, se teu coração não voltar atrás. Pois para fortalecer teu coração veio padecer, veio morrer, veio ser coberto de escarros, veio ser coroado de espinhos, veio ouvir insultos, veio ser pregado na cruz. Tudo isso por tua causa, e tu, nada: não para Ele, mas em teu favor’.

Quais são estes que, por temerem ofender os ouvintes, não apenas não os preparam para as inevitáveis provações, mas prometem a felicidade neste mundo, que o Deus deste mundo não prometeu? Ele predisse a este mundo labutas e mais labutas até o fim; e tu queres que o cristão esteja isento a estas labutas? Justamente por ser cristão, sofrerá algo mais neste mundo.

Com efeito, disse o Apóstolo: ‘Todos aqueles que querem viver sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições’ (2 Tm 3,12). Agora, tu pastor insensato, que procuras os teus interesses e não o de Jesus Cristo, deixe que ele diga: ‘Todos aqueles que querem viver sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições’. E por tua conta vai dizendo: ‘Se em Cristo viveres piedosamente, terás abundância de todos os bens. Se não tens filhos, tê-los-á e os criarás, e nenhum morrerá’. É esta tua construção? Olha o que fazes, onde a colocas.

Sobre a areia a constróis. Virá a chuva, o rio transbordará, soprará o vento, baterão contra esta casa; ela cairá e será grande sua ruína.

Tira-a da areia, põe-na sobre a pedra: esteja em Cristo aquele a quem desejas ver cristão. Observe os injustos sofrimentos de Cristo, observe-o sem pecado, pagando o que não devia, observe a Escritura a lhe dizer: ‘O Senhor castiga todo aquele que reconhece como filho’ (Hb 12,6). Ou se prepare para ser castigado, ou não procure ser aceito”.

Para viver o “Bom combate da fé” (1 Tm 6,12), urge estar sempre pronto, em atitude de vigilância, preparados para as tentações, a fim de vencê-las, sem jamais vacilarmos na fé, esmorecermos na esperança e esfriarmos na caridade.

Supliquemos a Deus que nos conceda resistência na tentação, paciência na tribulação e sentimentos de gratidão na prosperidade, vivendo com Ele e para Ele, a quem damos toda a honra, glória, poder e louvor.

Pastores e rebanho, edifiquemos nossa vida sobre a Rocha, a Pedra Fundamental que é Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre, e nada poderá nos abalar.

Deste modo, sejamos iluminados pela Palavra de Deus, nutridos pelo Pão da Eucaristia, testemunhas vivas da evangélica caridade, vivendo, a cada dia, a missão que o Senhor nos confia, como alegres testemunhas como discípulos missionários Seus.

O protagonismo feminino na vida da Igreja

                                            

O protagonismo feminino na vida da Igreja

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 8,1-3), que nos apresenta Jesus andando por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus, acompanhado pelos Doze e algumas mulheres, bem como a solicitude de outras com a ajuda com os bens que possuíam.

Reflitamos sobre a notável presença das mulheres em torno de Cristo, desde o início de sua vida pública:

Assim lemos no Comentário do Missal Cotidiano:

“(Lucas) recolheu em número considerável tradições provenientes do ambiente feminino, também com relação à morte e às aparições do Ressuscitado (Lc 23,49; 24,9-11).

O fato de tais mulheres terem acompanhado Jesus desde o início de seu ministério, exatamente como os Doze (v.2), confere-lhes o título semelhante ao dos apóstolos: também a mulher é participante do anúncio apostólico da mensagem cristã.

A mulher não tem papel meramente passivo no mistério da salvação e é hoje chamada a novos encargos apostólicos, como está ilustrado no Concílio (LG 30; 33 AA9; 32; AG 17; GS 31 e em particular a ‘mensagem das mulheres’” (1)

Retomemos um parágrafo das Conclusões do Sínodo 2021-2024, com o intuito de favorecer a continuidade da reflexão sobre o protagonismo feminino na vida e ação evangelizadora da Igreja:

“Em virtude do Batismo, homens e mulheres gozam de igual dignidade no Povo de Deus. No entanto, as mulheres continuam a encontrar obstáculos para obter um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nos vários sectores da vida da Igreja, em detrimento do serviço à missão comum.

As Escrituras atestam o papel de primeiro plano de muitas mulheres na história da salvação. A uma mulher, Maria de Magdala, foi confiado o primeiro anúncio da Ressurreição; no dia de Pentecostes, Maria, a Mãe de Deus, estava presente no Cenáculo, juntamente com muitas outras mulheres que tinham seguido o Senhor.

É importante que as passagens relevantes da Escritura encontrem lugar apropriado nos lecionários litúrgicos. Alguns momentos cruciais da história da Igreja confirmam o contributo essencial das mulheres movidas pelo Espírito.

As mulheres constituem a maioria daqueles que frequentam as igrejas e são frequentemente as primeiras testemunhas da fé nas famílias. São ativas na vida das pequenas comunidades cristãs e nas paróquias; dirigem escolas, hospitais e centros de acolhimento; lideram iniciativas de reconciliação e de promoção da dignidade humana e da justiça social. As mulheres contribuem para a investigação teológica e estão presentes em posições de responsabilidade nas instituições ligadas à Igreja, na Cúria diocesana e na Cúria Romana.

Há mulheres que exercem cargos de autoridade ou são responsáveis pela comunidade. Esta Assembleia convida a dar plena implementação de todas as oportunidades já previstas no direito vigente relativamente ao papel das mulheres, particularmente nos lugares onde ainda não foram concretizadas.

Não há razões que impeçam as mulheres de assumir funções de liderança na Igreja: não se pode impedir o que vem do Espírito Santo. A questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal também permanece em aberto e é necessário prosseguir o discernimento a este respeito. A Assembleia convida também a prestar maior atenção à linguagem e às imagens utilizadas na pregação, no ensino, na catequese e na redação dos documentos oficiais da Igreja, dando mais espaço ao contributo de mulheres santas, teólogas e místicas.” (2)

Fundamental desde sempre, a participação da mulher do anúncio apostólico da mensagem cristã, e não apenas como papel “meramente passivo no mistério da salvação”.

Lembramos que uma das marcas do Pontificado do Papa Francisco, foi a valorização do protagonismo feminino na Igreja, como podemos ver em suas Mensagens, bem como e em expressivos gestos de nomeação para funções na vida da Igreja.

Há um caminho percorrido, mas há um longo caminho a percorrer, como vemos nas conclusões acima, sempre conduzidos e assistidos pelas luzes do Espírito Santo que anima e ilumina a vida da Igreja.

 

(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p.1289

(2)Por uma Igreja Sinodal – comunhão, participação, missão – Documento final – parágrafo n. 60

A dignidade e a participação das mulheres na família e na sociedade

                                                       

A dignidade e a participação das mulheres na família e na sociedade

À luz dos parágrafos 451-458 da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe – Aparecida – 2007, reflitamos sobre a dignidade e a participação das mulheres na vida da Igreja e na sociedade.

A antropologia cristã ressalta a igual identidade entre homem e mulher, em razão de terem sido criados à imagem e semelhança de Deus, e o Mistério da Trindade nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença.

A sabedoria do plano de Deus exige que favoreçamos o desenvolvimento de sua identidade feminina, em reciprocidade e complementaridade com a identidade do homem.

Neste sentido, é significativa a prática de Jesus, em que ressalta a dignidade da mulher e o seu indiscutível valor. Uma prática fundamental para nosso contexto, marcado pelo machismo que ainda prepondera.

Vejamos algumas passagens dos evangelhos em que retrata a ação de Jesus em relação às mulheres:

- Jesus falou com elas (cf. Jo 4,27);
- teve singular misericórdia com as pecadoras (cf. Lc 7,36- 50; Jo 8,11);
- as curou (cf. Mc 5,25-34);
- reivindicou a dignidade delas (cf. Jo 8,1-11);
- as escolheu como primeiras testemunhas de Sua Ressurreição (cf. Mt 28,9-10);
- foram incorporadas ao grupo de pessoas que lhe eram mais próximas (cf. Lc 8,1-3).

Ressalta-se a figura de Maria, discípula por excelência entre discípulos, fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na Igreja.

O canto do Magnificat (Lc 1,39-56), em especial, mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua realidade, e diante dela ter voz profética.

Sendo a mulher corresponsável, junto com o homem, pelo presente e futuro de nossa sociedade humana, a reciprocidade deve marcar a relação entre estes, numa mútua colaboração, harmonização, complementação e empenho para somar todos os esforços.

É lamentado o fato de que inumeráveis mulheres, de toda condição, não sejam valorizadas em sua dignidade, estejam frequentemente sozinhas e abandonadas, não se reconheçam nelas suficientemente o abnegado sacrifício, inclusive a heroica generosidade no cuidado e educação dos filhos e na transmissão da fé na família.

Também é notável que muito menos se valoriza e não se promove, adequadamente, sua indispensável e peculiar participação na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja.

Some-se a isto que, ao mesmo tempo, sua urgente dignificação e participação são distorcidas por correntes ideológicas marcadas com o selo cultural das sociedades de consumo e do espetáculo, capazes de submeter as mulheres a novas formas de escravidão.

Faz-se necessário a superação da mentalidade machista, que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e se proclama a “igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”, na realidade da América Latina e do Caribe.

Num contexto em que as mulheres constituem, geralmente, a maioria de nossas comunidades, são as primeiras transmissoras da fé e colaboradoras dos pastores, os quais devem atendê-las, valorizá-las e respeitá-las.

Urge, portanto:

- escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas: as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas têm sofrido dupla marginalização;

- que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão;

- valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres, sem que com isto se oponha ao seu desenvolvimento profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o que permite serem fiéis ao plano original de Deus, que dá ao casal humano, de forma conjunta, a missão de melhorar a terra.

Como Igreja é preciso:

- compartilhar, orientar e acompanhar projetos de promoção da mulher com organismos sociais já existentes;

- reconhecer o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas: receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dá-la à luz, sustentá-la, acompanhá-la e desenvolver seu ser mulher, criando espaços habitáveis de comunidade e comunhão;

- reconhecer a vocação materna, que se cumpre através de muitas formas de amor, compreensão e serviço aos demais, pois a dimensão maternal também pode ser expressa na adoção de crianças e a elas oferecendo proteção e lar.

Algumas ações pastorais são propostas:

a) Impulsionar a organização da pastoral de maneira que ajude a descobrir e desenvolver em cada mulher e nos âmbitos eclesiais e sociais o “gênio feminino” e promova o mais amplo protagonismo das mulheres;

b) Garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios, que na Igreja são confiados aos leigos, como também nas instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua contribuição;

c) Acompanhar as associações femininas, que lutam para superar situações difíceis, de vulnerabilidade ou de exclusão;

d) Promover o diálogo com autoridades para a elaboração de programas, leis e políticas públicas, que permitam harmonizar a vida de trabalho da mulher com seus deveres de mãe de família.

Concluindo, embora a mulher seja insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé, não se exclui a necessidade de sua participação ativa na construção da sociedade e, para isto, é necessário propiciar uma formação integral, para que elas possam cumprir sua missão tanto na família como na sociedade.

Em poucas palavras...

                                               


A participação da mulher na ação evangelizadora

“A mulher não tem papel meramente passivo no Mistério da Salvação e é hoje chamada a novos encargos apostólicos, como está ilustrado no Concílio (LG 30;33; AA9;10;32; Ag 17; GS 31 e em particular a ‘mensagem às mulheres’)” (1)

(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – Comentário da passagem do Evangelho (Lc 8,1-3) – pág. 1289

Como é bom trabalhar na Vinha do Senhor! (XXVDTCA)

                                                              

Como é bom trabalhar na Vinha do Senhor!

Com a Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum (ano A), refletimos sobre os pensamentos de Deus, que não são como os pensamentos dos homens, pois segue a lógica da gratuidade e do amor, doação, partilha e serviço, graça sobre todos derramada.

A passagem da primeira Leitura (Is 55,6-9) retrata a volta do Exílio (conhecido como “Livro da Consolação” para os exilados). O Profeta Isaías faz o povo perceber que o tempo do exílio marcado pela angústia e sofrimento também pode se constituir no tempo da abertura, da graça e do amadurecimento.

Voltando terão que retomar o Projeto de Deus, em atitude de conversão e fidelidade ao Senhor e aos Seus Mandamentos.  

Reencontrar com o Senhor implica sempre em abertura, conversão, desejo sincero de mudança e fidelidade.  

Deste modo, conversão é sempre o eterno recomeço e, para tanto, é preciso coragem e confiança. 

Ela é,  por natureza,  um processo inacabado e implica na escuta da Palavra de Deus, acompanhada da reflexão, da oração e da captação da vontade divina, para viver na mais bela, perfeita e desejada sintonia com Ele, na certeza da felicidade.

Jamais ter a pretensão de reduzir Deus aos nossos esquemas, ao contrário, organizar nossa vida segundo os critérios e desígnios divinos, se necessário abrir mão de nossas certezas, eliminando todo preconceitos e autossuficiência. Confiar plenamente na bondade de Deus, trilhar Seu Caminho que conduz a uma história de Salvação e Vida.

Embora alguns séculos nos separem da primeira Leitura, lança luzes para refletirmos sobre a cultura pós-moderna que comete um erro com consequências funestas: o prescindir de Deus. Anuncia-se a morte de Deus, e que Seus valores não permitem ao homem potencializar suas capacidades e ser verdadeiramente feliz. Evidentemente que contestamos tal postura.

A passagem da segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) leva-nos a refletir sobre a centralidade de Cristo em nossa existência. Impressiona-nos o fato de Paulo escrever da prisão, mas com tinta de coragem, fidelidade. Uma carta por natureza afetuosa. Falando de si, exorta a fidelidade de todos ao Evangelho. 

Não escreve de um lugar marcado pela comodidade e suntuosidade. Por isto está escrito em seu túmulo, em Roma: “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1,21).

Nisto consistiu o fundamental para Paulo: compreende a morte, como possibilidade de encontro definitivo com Cristo.

Reflitamos:

- O que significa Cristo para nós?
- Com o que nos consumimos?
- Quais são as causas que abraçamos e pelas quais nos empenhamos?
- O que anunciamos e testemunhamos?

A passagem do Evangelho (Mt 20,1-16a) é um convite de Nosso  Senhor para trabalharmos em Sua Vinha, na construção do Reino. Revela Jesus, com a Parábola, o Amor de Deus pelos últimos, pelos excluídos. 

Revela-nos o rosto e o coração de um Deus que ama a todos sem exceção; tão diferente do Deus dos escribas e fariseus, que muitas vezes se assemelha a um “Deus contabilista” que nos recompensa conforme nossas ações, como se tivesse um lápis na mão para fazer as nossas contas e nos dar o pagamento conforme nossos merecimentos.

A prática de Jesus e a Parábola revelam que todos somos filhos amados do Pai, que por amor assegura-nos o essencial para vivermos.

A nós cabe o imitar a Deus amando na gratuidade! Simplesmente, amar na gratuidade, a mais bela lógica da ação divina que a Parábola nos revela.

No trabalho da Vinha, ou seja, na Comunidade há lugar para todos. Alguns iniciaram mais cedo, até mesmo dentro do ventre materno. Outros um pouco mais tarde sentiram o chamado do Senhor. Outros bem mais tarde, já adultos. Outros ainda não responderam, são os últimos que nos fala a Parábola, aos quais Deus também quer revelar Seu amor e contar como servos de Sua Vinha.

Na Igreja, trabalho é o que não falta. Os desafios clamam por respostas. A messe é grande, mas poucos são os trabalhadores. A Palavra de Jesus tem que ecoar no coração de todos: “Ide vós para a minha Vinha!”

Faltam vocações: há lugares a serem ocupados nos bancos de nossas Igrejas e salas de reuniões; há realidades externas que nos desafiam (universidades, presídios, condomínios, favelas, hospitais, bolsões de miséria e tantos outros lugares...)

As palavras do Papa Bento XVI, no dia de sua eleição (19/4/2005) são oportunas:

“Amados Irmãos e Irmãs, depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na Vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes.”

Deus nos paga não pelos nossos méritos.
Deus nos chama não por nossa capacidade, mas
até mesmo por não termos, para nos capacitar.

Como é bom ser Igreja, 
como é bom servir como Igreja, 
como é bom amar na gratuidade!

A bondade divina ultrapassa a justiça (XXVDTCA)

                                               

A bondade divina ultrapassa a justiça 

Com a Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum (ano A), refletimos sobre a lógica do Reino e as preferências de Deus.

Na passagem da primeira Leitura (Is 55,6-9), o Senhor nos fala pelo Profeta: "Meus pensamentos não são os vossos pensamentos; vossos caminhos não são os meus caminhos".
 

De fato, a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens; às vezes, oposta e inconciliável com ela, embora sempre superior. 

Assim diz o Missal Dominical: 

“Em geral, o que é lucro para o homem, é perda para Deus; e o que para o homem está em primeiro lugar, vem em último lugar para Deus".

A Palavra de Deus e seu juízo comportam uma radical inversão de valores: os primeiros são os últimos (Mt 20,1-16a); felizes são os que choram; os verdadeiros ricos são os que abandonam tudo; quem quer salvar sua vida a perde...
 

A Lei do Reino parece ser o paradoxo, o inédito, o inesperado; Deus escolhe as coisas frágeis e desprezíveis deste mundo para confundir as fortes e bem consideradas. 

Não escolhe o primeiro, mas o último; não o justo, mas o pecador; não o sadio, mas o doente. Faz mais festa pela ovelha perdida e reencontrada do que pelas noventa e nove que estão na segurança do aprisco. 

O Deus cristão é o ‘absolutamente-Outro’, o imprevisível. Nenhuma categoria humana pode "capturá-Lo". Ele escapa a qualquer definição e revela continuamente novos aspectos do Seu Mistério" (1). 

Com Sua ação, Jesus revela, com clareza e insistência, um traço da face de Deus: o Amor pelos empobrecidos, pelos últimos, pelos mais humildes. 

Segundo o Teólogo Joaquim Jeremias, citado por Raniero Cantalamessa, “A Parábola não descreve um ato arbitrário, mas um gesto de uma pessoa cheia de bondade, generosa e de fina sensibilidade para com os pobres. Deus é assim! – quis dizer Jesus; é tão bom que faz participar de Seu Reino também os publicanos e pecadores” (2) 

Muito enriquecedora é também a nota da nova Bíblia Pastoral: 

“A chave de compreensão da Parábola está no v. 4: o dono da vinha decide pagar o que for justo. E a justiça não é definida pelo merecimento, mas pela necessidade que cada trabalhador vive. 

A perturbação e o ciúme provocados por essa ação mostram como a mentalidade e a prática dominantes estão longe dos princípios que regem o Reino e a vida nele. É fundamental comprometer-se, a todo tempo, em realizar na terra a justiça de Deus” (3). 

Temos muito que aprender sobre a lógica de Deus, porque a justiça paga conforme o merecido, mas a bondade olha a necessidade, e Deus tem sempre solícito olhar de compaixão para com as nossas necessidades. 

Que assim seja também nosso olhar, acompanhado desta ação cheia de amor, compaixão, bondade e solidariedade, e então entenderemos o que disse o Profeta: 

"Meus pensamentos não são os vossos pensamentos; vossos caminhos não são os meus caminhos". 

Concluo com esta afirmação do Lecionário Comentado: 

“Abandonemos as nossas perspectivas limitadas, o espírito de lucro, que aplicamos inclusive ao nosso relacionamento com o Senhor, e partilhemos sobretudo a alegria que Deus experimenta ao recompensar os últimos tal como os primeiros. O que conta, e nisto também o nosso coração de via arder, como ardia o coração de Cristo, é que todos entrem a fazer parte do Povo de Deus, herdeiros da Salvação. Por fim, não nos escandalizemos facilmente, não esqueçamos que, chegados entre os primeiros ou entre os últimos, somos todos, do mesmo modo, ‘servos inúteis’ (Lc 17,10).” (4) 

De fato, a lógica do Reino vai na contramão da lógica humana, e só quem ama e se abre à sabedoria Divina poderá compreendê-la e vivê-la. 

 

(1) Missal Dominical - p.806 -Editora Paulus, 1995 - p.806

(2) O Verbo Se faz Carne – Pe. Raniero Cantalamessa - p.187

(3) Bíblia Edição Pastoral – (letra grande) – 2013 - p.1706 

(4) Lecionário Comentado – Tempo Comum – Volume II – p.387

 



“Aquele denário é a vida eterna” (XXVDTCA)

                                              


“Aquele denário é a vida eterna”

Sejamos enriquecidos pelo Sermão de Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja (séc. V), sobre a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 20,1-16a).

“Acabais de escutar a parábola evangélica dos trabalhadores da vinha, que encaixa perfeitamente com a presente estação. Pois agora nos encontramos na época da vindima material. E digo ‘material’, porque existe uma vindima “espiritual”, na qual Deus Se alegra com os frutos de Sua vinha. O Reino dos Céus se assemelha a um proprietário que saiu para contratar trabalhadores para a sua vinha.

E o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa? De fato, lemos em outro texto do Evangelho que o rei dirá àqueles que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai; herdai o Reino que está preparado para vós desde a criação do mundo. Portanto, se todos receberão o denário ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre que primeiro receberão a diária os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Se consigo explicar-me de modo que consigais entendê-lo, louvado seja Deus. Pois a Ele deveis agradecer pelo que vos concede pela minha mão: porque o que vos dou não o dou de minha colheita.

Se perguntas, por exemplo, quem dos dois trabalhadores recebeu o pagamento primeiro: o que recebeu depois de uma hora de trabalho ou aquele que o recebeu depois de uma jornada laboral de doze horas, todos responderão que quem o recebeu ao final de somente uma hora o recebeu antes daquele que o recebeu depois de doze horas. Assim, ainda que todos cobrassem ao mesmo tempo, contudo, como alguns receberam a diária ao final de uma hora e os outros depois de doze horas, diz-se que aqueles a receberam primeiro, posto que a receberam em breve espaço de tempo.

Os primeiros justos como Abel, Noé, que são os chamados na primeira hora, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Posteriormente, outros justos depois deles, tais como Abraão, Isaac, Jacó e seus contemporâneos, chamados ao meio da manhã, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Outros justos: Moisés, Aarão e aqueles que com eles foram chamados ao meio-dia, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Depois deles, os santos profetas, chamados como ao cair da tarde, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Ao final do mundo, todos os cristãos, como os chamados à hora undécima, receberão juntamente com eles a felicidade da ressurreição. Todos a receberão ao mesmo tempo, porém observai após quanto tempo os primeiros a receberão. Portanto, se os primeiros chamados recebem a felicidade depois de tanto tempo, ao passo que nós a recebemos depois de um breve intervalo, mesmo que todos a recebamos simultaneamente, parece como se nós a recebêssemos primeiro, porque nossa recompensa não se fará esperar.

No que se refere à retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denário é a vida eterna, e na vida eterna todos serão iguais. E apesar de que, conforme a diversidade de méritos, brilharão de forma diversa, no que se refere à vida eterna, ela será igual para todos. Não será mais longo para um e mais curto para outros o que em ambos os casos será sempiterno: o que não tem fim, não terá nem para ti nem para mim. Ali brilharão de forma diferente a castidade conjugal e a integridade virginal; um será o fruto das boas obras e a outra a coroa do martírio; porém, no que se refere a viver eternamente, nem este viverá mais que aquele, nem aquele mais do que este. Todos viverão uma vida sem fim, embora cada um com seu brilho e auréola peculiar. E aquele denário é a vida eterna.” (1)

É desejo de Deus que todos alcancemos a vida eterna, e é neste sentido que devemos compreender a parábola da passagem mencionada.

Não importa a hora que fomos chamados (prima, tercia, sexta, nona ou undécima), a bondade e compaixão divinas são para todos, por isto o pagamento de um denário: a vida eterna, e esta é para todos.

Expressemos nossa gratidão a Deus pela graça de termos sido chamados, não importa a hora. É sempre tempo de responder ao chamado de Deus e de nos colocarmos a caminho no seguimento de Jesus, como Discípulos missionários, com a presença e ação do Espírito Santo.

 

(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.219-220

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