domingo, 24 de maio de 2026

Nas entrelinhas do cotidiano

                                                        

Nas entrelinhas do cotidiano

“Bem-aventurados os pobres em espírito
porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 3)

Um vidro, com sua fragilidade, pode conter algo que nos faça melhores, revigorados, salutares, como também pode conter algo que nos entorpeça, nos fragilize, dependendo de seu conteúdo, conscientemente tomado ou consumido.

Um vidro que pode se despedaçar em cacos, fazer perder o que talvez tivéssemos como valioso, mas que por um deslize ou um lapso, pomos tudo a perder e não há como esta situação reverter.

Um vidro e seus estilhaços, que para mais nada servem, a não ser recolhido, descartado, com os cuidados devidos sem risco para quem os manipular, e males maiores não multiplicar.

Um vidro com limpidez e transparência, ou que oculte o que nele é contido, mas cumprindo sua função: o conteúdo reter, e sem nenhuma pretensão maior possuir, com sua tampa e hermetismo desejável.

O vidro e a vida... Que relação haverá?
Cabe a cada um as respostas encontrar.

Uma vitrine de um quarto nos separa do mundo lá fora, e nos sentimos protegidos, seguros, isolados do mal que no mundo prolifera, com seus gritos, prantos, e clamores, em rostos e faces que não ocultam suas dores.

Uma vitrine de uma loja com sua sedução consumista, pelo efeito da luz, cores, decoração, falando aos nossos olhos, num fetiche devorador, criando em nós pseudo-necessidades, como que uma Boa-Nova: “Bem-aventurados sereis se me comprardes e me possuírdes”.

Uma vitrine virtual, que também nos convida à comodidade da aquisição, sem o encontro com o outro, num simples toque do teclado, olhar na tela, e senhas e códigos oferecidos, o bem comprado, desejo realizado e assim somos no “E-commerce” incluídos.

Uma vitrine também algo diferente pode proteger, bastando-nos apenas olhar, contemplar, e os pensamentos elevar, ou em inspirações e elevações do espírito, convidando-nos à súplicas e orações.

A vitrine e a vida... Que relação haverá?
Cabe a cada um as respostas encontrar.

Uma vidraça que separa as pessoas, como que dizendo: “Até aqui podes chegar; “Contenha-te, pois deves saber qual é o teu lugar”. Aparentemente impossível os limites romper, porque aqui ou ali não se pode entrar, pois a sociedade define qual o lugar e o não lugar em que se pode estar.

Uma vidraça que protege como uma lâmina de vidro, marcando mundos complexos e distintos, caracterizando a sociedade em que vivemos e construímos, com limites, diferenças, contrastes, que expressam a desigualdade social, por vezes absurda e insana.

Uma vidraça que também nos desperta sentimentos e reflexões, sobretudo se nosso olhar a transpassa numa noite fria, em que as gotas da chuva escorrem lentamente, como lágrimas que vertem de rostos já tão marcados, endurecidos e frios como uma  vidraça.

Uma vidraça que pode ser levantada, para que o ar penetre, a suave brisa nos envolva, e o perfume, a fragilidade e a beleza das flores do jardim invadam nossos sentidos, como que nos convidando a recriar novos espaços, expressão de um Paraíso a ser construído.

A vidraça e a vida... Que relação haverá?
Cabe a cada um as respostas encontrar...

Vidros, vitrines e vidraças fazem parte de nosso cotidiano. Vê-los, tocá-los e ler nas entrelinhas o que eles nos dizem. E na leitura destas, não nos perdermos em labirintos, para que tenhamos olhos fixos em tudo que nos garanta plena vida e felicidade. Amém.

No silêncio da noite

                                                    

No silêncio da noite

“A noite acendeu as estrelas porque
tinha medo da própria escuridão”
(Mário Quintana)

Era madrugada fria. Os carros começavam a circular pelas ruas e praças, como podia ver pela janela do quarto, bem como podia olhar para o alto e contemplar o céu estrelado, como há muito não fazia.

Aos poucos, a escuridão da noite cedia lugar à luminosidade de um novo dia, quando me ocorreu a lembrança do escritor e poeta: “A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão”.

Naquele momento, elevei meu pensamento a Deus e orei por tantas pessoas curvadas pelo tétrico da escuridão, por falta de emprego, compreensão, perspectivas, com as quais convivemos no dia a dia.

Elevei preces ao Altíssimo Deus, para que iluminasse a todos aqueles que enfrentam dificuldades momentâneas, para que não se deixem envolver ou se encurvar, irremediavelmente desanimados, sem mais nada em que crer ou esperançar.

