sábado, 1 de agosto de 2026

O indizível Amor de Deus

                                                           

O indizível Amor de Deus

Celebramos no dia primeiro de agosto, a Memória de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo (séc. XVII), e a Liturgia das Horas nos apresenta um texto de suas obras, que nos fala sobre o que há de mais fundamental na vida cristã: o amor a Jesus Cristo.

“Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito.

Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. ‘Lembra-te, ó homem, – assim nos fala – que fui Eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e Eu já te amava. Desde que sou Deus, Eu te amo’.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao Seu Amor por meio de Seus dons. Eis por que disse:  'Quero atrair os homens ao meu Amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor'.

Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à Sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por Amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, O amasse.

Mas Deus não Se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-Se a Si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar Seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de Sua graça, que fez Ele?

Movido pelo imenso, ou melhor – como diz o Apóstolo – pelo seu demasiado Amor, enviou Seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com Ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a Seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com Ele? (Rm 8,32)".

Somos remetidos à passagem do Evangelho de João:

"Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o
Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16).

Contemplemos e correspondamos 
com palavras e obras ao imensurável, 
indescritível e  indizível Amor de Deus. 
Amemo-Lo como Ele nos ama, 
o quanto mais possamos. 
Amém.

“Se calarem a voz dos Profetas...”

                                                            

“Se calarem a voz dos Profetas...”
 
Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 14,1-12), em que Herodes manda cortar a cabeça de João Batista, num ímpio banquete de morte.
 
“Também na morte o Batista é ‘precursor’, e Jesus o põe em relevo. Esta morte é um típico exemplar do que muitas vezes acontece no mundo: a supressão violenta dos inocentes, dos verdadeiros heróis, por parte dos seres abjetos, cobertos de prestígio e poder, e por motivos inconfessáveis: ambição, cálculo, inveja, ciúme, falsa moral...
 
Triste espetáculo é ver-se a opinião pública (os convidados) assistir impassível, se não divertida, ao fato de exatamente o honesto, que corajosamente denuncia o adultério e a expoliação, ser trucidado pelos desonestos e delinquentes.
 
Cumpre criar uma opinião pública contrária, ter a coragem de desmascarar o erro de quem julga tudo lícito, porque pode fazê-lo com franqueza.
 
João não era inimigo de Herodes e este o estimava (Mc 6,20); no entanto, por covardia, fá-lo calar para sempre. Engano! Aquele martírio jamais se calará” (1)
 
João foi o último dos Profetas, e o Precursor do Senhor, tanto do nascimento, como de sua morte, ao derramar sangue por causa da Verdade e da incondicional fidelidade à Palavra do Senhor.
 
Ontem como hoje, Deus suscita profetas para falarem em seu nome, para serem a sua divina voz a denunciar tudo quanto fira a vida, roubando-lhe a beleza e a sua sacralidade, desde sua concepção ao seu declínio natural.
 
Vozes proféticas no campo e na cidade, em defesa de princípios éticos dos quais não podemos prescindir; denúncia de tudo aquilo que fomenta o consumismo, bem como a exploração de nossa Casa Comum, a Terra; vozes que não se calam em tantas outras situações que possam ser mencionadas.
 
Renovemos a graça da vocação profética, que Deus nos concedeu no dia de nosso Batismo, para termos a coragem de João Batista, em amor e fidelidade incondicional à vontade divina.
 
Lembremos as palavras de Santo Agostinho: João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.”
 
Um canto para finalizar: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão...”
 
 
(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p.1099
PS: Proclamado no sábado do 17º sábado do Tempo Comum, e oportuno para a Celebração da Memória do Martírio de São João Batista, quando se proclama a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 6,14-29).
 

Presbítero: homem da imersão e da emersão...

                                                          

Presbítero: homem da imersão e da emersão...

“Imerso no Amor para fazer emergir a vida...”

Em todo tempo, mas de modo especial na Quaresma, vivemos, como Igreja, o Tempo da graça e reconciliação; tempo de revisão e revigoramento de nossa fé na fidelidade ao Senhor, configurados a Ele, com renúncias necessárias, para carregarmos a nossa cruz de cada dia, rumo à Páscoa.

Eis o Itinerário que Presbíteros e fiéis são chamados a percorrer, tendo como meta a Ressurreição, pois se com Ele vivemos e morremos, com Ele também Ressuscitaremos.

Retomando as palavras do Papa Bento XVI, na Mensagem Quaresmal 2011, detenhamo-nos nesta afirmação:

 “A Transfiguração é o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus...”.  

Indubitavelmente, não poucos são os “boatos da vida quotidiana”, que podem nos afastar dos fatos que clamam a nossa solicitude, na fidelidade ao Cristo Bom Pastor, no exercício de nosso ministério. 

Convém ressaltar, que boatos aqui não são meramente fofocas, como se possa pensar, mas ruídos que interferem na escuta dos clamores do rebanho por Deus confiado.

Por “boatos”, também podemos entender a ditadura do relativismo, que o Papa tanto denunciou, onde as verdades se tornam transitórias, valores se tornam relativos, esvaziando de sentido os princípios, que deveriam nortear a existência da humanidade.

No início do Itinerário Quaresmal com o Senhor, vimos que “boatos” podem ser as propostas satânicas, que nos desviam do Projeto Divino, na realização de nossa vocação, quer Presbíteros ou não. 

São as tentações que Jesus venceu no deserto: ter, ser, poder – abundância, prestígio e domínio, respectivamente. 

Ceder a elas nos afastaria da graça de sermos instrumentos de Deus na construção do Reino, pois como bem disse o Bispo Santo Irineu (séc. I): 

“a nossa glória é perseverar e permanecer no serviço de Deus”.

Evidentemente, muitos outros “boatos” podem seduzir e enfraquecer a missão. Portanto, é sempre bom lembrar que somos anunciadores da Boa-Nova e não ouvintes e multiplicadores de “boatos”, que esvaziam o existir, destruindo a vida em todos os níveis.

Sem ouvidos a “boatos”, com distanciamentos necessários dos mesmos, o Papa nos convida para a imersão na presença de Deus. 

Quanto mais mergulharmos nos Mistérios de Deus, mais místicos o seremos, mais encarnada e densa de conteúdo será nossa espiritualidade, no compromisso com os empobrecidos desfigurados pelo caminho.

Como Presbíteros, com toda a comunidade, urge que nos coloquemos na presença de Deus, para que nosso coração seja configurado ao coração do Cristo  Bom Pastor, no cuidado do rebanho.

A imersão no Amor Divino é diretamente proporcional à emersão que somos chamados a realizar com toda a comunidade.

Imersos no Amor para fazer emergir a vida, vir à tona uma nova existência, uma nova Igreja, um Planeta mais bem cuidado e, consequentemente, mais amado.

Mais do que nunca, o Presbítero precisa ser o homem da imersão cotidiana e constante; o homem da Oração, do silêncio, da contemplação. 

Um homem que permita que a luz divina ilumine a caverna escura de sua existência, enfim, um homem imerso neste mar de misericórdia e luz; somente assim poderá ajudar a comunidade a fazer e viver a mesma experiência e realidade.

Uma das exigências que o povo tem para conosco, mais do que perceptível, é que sejamos homens imersos no Mistério do Amor de Deus, pois só assim conseguiremos ajudá-lo a encontrar luz também para sua existência.

O Povo de Deus não quer respostas prontas, mas quer ter a certeza de que o Presbítero é um homem que a Deus encontrou na pessoa de Jesus Cristo, por Ele vive uma paixão que se renova em cada instante de sua vida, deixando-se guiar pela luz do Santo Espírito. Que seja um homem de Deus e do povo, sem separação, distanciamentos e dicotomias.

Reflitamos:

- Em que consiste o Ministério Presbiteral, à luz da transfiguração do Senhor?
O que podemos compreender por “distanciar-se dos boatos da vida quotidiana”?

Como Presbíteros, o que é “imergir na presença de Deus”?

Homem do deserto e do oásis revigorante e saciador; homem do céu e da terra simultaneamente; homem da montanha e da planície corajosamente; homem da imersão e da emersão incansavelmente... 

Numa palavra: homem itinerante e Pascal.


PS: Texto escrito quando exercia o Ministério Presbiteral na Diocese de Guarulhos-SP

Vigilância e fecundidade Ministerial

                                           


Vigilância e fecundidade Ministerial


À luz das passagens da Sagrada Escritura (1Ts 3,7-13; Sl 89; Mt 24,42-51), reflitamos sobre a necessária vigilância a ser vivida pelo presbítero, a fim que viva um fecundo  ministério presbiteral, na espera do Senhor que vem.

Ciente de que o tempo é breve, deve suplicar a sabedoria divina nos discernimentos e decisões a tomar cotidianamente.

Deste modo, a sabedoria e vigilância devem estar sempre presentes em seu Ministério, e isto se dá quando:
 
- Vivencia a liturgia como profecia de Deus para cada dia;
- Abre-se à ação da graça de Deus em todo o seu viver na realização do Ministério que lhe foi confiado;
 
- Cultiva a espiritualidade: Palavra de Deus; Sacramentos; a oração  (Liturgia das Horas, Rosário); a vida e testemunho dos santos (de modo especial Presbíteros que viveram com zelo e ardor a vocação e missão); e a imprescindível devoção à Nossa Senhora;
- Vive a lógica da troca ou a lógica do Senhor Jesus;
 
- Não se deixar prender nas armadilhas do tradicionalismo ou progressismo exacerbado;
- Esforça-se para viver a gratuidade, menoridade (pequeno como uma criança, como falou Jesus) e o perdão;
 
- Ama e cuida dos pobres (enfermos, idosos, frágeis);
- Fortalece a amizade e fraternidade presbiteral;
 
- vive, “diocesanamente”, em espírito sinodal e alegre atitude de serviço;
- Não deixa apagar a chama do primeiro amor – reaviva a chama do dom de Deus ( 2 Tm 1,6) ; não abandona o primeiro amor ( Ap 2,4-5).
 
- Toma consciência, a cada dia, que “Sem amor não há liberdade, sem liberdade não há amor”.
- É para toda a comunidade um homem de fé, esperança e caridade: um peregrino por excelência, que não se acomoda e se incomoda para que o Reino de Deus se torne cada vez mais presente.
 
Súplicas sejam elevadas aos céus pelos presbíteros, para que, na comunidade, pela palavra e exemplo, sejam um incentivo para despertar santas e necessárias vocações, a fim de que a messe não pereça por falta de operários (Lc 10,2-21).
 
Oremos:
 
“Senhor da Messe e Pastor do Rebanho,
faz ressoar em nossos ouvidos Teu forte e suave convite:
“Vem e segue-me”.
Derrama sobre nós o Teu Espírito,
que Ele nos dê sabedoria para ver o caminho
e generosidade para seguir Tua voz. 
Senhor, que a messe não se perca por falta de operários.
Desperta nossas comunidades para a missão.
Ensina nossa vida a ser serviço.
Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino
na vida consagrada e religiosa. 
Senhor, que o rebanho não pereça por falta de pastores.
Sustenta a fidelidade de nossos bispos, padres e ministros.
Dá perseverança a nossos seminaristas.
Desperta o coração de nossos jovens
para o ministério pastoral em Tua Igreja. 
Senhor da Messe e Pastor do Rebanho,
chama-nos para o serviço de Teu povo.
Maria, Mãe da Igreja,
modelo dos servidores do Evangelho,
ajuda-nos a responder SIM.
Amém. (1)
 
(1) A abertura oficial do Ano Vocacional ocorreu no 20º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, em 24 de abril de 1983. E esta Oração Vocacional é rezada ainda hoje.
Se desejar, acesse e confira:
https://www.cnbb.org.br/jubileu-do-1d-ano-vocacional-do-brasil-1/
 
 
 

Consolidemos nossa vocação com a graça divina

                                                

Consolidemos nossa vocação com a graça divina

O mês de agosto é especialmente dedicado, pela Igreja, à reflexão sobre a graça da vocação a qual cada pessoa é chamada.

Vivendo a vocação como chamado de Deus e resposta nossa, é oportuna e inspiradora a afirmação de Santo Ambrósio (séc. IV), Bispo e Doutor da Igreja: “Do corpo de Deus brotou para mim uma fonte eterna; Cristo bebeu minhas amarguras para dar-me a suavidade de Sua graça”.

Quando somos envolvidos e enriquecidos pela suavidade da graça divina, temos a força necessária para a consolidação de nossa vocação e eleição, vivendo nosso batismo como autênticos discípulos missionários do Senhor.

Deste modo, a suavidade da graça divina nos acompanha para continuarmos a inquietante busca de caminhos para uma ação evangelizadora.

Esta mesma graça é abundantemente derramada em diversos acontecimentos, atividades pastorais, movimentos, comprometimentos sociais e políticos a fim da construção do Reino, a fim de edificarmos uma sociedade mais justa e fraterna.

