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Dom Otacilio F. Lacerda
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
O Banquete Nupcial e a veste própria
O Banquete Nupcial e a veste própria
Ouvimos na Liturgia da quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum, a passagem do Evangelho de São Mateus (Mt 22,1-14).
Jesus se apropria de uma imagem muito bela para nos falar como deve ser o mundo que Deus deseja para nós: a imagem do “Banquete”.
Esta mesma imagem foi fortemente utilizada pelo Profeta Isaías, quando em meio a sinais de morte e desolação, comunicou o desejo de Deus, um horizonte esperançoso e promissor: um Banquete de amor e vida a toda humanidade oferecido. O Profeta, com sua palavra, exorta à confiança e à esperança, numa nova era de paz e de felicidade sem fim, porque Deus vai destruir a morte para sempre e vai enxugar as lágrimas de todas as faces, eliminando assim, o opróbrio que pesa sobre o Seu povo.
Esta feliz imagem de esperança do Banquete perpassará os discursos proféticos e se verá realizada na pessoa e missão de Jesus.
Deus está sempre nos convidando para participarmos de Seu Banquete de: Amor, vida, felicidade, alegria, paz. Mas de outro lado respeita a nossa liberdade, sem nos dispensar da veste nupcial necessária para dele participar: amor, partilha, serviço, misericórdia e o dom da vida.
Precisamos viver a gratuidade, a solidariedade e a partilha com os que mais precisam, procurando nos revitalizarmos da força indispensável que só pode vir de Deus – “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).
Participar do Banquete de Deus implica em estarmos na mais perfeita e profunda comunhão, amizade e intimidade com Ele e com nosso próximo. Como batizados, fomos revestidos por Cristo e, deste modo, somos sinais de comunhão com o outro, para que nossa comunhão com Deus seja credível, agradável e sinal do Banquete Eterno que prefiguramos em cada Eucaristia que celebramos e participamos.
Quanto mais a comunidade vivenciar as exigências mencionadas, mais ela dará espaço para a intervenção divina, abrindo-se à ação da força que o Senhor nos comunica pela ação e presença do Espírito.
Quanto mais o cristão tiver o coração aberto à partilha e ao dom de si mesmo, em atitude de despojamento, de entrega e de empenho, mais poderá sentir a manifestação divina.
Quanto maior a alegria de colaborar na missão, mais comprometido com ela se sente.
Que nossas comunidades sejam mais solícitas, generosas, solidárias e missionárias.
Não há exclusão no Banquete do Reino, mas há uma exigência: a veste; que consiste na prática da justiça, da qual as autoridades do tempo de Jesus estavam desprovidas, tanto que O rejeitaram e O condenaram à morte. Diferentemente, os publicanos, pecadores, prostitutas, os que se encontravam “nas encruzilhadas à beira do caminho” O aceitaram e responderam positivamente ao seu convite, pondo-se num caminho de abertura e conversão à Sua Boa Nova.
Tanto a aceitação do convite do Profeta à conversão como o convite de Jesus, implica em dar prioridade e corresponder à altura do Amor de Deus, em compromissos incansáveis com os valores do Reino.
Com o Batismo se dá o início desta aceitação e compromisso para uma vida em comunidade. Nesta vivência da fé, tanto o batizado como a própria comunidade corre o grande perigo de perder seu entusiasmo inicial, com consequente instalação e acomodação, esvaziando assim as exigências do Evangelho. É preciso eliminar toda autossuficiência e viver em total atitude de humildade, de pobreza e de simplicidade, numa dinâmica de constante conversão, uma vez que a Salvação não é conquista findada.
Reflitamos:
- Tenho aceitado este convite do Senhor?
- Tenho me comprometido com este Banquete?
- Estou devidamente “vestido” para dele participar?
- Deus nos ama apesar e por causa de nossas fraquezas e nos convida para nos assentarmos à mesa com Ele. Qual é a nossa resposta?
