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Dom Otacilio F. Lacerda
domingo, 20 de setembro de 2026
sábado, 19 de setembro de 2026
Naveguemos pelo oceano de incertezas
Naveguemos pelo oceano de incertezas
“Coragem, sou Eu. Não tenhais medo!” (Mt
14,27)
Do alto da montanha, olho para a imensidão do mar e me pergunto
sobre o que é viver.
Algumas respostas vêm de um grande antropólogo que recentemente
nos deixou, Edgar Morin:
- “Por mais que acreditemos armados de certezas e programas,
precisamos aprender que toda vida é um navegar num oceano de incertezas,
atravessando algumas ilhas ou arquipélagos de certezas, onde nos
reabastecemos.” (1)
- “A certeza e o inesperado precisam ser integrados na História
humana. Nela, o imprevisto não passa de acaso, é também, como a revolução para
Marx, a ‘velha toupeira que trabalha debaixo da terra para aparecer de
repente’. A surpresa do inesperado não deve ser anestesiada. Ao contrário, deve
nos estimular a compreendê-lo, pensá-lo e, sem poder prevê-lo, pelo menos
esperá-lo” (2)
“- As grandes venturas só têm um tempo. Sua lembrança não me
enche apenas de saudade, mas também de uma doce e triste alegria.” (3)
- “Em primeiro lugar, quero indicar que o risco do erro e da
ilusão é permanente em toda a vida humana, pessoal, social, histórica, em toda
decisão e ação e mesmo em toda abstenção, podendo conduzir a desastres.” (4)
E, por fim, a instigante afirmação de Rita Levi-Montalcini,
Prêmio Nobel de Medicina:
“ Dê vida a seus dias, em vez de dar dias à sua vida.” (5)
Erros, ilusões, o impensável inesperado, certezas, incertezas,
pequenas ou grandes venturas marcadas como selo na memória e no coração...
O mar, o vento, as ondas, as tempestades... Travessias para a
outra margem consiste todo o viver...
Viver com intensidade e paixão pela vida, dando vida a cada dia,
a cada momento, a cada instante.
Não sucumbir nem ao medo nem ao cansaço, tampouco recolher-se em
amedrontada solidão do que possa devorar vorazmente a própria existência.
Descer a montanha, navegar no mar das incertezas, porque Deus,
em sua infinita bondade, concede-nos, de fato, “ilhas e arquipélagos de
certezas onde nos abastecemos”; e para quem crê, a Eucaristia é, por excelência,
uma delas.
Deus Onipotente e misericordioso fez-se presente em nossa travessia,
por meio do Seu Filho, e nos comunica o sopro suave do Seu Espírito, e que hoje
arde em nossos corações como chama eterna de Amor. Amém.
(1) Lições de um século de vida - Edgar Morin –
Bertrand Brasil – p.33
(2) Idem – p.36
(3) P.42
(4) P.91
(5) P.37
Em poucas palavras... (XXVDTCA)
Deus nos cumula de bens e graças
“Deus já
nos “pagou o salário” antes mesmo de começarmos a trabalhar em sua vinha.
Ele já ‘investiu’
pesado em cada um de nós, dotando-nos de recursos, capacidades, inteligência,
criatividade...” (1)
(1)Reflexão sobre a passagem do Evangelho (Mt 20,1-16a) - Pe Adroaldo Palaoro -
SJ
Como é bom trabalhar na Vinha do Senhor! (XXVDTCA)
Reencontrar com o Senhor implica sempre em abertura, conversão, desejo sincero de mudança e fidelidade.
Não escreve de um lugar marcado pela comodidade e suntuosidade. Por isto está escrito em seu túmulo, em Roma: “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1,21).
Nisto consistiu o fundamental para Paulo: compreende a morte, como possibilidade de encontro definitivo com Cristo.
Reflitamos:
Revela-nos o rosto e o coração de um Deus que ama a todos sem exceção; tão diferente do Deus dos escribas e fariseus, que muitas vezes se assemelha a um “Deus contabilista” que nos recompensa conforme nossas ações, como se tivesse um lápis na mão para fazer as nossas contas e nos dar o pagamento conforme nossos merecimentos.
A nós cabe o imitar a Deus amando na gratuidade! Simplesmente, amar na gratuidade, a mais bela lógica da ação divina que a Parábola nos revela.
Faltam vocações: há lugares a serem ocupados nos bancos de nossas Igrejas e salas de reuniões; há realidades externas que nos desafiam (universidades, presídios, condomínios, favelas, hospitais, bolsões de miséria e tantos outros lugares...)
Deus nos paga não pelos nossos méritos.
A bondade divina ultrapassa a justiça (XXVDTCA)
A bondade divina ultrapassa a justiça
Com a Liturgia do 25º
Domingo do Tempo Comum (ano A), refletimos sobre a lógica do Reino e as
preferências de Deus.
Na passagem da primeira Leitura (Is 55,6-9), o Senhor nos fala pelo
Profeta: "Meus pensamentos não
são os vossos pensamentos; vossos caminhos não são os meus caminhos".
De fato, a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens; às vezes, oposta e inconciliável com ela, embora sempre superior.
Assim diz o Missal Dominical:
“Em
geral, o que é lucro para o homem, é perda para Deus; e o que para o homem está
em primeiro lugar, vem em último lugar para Deus".
A Palavra de Deus e seu juízo comportam uma radical inversão de
valores: os primeiros são os últimos (Mt 20,1-16a); felizes são os que
choram; os verdadeiros ricos são os que abandonam tudo; quem quer salvar sua
vida a perde...
A Lei do Reino parece ser o paradoxo, o inédito, o inesperado; Deus escolhe as coisas frágeis e desprezíveis deste mundo para confundir as fortes e bem consideradas.
Não escolhe o primeiro, mas o último; não o justo, mas o pecador; não o sadio, mas o doente. Faz mais festa pela ovelha perdida e reencontrada do que pelas noventa e nove que estão na segurança do aprisco.
O Deus cristão é o ‘absolutamente-Outro’, o imprevisível. Nenhuma categoria humana pode "capturá-Lo". Ele escapa a qualquer definição e revela continuamente novos aspectos do Seu Mistério" (1).
Com Sua ação, Jesus revela, com clareza e insistência, um traço da face de Deus: o Amor pelos empobrecidos, pelos últimos, pelos mais humildes.
Segundo o Teólogo Joaquim Jeremias, citado por Raniero Cantalamessa, “A Parábola não descreve um ato arbitrário, mas um gesto de uma pessoa cheia de bondade, generosa e de fina sensibilidade para com os pobres. Deus é assim! – quis dizer Jesus; é tão bom que faz participar de Seu Reino também os publicanos e pecadores” (2)
Muito enriquecedora é também a nota da nova Bíblia Pastoral:
“A chave de compreensão da Parábola está no v. 4: o dono da vinha decide pagar o que for justo. E a justiça não é definida pelo merecimento, mas pela necessidade que cada trabalhador vive.
A perturbação e o ciúme provocados por essa ação mostram como a mentalidade e a prática dominantes estão longe dos princípios que regem o Reino e a vida nele. É fundamental comprometer-se, a todo tempo, em realizar na terra a justiça de Deus” (3).
Temos muito que aprender sobre a lógica de Deus, porque a justiça paga conforme o merecido, mas a bondade olha a necessidade, e Deus tem sempre solícito olhar de compaixão para com as nossas necessidades.
Que assim seja também nosso olhar, acompanhado desta ação cheia de amor, compaixão, bondade e solidariedade, e então entenderemos o que disse o Profeta:
"Meus pensamentos não são os vossos pensamentos; vossos caminhos não são os meus caminhos".
Concluo com esta afirmação do Lecionário Comentado:
“Abandonemos as nossas perspectivas limitadas, o espírito de lucro, que aplicamos inclusive ao nosso relacionamento com o Senhor, e partilhemos sobretudo a alegria que Deus experimenta ao recompensar os últimos tal como os primeiros. O que conta, e nisto também o nosso coração de via arder, como ardia o coração de Cristo, é que todos entrem a fazer parte do Povo de Deus, herdeiros da Salvação. Por fim, não nos escandalizemos facilmente, não esqueçamos que, chegados entre os primeiros ou entre os últimos, somos todos, do mesmo modo, ‘servos inúteis’ (Lc 17,10).” (4)
De fato, a lógica do Reino vai na contramão da lógica humana, e só quem ama e se abre à sabedoria Divina poderá compreendê-la e vivê-la.