Urge  criatividade e ardor na evangelização, acompanhado sobre a reflexão da vocação que Deus nos concede, para vivê-la em todos os âmbitos, dentro e fora da Igreja, reavivando as chamas da fé, do amor e da esperança, renovando a alegria de  nos colocarmos a serviço da vida plena e feliz para todos.

E ainda, para o revigoramento de nossa vocação, ressoem as Palavras do Apóstolo Pedro: “… Procurai com mais diligência consolidar a vossa vocação e eleição, pois, agindo desse modo, não tropeçareis jamais; antes, assim é que vos será outorgada generosa entrada no Reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pd 1,11), “ como pedras vivas e escolhidas de Deus” (1Pd 2,1-3).

Envolvidos pela suavidade da graça divina, que nos é derramada abundantemente, é, mais do que nunca, ocasião favorável para consolidação de nossa fé, vocação e eleição, renovando sagrados compromissos com o Reino de Deus, com o ardor,zelo e a alegria.

Tendo o Senhor “bebido nossas amarguras”, e nos comunicado, em cada instante, a suavidade de Sua graça, consolidaremos nossa vocação e eleição; tão somente assim, Ele verá Sua face resplandecendo em cada um de nós, que aceitou o Seu chamado, e prontamente respondeu, deste modo, enfrentaremos e venceremos os momentos difíceis em diversos campos (econômico, político, social), que estamos vivendo.

Oração para o mês vocacional

 

Edifiquemos a Igreja, a casa da misericórdia

                                                             

Edifiquemos a Igreja, a casa da misericórdia

"A Igreja é a casa da misericórdia e também a ‘terra’
onde a vocação germina, cresce e dá fruto”.

Iniciamos o mês Vocacional, e temos a possibilidade de um aprofundamento da vocação cristã.

Retomemos as palavras do Papa Francisco em sua mensagem para o 53º Dia Mundial de Oração pelas Vocações (2016) com o tema «A Igreja, mãe de vocações»:

Como gostaria que todos os batizados pudessem, no decurso do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, experimentar a alegria de pertencer à Igreja! E pudessem redescobrir que a vocação cristã, bem como as vocações particulares, nascem no meio do povo de Deus e são dons da misericórdia divina! A Igreja é a casa da misericórdia e também a ‘terra’ onde a vocação germina, cresce e dá fruto”.

Deste modo, sendo a família uma espécie de Igreja doméstica, também precisa redescobrir sua sagrada missão de gerar e formar novos cristãos comprometidos com a causa do Reino de Deus, inaugurado por Jesus. Neste sentido, papel fundamental têm os pais, como os primeiros educadores de seus filhos, plantando no coração destes a semente da fé e da Palavra divina, para que germine, cresça e frutos copiosos produzam.

Não nos faltam, como Igreja, espaços e momentos para que vocações sejam cultivadas e floresçam: os grupos de reflexão, onde se aprofunda a Palavra e se estabelece vínculos de amor, comunhão, partilha e solidariedade; bem como a redescoberta da experiência da Leitura Orante, quando em comum se faz a leitura, meditação, oração e contemplação, a partir da Palavra de Deus, fonte de luz e alegria e da vida plena que tanto ansiamos.

Urge que sejam fortalecidos a fé de tantos cristãos comprometidos com a construção de um mundo novo, marcado por relações de fraternidade, justiça, direito, partilha e solidariedade, contrapondo-se à realidade marcada pela injustiça, egoísmo, ganância, injustiças, corrupção, degradação da vida e do planeta, perda de princípios éticos com consequências penosas para a vida de milhões de pessoas.

Cremos que a vocação cristã se exerce de forma sublime na participação política, como já acenara o Papa São Paulo VI. E ainda que a vocação cristã na política não se esgote apenas em período eleitoral.

Concluindo, peçamos ao Senhor da messe que nos envie operários, para que o rebanho não pereça por falta de pastores. Dentro e fora do campo da Igreja, precisamos de autênticos discípulos missionários, que se abram para o mundo, em alegre e convicto anúncio, testemunho de vidas marcadas pela doação, amor e serviço, sendo d’Ele irradiadores de luz, promotores da vida plena e feliz, como sinal do Reino.

Quanto mais compreendermos que a vocação é dom da misericórdia divina a nós confiado, muito maior será nosso esforço e compromisso com a Boa-Nova do Reino, iluminados pela Palavra de Deus e revigorados pelo Pão da Eucaristia.

A missão do Presbítero no cuidado do rebanho

                                                              

A missão do Presbítero no cuidado do rebanho

Reflexão a partir da passagem da Carta do Apóstolo Pedro (1Pd 5,1-4), sobre a missão dos Presbíteros junto ao rebanho que lhes foi confiado pela Igreja:

“Exorto aos presbíteros que estão entre vós, eu, presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que será revelada: Sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, não por coação, mas de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho. Assim, quando aparecer o Pastor Supremo, recebereis a coroa permanente da glória.”

Fundamental que o Ministério Presbiteral seja um salutar testemunho dos “sofrimentos de Cristo”, na esperança da participação de Sua “glória que será revelada”.

Quanto mais o Presbítero tiver maturidade e coragem de viver a dimensão Pascal do Ministério, aberto à graça divina, colocando sua fraqueza nas mãos divinas, mais fecundo este será, e a alegria Pascal tornar-se-á um testemunho notado e compartilhado por toda a comunidade a que serve.

Viver o Ministério na Dimensão Pascal, é viver intensamente o Mistério da Paixão e Morte do Senhor, para com Ele ressuscitar: morrer e ressuscitar todos os dias, e em todos os momentos.

Deste modo, poderá cuidar do rebanho e as exortações do Apóstolo se fazem sempre presentes em sua vida, em permanente vigilância e oração, até que mereça receber a “coroa permanente da glória”:

“sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós”;
- “cuidai dele, não por coação, mas de coração generoso;

- “ não por torpe ganância, mas livremente”;
- “não como dominadores daqueles que foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho”

Note-se, que as tentações enfrentadas por Jesus no deserto, encontram-se implícitas nas palavras do Apóstolo, ou seja, as tentações do ter, poder e ser (acúmulo, domínio e privilégio, respectivamente).

Oremos por todos os Presbíteros, a fim de que as palavras do Apóstolo se façam presentes em seu Ministério, e assim, bem conduzam o rebanho do Senhor a eles confiado, contando sempre com a luz e a assistência do Espírito Santo.

Presbítero: graça e missão

                                                       

Presbítero: graça e missão
 
“Irmãos, cuidai cada vez mais de confirmar a vossa vocação e eleição. Procedendo assim, jamais tropeçareis. Desta maneira vos será largamente proporcionado o acesso ao reino eterno de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2Pd 1,10-11)
 
Reflexão sobre o Ministério Presbiteral à luz das passagens bíblicas do Livro do Levítico (Lv 13,1-2.44-46) e do Evangelho de Marcos  (Mc 1,40-45).
 
Acometido pela lepra, a pessoa vivia uma situação dramática; e esta enfermidade era utilizada para caracterizar todo tipo de sofrimento relativo à pele, que deforma a aparência da pessoa. Era o que havia de mais grave sobre “impureza”.
 
Reflitamos sobre como conceber o Ministério Presbiteral, para que seja a expressão da misericórdia divina.
 
Deus não exclui, ao contrário integra a todos na comunhão mais que querida. Esta foi a ação de Deus no Antigo e no Novo Testamento através da prática do Amor Encarnado, Jesus Cristo.
 
Jesus acolhe com Amor: toca, cura, liberta, renova, restaura, reintegra aquele homem acometido de terrível mal que o condenava como pecador, marginalizado, amaldiçoado, excluído, indigno, fora da Bênção de Deus, numa palavra, um pecador maldito.
 
A prática de Jesus confirma a lógica de Deus que não marginaliza ninguém, e bem diferente é a lógica humana, que de modo geral vai noutro sentido.
 
Jesus com Sua prática Se contrapõe àquilo que em nome de Deus cria mecanismos de rejeição, exclusão e marginalização.  Ele é a manifestação da compaixão, do Deus cheio de Amor.
 
O gesto de Jesus revela Amor e solidariedade. Com a cura do leproso, e outros sinais é a certeza de que o tempo se completou, o Reino de Deus se faz presente no meio dos homens, sem racismos, exclusões.
 
A cura do leproso é a chegada de um novo tempo inaugurado por Jesus, que toma para Si as dores e sofrimentos de toda a humanidade.
 
Note-se que o leproso curado ao ser enviado ao templo para confirmar a sua cura, imediatamente se põe a anunciar as maravilhas alcançadas.
 
Também o Apóstolo Paulo fez o caminho de conversão. De ser escolhido amado e enviado por Deus. Sua vida nos ensina que Jesus é modelo de obediência e entrega, e o tem como fonte de vida. Assim deve fazer todo cristão. Para o Apóstolo o amor por Jesus torna tudo relativo e Ele é a fonte da mais madura liberdade.
 
Paulo, pelo amor que tudo subordina, faz da própria vida um dom. Assim deve ser a vida do discípulo missionário do Senhor. Assim deve acontecer com todo aquele que se sente acolhido, amado, tocado, curado, perdoado, liberto pela ação misericordiosa de Deus: tornar-se um alegre discípulo missionário do Reino.
 
Na passagem do Evangelho, vemos que no mesmo instante que foi curado, pelo poder curador de Deus, através de  um simples contato humano, que se trata, no entanto, de um gesto corajoso do Filho de Deus para restituir a vida a um homem desesperado.
 
Este gesto servirá de testemunho, pois o leproso curado não poderá calar o amor que lhe restituiu a vida.
 
Da mesma forma, todo o Presbítero, é por excelência o homem que experimentou o particípio do Amor de Deus e é chamado para prolongar tantas maravilhas em infinitivos infinitos.
 
O Padre é alguém que foi chamado por Deus; acolhido, escolhido, amado, curado, tocado, formado, ordenado, consagrado, enviado...
 
Assim foi como acolhido, acolher cada irmão e irmã, sem nenhuma discriminação ou preferência para ajudar o Povo de Deus a perceber o quanto também Deus os escolheu para produzir frutos saborosos nesta Vinha que é a própria Igreja, com podas necessárias, como bem nos fala o Evangelho de São João (Jo 15).
 
Assim como foi por Deus amado, é o Ministro do Amor por excelência. Se não comunicar e não testemunhar o amor está condenado a viver um Ministério sem vida, alegria, sabor, graça e sentido.
 
Assim como foi curado, e o é todos os dias, em cada Eucaristia é o Ministro da cura de tantos males que roubam a alegria e a vida do rebanho a ele confiado.  Ministro da cura por excelência, Ministro da cura porque comunicador da vida nova do Espírito.
 
Assim como foi tocado um dia por um amor em forma de chama, deve a todos tocar, com sua palavra e gestos, a vida de cada membro da comunidade. Não poderá ser o gélido toque de quem não crê; nada espera e não ama de verdade, sem nenhum outro interesse a não ser o pleno cumprimento da Lei.
 
Teve a graça de ser formado, teve a graça de aprofundar a sabedoria como saber, soma de conhecimentos, mas tem que ser formado na sabedoria como sabor; sabor de vida, ternura, dignidade, perdão, paz, fraternidade, comunhão. Há a sabedoria do saber, mas há a sabedoria do sabor, na qual os pequenos são preciosos mestres.
 
Com o Sacramento da Ordem não pode ter nenhuma tentação de prestígio, poder, sucesso, riqueza. 
 
Contempla o Amor de Deus que a todos acolhe sem excluir ninguém do Seu convívio, da Sua bondade, e deste modo, é ordenado para arrebanhar, conduzir, santificar, ensinar, governar. 
 
Deve conduzir o rebanho para verdes pastagens, como homem do Banquete Eucarístico e da Palavra que fortalece, orienta e ilumina.
 
Como consagrado e enviado tem uma missão especial: é enviado para comunicar a semente do Verbo; espalhar Boa Nova do Evangelho em tantos corações; Enviado para que ensine e ajude a humanidade a viver tudo o que Jesus nos ensinou (Mc 16, 19)
 
Assim fez Jesus para com o leproso, assim haverá de fazer todo discípulo Seu, e de modo especial aquele a quem Ele chamou para ser Presbítero de Sua Igreja.
 
Deste modo, o Presbítero é para toda a comunidade um alegre testemunho de quem foi também por Deus amado e curado, e a comunidade vendo assim o presbítero, também se sentirá amada e encorajada a fazer o mesmo caminho, celebrando devotamente a Eucaristia.
 
Ele é alguém que se sente amado para amar muito mais do que para ser amado, na mais bela e fecunda expressão do Mandamento que nosso Senhor nos deixou: amar a Deus e ao próximo como Ele nos amou.
 


Luzes para o Ministério Presbiteral

                                                   

Luzes para o Ministério Presbiteral

À Luz das leituras bíblicas (Rm 2,1-11 e Lc 11,42-46), vejamos quais são as luzes que aparecem para o Ministério Presbiteral.

Diante dos “ais” que Jesus dirigiu aos fariseus e mestres da lei, concluímos que o Presbítero, e todo aquele que se propõe a seguir o Senhor, têm diante de si algumas imprescindíveis exigências:

- Superar todo formalismo religioso:

A prática de rituais, a soma de momentos de oração, contabilizada ou por obrigação realizada, não é suficiente. 

É preciso a prática do amor e da justiça. Nada é agradável ao Senhor se não for precedido e movido pelo amor, princípio de todo nosso agir, essência e identidade divina e daqueles que a Ele querem se consagrar.

Ninguém deve se colocar a serviço do Senhor procurando as honras, os primeiros lugares, os títulos por si mesmos, privilégios, fama ou coisas semelhantes, pois são atitudes abomináveis pelo Senhor!

O que importa é o humilde e dedicado serviço; fazer para Deus e não para ser visto, nem para ser elogiado; mover-se pela pura e simples gratuidade, pela absoluta humildade, numa indescritível alegria em servir.

Celebrar com o mesmo ardor numa catedral lotada, como numa capela com uma dezena de pessoas; na capela de uma periferia ou de uma área de missão (tive a graça de três anos de Missão em Rondônia – 2000 a 2002).

A Eucaristia é o grande Mistério, merecendo, portanto, todo o empenho, entrega, zelo, dedicação e esmerada espiritualidade.

Se não nos empenharmos em belas Eucaristias, em que nos empenharemos? 

Que a vida seja expressão da Eucaristia que celebramos!

- A pureza interior e a coerência necessária:

Deus pede que nosso exterior revele aquilo que somos. Não podemos fazer da vida um palco; tão pouco do Presbitério. 

Não somos atores do Senhor, mas servos! Inúteis servos. Não nos cabem máscaras, representações. Devemos viver o que pregamos, encurtando toda a distância entre o discurso e a prática.

As roupas eclesiásticas que usamos hão de ser belas; como bela é a vida que testemunhamos. Se ainda não forem tão belas, supostamente simples, despojadas, de sandálias, não podem ser disfarce, mas devem revelar o santo ideal da pobreza que queremos expressar.

Quer com a melhor batina ou casula, quer com trajes mais humildes, devemos ser a imagem perfeita do Cristo; outro Cristo: Servo pobre, obediente e fiel, que fez do Reino a Sua grande riqueza.

Ele que tinha condição divina, a nada Se apegou, como nos falou o Apóstolo Paulo, de tudo Se esvaziou, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz (Fl 2,1-11).

Haveremos de o mesmo fazer, os Seus mesmos sentimentos ter e viver.

- Não sermos peso sobre o povo:

O povo deve ser amado, ajudado no seu desenvolvimento integral, e para que assim aconteça, o Presbítero deve deixar-se envolver e ser ao mesmo tempo testemunha  misericórdia divina.

Quando misericordiosos, poderão ouvir de Jesus estas palavras: Vinde a mim porque Sou manso e humilde de coração... Vinde a mim vós que estais cansados e fatigados, porque Meu fardo é leve e meu jugo é suave!” (Mt 11,28-30).

Urge que estas  atitudes estejam presentes na vida do Presbítero, para que sejam sempre iluminados e iluminadores, afastando toda treva que teime em subsistir, como nos falou o Abade São Columbano (séc. VII): “Que Tu, Cristo, dulcíssimo Salvador nosso, Te dignes acender nossas lâmpadas, de modo a refulgirem para sempre em Teu templo, receberem perene luz de Ti,que és a luz perene, para iluminar nossas trevas e afugentar de nós as trevas no mundo”.

E, com o Abade São Máximo (séc. VII), concluímos: “Só Ele  Jesus), qual lâmpada, desfaz a escuridão da ignorância, repele o negrume da  maldade e do vício”
                                                         
Quando Presbíteros e fiéis vivem a misericórdia, o Amor de Deus arde em nós e Sua luz ilumina todo o mundo. 

Para sermos luz Deus nos criou: 
“Vós sois a luz do mundo! Vós sois o sal da terra” (cf. Mt 5,13-16).

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG