terça-feira, 7 de julho de 2026

A Inteligência artificial a serviço da autêntica comunicação

                                          

A Inteligência artificial a serviço da autêntica comunicação
 
Oremos:

Ó Deus, Vós que nos criastes à Vossa imagem e semelhança,
ajudai-nos a preservar a dignidade do rosto e da voz de cada pessoa com quem convivemos,
dentro e fora da comunidade que participamos.


Ajudai-nos, para que jamais percamos
a beleza do encontro humano,
vivendo em espaços nos quais as relações sejam fundadas
no amor, verdade, liberdade.
 
Concedei-nos a Vossa Divina sabedoria,
para o correto uso das novas tecnologias,
e que a inteligência artificial seja instrumento do bem
e jamais substitua a empatia  e fragilize a liberdade humana.
 
Iluminai-nos, para que nossa comunicação favoreça
a cultura do encontro e da vida fraterna,
colaborando no florescer o pensamento crítico,
com a proteção dos mais frágeis e
de toda forma de manipulação, dominação e mentira.
 

Pai de ternura e bondade, firmai nossos passos
nos passos do Vosso Filho,
que Se fez Palavra e veio morar entre nós
Para nos comunicar com a Vida e a Voz 
a Palavra de Vida plena e eterna.

Na fidelidade à Palavra do Vosso Filho,
a Revelação do Vosso rosto de Misericórdia,
ensinai-nos a educar e comunicar em todos espaços, 
reais e virtuais com responsabilidade, como alegres cooperadores de esperança. 

 
Enfim, ó Deus, para que toda inovação
esteja a serviço da humanidade,
Sejam nossas palavras promotoras de paz e a comunhão;
e que nossa voz e nosso rosto revelem sempre Vossa presença,
com a assistência, ação e luz do Vosso Santo Espírito. Amém.
 
 

PS: Inspirado na Mensagem do Papa para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais - 2026, que poderá ser acessada na íntegra
https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/communications/documents/20260124-messaggio-comunicazioni-sociali.html

 

Minhas reflexões no Youtube

 
Acesse:

https://www.youtube.com/c/DomOtacilioFerreiradeLacerd d brba 

Espiritualidade da Resistência: Desistir jamais! Resistir Sempre!

                                                        

Espiritualidade da Resistência:
Desistir jamais! Resistir Sempre!

“A Palavra de Deus é um bom bocado de
pão para alimentar nossa caminhada”

A melhor definição que podemos dar à espiritualidade é viver segundo o Espírito de Jesus, revelado a nós pelas Escrituras. Toda a nossa existência (em nível, pessoal, familiar, social, cósmico) faz parte de uma autêntica espiritualidade.

Não podemos confundir espiritualidade com espiritualismo. Espiritualismos não levam ao novo do Reino inaugurado por Jesus; não criam relações amplas e geradoras de novas relações e novas configurações. Espiritualidade não é sentir e reter o Espírito no íntimo de cada um de nós, mas é favorecer que a nossa vida seja norteada pelo sopro do Espírito. Numa palavra, espiritualidade abarca toda a nossa existência e possibilidade de existência.

A realidade pós-moderna coloca aos cristãos desafios novos para a fidelidade ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diante de uma gama imensa de problemas e desafios, muitos pensam em desistir da luta, entregar os pontos, ceder ao domínio da exploração que pesa sobre todos nós.

Alguns já chegaram, por causa da situação, ao ato máximo do desespero: o suicídio. Mas, como cristãos, não haveremos de nos entregar. É preciso mais do que nunca alimentar nossa Espiritualidade, nossa fé e compromisso, revigorando nossa vocação profética.

A fim de revitalizar nossa mística/espiritualidade e revigorar nosso caminhar, urge que voltemos a beber da fonte Bíblica, de modo especial à luz do Evangelho.

A realidade em que vivemos, guardada as devidas proporções, não é diferente daquela que viveram as primeiras Comunidades.

À luz do novo testamento, apresento Dez motivos para não desistirmos.
Alimentemo-nos destas passagens bíblicas que, com certeza, refletidas, vividas, reorientarão nossos sonhos, lutas e compromissos:

1 - Mt 9, 35-38 Jesus Se compadeceu da multidão, pois estavam“cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor...” -  E insiste para que peçamos ao Senhor da colheita (o Pai)  que envie operários para a Sua colheita. Como não nos sentirmos interpelados pela compaixão de Jesus, ontem, hoje e sempre? Deixaremos que mais e mais ovelhas venham a morrer, sem levar os “pastores” ao seu real compromisso com os pobres?