(1) Missal
Dominical - p.806
-Editora Paulus, 1995 - p.806
(2) O Verbo Se
faz Carne – Pe. Raniero Cantalamessa - p.187
(3) Bíblia Edição Pastoral – (letra grande) – 2013 - p.1706
(4) Lecionário Comentado – Tempo Comum – Volume II – p.387
“Aquele denário é a vida eterna” (XXVDTCA)
“Aquele denário é a vida eterna”
Sejamos enriquecidos pelo Sermão de Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja (séc. V), sobre a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 20,1-16a).
“Acabais de escutar a parábola evangélica dos trabalhadores da vinha, que encaixa perfeitamente com a presente estação. Pois agora nos encontramos na época da vindima material. E digo ‘material’, porque existe uma vindima “espiritual”, na qual Deus Se alegra com os frutos de Sua vinha. O Reino dos Céus se assemelha a um proprietário que saiu para contratar trabalhadores para a sua vinha.
E o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa? De fato, lemos em outro texto do Evangelho que o rei dirá àqueles que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai; herdai o Reino que está preparado para vós desde a criação do mundo. Portanto, se todos receberão o denário ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre que primeiro receberão a diária os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Se consigo explicar-me de modo que consigais entendê-lo, louvado seja Deus. Pois a Ele deveis agradecer pelo que vos concede pela minha mão: porque o que vos dou não o dou de minha colheita.
Se perguntas, por exemplo, quem dos dois trabalhadores recebeu o pagamento primeiro: o que recebeu depois de uma hora de trabalho ou aquele que o recebeu depois de uma jornada laboral de doze horas, todos responderão que quem o recebeu ao final de somente uma hora o recebeu antes daquele que o recebeu depois de doze horas. Assim, ainda que todos cobrassem ao mesmo tempo, contudo, como alguns receberam a diária ao final de uma hora e os outros depois de doze horas, diz-se que aqueles a receberam primeiro, posto que a receberam em breve espaço de tempo.
Os primeiros justos como Abel, Noé, que são os chamados na primeira hora, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Posteriormente, outros justos depois deles, tais como Abraão, Isaac, Jacó e seus contemporâneos, chamados ao meio da manhã, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Outros justos: Moisés, Aarão e aqueles que com eles foram chamados ao meio-dia, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Depois deles, os santos profetas, chamados como ao cair da tarde, receberão ao mesmo tempo que nós a felicidade da ressurreição. Ao final do mundo, todos os cristãos, como os chamados à hora undécima, receberão juntamente com eles a felicidade da ressurreição. Todos a receberão ao mesmo tempo, porém observai após quanto tempo os primeiros a receberão. Portanto, se os primeiros chamados recebem a felicidade depois de tanto tempo, ao passo que nós a recebemos depois de um breve intervalo, mesmo que todos a recebamos simultaneamente, parece como se nós a recebêssemos primeiro, porque nossa recompensa não se fará esperar.
No que se refere à retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denário é a vida eterna, e na vida eterna todos serão iguais. E apesar de que, conforme a diversidade de méritos, brilharão de forma diversa, no que se refere à vida eterna, ela será igual para todos. Não será mais longo para um e mais curto para outros o que em ambos os casos será sempiterno: o que não tem fim, não terá nem para ti nem para mim. Ali brilharão de forma diferente a castidade conjugal e a integridade virginal; um será o fruto das boas obras e a outra a coroa do martírio; porém, no que se refere a viver eternamente, nem este viverá mais que aquele, nem aquele mais do que este. Todos viverão uma vida sem fim, embora cada um com seu brilho e auréola peculiar. E aquele denário é a vida eterna.” (1)
É desejo de Deus que todos alcancemos a vida eterna, e é neste sentido que devemos compreender a parábola da passagem mencionada.
Não importa a hora que fomos chamados (prima, tercia, sexta, nona ou undécima), a bondade e compaixão divinas são para todos, por isto o pagamento de um denário: a vida eterna, e esta é para todos.
Expressemos nossa gratidão a Deus pela graça de termos sido chamados, não importa a hora. É sempre tempo de responder ao chamado de Deus e de nos colocarmos a caminho no seguimento de Jesus, como Discípulos missionários, com a presença e ação do Espírito Santo.
(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.219-220
A inveja nos fragiliza (XXVDTCA)
A inveja nos fragiliza
Na quinta-feira da segunda semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Primeiro Livro de Samuel (1 Sm 18,6-9;19-17, em que Saul procura matar Davi, depois deste ter vencido Golias, como ouvimos na passagem do mesmo Livro (1 Sm17,32-33.37.40-51).
Assim lemos no Comentário do Missal Cotidiano:
“O ciúme por alguém (Davi) que ele (Salomão) considerava melhor e mais aceito por Deus e pelo povo bloqueou-o nos seus sentimentos mais profundos de admiração e afeto.
História de ontem e de hoje. História que se repete desde que Cristo foi entregue por inveja. Uma paixão que é obra do maligno: discórdia entre aqueles que trabalham pelo Reino de Deus” (1)
Voltemo-nos para a passagem do Livro da Sabedoria, que nos fala sobre a inveja:
“A inveja pode levar às piores ações. ‘É pela inveja do demônio que a morte entrou no mundo’ (Sb 2, 24).
Também o Apóstolo Tiago em sua Epístola (Tg 3,16-4,3) nos apresenta alguns problemas que maculam a comunidade: inveja, rivalidade, desordem de toda espécie de más ações, a desordem das paixões dentro de cada pessoa, e por fim a cobiça.
Aprofundemos sobre a inveja, à luz do que nos diz o Catecismo da Igreja Católica:
“A inveja pode levar às piores ações (Gn 4,3-8). É pela inveja do demônio que a morte entrou no mundo:
‘Nós nos combatemos mutuamente, e é a inveja que nos arma uns contra os outros... Se todos procuram por todos os meios abalar o Corpo de Cristo, onde acabaremos? Nós estamos enfraquecendo o Corpo de Cristo... Declaramo-nos membros de um mesmo organismo e nos devoramos como feras’ (São João Crisóstomo).
A inveja é um vício capital. Designa a tristeza sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua apropriação, mesmo indevida. Quando deseja um grave mal ao próximo, é um pecado mortal:
Santo Agostinho via na inveja ‘o pecado diabólico por excelência’.
‘Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade’ (São Gregório Magno).
A inveja representa uma das formas da tristeza e, portanto, uma recusa da caridade; o batizado lutará contra ela, mediante a benevolência. A inveja provém muitas vezes do orgulho; o batizado se exercitará no caminho da humildade:
‘Quereríeis ver Deus glorificado por vós? Pois bem, alegrai-vos com os progressos do vosso irmão e imediatamente Deus será glorificado por vós. Deus será louvado, dirão, porque seu servo soube vencer a inveja, colocando a sua alegria nos méritos dos outros’(São João Crisóstomo”. (2)
Sim, verdadeiramente, a inveja é um dos sete pecados capitais que muito destrói a comunidade, a família ou qualquer outro espaço de convivência e relacionamento.
Urge nos colocarmos em atitude de conversão, banindo quaisquer sentimentos de inveja que possam tomar conta de nossa mente e coração, criando suas perigosas raízes.
Para vencermos este pecado, peçamos a Deus o dom da fortaleza, a fim de gastarmos nossas forças no desenvolvimento das capacidades que nos foram dadas pela graça divina.
Não devemos invejar ninguém, pois cada pessoa tem seus dons, qualidades, capacidades.
Importa que cada um desenvolva as aptidões que possui, e as coloque generosamente a serviço do outro, em todos os âmbitos, mas sobretudo nos espaços de nossas famílias e comunidades.
Sentimento de inveja nutrido, traz enfraquecimento e empobrecimento. De outro lado, uma vez continuamente vencido, nos faz mais fortes e agradecidos a Deus pelos bens e graças que Ele nos oferece, e desenvolvemos nossos dons e capacidades, colocando-nos com alegria a serviço do bem do outro.
(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – pág. 663
(2) Catecismo da Igreja Católica – parágrafos - 2538-2540
Apropriado para o 25º Domingo do Tempo Comum - ano A e B.







