domingo, 30 de março de 2025

Fortalecidos pela oração

                                                   

Fortalecidos pela oração

“Seja todo o fio da oração singelo, sem multiplicação e elegância de muitas palavras, pois somente com uma se reconciliaram com Deus o publicano do Evangelho e o filho pródigo.”

Na Quaresma, a Igreja nos convida à prática de três exercícios: oração, jejum e esmola.

Acolhamos a reflexão de São João Clímaco, que muito pode nos ajudar no aprofundamento da oração agradável a Deus:

“A oração segundo sua condição e natureza, é a união do homem com Deus; mas segundo seus efeitos e operações, oração é vigia do mundo, reconciliação com Deus, mãe e filha das lágrimas, perdão dos pecados, ponte para atravessar as tentações, muro contra as tribulações, vitória nas batalhas, obra dos Anjos, sustento das substâncias incorpóreas, deleite da alegria vindoura, obra que não se acaba, fonte de virtudes, procuradora das graças, aproveitamento invisível, sustentáculo do espírito, luz do entendimento, coação da desesperação, argumento da fé, desterro da tristeza dos monges, tesouro dos solitários, diminuição da ira, modelo de aproveitamento, indício da medida das virtudes, manifestação de nosso estado, revelação das coisas vindouras e significação da clemência divina aos que perseveram chorando nela.

Tudo isto se diz ser a oração, porque ajuda ao homem em todas as coisas, pedindo e alcançando a caridade, a devoção e a graça, as quais nos administram todas as coisas.

A oração, para aqueles que oram corretamente, é um espiritual juízo e tribunal de Deus, que antecede o tribunal do juízo vindouro; porque ali o homem se conhece, se acusa e se julga para dispensar o juízo e a condenação de Deus, conforme disse o Apóstolo.

Levantemo-nos, pois, irmãos, ouçamos esta grande auxiliadora de todas as virtudes, que com alta voz clama e diz: ‘Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados, que Eu  vos animarei’. Tomai sobre vós o meu jugo, e encontrareis descanso para vossas almas, e remédio para vossas chagas, porque meu jugo é suave, e cura ao homem de grandes chagas.

Aqueles dentre nós que chegamos a falar e participar diante de nosso Deus, não façamos isto despreparados; porque fitando-nos Aquele longânime e misericordioso Senhor, sem armas e sem vestes dignas de Seu real acatamento, não mande Seus criados e ministros que nos desterrem de Sua presença atados de mãos e pés, e nos deem em face com a negligência e interrupção de nossas orações.

Quando fores apresentar diante da face do Senhor, procura levar a veste de tua alma costurada com o fio daquela virtude que se chama esquecimento das injúrias; porque de outra maneira nada ganharás com a oração.

Seja todo o fio da oração singelo, sem multiplicação e elegância de muitas palavras, pois somente com uma se reconciliaram com Deus o publicano do Evangelho e o filho pródigo.

O Estado dos que oram é um; porém nele existe muita variedade e diferença de Orações. Porque existem alguns que comparecem diante de Deus como diante de um amigo e Senhor familiar, oferecendo-lhe Orações e louvores, não tanto pela sua própria salvação como pela dos outros, como fazia Moisés.

Outros, por sua vez, pedem-lhe maiores riquezas, maior glória e confiança. Outros pedem com insistência para serem livres do inimigo. Alguns pedem honras e dignidades; outros perfeita quitação de suas dívidas; outros, ser livres do cárcere desta vida; outros desejam ter que responder as acusações e objeções do divino juízo.

Diante de todas as coisas coloquemos no primeiro lugar de nossa oração – que é a entrada dela – uma sincera ação de graças; e em segundo lugar suceda a confissão e contrição (dos pecados), que brote no íntimo afeto de nosso coração; e depois destas duas coisas expressemos nossas necessidades ao nosso Rei, e façamos-Lhe nossas petições.

Esta é uma boa ordem e maneira de orar, a qual foi revelada por um Anjo a um dos monges.” (1)

São João Clímaco foi um monge do Monte Sinai (séc. VII), e deve o seu codinome a um livro de sua autoria – “Escada para o paraíso”.  Clímaco é uma alusão à palavra “klímax”, que em grego significa escada.

Em “Escada para o Paraíso”, a escada é um resumo da vida espiritual, concebida para os solitários e contemplativos, uma obra que influenciou a conduta de vários religiosos, tanto no Ocidente quanto no Oriente.

São João Clímaco explica que existem 30 degraus a serem galgados, para que se atinja a perfeição moral (alusão à escada de Jacó – Gn 28,12).

Para o Monge, a oração é a mais alta expressão da vida solitária; desenvolvendo-se pela eliminação das imagens e dos pensamentos.

Esta reflexão renova em nós o gosto pela oração, “o fio da virtude” de nossa vida, para que bem possamos nos apresentar diante do Senhor, sempre de coração puro, sem multiplicação de palavras, e/ou com palavras elegantes, mas de pouco valor.

Bem disse o Senhor que, quando rezarmos, não precisamos multiplicar palavras, e ainda: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo, e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6,6).

Façamos da Quaresma um tempo favorável de salvação, acompanhado de autêntica, frutuosa, sincera e confiante oração diante de Deus.


(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – p. 306-308 - Memória celebrada no dia 30 de março.


Nenhum comentário:

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG