segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Morte: o eterno descanso (Finados)

                                                      

Morte: o eterno descanso

A morte nos inquieta e nos acompanha, irremediavelmente, desde a concepção: nascemos e inevitavelmente morreremos.

A morte consiste no fim da vida terrena, mas, para quem no Senhor vive e crê, prolonga-se na eternidade: d’Ele viemos, nos movemos e somos, e para Ele haveremos de voltar.

A morte é o apagar das luzes. Porém, ainda que vivamos sob as sombras da morte, um dia na luminosidade plena estaremos: céu.

Quando fugirem os últimos lampejos da vida, a morte, então será o eterno descanso para quem viveu em permanente combate, sem cansaços e esmorecimentos.

Ainda que do leito de morte não possamos nos livrar, poderemos viver o último sono, o sono dos mortos, mas despertos ao passar pela porta do céu.

Morrer é não mais estar submetido aos dias da semana, mas viver o “sábado eterno” do descanso em Deus, quando tudo foi consumado, a última cortina foi fechada, porque se exalou o derradeiro alento.

Quando sentirmos as asas da morte roçar-nos, frias, pela fronte, que seja o nosso ir para o céu; e indo para Deus, o desejado encontro no Seu tempo, orante e, vigilantemente, preparado.

Há o tempo de viver, há o tempo de morrer... Há o tempo para alar-se rumo à mansão celeste, tendo caído no seio frio da morte, e dormido o sono da noite sem hora, o sono do verdadeiro repouso, na mansão dos justos.

Que na hora da morte, no soar da hora fatal, durmamos em Deus e descansemos em paz, rumando para o céu, tendo todo esforço feito para não termos trilhado para o inferno, o lugar do não amor, da não vida, da não luz.

Cientes de que teremos que comparecer perante o tribunal de Deus, que não tenhamos vivido dias avaramente contados, empobrecidos e empobrecedores.

Quando a derradeira pulsação de vida se der com a morte, que o Senhor Se compadeça de nossa alma.

Quando tudo for consumado, e o canto do cisne seja o início de um canto de que não conhece fim, com todos os Anjos e Santos na eternidade, com palmas nas mãos, louvaremos e glorificaremos Aquele que tem poder sobre a vida e a morte: Jesus. Amém.

Quando partirmos... (Finados)

                          

Quando partirmos...

O que deixaremos?
O que permanecerá para sempre?

Partiremos para a última viagem sedentos do porto final, ao encontro do Absoluto, Deus; sequiosos de contemplá-Lo face a face.

Quando?
Não sabemos nem o dia nem a hora, já nos falou o Senhor.

Um itinerário para reflexão:

Primeiro momento:
Uma leitura bíblica: Carta aos Hebreus 13,1-8:

Segundo momento:
Comentário da passagem bíblica:

“Libertando o coração dos homens de todos os temores, Ele permite-lhes que vivam no amor, na pureza de coração, no desapego dos bens e na humildade recíproca.

Segundo uma outra interpretação, complementar da precedente, aquilo que de nós permanecer no fim da vida é tudo o que Deus terá podido realizar na nossa história, coroando os seus dons com a fidelidade à Aliança e o perdão dos nossos pecados.” (1)

Oremos:

Ó Deus, sois fiel a Vossa Santa e Eterna Aliança
selada pelo Amado Filho pelo Sangue na Cruz 
copiosamente vertido.

Peços-Vos que jamais me canse de multiplicar em minha vida,
os Vossos dons a mim confiados, pelo Espírito Santo; 
não obstante as fragilidades e imperfeições.

Que eu aprenda a cada dia viver no amor, 
para viver convosco, na comunhão com Vosso Filho, que nos revelou Vossa face de amor ao mundo.

Concedei-me a pureza de coração, pois sem ela
Jamais poderei vê-Lo, ainda que o desejo possua,
desapegado dos bens que passam,
abraçando afetuosa e decididamente os que não passam.

Que na humildade vivida, na obediência a Vós comprovada,
Deixe-me por Vossa Mão Divina, mais Belo Artista, modelar.

Que ao passar nesta breve e provisória existência                           
Permaneça o que Vosso Amor em mim realizar.

Que minha história e da humanidade inteira seja um sim
À abertura sincera e plena para que o melhor possas realizar. Amém!

Um canto para continuar a renovar as forças neste itinerário:
“Deixa-te modelar...”


(1) Lecionário Comentado - Tempo Comum – Editora Paulus - Lisboa - p.196 

As velas do navio estão levantadas... (Finados)

As velas do navio estão levantadas...

As velas do navio estão levantadas,
A âncora já foi silenciosamente recolhida.
Ele está pronto para a última travessia
Em outro porto alguém o espera.

O encontro definitivo tão ardentemente esperado,
A visão na experiência da fé vivenciada, testemunhada.
Glorificou a Deus com a própria vida, incansavelmente,
Ciente de que a glória de Deus é a vida do homem.

Uma vida consumida pelo Amor e com amor,
Configurou-se tanto ao Amado, que pôde dizer:
“eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim”
Teve d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos.

Ó Apóstolo, mestre e doutor das nações,
Acolho tuas palavras, não tão somente a Timóteo,
Mas a todo aquele que ainda está em travessia
No árduo combate da fé, para alcançar a coroa da glória um dia.

Árduo e bom combate da fé, do qual não se pode fugir,
Pois na vida de fé, quando não se avança, recua.
Não podemos fixar moradas no tempo presente,
Avançar sempre para águas mais profundas.

Vales e montanhas atravessar,
Voos do Espírito, ares novos respirar,
Lágrimas derramar, sementes regar,
Flores e frutos saborosos produzir.

Assim é nossa vida, quando não sucumbida na mediocridade,
Mas fundada na força da Palavra, nutrida pela Eucaristia.
Uma vida conduzida, iluminada, acompanhada pelo Santo Espírito;
Uma permanente travessia, superação até a última e necessária.

A última travessia: a morte e o Encontro dos Encontros.
Encontro com o Criador, Aquele pelo qual tudo foi criado;
Com Aquele que jamais Se separou do Amante e do Amado.
O Encontro com Pai, o Filho e o Santo Espírito – Divina Trindade.

A morte e a Páscoa, maior de todas as passagens.
A morte e a eternidade, a eternidade do tempo;
A morte e a plenitude, a plenitude do amor.
A morte e a morada, a mansão espiritual.

A morte e o descanso eterno, repouso na paz.
A morte e o Banquete, Banquete de alegria,
Vida, amor, paz, luz, ternura e divina bondade.
Assim vejo a travessia definitiva, início do eterno.

A morte, um epílogo do presente.
A morte, pelo Mistério da fé acreditada,
Não é o definitivo e trágico ponto final de uma história,
Mas o novo começo sem fim, onde o Sol Maior jamais se põe.

As velas do navio estão levantadas...



PS: Fonte inspiradora - 2Tm 4,6-8.17-18

A vida como uma bela passagem (Finados)


A vida como uma bela passagem

No mesmo instante em que ela subia aos céus, depois de tempos agonizantes, pela dor consumida, mas a fé até o último instante vivida, uma recém-nascida, a porta do elevador atravessava. Para cada um, cremos, um plano Deus tem, e a felicidade consiste em compreendê-lo e vivê-lo.

Para uma tudo terminava, para a outra tudo começava. Terminava? Para quem na Ressurreição do Senhor viveu e creu, de fato, eternamente começava, pois com Jesus Cristo e Sua morte, a morte da morte na Cruz, e também os que jaziam na mansão da morte foram libertos e à eternidade adentraram.

Para a outra, pequenina, no carrinho, ao sono dos anjos entregue, a vida apenas está começando, e que Deus a abençoe, para que tenha mesma graça da fé no coração plantada, o Senhor conhecer, n’Ele viver e crer, e um dia, passando pela morte, também eternamente viver.

Uma no leito deitada, na inconsciência da condição limite vivida, a outra inconsciente pela vida ainda não vivida. Uma dorme para acordar na eternidade, uma dorme para acordar e novamente dormir, até que um dia, também feche os olhos para sempre, para abrir na eternidade.

A primeira dá seu último suspiro, para exultar de alegria no outro lado, rompendo a margem da travessia, tendo a nau conduzido e agora chegando à eternidade. A segunda as primeiras respirações, os primeiros oxigênios invadem seu pequeno pulmão, são as primeiras batidas de seu coração.

Uma sobe para adentrar no céu, luminosidade e alegria plena. A outra desce para adentrar no mundo, para ser luz da Luz que a todos ilumina, e motivo de grande alegria: tão pequena, mas já tão amada, embalada, envolvida não apenas nos panos, mas na ternura e carinho.

Tudo isto, contemplei e vivi em alguns poucos minutos, que nunca me esquecerei... Uns partem para ficar para sempre no coração de quem os ama, na memória celebrada em cada Eucaristia. Outros chegam para continuar a história, e que sejam linhas de uma bela e sagrada história.

Finalizo com um dos Prefácios da Santa Missa, sobre a passagem de nossa vida:

“Em Vós vivemos, nos movemos e existimos e, durante a nossa vida terrena, sentimos em cada dia os efeitos da Vossa bondade e possuímos desde já o penhor da vida futura; tendo recebido as primícias do Espírito, pelo qual ressuscitastes Jesus Cristo de entre os mortos, vivemos na esperança da Páscoa eterna”.

“Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá”. (Finados)

                                               

“Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá”.
Enquanto ela não chega...

“Já me não pesa tanto o vir da morte.
Sei já que é nada, que é ficção e sonho, (Fernando Pessoa)

E que, na roda universal da Sorte,
Não sou aquilo que me aqui suponho.

Sei que há mais mundos que este pouco mundo
Onde parece a nós haver morrer.
Dura terra e fragosa, que há no fundo
Do oceano imenso de viver.

Sei que a morte, que é tudo, não é nada,
E que, de morte em morte, a alma que há
Não cai num poço: vai por uma estrada.
Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá.” 

Inevitavelmente a nossa frente ela se apresenta – “Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá”. Quando? Não sei. Que importa a hora? Ora, ora!
Enquanto ela não chega, embora vindo esteja, é tempo de viver. De dar conteúdo mais sólido e belo ao nosso existir.

Bem curta é a vida, para com futilidades perder e se perder.
É preciso ela, a vida, com intensidade e paixão renovada viver.

Bem curta é a vida para cansaços inúteis e estressantes que
Consomem nosso vigor e não mais caminhamos, cambaleamos...

Bem curta, muito curta é a vida, para divagar em conversas vãs e fúteis. Quero pauta nova, que me consuma, me prenda, me atenha...

Bem curta é a vida. Única e tão breve. Bem viver, carregando a cruz com o exato peso que ela tem, nem mais pesada nem mais leve. 

Que eu a leve, porque bem curta e muito curta a vida é. 

“Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá”.

Enquanto Ele não diz quero apenas viver.
Para Deus viver, bem como diz o canto:

“A minha vida é do Mestre
Meu coração é do meu Mestre
O meu caminho é do Mestre
Minha esperança é meu Mestre” 

A Morte da Morte: Ó bela passagem... (Finados)

                                                       

A Morte da Morte:
Ó bela passagem...
 
A morte como passagem!
Passagem para aonde? 
A fé me dá a melhor resposta:
Para a eternidade: coragem!
 
A morte como desmonte!
Desmonte de sonhos e projetos.
Desabrochados em outro tempo...
Além de um tangível horizonte!
 
A morte é o “não mais”!
O não mais ver, sentir, tocar e escutar...
Mas, com a fé na Ressurreição do Senhor,
Novo modo de estar, rompimento jamais!
 
A morte como estilhaçamento!
Estilhaçamento com dores e lágrimas vertidas.
Mas, secas pelo Amor que a vida eterniza,
Introduzindo no mais alto firmamento!
 
A morte que gera uma nova vida!
Nova vida presente no grão que na terra cai
Rompendo a esterilidade da eterna solidão
Em vida doada numa alegria incontida!
 
A morte como mergulho!
Mergulho na densa plenitude
Do amor do Amor Eterno,
Que venceu todo ódio e orgulho!
 
A morte como superação!
Superação de tudo que oprime,
Libertos abraçados pela Liberdade,
A nós possível pela Ressurreição!
 
A morte como acrisolamento!
Acrisolamento de belas virtudes,
Que nos leva ao abraço eterno
Sem mais dor, pranto, luto, lamento!
 
A morte como superação!
Superação de toda finitude vivida,
Da corrupção à incorrupção desejada,
Beleza desejada em plena revelação!
 
A morte como elevação!
Elevação do desejo no humano presente,
De condição mortal à imortalidade,
Aurora dos que buscam Salvação!
 
A morte como término!
Término das perturbações e intranquilidades,
Em doce paz tão ardentemente desejada,
Plenamente saboreada diante do Eterno!
 
A morte como fim da própria morte!
Fim da morte porque para imortalidade fomos criados!
Na morte do Autor e princípio da vida
Com Sua ressurreição o amor foi mais forte!
 
Após a morte a coroação!
Coroação para os que pela fé combateram,
Que no Senhor confiaram, viveram e não estremeceram.
Que fizeram de sua vida mistério de amor doação!
 
Além da morte, a certeza.
Certeza de que viver por Cristo não é em vão,
Porque a promessa um dia foi feita,
São eternos partícipes de Sua Mesa! Amém.
 

O mistério da dor e da morte no cuidado do rebanho (Finados)

                                                  

O mistério da dor e da morte no cuidado do rebanho 

Fiz esta reflexão em 2002, quando estava em trabalho missionário em Ministro Andreazza - RO. 

Retrata um dos momentos mais doloridos por mim vivido em todo o meu Ministério.

Foi diante da morte de duas crianças, que senti as limitações,  a impotência humana e a Onipotência Divina. Diante da morte quantas coisas caem por terra...

Não tenho dúvida, esta reflexão vai levar o leitor à mesma experiência.

Na 1.ª Epístola de Pedro (1Pd 5), aprendemos que devemos cuidar do rebanho por livre vontade, com sobriedade, autodomínio e oração, a fim de que tenhamos bom êxito em nosso Ministério.

O cuidado do rebanho, que se nos apresenta muitas vezes terrivelmente machucado, de coração dilacerado, exige dos Presbíteros especial atenção.

Refiro-me a situações extremadas de miséria, de abandono político, de exclusão em todos os aspectos… Refiro-me a uma situação limite de dor: um jovem casal, que não podendo ter mais filhos, perde os seus dois afogados (um de três e outro de quatro anos).

- Na Celebração das Exéquias, uma das mais duras experiências que vivi, como consolar o rebanho machucado, inquieto diante deste fato?

Diante daqueles corpos inertes, frios, a ausência de movimentos apontava para o movimento contínuo da eternidade: o céu, que é Amor de Deus em contínuo e infinito movimento…

A ausência de respiração nos asfixiava em busca do Sopro do Espírito, para compreender o porquê daquela triste, fria e dura imagem a nossa frente: dois pequeninos corpos no caixão.

A partida do convívio de seus pais era, com certeza, ao mesmo tempo, a entrada na Glória dos Céus; a despedida dos pais, e de todos nós, que chorávamos, era a saudação de chegada aos Anjos e Santos na Eternidade, diante de Deus nosso Criador.

Diante de tantas perguntas, tantas inquietações, até mesmo a revolta contra Deus, chegamos à certeza de nossa pobreza, de nossa limitação, de nossa provisoriedade e transitoriedade.

Aqueles corpos, moradas de barro a serem destruídas, davam a certeza de que para os que os ocuparam, há a garantia da posse da mansão espiritual, que nos fala o Apóstolo Paulo.

É fácil e cômodo cuidar do rebanho gordo, sadio… O desafio, para o Presbítero, é cuidar das ovelhas magras e machucadas, como nos fala o Profeta Ezequiel (Ez 34).

Finalizando, este extremo momento de dor no pastoreio, com certeza, é grão de trigo, que morre e assegura frutos novos de Deus, a partir do barro que somos em Sua Olaria.

Eis um verdadeiro encontro com Jesus: o trabalho missionário junto ao Povo de Deus. 

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG