terça-feira, 30 de dezembro de 2025

É preciso renascer a Esperança!

                                                                         

É preciso renascer a Esperança!

Quando em Missão em Rondônia, recebi uma Carta de uma Mãe que como milhões de mães, com muito amor e esperança no coração, cuidam de seus filhos e filhas; muitas vezes até mais do que de si mesmas.

Seu filho, portador de uma enfermidade muito grave, necessitava de acompanhamento médico permanente.

Junto com sua carta me enviou uma mensagem, e com esta o desejo que o testemunho desta mãe faça renascer em nosso coração a chama da Esperança, sem o quê não conseguiremos vislumbrar um Novo Ano sem exclusões...

Cultivar a esperança, dar razão à nossa fé, vivenciar concretamente o amor, para sermos, no mundo, construtores da paz...

“Esta é a história de quatro velas:
Da Paz, da Fé, do Amor e da Esperança.
A vela da Paz estava muito triste, pois as pessoas só viviam promovendo guerras, violência e todo tipo de maldade.
Por este motivo, aos poucos, foi se apagando, apagando... e assim como ela, as outras também...

Até que um dia, uma criança apareceu, e triste ao ver as velas se apagando, pôs-se a chorar. Então, a vela da Esperança, vendo o sofrimento da criança, perguntou:

-      Oh bela criança, por que choras? E ela lhe respondeu:
-      Choro, porque as velas estão se apagando.
A vela então lhe disse:
-      Pois não chore mais, bela criança, enquanto houver nas pessoas a Esperança que vejo em teus olhos, a Paz, a Fé e Amor jamais apagarão!”

É exatamente sobre a Esperança que quero aprofundar neste texto. Ela é indispensável para enfrentarmos inúmeras situações difíceis: Pessoais, familiares, comunitárias e sociais; em Rondônia (onde me encontrava em Missão), em Guarulhos ou em qualquer lugar do mundo.

Como disse o poeta: “Vem, vamos embora que esperar não é saber; quem sabe faz a hora não espera acontecer” (G. Vandré).

São inúmeras as Citações Bíblicas sobre a Esperança, tanto no Antigo Testamento como no Novo.

A esperança de um novo céu e uma nova terra não nos afasta, e tão pouco nos dispensa, do compromisso de lutar por dignidade humana e vida no tempo presente.

A esperança bíblica não dispensa a ação humana, não nos permite cruzar os braços, menos ainda fechar os olhos e o coração para as realidades que nos desafiam...

Ela deve ser algo que nos identifica e nos marca como cristãos!

Iniciaremos um Novo Ano, e mais do que nunca, é preciso que renasça em nosso coração:

- de ver as crianças e jovens não morrerem de frio ou de fome;

- de ver pais e mães assumindo, amando e educando seus filhos e filhas;

- de ver as armas de guerra transformadas em instrumentos de vida, em pão...

- de ver dívidas sociais devidamente superadas, com vida plena para todos, sem dividas internas e externas...

- de ver o Poder Político exercer a Política como promoção do bem comum!

ver a Amazônia preservada, acabando com sua exploração descabida, através de derrubadas, queimadas e biopiratarias, visando interesses e lucros internacionais...

- de ver superados os conflitos no Oriente Médio ou em qualquer lugar do mundo e a superação de todas as formas de discriminações raciais e sociais!

- de ver terra e riquezas partilhadas superando toda e qualquer forma de desigualdade social!

- de ver “... um só rebanho e um só Pastor...”

- de que a humanidade redescubra caminhos novos para a prática do Amor, tendo inflamada a chamada Fé!

Renovemos a esperança de vermos todos empenhados, construindo e promovendo a Paz, em pequenos sinais de um novo céu e uma nova terra!

Renovemos sempre a Esperança de  ver a Esperança acontecer!

A Esperança de ver a Esperança Renascida em cada coração com a Vitalidade, Sonhos e Energia de uma Criança! Isto é possível!

Há poucos dias, celebramos o Natal do Senhor, o Nascimento da Fonte e Razão de nossa Esperança, e que continue ressoando as palavras do Profeta Isaías:

“Céus, deixai cair orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover justiça; abra-se a terra e germine a salvação; brote igualmente a salvação” (Is 45,8).

Sendo assim, Feliz Ano Novo, com muita esperança, fé e amor, e um mundo cheio de paz; rompendo a cultura de morte que se propaga pelo mundo, empenhados pela cultura da vida, ou seja, a Civilização do amor.            

“Graça e Paz!”

                                  

“Graça e Paz!”

Nas Vésperas da Liturgia das Horas, rezamos a passagem da Carta de Paulo aos Colossenses (Cl 1,2b-6a):

“A vós, graça e paz da parte de Deus nosso Pai. Damos graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, sempre rezando por vós, pois ouvimos acerca da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que mostrais para com todos os santos, animados pela esperança na posse do céu. Disso já ouvistes falar no Evangelho, cuja Palavra de verdade chegou até vós. E como no mundo inteiro, assim também entre vós ela está produzindo frutos e se desenvolve”.

Sejamos enriquecidos pela saudação Paulina: “Graça e paz da parte de nosso Pai”.

Todos precisamos desta graça divina, a fim de que sejamos fortalecidos na missão evangelizadora, como discípulos missionários do Senhor, com a força e a presença do Santo Espírito.

Da mesma forma, da paz verdadeira, que tão somente o Senhor pode nos conceder,  e  ela tem um nome, um rosto: é Jesus, o Filho amado do Pai, que nos comunica o “shalom”, a paz, a plenitude de todos os bens.

Troquemos orações mútuas, para que, revigorados e animados sejamos, e vivamos a graça batismal, a vida nova dos filhos e filhas de Deus – “Sempre rezando por vós”.

Revigorados na fé viva, sejamos como a comunidade de Colossas: “Ouvimos acerca da vossa fé em Cristo Jesus”.

Renovemos a esperança de participar de um novo céu e uma nova terra: “Animados pela esperança na posse do céu”.

Finalmente, seja nosso coração inflamado de amor, fortalecendo os vínculos da comunhão fraterna, em frutuosa partilha e solidariedade para com todos, e de modo especial, a quem mais precisar – “do amor que mostrais para com todos os santos, animados pela esperança na posse do céu. 

O retrovisor e o farol de milha (parte I)

                                                         

O retrovisor e o farol de milha

Que bom terminar bem mais um ano para começar outro melhor... Eis o desejo que cada um carrega, dentro de si, neste dias que antecedem o Ano Novo.

Mas, como terminar bem um ano? Olhando pelo retrovisor de nossa história, escrita ao longo de um ano que finda.  Poder terminá-lo, já é terminar bem, quando tantos não o puderam…

Terminar bem é ter a certeza de que é possível recomeçar melhor.

Quando um ano finda e outro começa, mais que mudança de algarismos, deve ser mudança de atitudes, revisão de caminhos, projetos, reorientação dos passos…

É poder olhar pelo retrovisor e contemplar o que de bom fizemos para a santificação de nossa família, pelo bem dos filhos, pela alegria de nossos pais…

É olhar, contemplar no mesmo retrovisor o crescimento da comunidade que fazemos parte, e saber que nela fomos apenas servos inúteis e fizemos o que devíamos fazer, embora ainda pudéssemos fazer muito mais.

É ver a Igreja concretizando propostas de Assembleias para os apelos da modernidade responder… E quantos apelos, quantos desafios! 

Como pobres sempre haveremos de ter, Boa-Nova sempre haveremos de anunciar e à messe, discípulos missionários jamais poderão faltar!

Há sempre muito mais a fazer! Os apelos da Boa Nova são intermináveis!

No retrovisor contemplo pessoas que acreditam que o Verbo Se fez, de fato, morada em nosso meio, conosco veio caminhar.

Se os apelos e desafios são grandes, bem maior é o nosso Deus e Sua força, Sua sabedoria e Sua luz…

É preciso saber que cada dia foi dom, graça para construir verdadeiras amizades, porque afinal são elas o que contam e devem se multiplicar em nossos retrovisores. Feliz quem puder contemplar alguns poucos e bons amigos em seu retrovisor.

É preciso contemplar no retrovisor do mundo passos dados para a construção da democracia, ainda que se insista em perpetuar o vírus do poder que mata, viola a beleza e a sacralidade da vida.

É preciso acreditar que os conflitos, que ainda teimam aparecer em nosso retrovisor, um dia serão coisas do passado:

Bombas lançadas contra pessoas, atrocidades abomináveis e práticas odiáveis serão apenas lembranças amargas de páginas viradas e pelo tempo amareladas...

É preciso ver que todo esforço em defesa da vida, da concepção ao seu declínio natural, não foi apenas um jargão, mas princípio que nos acompanha e nos orienta em todo existir na luta contra toda prática conivente com o aborto e a interrupção da vida…

É preciso ver que apesar da insanidade e nervosismo do mercado, crise mundial repetida incontáveis vezes, em páginas e telas multiplicadas, não dilacerou a esperança daqueles que têm outra métrica, outro parâmetro, outros sonhos, outro modo de ver a economia, o mercado…

É preciso contemplar pessoas que não se curvam ao capital e ao deus do mercado, que sobrevive à custa do sofrimento e miséria dos pobres…

Terminar bem...
É poder ver!
É não ter medo de ver!
É ter a ousadia de ver…

Quem não for capaz de assumir seu passado vive um presente de instabilidade e um futuro de incertezas sepulcrais, em que serão enterrados sonhos, alegrias, esperanças e utopias…

- O que você pode ver no teu retrovisor?
- Recomeçar um ano melhor é possível?

Sim, é possível. É possível para quem não temeu contemplar seu retrovisor existencial. Não temeu rever seus passos. Não temeu rever seus conceitos, parâmetros, passos às vezes sem rumo, outras vezes de rumo incerto.

Com coragem olhemos no retrovisor de nossa história:
Contemplemos os acertos e os multipliquemos; admitamos os erros e os superemos,
subtraiamos decididamente!

O retrovisor e o farol de milha (parte II)

                                                 

O retrovisor e o farol de milha

Feliz Ano Novo diremos uns aos outros. 
Mas como começar melhor o ano?

Acendendo o nosso farol de milha, apontando para os dias do novo ano e iluminando alguns sinais que nos permitirão recomeçá-lo melhor.

Permita-me falar de um “farol de milha existencial”, que nos acompanha em toda a vida:

É preciso saber apontar o farol para acertar o caminho. Não enveredar por caminhos escuros sem a Luz necessária: Deus e Seu Espírito. É lembrar que temos origem e meta.

É nunca esquecer que de Deus viemos, nos movemos e somos, e para Ele haveremos de um dia voltar… O nascimento aponta para o crescimento, morte, eternidade… para além da contagem de segundos, horas, dias, semanas, meses e anos…

É acreditar que outro mundo é possível, não como teimosia inconsequente, mas como sonho e paixão pelo horizonte do inédito ainda não vislumbrado.

É alargar os horizontes e nossos sonhos, projetos, para que não apenas caibam nossas ambições desmedidas, mas possam contemplar a humanidade de que somos parte, uma pequenina e necessária parte.

É saber que não somos o mar, apenas uma gota nele. Mas o que faz o mar existir se não a somatória das gotas?

É não esquecer que o grão de areia ínfimo que somos se perde na imensidão da areia do mundo. Mas não haveria areia do mar e areia no deserto se não fosse o menor dos menores dos grãos.

Consciência de nossa pequenez, sem lugar para arrogância e prepotência que assola tantos corações e mentes.

É acreditar que a seiva de um pequeno ramo faz a mata, a floresta; que a seiva do amor, que em nosso sangue e coração corre, faz a grande humanidade.

É os pilares da casa da paz, revigorar: Verdade, justiça, amor e liberdade, e em todos os telhados esta Boa-Nova anunciar…

É decretar a pobreza como mal a ser eliminado, a partir da solidariedade global; é fazer um lema de nossa vida esta grande verdade: “combater a pobreza é construir a paz”… Não apenas a pobreza material, que por si mesma já é abominável e deplorável, mas também a pobreza espiritual e mental que abate ricos e abastados.

A riqueza da graça de Deus não combina com um mundo em que a pobreza material e espiritual vítimas ainda multiplique...
É cuidar de nossa casa comum, o planeta, com todo carinho: “Dominar a terra” não será destruí-la inescrupulosamente. Somos todos por esta casa responsável: terra, céu, fogo e ar…

É fazer da paz um sonho, uma busca, uma meta, uma conquista, uma utopia. Verdadeiramente, a paz deve guiar o destino da humanidade:

Todo dia há de ser o Natal da Paz,
Da fonte da Paz, de Jesus,
Aquele que nos Salva
E a vida tece e refaz…

É manter acesa e inflamada a chama da fé com o cuidado para que os ventos das contrariedades e dificuldades, enfermidades e mortes não a apaguem…

É cuidar da semente da esperança, que no Natal foi plantada, para que regada em nosso coração, flores e frutos saborosos o mundo possa saborear…

É a incansável subida da escada da caridade continuar: “… conjugar o verbo armar sem a letra r…”. O amor é a nossa grande arma!

Não deixar de buscar a escada que Jacó contemplou, e que Jesus ao mundo apresentou: a escada da caridade que leva para a cruz, para a morte consumar, para a vida por amor entregar. 

O amor que por amor até fim nos amou. Escada que aponta para o alto, para a glória dos céus, para a glória da eternidade.

É pedir ao Pai:

“A escada da caridade de cada dia nos dai hoje
E não nos deixeis desanimar,
ainda que a cruz tenhamos que carregar.
Que o amor possamos testemunhar,
Para a glória dos céus alcançar.
Amém!”

O amor de Deus nos livra do abismo da morte

                                                          

O amor de Deus nos livra do abismo da morte

No dia 30 de dezembro, a Liturgia nos oferece as seguintes proclamações: Leitura (1 Jo 2,12-17); Salmo 95, 7-10, e a passagem do Evangelho (Lc 2, 36-40), em que a viúva Ana fala acerca do Menino apresentado no templo a todos os que esperavam a libertação de Israel.

Vejamos o que nos diz Lecionário Comentado:"

O amor a Deus liberta-nos da transitoriedade que nos arrasta para o abismo da morte. E proclamar em voz alta este caminho de vida é obra profética, sobretudo pela profecia que vem de Cristo”. (1)

De fato, somente com a presença de Deus e Sua misericórdia que vem sempre ao encontro de nossa miséria, podemos firmemente dar passos na busca das coisas do alto, onde Ele habita, fazendo da própria vida um serviço a Ele, porque vivemos da alegria e do amor vivenciado e marcante deste inesquecível e decisivo encontro um dia realizado.

Com a profetisa Ana não foi diferente, uma vez que, depois de oitenta e quatro anos vividos na busca da realização da vontade de Deus, ela tem a alegria do encontro pessoal com Jesus, o Menino Deus.

Aprendamos com esta viúva que não fica com a alegria só para si, retendo-a e guardando como um tesouro, ao contrário, sai anunciando a todos que Aquele Menino, Aquela frágil criança, que oculta a divindade somente percebida pelos corações que creem, é a resposta do próprio Deus a todos os que esperam a verdadeira libertação.

Com Ana, como discípulos missionários do Verbo que Se encarnou e habitou entre nós, façamos nosso anúncio, acompanhado do reconhecimento do amor de Deus, que é fiel às Suas promessas, através do louvor, pois Ele é digno de toda honra, glória, poder e louvor.

Somente quem fez este encontro com Jesus sente a alegria transbordar no coração que palpita mais fortemente, e torna mais inflamada a chama do primeiro amor vivenciado, e envolvido por este amor está livre de todo e qualquer abismo de morte.

Finalizemos o ano vislumbrando novos dias, renovando diante do altar e no altar do Senhor a alegria de sermos seus discípulos.

Concluamos com as palavras do Profeta Isaías:

“Pois nasceu para nós um pequenino, um filho nos foi dado. O principado está sobre seus ombros e seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da Paz” (Is 9,5).

E ainda:

“Como são formosos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, que anuncia coisas boas e proclama a salvação, dizendo a Sião: ‘Teu Deus começou a reinar’” (Is 52,7).


 

(1) Lecionário Comentado - Editora  Paulus - p.284 – Vol. Advento/ Natal.

Com o Senhor, peregrinar na esperança

                                                          


Com o Senhor, peregrinar na esperança

Sejamos enriquecidos pelo Tratado “Refutação de todas as heresias”, escrito pelo presbítero Santo Hipólito (Séc. III), em que nos apresenta o Verbo feito carne que diviniza o homem e a mulher.

“Não fundamentamos nossa fé em palavras sem sentido, nem nos deixamos arrastar pelos impulsos do coração ou persuadir pelo encanto de discursos eloquentes. Nossa fé se fundamenta nas palavras pronunciadas pelo poder divino.

Estas palavras, Deus as confiou a seu Verbo que as pronunciou para afastar o homem da desobediência; não quis obrigá-lo à força, como a um escravo, mas chamou-o para uma decisão livre e responsável.

Esse Verbo, o Pai enviou à terra no fim dos tempos; não o queria mais pronunciado por meio dos profetas nem anunciado por meio de prefigurações obscuras, mas ordenou que se manifestasse de forma visível, a fim de que o mundo, ao vê-lo, pudesse salvar-se.

Sabemos que o Verbo assumiu um corpo no seio da Virgem e transformou o homem velho em uma nova criatura.

Sabemos que Ele Se fez homem da nossa mesma substância. Se não fosse assim, em vão nos teria mandado imitá-Lo como Mestre.

De fato, se esse homem tivesse sido formado de outra substância, como poderia ordenar-me que fizesse as mesmas coisas que ele fez, a mim, frágil que sou por natureza? Como poderíamos então dizer que ele é bom e justo?

Para que não o julgássemos diferente de nós, suportou fadigas, quis ter fome e não recusou ter sede, dormiu para descansar, não rejeitou o sofrimento, submeteu-se à morte e manifestou a sua ressurreição.

Em tudo isto, ofereceu sua própria humanidade como primícias, para que tu não desanimes no meio do sofrimento, mas, reconhecendo tua condição de homem, esperes também receber o que Deus lhe deu.

Quando contemplares Deus tal qual é, terás um corpo imortal e incorruptível, como a alma, e possuirás o reino dos céus, tu que, peregrinando na terra, conheceste o Rei celeste; viverás então na intimidade de Deus e serás herdeiro com Cristo.

Todos os males que suportaste sendo homem, Deus os permitiu precisamente porque és homem; mas tudo o que pertence a Deus, ele promete conceder-te quando fores divinizado e te tornares imortal. Conhece-te a ti mesmo, reconhecendo a Deus que te criou; pois conhecer a Deus e ser por ele conhecido é a sorte daquele que foi chamado por Deus.

Por conseguinte, não vos envolvais em contendas como inimigos, nem penseis em voltar atrás. Cristo é Deus acima de todas as coisas, ele que decidiu libertar os homens do pecado, renovando o velho homem que tinha criado à sua imagem desde o princípio, e manifestando nesta imagem renovada o amor que tem por ti.

Se obedeceres aos seus mandamentos e por tua bondade te tornares imitador daquele que é o Bem supremo, serás semelhante a Ele e Ele te glorificará. Deus que tudo pode e tudo possui te divinizará para sua glória.”

Celebramos há poucos dias o Natal do Menino Jesus, e a Igreja nos propõe parte do mencionado Tratado para aprofundarmos o Mistério da Encarnação do Verbo que se fez Carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14).

Retomemos dois trechos para meditação oportuna e necessária:

- “Para que não o julgássemos diferente de nós, suportou fadigas, quis ter fome e não recusou ter sede, dormiu para descansar, não rejeitou o sofrimento, submeteu-se à morte e manifestou a sua ressurreição. Em tudo isto, ofereceu sua própria humanidade como primícias, para que tu não desanimes no meio do sofrimento, mas, reconhecendo tua condição de homem, esperes também receber o que Deus lhe deu.”

- “Se obedeceres aos seus mandamentos e por tua bondade te tornares imitador daquele que é o Bem supremo, serás semelhante a Ele e Ele te glorificará. Deus que tudo pode e tudo possui te divinizará para sua glória.”

Firmemos nossos passos peregrinando na esperança, pois podemos contar com o Senhor que caminha conosco e conhece nossas fragilidades, debilidades e nos garante êxito na travessia, com sagrados compromissos com a vida em todos os seus âmbitos, para que da glória um dia merecedores sejamos, e contemplemos a face de Deus, na plena comunhão com o Filho e o Espírito Santo. Amém.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Não estamos sozinhos na “escuridão da noite”

                                                       

Não estamos sozinhos na “escuridão da noite”

No dia 29 de dezembro, na Liturgia da Missa, ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 2,22-35), em que Maria e José  apresentam o Menino Jesus no templo, quarenta dias após o seu nascimento, dando pleno cumprimento da Lei de Moisés.

Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Bispo São Sofrônio (séc VII) em alusão a este acontecimento:

“Todos nós que celebramos e veneramos com tanta piedade o Mistério do encontro do Senhor, corramos para Ele cheios de entusiasmo.

Ninguém deixe de participar deste encontro, ninguém recuse levar Sua luz.

Acrescentamos também algo ao brilho das velas, para significar o esplendor divino daquele que Se aproxima e ilumina todas as coisas; Ele dissipa as trevas do mal com a Sua luz eterna, e também manifesta o esplendor da alma, com o qual devemos correr ao encontro com Cristo.

Do mesmo modo que a Mãe de Deus Virgem imaculada trouxe nos braços a verdadeira luz e a comunicou aos que jaziam nas trevas, assim também nós: iluminados pelo Seu fulgor e trazendo na mão uma luz que brilha diante de todos, corramos prontamente ao encontro Daquele que é a verdadeira luz.

Realmente, a luz veio ao mundo (Jo 1,9) e dispersou as sombras que o cobriam; o Sol que nasce do alto nos visitou (Lc 1,78) e iluminou os que jaziam nas trevas.

É este o significado do Mistério que hoje celebramos. Por isso caminhamos com lâmpadas nas mãos, por isso acorremos trazendo as luzes, não apenas simbolizando que a luz já brilhou para nós, mas também para anunciar o esplendor maior que dela nos virá no futuro.

Por este motivo, vamos todos juntos, corramos ao encontro de Deus.

Chegou a verdadeira luz, que vindo ao mundo ilumina todo ser humano (Jo 1, 9).

Portanto, irmãos, deixemos que ela nos ilumine, que ela brilhe sobre todos nós. Que ninguém fique excluído deste esplendor, ninguém insista em continuar mergulhado na noite. Mas avancemos todos resplandecentes.

Iluminados, por este fulgor, vamos todos ao Seu encontro e com o velho Simeão recebamos a luz clara e eterna.

Associemo-nos a sua alegria e cantemos com ele um hino de ação de graças ao Criador e Pai da luz, que enviou a luz verdadeira e, afastando todas as trevas, nos fez participantes do Seu esplendor.

A Salvação de Deus, preparada diante de todos os povos, manifestou a glória que nos pertence, a nós que somos o novo Israel.

Também fez com que víssemos, graças a Ele, essa Salvação e fôssemos absolvidos da antiga e tenebrosa culpa.

Assim aconteceu com Simeão que, depois de ver a Cristo, foi libertado dos laços da vida presente.

Também nós abraçando, pela fé, a Cristo Jesus que nasce em Belém, de pagãos que éramos, nos tornamos povo de Deus – Jesus é, com efeito, a Salvação de Deus Pai – e vemos com nossos próprios olhos o Deus feito homem.

E porque vimos a presença de Deus, e a recebemos, por assim dizer, nos braços do nosso espírito, somos chamados de novo Israel.

Todos os anos celebramos novamente esta festa, para nunca esquecermos d’Aquele que um dia há de voltar.” (1)

Os Santos Padres da Igreja dizem que, nesta apresentação, Maria oferecia seu Filho para a obra da redenção, com a qual Ele estava comprometido desde o princípio.

Normalmente, contemplamos este acontecimento quando rezamos os Mistérios gozosos, que trazem em si o germe dos mistérios dolorosos, luminosos e gloriosos.

Vemos Simeão, homem justo e piedoso, no templo, anunciando a Maria que uma espada lhe transpassaria a alma, referindo-se à missão d’Aquela criança, luz das nações, Salvador de todos os povos, causa de queda e reerguimento de muitos:

“Agora, Senhor, deixai o Vosso servo ir em paz, segundo a Vossa Palavra. Porque os meus olhos viram a Vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de Vosso povo de Israel (Lc 2,29-32).”

Nos braços de Simeão, o Menino Jesus não é só oferecido ao Pai, mas também ao mundo…

Maria é assim a Mãe da humanidade. O dom da vida vem através de Maria.

Aquele que foi apresentado no templo é a luz do mundo e a  Salvação tão esperada, agora por Ele há de ser realizada, porque veio habitar no meio da humanidade a Luz de Deus enviada ao mundo, redenção da humanidade.

Acolhamos Jesus como nossa Luz e Salvação, e renovemos a alegria e o compromisso de anunciá-Lo e testemunhá-Lo ao mundo, porque pelo batismo somos sal da terra e luz do mundo!

Urge que façamos de nossa vida uma agradável oferenda ao Senhor, lembrando que oferta há de ser agradável sacrifício, celebrado no altar do Sacrifício do Senhor.

Ofertar nossa vida cotidianamente implica em sacrifícios, constantes renúncias, tomando nossa cruz, e, com serenidade e fidelidade, segui-Lo, até que um dia possamos fazer da cruz instrumento de travessia para a eternidade, para o céu.

Contemplando a Sagrada Família e acolhendo Jesus como nossa Salvação e nossa Luz, é tempo de sermos, no coração do mundo, sal e luz. 

Deus jamais nos deixará sozinhos na escuridão da noite.

Não há noite eterna para a Fonte de Luz eterna!

 

(1) Liturgia das Horas Vol. III pp.1236/7.

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