sexta-feira, 20 de setembro de 2019

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A dignidade e a participação das mulheres na família e na sociedade


A dignidade e a participação das mulheres na família e na sociedade

À luz dos parágrafos 451-458 da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe – Aparecida – 2007, reflitamos sobre a dignidade e a participação das mulheres na vida da Igreja e na sociedade.

A antropologia cristã ressalta a igual identidade entre homem e mulher, em razão de terem sido criados à imagem e semelhança de Deus, e o Mistério da Trindade nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença.

A sabedoria do plano de Deus exige que favoreçamos o desenvolvimento de sua identidade feminina, em reciprocidade e complementaridade com a identidade do homem.

Neste sentido, é significativa a prática de Jesus, em que ressalta a dignidade da mulher e o seu indiscutível valor. Uma prática fundamental para nosso contexto, marcado pelo machismo que ainda prepondera.

- Jesus falou com elas (cf. Jo 4,27);
- teve singular misericórdia com as pecadoras (cf. Lc 7,36- 50; Jo 8,11);
- as curou (cf. Mc 5,25-34);
- reivindicou a dignidade delas (cf. Jo 8,1-11);
- as escolheu como primeiras testemunhas de Sua Ressurreição (cf. Mt 28,9-10);
- foram incorporadas ao grupo de pessoas que lhe eram mais próximas (cf. Lc 8,1-3).

Ressalta-se a figura de Maria, discípula por excelência entre discípulos, fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na Igreja.

O canto do Magnificat, em especial, mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua realidade, e diante dela ter voz profética.

Sendo a mulher corresponsável, junto com o homem, pelo presente e futuro de nossa sociedade humana, a reciprocidade deve marcar a relação entre aos mesmos, numa mútua colaboração, harmonização, complementação e empenho para somar todos os esforços.

É lamentado o fato de que inumeráveis mulheres, de toda condição, não sejam valorizadas em sua dignidade, estejam frequentemente sozinhas e abandonadas, não se reconheçam nelas suficientemente o abnegado sacrifício, inclusive a heroica generosidade no cuidado e educação dos filhos e na transmissão da fé na família.

Também é notável que muito menos se valoriza e não se promove, adequadamente, sua indispensável e peculiar participação na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja.

Some-se a isto que, ao mesmo tempo, sua urgente dignificação e participação são distorcidas por correntes ideológicas marcadas com o selo cultural das sociedades de consumo e do espetáculo, capazes de submeter as mulheres a novas formas de escravidão.

Faz-se necessário a superação da mentalidade machista, que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e se proclama a “igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”, na realidade da América Latina e do Caribe.

Num contexto em que as mulheres constituem, geralmente, a maioria de nossas comunidades, são as primeiras transmissoras da fé e colaboradoras dos pastores, os quais devem atendê-las, valorizá-las e respeitá-las, urge:

- escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas: as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas têm sofrido dupla marginalização;

- que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão.

- valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres, sem que com isto se oponha ao seu desenvolvimento profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o que permite serem fiéis ao plano original de Deus, que dá ao casal humano, de forma conjunta, a missão de melhorar a terra.

Como Igreja é preciso:

- compartilhar, orientar e acompanhar projetos de promoção da mulher com organismos sociais já existentes;

- reconhecer o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas: receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dá-la à luz, sustentá-la, acompanhá-la e desenvolver seu ser mulher, criando espaços habitáveis de comunidade e comunhão.

- reconhecer a vocação materna, que se cumpre através de muitas formas de amor, compreensão e serviço aos demais, pois a dimensão maternal também pode ser expressa na adoção de crianças e a elas oferecendo proteção e lar.

Algumas ações pastorais são propostas:

a) Impulsionar a organização da pastoral de maneira que ajude a descobrir e desenvolver em cada mulher e nos âmbitos eclesiais e sociais o “gênio feminino” e promova o mais amplo protagonismo das mulheres;

b) Garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios, que na Igreja são confiados aos leigos, como também nas instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua contribuição;

c) Acompanhar as associações femininas, que lutam para superar situações difíceis, de vulnerabilidade ou de exclusão;

d) Promover o diálogo com autoridades para a elaboração de programas, leis e políticas públicas, que permitam harmonizar a vida de trabalho da mulher com seus deveres de mãe de família.

Concluindo, embora a mulher seja insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé, não se exclui a necessidade de sua participação ativa na construção da sociedade e, para isto, é necessário propiciar uma formação integral, para que elas possam cumprir sua missão tanto na família como na sociedade.

“Quero a misericórdia e não o sacrifício”

“Quero a misericórdia e não o sacrifício”

Celebraremos dia 21 de setembro a Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, e ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 9,9-13).

Vemos quão misericordioso é o nosso Deus, quando assim Se expressa o Senhor:

– “Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (v. 13).

Vejamos o que nos diz o Comentário do Missal quotidiano:

Deus foi sempre o grande incompreendido por parte dos homens. Incompreendido em Seu agir, em Suas intervenções, incompreendido em Seu silêncio, incompreendido em Suas exigências e em Sua lei.

Mas a incompreensão maior e mais estranha refere-se à Sua misericórdia. É a incompreensão de quem não crê na misericórdia de Deus, de quem tem medo d’Ele, de quem treme ao pensar em comparecer à Sua presença, e foge do mal unicamente para evitar os Seus castigos...”.

Quem poderá compreender o Coração de Deus?
Quem souber viver a misericórdia para com o próximo, na sincera e frutuosa prática da acolhida, do perdão, da superação.

Quem souber saborear a mais bela e pura alegria que nasce do perdão dado e recebido.

Quem não crer que o ódio, o rancor, o ressentimento fossilizarão nas entranhas mais profundas do coração.

Quem souber transformar o coração de pedra num coração de carne, terno e manso, para que nele Deus possa frutuosa e ricamente fazer Sua morada.

Quem não crer que a obscuridade ao outro deva ser para sempre imposta pelo seu erro, tropeço, falha.

Quem souber compreender na exata medida o erro cometido, sem nada acrescentar, e ter também a maturidade de se colocar no lugar do outro, porque todos passíveis de erros o somos.

Quem do Senhor Jesus mesmos sentimentos, pensamentos e ações tiver. Quem como Ele agir. Quem souber gerar e formar Cristo em Si e no outro, no amor que renova, recria, reencanta, refaz, reconduz...

Quem poderá compreender o Coração de Deus?

Ó incompreendido Amor de Deus que questiona o amor humano, tão pequeno, quantificável, porque limitado, medido, calculado, com parcimônia por vezes comunicado.

Ó incompreendido Amor de Deus, que o nosso assim também o seja. Amor não é para ser compreendido, amor é para amar, simplesmente; sem teorias, explicações, racionalizações. Amor de Cruz, que ama, acolhe, perdoa, renova, faz renascer e rompe a barreira do aparentemente impossível.

O Amor vivido no extremo da Cruz, foi, é e será para sempre o verdadeiro Amor. Tão incompreendido, mas tão necessário e desafiador para a humanidade em todo tempo.

Amor que, se vivido, nos credencia para a eternidade de Deus, que é a vivência e mergulho na plenitude de Seu amor, luz, alegria e paz. Amém.


A Misericórdia Divina nos aperfeiçoa

A Misericórdia Divina nos aperfeiçoa

"Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na
coletoria de impostos, e disse-lhe: ‘Segue-me!’
Ele se levantou e seguiu a Jesus"

Senhor, suplicamos com plena confiança, ainda que não mereçamos, que não apenas O reconheçamos, mas O anunciemos e testemunhemos como Aquele que é manso e humilde de coração, infinitamente misericordioso, e que viestes trazer salvação para todos os povos. 

Ajudai-nos a ter a mesma mansidão e humildade de coração nos relacionamentos quotidianos, de modo especial com aqueles que mais precisam, para que seja autêntica nossa vida de fé, numa sadia esperança, porque acompanhada de gestos concretos de caridade.

Dai-nos sabedoria para que nossas palavras e ações não sejam proibitivas, com o amargo gosto das rotulações e execração dos erros e pecados do outro, condenando o pecado e o pecador, simultaneamente.

Senhor, agradecemos porque nos chamastes não pelos nossos méritos, santidade e perfeição já alcançadas, mas para nos santificar, num itinerário permanente, e com saltos qualitativos no discipulado e em todos os âmbitos da existência.


PS: Uma súplica à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 9, 9-13)

Da primavera provisória à eterna Primavera de Deus

Da primavera provisória à eterna Primavera de Deus


“Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra,
nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis
acordarão as cores e os perfumes e a alegria
de nascer, no espírito das flores” –
 Cecília Meireles

Com as poetizas, nossos ouvidos ficam mais sensíveis aos sons que não ouvimos, às conversas que jamais imaginaríamos.

Com as inesquecíveis poetizas, nosso olfato ganha maior capacidade de captação, assim como nossos olhos conseguem ver um pouco mais longe ou mesmo enxergar os pequenos detalhes muitas vezes despercebidos.

Com as notáveis poetizas, somos despertados para falar de algo que devolva o reencantamento ao mundo, como numa alegre ciranda de crianças em pureza de coração, embora já não se veja tanto assim, reavivando as mais belas utopias...

Por onde andam as verdadeiras poetizas e poetas que o mundo precisa, que se aliam à voz da profecia, para que não percamos a força, o ardor no compromisso com a Boa-Nova do Reino?

Por onde ecoam as vozes que falam não apenas aos nossos ouvidos, mas conseguem nos desinstalar para avançarmos em águas mais profundas, descobrindo os doces e suaves mistérios da existência?

Por onde andam as mães e os pais que poetizando reinventam a linguagem, aprendendo a linguagem do Espírito, para comunicar aos filhos valores que não podem jamais ser olvidados e ignorados?

Por onde andam os Bispos, Sacerdotes, Ministros e Discípulos missionários do Senhor, enamorados por Ele, em íntima comunhão e amizade, a Ele totalmente configurados, testemunhando uma fé luminosa, esperança renovada, impelidos pela caridade que não passa?

Por onde andam profissionais éticos e virtuosos, que não se deixam sucumbir pelas tentações do ter, poder e ser, sem a busca dos privilégios desmedidos, sem escrúpulos, que venham multiplicar a dor e o sofrimento dos empobrecidos?

Se formos capazes de ainda captar a confidência das raízes neste tempo de primavera tão inspirador, se não deixarmos o brilho de nossos olhos ofuscar, e se nossos ouvidos, sintonizados com a voz do Santo Espírito que sopra onde bem quer, os veremos.

Veremos bem perto de nós, em nossas ruas e praças, comunidades e lugares por onde circulamos. Também serão vistos em cada um de nós pelo nosso modo de ser e viver, pensar e agir.
             
É preciso que a primavera das praças e jardins, bosques e alamedas não seja apenas nestes espaços.

É preciso que em todo lugar, onde vivemos, nos movemos e somos, seja uma primavera querida e sonhada por Deus, até que possamos adentrar no Jardim da Eternidade, o céu, onde as flores não morrem e jamais deixam de exalar o suave odor de amor, com os anjos e santos, no festim da eternidade, na plena comunhão com Deus. 

Os bens e o Bem Maior! (Homilia 25º Domingo do Tempo Comum - ano C)

Os bens e o Bem Maior!

A Liturgia do 25º Domingo do tempo comum (ano C) reflete sobre a correta utilização dos bens que passam, a fim de que abracemos os que não passam.

Os bens são necessários, mas não são deuses.

-  Qual deve ser o lugar dos bens materiais na vida dos discípulos?

O coração do discípulo deve ser indiviso e seduzido pelo Bem Maior – Deus!Com habilidade os discípulos podem gerar uma nova sociedade pondo os bens a serviço de todos, numa clara postura profética contra a ambição e a acumulação.

-  Como sermos hábeis e não desonestos na busca do essencial, visto que não podemos servir a dois senhores?

Evidentemente que a passagem do Evangelho não faz uma apologia à corrupção (Lc 16,1-13). É indubitavelmente impensável fazer este tipo de leitura, no mínimo, ingênuo.

Considerando o contexto da Parábola de Jesus, trata-se da capacidade de renúncia de algo em favor de um bem maior. O administrador abriu mão do lucro assegurando seu futuro na espera da gratidão de seus devedores. O que o fez injusto não foi isto, mas o que anteriormente fez e que o levou a ser despedido.

Jesus nos ensina que os discípulos devem usar os bens deste mundo, não como um fim em si mesmo, mas para conseguir algo mais importante e mais duradouro, como sinais do Reino.

As riquezas jamais devem se tornar obstáculo à Salvação e a honestidade é virtude que deve perpassar em todas as nossas relações.

Muito antes o Profeta Amós (8,4-7) foi um brado profético contra a exploração dos pobres na defesa da justiça de Deus, que se concretiza na construção de relações justas e fraternas.

Denunciou com coragem e ousadia as práticas para o aumento do lucro à custa dos empobrecidos.

Embora nosso contexto de exploração, enriquecimento e empobrecimento seja muito diferente do citado no tempo de Amós, constatamos que esta relação, lamentavelmente, persiste com novas expressões, às vezes mais sutis, mas não menos insanas (preços exorbitantes de medicamentos indispensáveis, a publicidade que gera falsas necessidades, produtos adulterados e impróprios para o consumo, produtos que deveriam ser evitados, pois absolutamente antiecológicos etc.).

Com a carta de Paulo a Timóteo (Tm 2,1-8) aprendemos que a Oração feita por um coração límpido, os horizontes da fraternidade, amizade, comunhão e solidariedade geram vida e a paz.

São Basílio Magno (séc. IV) já nos acenava que toda concentração ou desperdício gera situações de miséria e indigência. São duras e inesquecíveis suas palavras, mas muito mais do que isto são extremamente questionadoras para todos nós:

“Não és acaso um ladrão, tu que te apossas das riquezas cuja gestão recebeste? ...

Ao faminto pertence o pão que conservas; ao homem nu o manto que manténs guardado; ao descalço, os sapatos que estão estragando em tua casa; ao necessitado, o dinheiro  que escondeste. Cometes assim tantas injustiças quantos são aqueles a quem poderias dar.”

Reflitamos:

-  Como lido com os bens que tenho?
-  Possuo os bens ou são eles que me possuem, me escravizam?

-  Os bens que tenho me impedem de partilhar com alegria e desprendimento?

- Alguns têm pouco e são escravos deste pouco, outros têm muito e nunca estão  felizes, outros ainda se alegram e são felizes com o que possuem. E eu, com quem me identifico?

De fato, o discípulo deve ser livre de todos os bens, porque tem um Bem Maior: Deus.

Na “Primavera Divina” seremos julgados pela administração dos bens que o Senhor nos confiou. Ele espera colher muitas flores e frutos
do amor e da justiça, da verdade e da paz!

Amor a Deus acima de todas as coisas

Amor a Deus acima de todas as coisas

A Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum (ano C) tem como tema fundamental a riqueza: como utilizar os bens que passam para alcançarmos os bens que não passam (Lc 16,1-13).

Com habilidade, os discípulos podem gerar uma nova sociedade, pondo os bens a serviço de todos, numa clara postura profética contra a ambição e a acumulação.

São Basílio Magno já nos acenava que toda concentração ou desperdício gera situações de miséria e indigência:

“Não és acaso um ladrão, tu que te apossas das riquezas cuja gestão recebeste? ... Ao faminto pertence o pão que conservas; ao homem nu o manto que manténs guardado; ao descalço, os sapatos que estão estragando em tua casa; ao necessitado, o dinheiro  que escondeste. Cometes assim tantas injustiças quantos são aqueles a quem poderias dar.”

A prática da Oração, feita por um coração puro e sintonizado com os desígnios divinos, abre os horizontes da fraternidade, amizade, comunhão e solidariedade, gerando a vida e a paz.

O discípulo deve ser livre de todos os bens porque possui um Bem Maior: Jesus Cristo e a eternidade.

É com esta pequena motivação, caso o leitor desejar poderá retomar as homilias para a continuidade da reflexão.

Concluímos refletindo os três primeiros Mandamentos da Lei Divina, que jamais podem ser esquecidos, se a felicidade, já no tempo presente, quisermos alcançar, e plenamente na eternidade viver:

1. Amar a Deus sobre todas as coisas.
2. Não tomar o Seu santo nome em vão.
3. Guardar domingos e festas de guarda.

Evidentemente que isto nos levará também a continuar a reflexão sobre os sete Mandamentos que completa o Decálogo, um Projeto de Amor e vida, felicidade, alegria, partilha e paz, para todos os que a Deus temem e amam de todo o coração, alma e entendimento, e ao próximo como a si mesmo.

4. Honrar pai e mãe.
5. Não matar.
6. Não pecar contra a castidade.
7. Não furtar.
8. Não levantar falso testemunho.
9. Não desejar a mulher do próximo.
10. Não cobiçar as coisas alheias.

Amar a Deus sobre todas as coisas é saber se relacionar com Ele e com todos, fazendo uso das coisas, sem se deixar escravizar por elas. 
Os Mandamentos Divinos garantem nossa adoração a Deus, pois adoramos a Deus, amando o próximo. Amém.

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