Assim como a noite acendeu as estrelas com medo da própria escuridão, supliquei para que o Senhor, no novo dia, colocasse em minha boca palavras de sabedoria para iluminar a quantos viesse a encontrar.

Pedi pelos que têm o brilho do olhar ofuscado, e não conseguem perceber a ação de Deus nas entrelinhas da história; para que lhes fosse concedido o colírio da fé, e que pudessem enxergar novos horizontes para novos passos firma.

Concluí rezando por muitos que, diante das provações, adversidades, veem no encavernar-se a saída para os males e sofrimentos, porque as sombras invadiram as entranhas e os recônditos mais obscuros da alma.

Aprendamos com a noite e seus mistérios e encantos: acendamos estrelas para vencer nossos medos, e ajudar a quantos também precisarem vencê-lo. Afinal, o Senhor nos confiou a divina missão de ser luz do mundo. Amém. Aleluia!

Minhas reflexões no Youtube

 
Acesse:

https://www.youtube.com/c/DomOtacilioFerreiradeLacerd d brba 

Pentecostes: O inextinguível Fogo do Espírito! (Pentecostes)

                                                                 

Pentecostes: O inextinguível Fogo do Espírito!

Espírito Santo: Fogo que ilumina,
vento que purifica, Amor que cria Comunhão.

A Festa de Pentecostes era no Antigo Testamento (séc. I a.C) a comemoração dos 50 dias após a Páscoa, quando Moisés recebeu o Decálogo, os Dez Mandamentos Divinos.

Muito antes, uma festa agrícola na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo.

No Novo Testamento, 50 dias após a Ressurreição, o Espírito vem sobre os Apóstolos comunicando a Nova Lei, A Lei do Amor.

Celebramos na Festa de Pentecostes o nascimento da Igreja no Mistério do Coração trespassado de Jesus, e deste mesmo Coração nos vem o Alimento Salutar: A Eucaristia.

Não somente somos alimentados pela Eucaristia, mas somos assistidos pelo Espírito que também nela Se encontra.

Se na Páscoa se dá o nosso Batismo, recebendo o Espírito em Pentecostes se dá o nosso Crisma.

Quando somos enriquecidos imensuravelmente com a plenitude dos Dons do Espírito Santo.

Dons recebidos e derramados sobre todos, de modo que não há  relação de dominação e monopólio do Espírito, muito menos ainda relações de superioridade e inferioridade.

Sendo o Espírito dispensador de todos os Dons, cada pessoa tem a sua importância.

Todos os Dons procedem de Deus e estão a serviço da comunidade.

Sem o Espírito Santo não há Igreja, Liturgia, Palavra e Missão como nos disse o Patriarca Atenágoras, um autor da Igreja.

Com o Espírito Santo nossos medos são afastados; revigora-se nossa coragem.

Não há lugar para covardia e omissão; e os horizontes da Missão são alargados.

Nosso mutismo se rompe num alegre anúncio, a chama da audácia profética é reacesa em nossos corações e, renascidos pelo Sopro do Espírito, sonhamos um Mundo Novo; o aparentemente inatingível se torna possível, crível, exequível.

O mundo precisa deixar de ser uma Babel (onde as pessoas não se entendem), e tornar-se uma Nova Jerusalém, a Cidade da Paz!

Lá fora o mundo nos espera... É preciso manifestar a Ação do Espírito, como fogo para abrasar e aquecer os corações.

Como vento para varrer a maldade e iniquidade, revelando a Onipotência Divina com a Linguagem de Seu Amor.

Lá fora o mundo precisa aprender a língua universal, a Língua do Amor, a Língua do Espírito.

Deus é Amor e somente quem ama permanece em Deus. O não amor condena-nos, inexoravalmente, ao analfabetismo pior: o nada entender das coisas de Deus, não saber ler Suas linhas na História da Humanidade.

Sendo, da humanidade, o desejo mais profundo de amar e ser amado, eis a Missão da Igreja:

Com a Força, o Sopro e Ação do Espírito ensinar e reaprender sempre a Linguagem do Amor.

“A Igreja que evangeliza se evangeliza” nos disse o Papa São Paulo VI, em memorável Documento da Igreja.

E como disse Santo Agostinho: “que nas coisas certas haja a unidade, nas duvidosas, a liberdade, mas acima de tudo e em tudo a caridade”.

Concluindo, Pentecostes é a Festa do Nascimento da Igreja, do  reaprendizado da Linguagem do Amor, da acolhida do Espírito e da riqueza dos Dons, profusamente, sobre a Igreja derramados.

Exultemos de alegria por sermos Igreja, mais ainda por contarmos com o Paráclito que nos defende, consola, ilumina, aconselha, fortalece, santifica...

Com Pentecostes a Igreja nunca mais conhecerá
o ocaso de sua Missão, até que Ele venha,
com a força do Espírito, na fidelidade ao
Projeto de Deus Pai.

Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado (1) (Pentecostes)

                                                                 

Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado 

“Assim como o Pai Me enviou, também
Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo” 

Com a Solenidade de Pentecostes, celebraremos o nascimento da Igreja e acolhida do Espírito Santo para acompanhá-la, conduzi-la e assisti-la em sua missão. 

O Espírito Santo é o Dom dado por Deus a todos que creem, comunicando vida, renovação, transformação, possibilitando o nascimento do Homem Novo e a formação da Comunidade Eclesial – a Igreja. 

Com a Sua presença a Igreja testemunha a vida e a vitória do Ressuscitado, nisto consiste a missão da comunidade: realizar com a presença e ação do Espírito Santo, que é a fonte de todos os dons, colocando-os a serviço de todos e não para benefício pessoal. 

Lucas, na passagem da primeira Leitura (At 2,1-11), nos apresenta a comunidade que nasce do Ressuscitado, que é assistida pelo Espírito Santo e chamada a testemunhar a todos os povos o Projeto Libertador do Pai. 

A Festa de Pentecostes que antes era uma festa agrícola (colheita da cevada e do trigo), a colheita dos primeiros frutos, ganhou novo sentido, tornou-se a festa histórica da celebração da Aliança, da acolhida do dom da Lei no Sinai e a Constituição do Povo de Deus. Mas, o mais belo e verdadeiro sentido é a celebração da acolhida do Espírito Santo. 

Contemplemos o grande Pentecostes cinquenta dias após a Páscoa. O Espírito é apresentado em forma de língua de fogo, que consiste na linguagem do amor. Verdadeiramente a linguagem do Espírito é o amor que torna possível a comunhão universal. 

Caberá à comunidade construir a antibabel, a humanidade nova, que pauta a existência pela ação do Espírito Santo que reside no coração de todos como Lei suprema, como fonte de amor e de liberdade. 

Reflitamos:

- Somos uma comunidade do Ressuscitado?

- Nossa comunidade é marcada por relações de amor e partilha?

- Empenhamo-nos em aprender a língua do Espírito, a linguagem do Amor? 

- Qual é o espaço do Espírito Santo em nossas comunidades?

- Temos sido renovados pelo Espírito, orientando e animando nossa vida por Sua ação e manifestação?

- Somos uma comunidade que vive a unidade na diversidade, com liberdade e respeito? 

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 12, 3-b-7.12-13), o Apóstolo nos fala de uma comunidade viva, fervorosa, mas com partidos, divisões e rivalidades entre os seus membros, e até mesmo certa hierarquia de categoria de cristãos. 

Também aponta à importância da diversidade dos carismas. Porém, um só é o Senhor, um só é o Espírito do qual todos os dons procedem. 

Insiste na unidade da comunidade como um corpo, onde todos têm sua importância, sua participação, cientes de que é a ação do Espírito que dá vida ao Corpo de Cristo, fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é fonte da verdadeira unidade. 

Afasta-se com isto toda possibilidade de prepotência e autoritarismo dentro da Igreja: 

"O dom do Espírito habilita o crente batizado a colocar as suas qualidades e aptidões ao serviço do crescimento e da vitalidade da Igreja. 

Ninguém é inútil e estéril na Igreja quando se deixa guiar pelo Espírito de Deus que atua para o bem de todos. 

O único obstáculo à ação vivificadora do Espírito é a tendência a considerar os seus dons como um direito de propriedade e não um compromisso ao serviço e à partilha recíproca”. (1) 

Reflitamos: 

- Verdadeiramente, o Espírito Santo é o grande Protagonista da ação evangelizadora da Igreja?

- Colocamos com alegria os dons que possuímos a serviço do bem da comunidade e não a serviço próprio? 

Na passagem do Evangelho (Jo 20,19-23), o Evangelista nos apresenta a manifestação do Ressuscitado e a Sua presença que enriquece a Igreja reunida com o dom da paz, da alegria e do Espírito Santo para gerar relações de perdão que cria a humanidade nova. 

Deste modo, a comunidade deve romper os medos, as incertezas, as inseguranças, pois o Ressuscitado entra, mesmo que as portas estejam fechadas. Nada pode impedir a Sua ação, coloca-se no centro, pois somente Ele deve ser o centro de nossa vida e de nossa comunidade. 

E ainda mais: não adoramos um Deus em que as Chagas Dolorosas tiveram a última palavra, mas adoramos ao Deus das Chagas Vitoriosas do Ressuscitado. A vida venceu a morte, e n’Ele e com Ele somos mais que vencedores (Rm 8,37-39). 

Contemplemos as maravilhas de Deus, que são inesgotáveis e indizíveis: 

- podemos contar com a ação e o sopro do Espírito Santo, com Sua força e defesa em nossa missão evangelizadora; 

- a presença do sopro rejuvenescedor do Espírito Santo, que não permite o envelhecimento e a perda da vitalidade da Igreja por Cristo fundada, e por amor, continuamente, na Eucaristia alimentada; 

- confia-nos a continuidade da graça da missão do Ressuscitado, com a força do Espírito, como Suas autênticas testemunhas; 

- a graça de participarmos dos Mistérios Sagrados da Igreja, que aos poucos se nos revelam como maravilhoso Mistério incandescente; Mistério da presença da Chama viva de Amor revelada pelo Espírito Santo de Deus. 

Embora não tenhamos visto Jesus Ressuscitado, nem O tenhamos tocado, n’Ele cremos, Sua Palavra anunciamos, em Sua Vida e presença em nosso meio acreditamos, a força e a vida nova do Espírito continuamente experimentamos e testemunhamos. 

Celebremos, exultantes, a Solenidade de Pentecostes, de modo que a alegria divina transbordará em nosso coração, e nosso coração será inflamado do Seu Amor; 

Alegremo-nos e exultemos no Senhor Ressuscitado, que nos comunica o Seu Espírito para maior fidelidade ao Projeto de vida e de Amor do Pai.


(1) Lecionário comentado – Tempo da Páscoa - p.660. 

Em poucas palavras...

                                               


“Os caminhos da missão”

“Os caminhos da missão. «O protagonista de toda a missão eclesial é o Espírito Santo» (São João Paulo II). É Ele que conduz a Igreja pelos caminhos da missão. E esta «continua e prolonga, no decorrer da história, a missão do próprio Cristo, que foi enviado para anunciar a Boa-Nova aos pobres.

É, portanto, pelo mesmo caminho seguido por Cristo que, sob o impulso do Espírito Santo, a Igreja deve seguir, ou seja, pelo caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação de si mesma até à morte – morte da qual Ele saiu vitorioso pela ressurreição» (Vaticano II – Ad Gentes). É assim que «o sangue dos mártires se torna semente de cristãos» (Tertuliano).”(1)

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 852

Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado (2) (Pentecostes)

 


Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado 

 

“Assim como o Pai Me enviou, também

Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20,21)

Com a Solenidade de Pentecostes, celebramos o nascimento da Igreja e acolhida do Espírito Santo para acompanhá-la, conduzi-la e assisti-la em sua missão, de forma sinodal, caminhando sempre juntos, a serviço do Reino, compromisso com a nova Jerusalém.

A passagem do Livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11) nos apresenta a comunidade que nasce do Ressuscitado, que é assistida pelo Espírito Santo e chamada a testemunhar a todos os povos o Projeto Libertador do Pai. 

Contemplemos o grande Pentecostes cinquenta dias após a Páscoa. O Espírito é apresentado em forma de língua de fogo, que consiste na linguagem do amor, a linguagem universal. 

A Festa de Pentecostes, que antes era uma festa agrícola (colheita da cevada e do trigo), a colheita dos primeiros frutos, ganhou novo sentido, tornou-se a festa histórica da celebração da Aliança, da acolhida do dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. Mas, o mais belo e verdadeiro sentido é a celebração da acolhida do Espírito Santo, que é o Dom dado por Deus a todos que creem, comunicando vida.

Deste modo, é missão da Comunidade no testemunho de Cristo Ressuscitado, na fidelidade ao Pai, com a presença e ação do Espírito Santo, construir a antiBabel, comprometidos com a nova Jerusalém, movidos pela Lei suprema, como fonte de amor e de liberdade, comunhão, diálogo, fraternidade e paz.

Que a alegria da Solenidade de Pentecostes seja o transbordamento da alegria divina, pela presença e ação do Espírito Santo, que inflama nosso coração com Seu amor, ilumina nossos caminhos com Seus raios, e nos cumula de todos os dons na ação evangelizadora. Amém. Aleluia!

 

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