domingo, 30 de março de 2025

“Livrai-nos, Senhor, da cegueira do coração” (IVDTQA)

                                                     


“Livrai-nos, Senhor, da cegueira do coração” 

Aprofundando a Liturgia do 4º Domingo da Quaresma (ano A), que nos apresenta a passagem do Evangelho de João (Jo 9,1-41), sobre o sinal que Jesus realiza, curando o cego de nascença, sejamos enriquecidos com este Comentário escrito pelo Diácono e Doutor da Igreja, Santo Efrém (séc. IV).

“Jesus foi ao encontro de um homem cego de nascença: os discípulos perguntaram a Jesus: Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais? Jesus respondeu: Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso é para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que realizemos as obras d’Aquele que me enviou, enquanto é dia, enquanto Eu estou com vocês. Vem a noite, e o Filho será exaltado, e vós, que sois a luz do mundo, desaparecerão, e não haverá mais milagres por causa da incredulidade.

Dizendo isto, fez barro com Sua saliva e a aplicou sobre os olhos do cego. E a luz brotou da terra, como ao princípio, quando a sombra do céu, a treva cobria tudo e Ele ordenou a luz que surgisse da escuridão.

Desta forma, Ele formou a lama com a saliva, e curou o defeito que existia depois do nascimento, para mostrar que Ele, cuja mão completava o que faltava à natureza, era precisamente Aquele cuja mão deu forma à criação no princípio. E como se recusam a crer que Ele era anterior a Abraão, com esta obra provou que era o Filho do Homem que, com a Sua mão, formou o primeiro Adão da terra: na verdade, Ele curou a tara do cego com os gestos do próprio corpo.

Também fez isso para confundir aqueles que dizem que o homem é feito de quatro elementos, porque refez os membros imperfeitos com terra e saliva, fez isso para utilidade daqueles que buscavam milagres para crer: Os judeus buscam milagres. Não foi a piscina de Siloé que abriu os olhos do cego, como não são as águas do Jordão que purificam a Naamã: é a ordem do Senhor que tudo faz. Ainda mais: não é a água de nosso batismo que nos purifica, mas os nomes que se pronunciam sobre ela.

Ele ungiu os seus olhos com barro, para que os fariseus limpem a cegueira do coração. Quando o cego partiu no meio da multidão e perguntou: ‘Onde fica Siloé?’, levava a vista de todos os olhos untados. As pessoas o interrogavam e ele lhes dava a informação; elas o seguiam para ver se os seus olhos continuavam abertos. Aqueles que viam a luz material estavam conduzidos por um cego que viu a luz do Espírito; e, em sua noite, o cego era conduzido por aqueles que viam exteriormente, mas que estavam espiritualmente cegos.

O cego lavou o barro dos seus olhos, e enxergou-se a si mesmo; outros lavaram a cegueira de seu coração, e se examinaram a si mesmo. Deste modo, abrindo exteriormente os olhos de um cego, nosso Senhor abria secretamente os olhos de muitos outros cegos.

Aquele cego foi um belo e inesperado tesouro para nosso Senhor: através dele, adquiriu numerosos cegos que desta maneira também curou da cegueira do coração. Nestas poucas Palavras do Senhor estão escondidos tesouros admiráveis, e nesta cura foi esboçado um símbolo: Jesus, Filho do Criador.

Vai e lava o teu rosto. Para evitar que alguém considere aquela cura mais como um estratagema do que como um milagre, Ele o mandou lavar-se. Disse isso para mostrar que o cego não duvidava do poder de cura do Senhor, e porque, caminhando e falando, manifestasse o acontecimento e mostrasse sua fé.” (1)

Oremos:
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai nossa cegueira do coração, que consiste na cegueira espiritual de não vermos o mundo com os Vossos olhos de misericórdia, amor e bondade.

Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, dai-nos, por Vossa graça, o colírio da fé, para que, de mãos dadas com a esperança, na vivência da virtude da caridade, sejamos sinais de Vossa presença.

Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, vivendo momentos tão difíceis com a pandemia do novo coronavírus, iluminai nossas mentes e coração para sábias e necessárias decisões e compromissos.

Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai nossa cegueira, para que consigamos enxergar o Caminho que sois Vós, para continuar carregando nossa cruz de cada dia, sem desânimo ou desespero.

Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, concedei sabedoria e luz para todos os profissionais da saúde, livrando-os de toda enfermidade, para cuidarem dos enfermos a eles confiados.

Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai os olhos de todas as lideranças religiosas e sociais, para que cuidem e promovam, com serenidade e sabedoria, o necessário cuidado com a vida de todos. Amém.

“Pai Nosso que estais nos céus...”



(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.66-67
PS: Escrito em março de 2020

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