Do
pecado da concupiscência, livrai-nos, Senhor
“Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não
está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – o desejo da carne, o
desejo dos olhos e a ostentação da riqueza, não vem do Pai, mas do mundo. Ora,
o mundo passa, e também o seu desejo, mas aquele que faz a vontade de Deus,
permanece para sempre” (1 Jo 16-17)
Vivendo o Tempo da quaresma,
somos convidados a refletir sobre o pecado da concupiscência, que consiste na inclinação para o pecado a que todos
estamos submetidos.
O Catecismo da Igreja, em
diversos parágrafos, nos enriquece neste aprofundamento (1).
Como vimos na citação acima, São
João distingue três espécies de cupidez ou concupiscência:
-A
concupiscência da carne;
- A
concupiscência dos olhos;
- A soberba
da vida.
Vejamos
como compreender esta inclinação para o pecado?
- “No batizado permanecem, no
entanto, certas consequências temporais do pecado, como os sofrimentos, a
doença, a morte, ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de
carácter, etc., assim como uma inclinação para o pecado a que a Tradição chama concupiscência ou, metaforicamente,
a «isca» ou «aguilhão» do pecado («fomes
peccati»)...” (n. 1264);
- “...No entanto,
a vida nova recebida na iniciação cristã não suprimiu a fragilidade e a
fraqueza da natureza humana, nem a inclinação para o pecado, a que a tradição chama concupiscência, a qual persiste nos
batizados, a fim de que prestem as suas provas no combate da vida cristã,
ajudados pela graça de Cristo (Concílio de Trento). Este combate é o da conversão, em vista da santidade e
da vida eterna, a que o Senhor não se cansa de nos chamar (Concílio de Trento).”
(n. 1426);
-“Em sentido etimológico,
«concupiscência» pode designar todas as formas veementes de desejo humano. ...
Desregra as faculdades morais do homem e, sem ser nenhuma falta em si mesma,
inclina o homem para cometer pecado (Concílio de Trento).” (n.2515);
Assim compreendemos a tradição
catequética católica, que no nono mandamento proíbe a concupiscência carnal; e
no décimo, a cobiça dos bens alheios, e como batizados recebemos a graça da purificação
de todos os pecados.
No entanto, o batizado tem de
continuar a lutar contra a concupiscência da carne e os desejos desordenados,
contando com a graça divina no combate aos movimentos da concupiscência que não
cessam de nos arrastar para o mal (n.978):
- Pela virtude e pelo dom da
castidade, pois esta permite amar com um coração reto e sem partilha;
– Pela pureza de intenção, que
consiste em ter em vista o verdadeiro fim do homem: com um olhar simples, o
batizado procura descobrir e cumprir em tudo a vontade de Deus (Rm 12,2; Cl
1,10);
– Pela pureza do olhar, exterior
e interior; pela disciplina dos sentidos e da imaginação; pela rejeição da
complacência em pensamentos impuros que o levariam a desviar-se do caminho dos mandamentos
divinos: «a vista excita a paixão dos insensatos» (Sb 15, 5);
– Pela oração – vejamos o que
nos diz Santo Agostinho nas Confissões:
«Eu pensava que a continência dependia
das minhas próprias forças, forças que em mim não conhecia. E era
suficientemente louco para não saber [...] que ninguém pode ser continente, se
Tu lho não concederes. E de certo Tu o terias concedido, se com gemido interior
eu chamasse aos teus ouvidos e se com fé sólida lançasse em Ti o meu cuidado»”
Ainda sobre o pecado, afirma o
Catecismo: “... o pecado torna os homens
cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e
a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à
Bondade divina; as «estruturas de pecado» são expressão e efeito dos pecados
pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal.
Constituem, em sentido analógico, um «pecado social» (Papa São João Paulo II).”
(n.1869).
Como vemos, a
inclinação para o pecado pode favorecer situações de pecado, que ultrapassam as
relações humanas, provocando situações sociais de pecado, ou até mesmo em sua
máxima expressão – “estruturas de pecado”:
desestruturação de famílias, fome, miséria, destruição planetária, dominações e
morte de vidas humanas e de toda a Casa Comum, como a Campanha da Fraternidade
tanto nos ajuda a compreender e nos compromete, com seu tema – “Fraternidade e Ecologia Integral”, e
lema – “A esperança não decepciona”
(Rm 5,5).
Do pecado da
concupiscência, livrai-nos, Senhor. Amém.
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