Que saibamos dar um alegre SIM a este convite. Por ora, participantes do Banquete da Eucaristia, até que um dia possamos participar do Banquete da Eternidade que o Senhor nos preparou e que só poderemos participar quando a morte irromper no horizonte de nossa existência, mas vencida, rompida, superada, com a fé na Ressurreição que nos garante a imortalidade e eternidade de amor ─ o Céu que tanto falamos, cremos e desejamos. Façamos por merecê-lo!
Oremos:
Ó Deus, Pai Santo, Vós que sois tão misericordioso, que desejais a Salvação do mundo inteiro, convidando para as núpcias do Vosso Filho Amado,
Ó Deus, Pai Santo, Vós que sois tão misericordioso, que desejais a Salvação do mundo inteiro, convidando para as núpcias do Vosso Filho Amado,
Nós vos pedimos, embora sem nenhum mérito, mas com toda confiança, que envieis a cada um de nós e a toda Igreja o Vosso Espírito, para que enriquecidos dos sete dons (sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus), testemunhemos com alegria, esperança e confiança a fé que abraçamos, vivendo com ardor a missão por Vós confiada.
Que sejamos sempre revestidos da veste nupcial, para sermos dignos de participar de Vosso Banquete de Amor, vida, paz, felicidade, até que um dia possamos nos inebriar no Banquete da Eternidade, porque saciados e nutridos pelo Pão e Vinho de imortalidade. Amém!
A veste nupcial da caridade
A veste nupcial da caridade
“Muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14)
Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 22,1-14), na qual Jesus nos fala sobre o convite ao Banquete Nupcial.
Vejamos parte do Sermão do Papa e Doutor da Igreja São Gregório Magno (séc. VI), sobre o que devemos entender por “veste nupcial”, que nos fala a parábola.
“O que significa, irmãos, a veste nupcial? Não podemos dizer que signifique o batismo nem a fé, porque quem pode entrar sem eles nestas bodas?... Portanto, o que devemos entender por veste nupcial, senão a caridade? Entra, pois, nas bodas, mas não leva a veste nupcial, aquele que pertencendo à Igreja Católica tem fé, mas lhe falta a caridade.
Com fundamento se chama caridade a veste nupcial, visto que nosso Criador a teve quando foi para as bodas desposar-Se com a Igreja. De fato, somente o amor de Deus pode fazer que Seu Filho Unigênito una a Si as almas dos eleitos. Por isso diz São João: ‘Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho primogênito’.
Logo, Aquele que veio aos homens por caridade deu a conhecer que a veste nupcial não era outra coisa que a própria caridade. Portanto, todo aquele que recebeu o Batismo e crê em Deus, entrou nas bodas, porém não vai com a veste nupcial se não conserva o dom da caridade...
'Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos’. Terrível é, caríssimos irmãos, o que acabamos de ouvir... É preciso, portanto, que todos nos humilhemos, tanto mais que ignoramos se estaremos entre os escolhidos.
Existem alguns que nunca deram início às boas obras; outros começaram a realizar o bem, mas não persistiram neste caminho. Há quem quase toda a vida foi mau, porém ao final se afasta de seus erros pela dor de uma verdadeira penitência; mas há, pelo contrário, quem parece viver uma vida santa, porém até o fim de seus dias cai no erro da maldade. Outros começam bem e terminam melhores; outros, pelo contrário, desde a sua juventude se precipitam no abismo dos vícios e terminam agindo do mesmo modo, piores cada vez mais.
Tema, por isso, cada um, já que ignora o que lhe resta, pois não deve esquecer: pelo contrário, deve repetir continuamente as Palavras do Evangelho: ‘Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos’” (1)
A participação no Banquete Eucarístico exige de nós esta “veste nupcial da caridade”. Por isso, é sempre oportuno revermos de que modo vivemos o essencial da fé cristã, o Mandamento do amor a Deus ao próximo, sendo que o amor a Deus está em primeiro lugar na ordem dos preceitos, e o amor ao próximo na ordem da execução, como lembra-nos o Bispo e Doutor Santo Agostinho (séc. V).
Oremos:
“Pai Santo, que convidais o mundo inteiro para as núpcias do Vosso Filho, concedei-nos a sabedoria do Vosso Espírito, para que possamos testemunhar qual é a esperança do nosso chamamento, e que nenhum homem recuse o Banquete da Vida Eterna ou a entrar nele sem a veste nupcial” (2)
(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – p.232
PS: Aprofundando ainda mais a nossa reflexão, sugiro que retomemos o Hino da Caridade do Apóstolo Paulo aos Coríntios (1 Cor 13).
Consolidemos nossa vocação com a graça divina
Consolidemos nossa vocação com a graça divina
O mês de agosto é especialmente dedicado, pela Igreja, à reflexão sobre a graça da vocação a qual cada pessoa é chamada.
Vivendo a vocação como chamado de Deus e resposta nossa, é oportuna e inspiradora a afirmação de Santo Ambrósio (séc. IV), Bispo e Doutor da Igreja: “Do corpo de Deus brotou para mim uma fonte eterna; Cristo bebeu minhas amarguras para dar-me a suavidade de Sua graça”.
Quando somos envolvidos e enriquecidos pela suavidade da graça divina, temos a força necessária para a consolidação de nossa vocação e eleição, vivendo nosso batismo como autênticos discípulos missionários do Senhor.
Deste modo, a suavidade da graça divina nos acompanha para continuarmos a inquietante busca de caminhos para uma ação evangelizadora.
Esta mesma graça é abundantemente derramada em diversos acontecimentos, atividades pastorais, movimentos, comprometimentos sociais e políticos a fim da construção do Reino, a fim de edificarmos uma sociedade mais justa e fraterna.
Urge criatividade e ardor na evangelização, acompanhado sobre a reflexão da vocação que Deus nos concede, para vivê-la em todos os âmbitos, dentro e fora da Igreja, reavivando as chamas da fé, do amor e da esperança, renovando a alegria de nos colocarmos a serviço da vida plena e feliz para todos.
E ainda, para o revigoramento de nossa vocação, ressoem as Palavras do Apóstolo Pedro: “… Procurai com mais diligência consolidar a vossa vocação e eleição, pois, agindo desse modo, não tropeçareis jamais; antes, assim é que vos será outorgada generosa entrada no Reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pd 1,11), “ como pedras vivas e escolhidas de Deus” (1Pd 2,1-3).
Envolvidos pela suavidade da graça divina, que nos é derramada abundantemente, é, mais do que nunca, ocasião favorável para consolidação de nossa fé, vocação e eleição, renovando sagrados compromissos com o Reino de Deus, com o ardor,zelo e a alegria.
Tendo o Senhor “bebido nossas amarguras”, e nos comunicado, em cada instante, a suavidade de Sua graça, consolidaremos nossa vocação e eleição; tão somente assim, Ele verá Sua face resplandecendo em cada um de nós, que aceitou o Seu chamado, e prontamente respondeu, deste modo, enfrentaremos e venceremos os momentos difíceis em diversos campos (econômico, político, social), que estamos vivendo.
Em poucas palavras...
“É Cristo, com efeito, que, por Si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa Redenção; Ele é ao mesmo tempo Sacerdote e Sacrifício, Templo e Deus.
Sacerdote, por quem somos reconciliados; Sacrifício, pelo qual somos reconciliados; Templo, onde somos reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só Ele é o Sacerdote, o Sacrifício e o Templo, enquanto Deus na condição de Servo; mas na Sua condição divina, Ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.” (1)
(1)Tratado sobre a fé de Pedro, do Bispo São Fulgêncio de Ruspe, século IV.
“Amo porque amo, amo para amar”
“Amo porque amo, amo para amar”
Sejamos enriquecidos pelo Sermão escrito pelo Abade e Doutor, São Bernardo de Claraval, (séc. XII), sobre o “Cântico dos Cânticos”:
“O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio.
Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar!
Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu Princípio, volte à sua Origem, mergulhe em sua Fonte, sempre beba donde corre sem cessar.
De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto.
Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque sabe que serão felizes pelo amor aqueles que O amarem. O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada responder ao Amor!
Por que a esposa - e esposa do Amor – não deveria amar? Por que não seria amado o Amor? É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro?
Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles mesma diferença que entre o sedento e a fonte.
E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade?
Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo”.
Reflitamos sobre a motivação do próprio viver; das pequenas e grandes coisas que fazemos.
Quantas coisas fazemos por motivações, às vezes ocultas, às vezes até mesmo indizíveis...
Reflitamos:
- Nosso agir tem como causa primeira o amor?
E, após cada gesto de doação e serviço, movidos pelo amor, digamos:
“Amo porque amo, amo para amar”.
A saudação angélica
A saudação angélica
Sejamos enriquecidos pelo Tratado sobre a Saudação angélica escrita pelo Bispo São Balduíno de Cantuária (séc. XII).
“À saudação angélica com que todos os dias, segundo a devoção de cada um, saudamos a santíssima Virgem, costumamos acrescentar: E bendito o fruto de vosso ventre.
Após ter sido saudada pela Virgem, Isabel, como a retomar o final da saudação do anjo, acrescentou estas expressões: Bendita sois entre as mulheres e bendito o fruto de vosso ventre (Lc 1,42).
É este o fruto de que fala Isaías: Naquele dia será o germe do Senhor em magnificência e glória e o fruto da terra, sublime (Is 4,2).
Quem é este fruto senão o Santo de Israel, a semente de Abraão, o germe do Senhor, a flor que se eleva da raiz de Jessé, o fruto da vida com quem entramos em comunhão?
Bendito, sim, na semente, bendito no germe, bendito na flor, bendito no dom, bendito, enfim, na ação de graças e no louvor. Cristo, semente de Abraão, feito da semente de Davi segundo a carne.
Só Ele, dentre os homens, se encontrou perfeito em todo o bem, só a Ele foi dado sem medida o Espírito, Ele, o único a poder cumprir toda a justiça. Sua justiça basta à totalidade das nações, como está escrito: Como a terra produz seu germe e o jardim germina sua semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e o louvor diante de todas as nações (Is 61,11).
É este o germe da justiça que, desabrochado pela bênção, a flor da glória adorna. Que glória? Aquela que é impossível imaginar-se mais sublime, ou antes, que de modo algum se pode imaginar.
A flor elevou-se da raiz de Jessé. Até aonde? Até ao máximo, porque Jesus Cristo está na glória de Deus Pai (cf. Fl 2,11). Elevou-se sua magnificência para além dos céus, de modo a ser o germe do Senhor em magnificência e em glória, e o fruto da terra, sublime.
E para nós, quem é o fruto deste fruto? Quem, a não ser o fruto da bênção oriundo do fruto bendito? D’Ele, como semente, germe, flor, provém o fruto da bênção; e chega até nós. Primeiro, como em semente pela graça do perdão, depois como em germe pelo aumento da justiça, e por fim como em flor pela esperança ou pose da glória.
Bendito por Deus e em Deus, isto é, para que Deus seja glorificado n’Ele. Para nós também é bendito para que, benditos por Ele, n’Ele sejamos glorificados, já que pela promessa feita a Abraão, Deus O fez a bênção de todos os povos”.
Amemos o “bendito fruto do ventre de Maria”, Jesus, e a Ele, demos toda honra, glória, poder e louvor por todos os séculos.
Amemos e adoremos o “bendito fruto do ventre de Maria”, Jesus, e com Ele, firmemos nossos passos no discipulado, como Igreja missionária, rompendo as fronteiras.
Amemos, adoremos e anunciemos o “bendito fruto do ventre de Maria”, em todo o tempo e em todo lugar, como Igreja, vivendo a cultura da misericórdia em plena fidelidade ao que Ele viveu e nos ensinou.
Amemos, adoremos, anunciemos e testemunhemos o “bendito fruto do ventre de Maria”, a Verdadeira Videira do Pai, n’Ele unidos para frutos de amor, justiça, vida e paz abundantemente produzir, nutridos pela Seiva do Amor de Seu Espírito. Amém.
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