2- Lc 1,  46-56 –   “Magnificat” – É o canto de Maria, o canto da esperança dos pobres. Erguer a cabeça e continuar a luta é indispensável, para que possamos perceber a alegria deste canto. Com Maria e com os pobres de ontem, hoje e sempre, buscaremos a transformação necessária (política, social e econômica). Não é o canto dos alienados, mas daqueles que, verdadeiramente, buscam a novidade do Reino!

3 - Lc 4,16-21 – “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, me enviou para evangelizar os pobres...” – Não estamos sozinhos em nossa luta, nem na vida, sequer na morte (Bento XVI). Precisamos perceber e permitir a ação do Espírito de Deus em nosso meio, no “bom combate da fé”. Ardentemente, desejamos que se realize o ano da Graça do Senhor, para que os pobres possam recuperar aquilo que lhes fora tirado: a vida!

4 - Mt 5,1-12 – O Sermão da Montanha – Sem dúvida o programa de Jesus não é para os medíocres e ostentadores da riqueza, do domínio e da exploração e concentração... Nem de longe Jesus nos engana no Seu real seguimento. Ele nunca quis atrás de Si pessoas sem compromisso com a justiça, a partilha e a paz. Ele não Se deixa enganar com a quantidade, mas exige a qualidade da intimidade de Seus seguidores.

Urge que multipliquemos momentos de comunhão e oração, de escuta, para descobrirmos o que Ele quer de nós. Segui-Lo exige uma tomada de decisão e há riscos. Ele antecipa dizendo que o preço a ser pago poderá ser a própria vida. Mas vale a pena! Eis o caminho da verdadeira felicidade que o mundo não pode dar, mas somente Ele, que é fonte da autêntica paz que brota do compromisso com a vida, sobretudo, com a vida dos pobres!

5 - Jo 15,1-17 – Jesus é a videira e O Pai é o agricultor, nós os ramos - Jesus nos diz que sem Ele nada podemos fazer; convida-nos a ficarmos intimamente unidos a Ele, para que possamos produzir muitos frutos.

Como se desligar da verdadeira Árvore da Vida? Somente com Ele é que a alegria pode ser plena.

Vivemos um período da história, em que não percebemos os frutos aparecendo. Não estaremos passando pelo momento das podas? Certas dificuldades e inquietações por que passamos, parecem ser “a morte da videira”. Precisamos mais do que nunca nos alimentar da Seiva da Vida, sobretudo na Eucaristia, e na prática do Mandamento do Amor que nos mandou viver. Situações limite hoje só poderão ser superadas numa autêntica vivência do amor, não só nas pequenas relações, mas nas grandes relações nacionais e internacionais. Com isto, não faz sentido o individualismo, o imediatismo, a violência, a acomodação, o corporativismo. Que o amor seja expresso em nossa união e participação em grupos organizados, cooperativas, comunidades e grupos de base.

6 - At 2,42-47 – Os cristãos eram assíduos no Ensinamento dos Apóstolos, na Oração, na Comunhão Fraterna e na Partilha do Pão - são os quatro pilares básicos de uma autêntica comunidade. As comunidades que professam a fé, inclusive em outros grupos e movimentos populares, só terão sentido de existência se realmente favorecerem a comunhão fraterna, expressada na luta e conquista dos direitos, na luta pelo bem comum.

Ontem como hoje, nossa sociedade precisa aprender a grande lição da partilha. Sem este aprendizado torna-se insustentável a própria vida do planeta, pois é preciso “cuidar de nossas formas de convívio na paz, na solidariedade e na justiça. Cuidar de nosso meio ambiente para que seja um ambiente inteiro, no qual seja possível o convívio entre os diferentes. Cuidar de nossa querida e generosa mãe terra” (L.Boff).

7 - 2 Cor 4, 7-18 – Tribulações e esperanças da luta - Esta passagem é a máxima expressão do momento em que vivemos. Recorrer a ele é perceber nossa pequenez, limitações, inquietações, angústias, incertezas e situações de desespero. Porém, há um aceno maior de volta por cima, de reencontro dos caminhos. Na vivência do momento que é transitório, não podemos perder a capacidade de enxergar além das aparências,  do que se pode chamar de derrota, mas que para nós é sinal de vitória: a Cruz. A morte d’Ele não foi a última palavra – A vida venceu a morte!

8 - Rm 8,31-39 – “Quem nos separará do amor de Cristo?” - Com o Apóstolo Paulo, respondemos: Nada nos separará do amor à vida, do amor à nossa terra, terra de nossos povos indígenas... Nem a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada, nenhum problema trazido pela pós-modernidade. Unidos a Ele, lutamos e nos comprometemos para que tudo isto seja superado, a fim de que possamos voltar a sorrir.

9 - Ap 21 – “Vi um novo céu e uma nova terra” O Livro do Apocalipse, escrito em tempo de martírio e perseguições, fortalece-nos na luta para que não haja mais morte de inocentes, luto por falta de pão e saúde, clamor por falta da terra, dor pela doença e uso de agrotóxicos, destruição do eco sistema...

10 - 1 Cor 13,1-13 – “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos sem amor eu nada seria” - Como militantes em nossas comunidades, grupos e movimentos, precisamos reaprender o autêntico sentido do amor, da caridade. Somente na expressão e prática do amor, faremos a opção pelo Deus da Vida e não do Capital, para ser um tijolo na construção de uma possibilidade que não seja o capitalismo. Nenhum sistema tem a última palavra. A última palavra será sempre “o Amor!”.

Concluindo, a realidade pós-moderna em que vivemos, a autêntica espiritualidade nos convoca a todos a uma empreitada que ultrapasse todas as fronteiras (vivemos num mundo globalizado), para configurar uma nova realidade familiar, comunitária, social e planetária.

Toda a sociedade, alimentada pela Palavra, que é um bom bocado de Pão a ser devorado, deve fazer parte de um grande mutirão para erradicação de tudo atente contra a vida; contra tudo aquilo que se nos apresentar como desumanizador. Ninguém pode ficar fora desta jornada. A salvação de cada pessoa, passa pelo compromisso e solidariedade com o próximo.

Uma espiritualidade verdadeira não se alegra nem faz rimas com disparidades, desigualdades... Cada pessoa deve dar o melhor de si, para viver segundo o Espírito, que é sentir-se parte do Corpo Místico de Cristo: “haverá um só rebanho e um só Pastor”.

Uma Espiritualidade fonte de vida deve nos levar a um questionamento profundo: o que podemos, à luz do Espírito, fazer para que esta utopia, nova realidade, novo mundo se concretize? Acomodar-se, nada fazer é negar a razão e a essência da espiritualidade.

Viver segundo Espírito não nos conforma à miséria. Toda sociedade civil tem algo em comum a realizar, ou estaremos minando, esvaziando o sentido pleno e evangélico de “espiritualidade”. É preciso romper a barreira do possível e alcançar os horizontes do inédito”.

Ó amoroso convite, expressão da inefável bondade divina

                                                   

Ó amoroso convite, expressão da inefável bondade divina

“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração
 e encontrareis descanso para as vossas almas,
pois meu jugo é suave e meu fardo é leve” (1)

O mais amoroso dos convites que possamos ouvir,
Brotam dos lábios do Senhor, manso e humilde de coração.
Ó inefável bondade divina, que se compadece de nossos humanos cansaços, e sem demora a Ele acorremos e deles nos refazemos.

“Quem será tão de pedra, quem tão teimoso que não obedeça a um convite tão bondoso?... Não vos assusteis ao ouvir ‘jugo’, porque este ‘jugo’ nem roça o pescoço nem faz abaixar a cabeça, ao contrário, ensina a pensar nas coisas do alto e forma na verdadeira filosofia” (2)

Bem sabia o Mestre o peso do jugo da dominação em que viviam,
E já dissera pouco antes, tomado de compaixão,
Que o povo que a Ele acorria, eram como ovelhas sem pastor,
Em todas as dimensões próprias da condição humana.

Hoje, também estamos cansados e fatigados por motivos diversos:
A pandemia que se manifestou numa sociedade muito antes enferma;
A insegurança, o medo que, por vezes, devora nossa coragem
E a esperança de um amanhã certo, que parece tardar acontecer.

Cansados da mentira sendo semeada e cultivada,
No canteiro dos pensamentos fecundos porque vazios;
Da hipocrisia já não mais disfarçada por falta de pudor,
Espalhando palavras e posturas de insana mediocridade.

Cansados pela violação da sacralidade da vida,
Sem limites e escrúpulos da violação do humano,
Porque curvados sob a ânsia do lucro, do acúmulo,
Subservientes do ídolo que ceifa vidas – o capital.

Embora cansados, e porque cansados, não podemos desistir
De buscar um novo céu e uma nova terra,
Construindo pontes de fraternidade e solidariedade.
Derrubando muros que separam com seus preconceitos e inimizades.

Ouçamos, em tempo, o amável convite que o Senhor nos faz.
A Ele acorramos, e aos Seus pés nos prostremos.
Tomemos o jugo da Cruz que nos oferece, e nos pede conversão,
Novas posturas, novas atitudes e mentalidades.

Cruz que, ainda que nos pese, grande ou pequena, levaremos,
Dependendo da medida da capacidade do amor que por Ele temos.
E se pesar, contemos com o sopro e a presença do Espírito,
Que não nos permite curvarmos na busca das coisas do alto.

Ó amoroso convite, expressão da inefável bondade divina.



(1)         (Mt 11, 28-30).
(2)        São João Crisóstomo, Bispo e Doutor da Igreja (séc. V)

Em poucas palavras...

                                            


“A alma da constância é o amor”

“A alma da constância é o amor; só por amor se pode ser paciente (Santo Tomás de Aquino) e lutar, sem aceitar os defeitos e as falhas como coisa inevitável e sem remédio.

Não podemos ser como aqueles a quem, depois de muitas batalhas e pelejas, ‘acabou-se-lhes o esforço, faltou-lhes o ânimo’ quando estavam ‘a dois passos da fonte de água viva’ (Santa Teresa).” (1)

 

 

(1) Hablarcondios.org

“Apascentai, Senhor, o Vosso rebanho!”

                                                            

“Apascentai, Senhor, o Vosso rebanho!”

Quando a Igreja Celebra as Vésperas do “Comum dos Pastores”, eleva orações de riqueza também notável, que ora retomamos para meditação.

Na motivação, faz-se um agradecimento a Cristo, o Bom Pastor que deu a vida por Suas ovelhas, em seguida faz-se as súplicas, acompanhados do refrão: Apascentai, Senhor, o Vosso rebanho!”

Na primeira prece, o reconhecimento do querer de Cristo em comunicar o Seu amor e misericórdia nos santos pastores; e por meio destes, suplicamos que seja sempre misericordioso para conosco.

Na segunda, o reconhecimento que Cristo continua a ser o Pastor das almas através dos Seus representantes na terra; e em seguida, a súplica para que Ele jamais Se canse de dirigir o rebanho por intermédio de nossos pastores.

Na terceira, o reconhecimento de Cristo como o médico dos corpos e das almas, que age por meio dos Seus santos que guiam os povos; e em seguida a súplica para que Ele jamais cesse de exercer para conosco o ministério da vida e da santidade.

Na quarta, o reconhecimento de que Cristo instruiu o rebanho pela sabedoria e caridade dos santos; hoje guiados pelos pastores, uma súplica para estes façam a todos crescer na santidade.

As súplicas a Cristo são pelos pastores, pelo rebanho a eles confiados, para que vivam a misericórdia, cresçam no caminho de vida e santidade, para que tenhamos todos vida plena, neste tempo e na eternidade.

É sempre oportuna e necessária a oração mútua pelos pastores que conduzem o rebanho que o Senhor lhes confiou; da mesma forma os pastores têm, como expressão de salutar ministério, a incessante oração elevada aos céus pelo rebanho que lhe foi confiado, não como propriedade, mas como responsabilidade, para que dele cuide com mesmo zelo que o Bom Pastor fez e espera que façam.

Aprendizes da compaixão divina

                                                           

Aprendizes da compaixão divina

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 9,32-38), em que Jesus Se enche de compaixão pela multidão, pois estavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor.

Oportuna é a Homilia do Papa São Gregório Magno (séc. VI), que trata com propriedade o exercício do ministério no cuidado do rebanho que Deus nos confia, como discípulos missionários Seus.

“Ouçamos o que diz o Senhor aos pregadores enviados: A messe é grande, mas poucos os operários. Rogai, portanto, ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. São poucos os operários para a grande messe (Mt 9,37-38). Não podemos deixar de dizer isto com imensa tristeza, porque, embora haja quem escute as boas palavras, falta quem as diga.

Eis que o mundo está cheio de sacerdotes. Todavia na messe de Deus é muito raro encontrar-se um operário. Recebemos, é certo, o ofício sacerdotal, mas não o pomos em prática.

Pensai, porém, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi Vós por nós para que possamos agir de modo digno de Vós.

Que a língua não se entorpeça diante da exortação, para que, tendo recebido a condição de pregadores, nosso silêncio também não nos imobilize diante do justo juiz.

Com frequência, por maldade sua, a língua dos pregadores se vê impedida. Por sua vez, por culpa dos súditos, muitas vezes acontece que seus chefes os privem da palavra da pregação.

Por maldade sua, com efeito, a língua dos pregadores se vê impedida, como diz o salmista: Deus disse ao pecador: Por que proclamas minhas justiças? (Sl 49,16). Por sua vez, por culpa dos súditos, cala-se a voz dos pregadores.

É o que o Senhor diz por Ezequiel: Farei tua língua aderir a teu palato e ficarás mudo, como homem que não censura, porque é uma casa irritante (Ez 3,26). Como se dissesse claramente: A palavra da pregação te é recusada porque, por me exacerbar com suas ações, este povo não é digno de escutar a verdade que exorta. Não é fácil saber por culpa de quem a palavra se furta ao pregador. Porque se o silêncio do pastor às vezes o prejudica, sempre causa dano ao povo, isto é absolutamente certo.

Há ainda outra coisa, irmãos caríssimos, que muito me aflige na vida dos pastores, mas para não pensardes talvez que vos faz injúria aquilo que vou dizer, ponho-me também debaixo da mesma acusação, embora me encontre neste posto não por minha livre vontade, mas impelido por estes tempos calamitosos.

Vimos a nos envolver em negócios externos. Um cargo nos foi dado pela consagração e, na prática, damos prova de outro. Abandonamos o ministério da pregação e, reconheço-o para pesar nosso, chamam-nos de bispo a nós que temos a honra do nome, não o mérito. Aqueles que nos foram confiados abandonam a Deus e nos calamos. Jazem em suas más ações e não lhes estendemos a mão da advertência.

Quando, porém, conseguiremos corrigir a vida de outrem, se descuramos a nossa?

Preocupados com questões terrenas, tornamo-nos tanto mais insensíveis interiormente quanto mais parecemos aplicados às coisas exteriores.

Por isso e com razão, a respeito de seus membros enfraquecidos, diz a Santa Igreja:

Puseram-me de guarda às vinhas; minha vinha não guardei (Ct 1,6). Postos como guardas às vinhas de modo algum guardamos a nossa porque, enquanto nos embaraçamos, com ações exteriores, não damos atenções ao ministério de nossa ação verdadeira”.

Seja a nossa reflexão e oração acompanhadas da prática concreta da fé, pois ela sem obras é morta.

Sendo assim, multipliquemos Orações ao Senhor da Messe, para que nos envie operários que somem conosco na maravilhosa missão de construir o Reino de Deus pelo Filho inaugurado, com a força, ação e sabedoria do Espírito.

Peçamos ao Senhor que também nos fortaleça nas dificuldades de nossa caminhada de fé, para que a vivamos com renovado ardor e entusiasmo, como discípulos missionários Seus, e nossa esperança seja acompanhada das obras de amor, em Sua espera, Ele que veio, vem e virá.

Reflitamos:

- Grande é a messe, poucos são os operários;
- Muitos são os apelos, clamores, e com limites procuramos dar as devidas respostas;

- Ministros ordenados ou não devem ter o coração pleno de misericórdia como o coração d’Aquele que o chamou para não se omitir no multiplicar de gestos de solidariedade;

- Ninguém pode omitir-se no colocar dos carismas a serviço da comunidade, no fortalecimento e florescimento pastoral a serviço da vida e da esperança;
- Na comunidade não há espaço para omissões, recuos, desânimo e indiferença.

Sejamos, portanto, eternos aprendizes da compaixão divina, e não apenas aprendizes, mas verdadeiramente sinais desta a tantos quantos precisarem.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG