sábado, 20 de junho de 2026

“Por fora, luta; por dentro, temores” (XIIDTCA)

 


“Por fora, luta; por dentro, temores”

Sejamos enriquecidos pelo comentário sobre o Salmo 118, escrito pelo bispo e doutor da Igreja, Santo Ambrósio (séc. IV).

Todos os que querem viver piedosamente em Cristo, sofrerão perseguição. O apóstolo escreveu “todos”, não excluiu nenhum. Pois quem pode ser excluído quando o próprio Senhor tolerou as tentativas de perseguição? A avareza persegue, a ambição persegue, a luxúria persegue, a soberba persegue e os prazeres da carne perseguem. Não esqueças que o apóstolo disse: fugi da fornicação. E do que tu foges, senão daquilo que te persegue? O mau espírito da luxúria, o mau espírito da avareza, o mau espírito da soberba.

Os temíveis perseguidores são aqueles que, sem o terror da espada, constantemente destroem o espírito do homem; aqueles que, mais com afagos do que com pavor, submetem as almas dos fiéis. Estes são os inimigos dos quais deves te guardar; estes são os tiranos mais perigosos, pelos quais Adão foi vencido. Muitos, coroados em públicas perseguições, caíram nestas perseguições ocultas. Por fora, diz o apóstolo, lutas; por dentro, temores.

Observas quão duro é o combate que há no interior do homem, para que se debata consigo mesmo e lute contra as suas paixões. O próprio apóstolo vacila, duvida, é atormentado e manifesta que está sujeito à lei do pecado e reduzido por seu corpo à morte, e não poderia escapar se não fosse libertado pela graça de Cristo Jesus.

E assim como há muitas perseguições, assim também há muitos martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. És mártir de Cristo se sofreste a tentação do espírito de luxúria, porém, temeroso do futuro juízo, não pensaste em profanar a pureza da alma e do corpo. És mártir de Cristo se foste tentado pelo espírito de avareza para apossar-te dos bens dos mais fracos ou não respeitar o direito das viúvas indefesas, porém, julgaste que era melhor alcançar a riqueza pela contemplação dos preceitos divinos, que cometer a injustiça.

Cristo quer estar próximo de tais testemunhas, conforme está escrito: aprendei a realizar o bem, buscai o justo, respeitai ao oprimido, fazei a justiça ao órfão, e amparai a viúva: vinde e entendamo-nos. És mártir de Cristo se foste tentado pelo espírito da soberba, mas vendo ao fraco e desvalido, te compadeceste com espírito piedoso, e amaste a humildade mais que a arrogância. E ainda mais se deste testemunho não somente de palavra, mas também com obras.

Pois quem é testemunha mais fiel do que aquele que confessa que o Senhor Jesus Se encarnou, ao mesmo tempo em que guarda os preceitos do Evangelho? Porque quem escuta e não coloca em prática, nega a Cristo. Ainda que o confesse por palavra, o nega por obras. Porque existem muitos que dizem: Senhor, Senhor, não profetizamos em Teu nome? Não expulsamos demônios em Teu nome? E não fizemos o bem em Teu nome? E Ele lhes dirá naquele dia: Apartai-vos de mim todos vós que realizais a iniquidade. Porque é testemunha aquele que, tornando-se fiador com suas obras, confessa a Cristo Jesus.

Quantos, todos os dias, são mártires de Cristo em segredo, que confessam ao Senhor Jesus com suas obras! O apóstolo conhecia este martírio e testemunho fiel de Cristo, quando afirmava: Esta é a nossa glória: o testemunho de nossa consciência.” (1)

Na fidelidade ao Senhor, como discípulos missionários, desafiador é o combate que há no mais profundo de todos nós, para que melhor correspondamos na missão, como nos falou o bispo:

“Observas quão duro é o combate que há no interior do homem, para que se debata consigo mesmo e lute contra as suas paixões.”

Concluímos rogando a Deus a força e a presença do Santo Espírito, para que vivamos a graça da missão que Jesus nos confiou, encorajados pelas palavras do apóstolo Paulo:

“Em verdade, quando chegamos à Macedônia, nossa carne não teve repouso algum, mas sofremos toda espécie de tribulação: por fora, luta; por dentro, temores.” (2 Cor 7,5).

 

(1) Lecionário Patrístico Dominical, Editora Vozes – 2013 - pp.163-164.


“Fogo abrasador” (XIIDTCA)

                                                         

“Fogo abrasador”

Na Liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum (ano A), meditamos o Salmo 68.

Retomemos este versículo (v.10): “Pois meu zelo e meu amor por Vossa casa me devoram como fogo abrasador”, e sejamos enriquecidos à luz de uma das Cartas escrita pelo Presbítero São Paulo da Cruz (séc. XVIII), para que também este fogo nos aqueça o coração, e nos faça zelosos pela casa do Senhor e pelos Seus templos, nosso próximo, onde Deus habita, para que nossa fé seja verdadeiramente Pascal.

"Coisa excelente e muito santa é pensar e meditar sobre a Paixão do Senhor, pois por este caminho chegamos à união com Deus.

Nesta escola tão santa, aprende-se a verdadeira sabedoria. Foi aí, que todos os Santos a estudaram. Quando, pois, a Cruz de Nosso Bom Jesus lançar raízes mais profundas em vosso coração, então cantareis: seja 'Sofrer e não morrer'; seja 'Ou sofrer ou morrer', seja, ainda melhor, 'Nem sofrer nem morrer', apenas a perfeita conversão à vontade de Deus.

O amor é força de união e faz seus os tormentos do Bem, muito amado. Este fogo vai até à medula, converte o que ama no amado. De modo mais profundo, o amor se mistura à dor e a dor ao amor. Há, então, uma mistura de amor e de dor tão estreita que não se pode separar o amor da dor, nem a dor, do amor. Por isto, quem ama, se alegra com sua dor e exulta em seu amor sofredor.

Sede, portanto, constantes na prática de todas as virtudes, imitando, de modo particular, o suave Jesus padecente, porque é isto o cume do puro amor.

Procedei de modo que todos reconheçam que trazeis não só interior, mas ainda exteriormente, a imagem de Cristo crucificado, modelo de toda doçura e mansidão.

Quem está interiormente unido ao Filho de Deus vivo, revela no exterior Sua Imagem pelo contínuo exercício da virtude heroica, principalmente pela paciência cheia de força que nem em segredo nem em público se queixa. Portanto, escondei-vos em Jesus crucificado, sem desejar coisa alguma a não ser que todos em tudo aceitem Sua vontade.

Verdadeiros amigos do Crucificado celebrareis sempre no templo interior a festa da Cruz, suportando em silêncio, sem vos apoiar em criatura alguma. Uma festa deve ser celebrada na alegria; por isso os que amam o Crucificado irão à festa da Cruz com rosto jovial e sereno, suportando calados, de forma que permaneça oculta aos homens, só conhecida pelo sumo Bem.

Numa festa há sempre banquete; as iguarias são a vontade divina, a exemplo de nosso Amor crucificado”

Para a solidificação de nossa fé, retomo, também, esta parte da Carta:

“O amor é força de união e faz seus os tormentos do Bem, muito amado. Este fogo vai até à medula, converte o que ama no amado. De modo mais profundo, o amor se mistura à dor e a dor ao amor. Há, então, uma mistura de amor e de dor tão estreita que não se pode separar o amor da dor, nem a dor, do amor. Por isto, quem ama, se alegra com sua dor e exulta em seu amor sofredor”.

Configuremo-nos à Paixão do Senhor, abrindo-nos à verdadeira sabedoria que nos vem da “loucura da Cruz”, para vivermos com ousadia e profecia o amor e a dor que são inseparáveis.

Imitemos o suave Jesus padecente, o cume do mais puro amor, e d’Ele tenhamos mesma doçura, mansidão e paciência.

Celebrar com alegria, com um rosto jovial e sereno, suportando calado o sofrimento, mas com a confiança de que ele não terá a última palavra, e assim fortalecidos na fidelidade ao Senhor, vivendo intensamente o Mistério de Sua Paixão, sejamos devorados pelo fogo abrasador do amor de Deus que jamais nos abandona.

Permaneçamos fiéis até o fim (XIIDTCA)

                                                                      

Permaneçamos fiéis até o fim

 “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo,
mas não podem matar a alma!”

Reflexão à luz das passagens do Evangelho de Mateus (Mt 10,16-23; Mt 10,24-33), em que Jesus envia os discípulos em missão como ovelhas para o meio de lobos.

Exorta para que sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas, acompanhado de outras exortações, concluindo com o imperativo para que os discípulos permaneçam fiéis até o fim, vencendo as provações, perseguições, e tão somente assim serão salvos.

Refletimos sobre a solicitude e o Amor de Deus para com aqueles que Ele chama e envia em missão, uma vez que a perseguição está sempre presente no horizonte dos discípulos de Jesus.

Assim aconteceu com Jeremias e tantos outros profetas (Jr 20, 10-13). O Profeta Jeremias sofreu o abandono dos amigos, o sofrimento, a solidão e a perseguição, por isto é um paradigma do Profeta sofredor, que merece ser lembrado para nos inspirar e fortalecer na caminhada de fé e no testemunho da vocação profética.

Este fez forte apelo à conversão e a fidelidade a Deus e à Aliança, num período, da história do Povo de Deus, marcado por desgraças, infidelidade e injustiça social.

Por sua veemência e fidelidade, Jeremias é chamado de o “amargo Profeta da desgraça” e é acusado de traidor. Sua missão tem um alto preço pago: o abandono e a solidão. Ele é tratado como objeto de desprezo e de irrisão e tido como um maldito, porque não é aceita e compreendida sua mensagem em nome do Senhor.

Encontramos no Livro desabafos seus, expressando desilusão, amargura, queixas, confissões e frustração, mas mantém-se fiel, porque estava verdadeiramente apaixonado pela Palavra de Deus.

Apesar do abandono experimentado, até dos amigos mais íntimos, eleva hino de louvor, que expressa confiança em Deus, para além de todo o sofrimento e perseguição.

Bem sabemos que o caminho do Profeta é marcado pelo risco da incompreensão e da solidão, e precisamos de coragem para trilhar este caminho, com a certeza e confiança de que Deus jamais nos abandona.

Portanto, ontem e hoje, os discípulos missionários precisam superar toda a forma de desânimo e frustração decorrentes das perseguições, e nestes versículos assim como nos versículos sucessivos  encontramos uma espécie de “manual do missionário cristão”, que consiste no “discurso da missão” – “Para mostrar que a atividade missionária é um imperativo da vida cristã. Mateus apresenta a missão dos discípulos como a continuação da obra libertadora de Jesus” (1).

Três vezes aparece a expressão “Não temais”, assegurando a presença, ajuda e proteção divina para superação do medo que impeça a proclamação da Boa Nova; o medo da morte física; e neste medo se pode experimentar a solicitude de Deus, um cuidado que desconhece limites.

A mensagem é que a vida em plenitude é para quem enfrentar o medo, na fidelidade, até o fim. O medo não pode nos deixar acomodados.

A ternura, a bondade e a solicitude divina são imprescindíveis, pois fortalecem na missão. É preciso se entregar confiadamente nas mãos de Deus:

“Jesus encoraja os Seus discípulos a alargar o horizonte da vida e a avaliar os riscos vividos por Sua causa, no contexto mais amplo da vida com Deus, da vida eterna.

O cristão é chamado a viver na confiança de que o Pai não o abandona nas mãos dos perseguidores (v.28), que a sua vida, a sua salvação custou o Sangue do Filho e tem por isso, aos Seus olhos, um valor imenso (vv. 29-31).

A fidelidade e a confiança no Senhor serão recompensadas por aquele ‘reconhecimento’ que já se manifestou na Ressurreição de Cristo” (2).

No testemunho da fé, é possível a perseguição, portanto é necessária a confiança. Anunciar e testemunhar a Boa-Nova é não deixar que o medo nos paralise, pois o medo nos impede de sermos autênticos discípulos missionários:

“O cristão não é chamado a procurar o martírio como prova da sua fé, mas a viver constantemente a vida com os olhos fixos no Alto, isto é, a alargar aquele horizonte que hoje, mais do que nunca, tende a fechar-se no círculo dos benefícios desfrutáveis, aqui e agora.” (3)

Também nós precisamos ouvir a todo instante – “Não tenhais medo”. É preciso que a Palavra de Jesus ressoe em nossos ouvidos e fique entranhada no mais profundo de nosso coração:

“Impressiona a história de tantos mártires cristãos, antigos e atuais, que escolheram o caminho da coerência e da fidelidade ao Senhor a custo da própria vida.

É com eles que nos encontramos na Comunhão dos Santos, vivida, sobretudo, na Celebração Eucarística; uma companhia que a comunidade dos crentes gosta de ter ao seu redor, mesmo com as pinturas, os afrescos, os mosaicos que adornam as nossas Igrejas (hoje reduzidas muitas vezes a belas obras que se admiram em igrejas-museu) expressões artísticas surgidas para tornar humanamente visível o que vivemos na fé.” (4)

Considerando a nossa realidade existencial, marcada pela fragilidade, portanto, ela é necessitada da força e intervenção divina.

Urge que, como cristãos, levantemos o olhar para a vida a que Cristo nos chama, ou seja, “viver a força de contestação profética que viveu Jeremias, que Jesus levou perante as autoridades judaicas e romanos e conduziu os Apóstolos ao martírio.

É na relação íntima e comunitária que vivemos com  Deus, no desejo de sermos reconhecidos por Ele que se reforça a adesão a Cristo e ao seu Evangelho, com a esperança libertadora de vivermos confiando no Pai.” (5)

Oremos:

“Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de Vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no Vosso amor. Por N. S. J. C. Amém.”



(2) (3) (4) Lecionário Comentado - Editora Paulus - Lisboa - p. 560.
(5) Idem p. 561.

PS: Oportuno para celebrarmos a Festa de Santo Estêvão - 26 de dezembro em que se proclama a passagem do Evangelho de  Mateus (Mt 10,17-22).

Rezando com os Salmos - Sl 68(69),2-22.30-37 (XIIDTCA)

 


Súplica confiante e incondicional ao Senhor
 
“– Ao maestro do coro. Conforme a melodia
‘Os lírios’. De Davi. 

–2 Salvai-me, ó meu Deus, porque as águas
até o meu pescoço já chegaram!
–3 Na lama do abismo eu me afundo
e não encontro um apoio para os pés.
– Nestas águas muito fundas vim cair,
e as ondas já começam a cobrir-me!

 –4 À força de gritar, estou cansado;
minha garganta já ficou enrouquecida.
– Os meus olhos já perderam sua luz,
de tanto esperar pelo meu Deus!

 –5 Mais numerosos que os cabelos da cabeça,
são aqueles que me odeiam sem motivo;
– meus inimigos são mais fortes do que eu;
contra mim eles se voltam com mentiras!
 – Por acaso poderei restituir
alguma coisa que de outros não roubei?
–6 Ó Senhor, Vós conheceis minhas loucuras,
e minha falta não se esconde a Vossos olhos.

 –7 Por minha causa não deixeis desiludidos
os que esperam sempre em Vós, Deus do Universo!
– Que eu não seja a decepção e a vergonha
dos que vos buscam, Senhor Deus de Israel!

 –8 Por Vossa causa é que sofri tantos insultos,
e o meu rosto se cobriu de confusão;
–9 eu me tornei como um estranho a meus irmãos,
como estrangeiro para os filhos de minha mãe.

 –10 Pois meu zelo e meu amor por Vossa casa
me devoram como fogo abrasador;
– e os insultos de infiéis que vos ultrajam
recaíram todos eles sobre mim!

 –11 Se aflijo a minha alma com jejuns,
fazem disso uma razão para insultar-me;
–12 se me visto com sinais de penitência,
eles fazem zombaria e me escarnecem!
–13 Falam de mim os que se assentam junto às portas,
sou motivo de canções, até de bêbados!

–14 Por isso elevo para Vós minha oração,
neste tempo favorável, Senhor Deus!
– Respondei-me pelo Vosso imenso amor,
pela Vossa salvação que nunca falha!

 =15 Retirai-me deste lodo, pois me afundo!
Libertai-me, ó Senhor, dos que me odeiam,
e salvai-me destas águas tão profundas!
=16 Que as águas turbulentas não me arrastem,
não me devorem violentos turbilhões,
nem a cova feche a boca sobre mim!

 –17 Senhor, ouvi-me pois suave é Vossa graça,
ponde os olhos sobre mim com grande amor!
–18 Não oculteis a Vossa face ao Vosso servo!
Como eu sofro! Respondei-me bem depressa!
–19 Aproximai-vos de minh’alma e libertai-me,
apesar da multidão dos inimigos!

 =20 Vós conheceis minha vergonha e meu opróbrio,
minhas injúrias, minha grande humilhação;
os que me afligem estão todos ante Vós!
–21 O insulto me partiu o coração;
não suportei, desfaleci de tanta dor!

 = Eu esperei que alguém de mim tivesse pena,
mas foi em vão, pois a ninguém pude encontrar;
procurei quem me aliviasse e não achei!
–22 Deram-me fel como se fosse um alimento,
em minha sede ofereceram-me vinagre!

–30 Pobre de mim, sou infeliz e sofredor!
Que Vosso auxílio me levante, Senhor Deus!
–31 Cantando eu louvarei o Vosso nome
e agradecido exultarei de alegria!
–32 Isto será mais agradável ao Senhor,
que o sacrifício de novilhos e de touros.

 =33 Humildes, vede isto e alegrai-vos:
o Vosso coração reviverá,
se procurardes o Senhor continuamente!

 –34 Pois nosso Deus atende à prece dos Seus pobres,
e não despreza o clamor de seus cativos.
–35 Que céus e terra glorifiquem o Senhor
com o mar e todo ser que neles vive!

 =36 Sim, Deus virá e salvará Jerusalém,
reconstruindo as cidades de Judá,
onde os pobres morarão, sendo seus donos.
=37 A descendência de seus servos há de herdá-las,
e os que amam o santo nome do Senhor
dentro delas fixarão sua morada!”

O Salmo 68(69),2-22.30-37 é uma súplica de alguém consumido pelo fogo abrasador do amor de Deus, e é a expressão da incondicional confiança em Deus:

“Vítima da maldade humana, o salmista invoca o socorro divino, para livrá-lo da presente aflição. Conforme a regra do ‘talião’, ele deseja aos malfeitores o castigo merecido, enquanto ele mesmo libertado, louva a Deus.” (1)

Assim fez o Senhor, como contemplamos no Mistério de Sua Paixão e morte:

- “Então lhes disse: ‘Minha alma está triste até a morte! Ficai aqui e vigiai comigo!’ E, afastando-Se um pouco, caiu com o rosto por terra e orou: ‘Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice. Contudo, não seja como eu quero, mas como Tu queres.’” (Mt 26,38-39);      

“Deram-Lhe de beber vinho misturado com fel; mas quando provou, não quis beber” (Mt 27,34).

Assim sejamos, em toda e qual situação, e que o zelo pela casa do Senhor nos devore, ou seja, paixão e fidelidade no Senhor e ao Seu Projeto do Reino. Amém.


(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – p.782

“O medo tomou conta de mim” (XIIDTCA)

                                                                

“O medo tomou conta de mim”

“Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando:
‘Onde está você? ‘
E ele respondeu:
‘Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo,
porque estava nu; por isso me escondi"
(Gn 3,9-10)

O medo tomou conta de mim, já não sei mais quem sou.
Quis ser como Deus e descobri minha insana pretensão.
Não soube corresponder ao Teu desígnio de amor,
Não fui capaz de me relacionar como criatura Tua
Feita do barro, em Tua mão divina de oleiro.

O medo tomou conta de mim, lamentavelmente, me distanciei de Ti
Permiti que o pecado corroesse minhas fibras mais profundas,
Manchei a minha alma com nódoas do pecado,
E mergulhei no mais profundo do vale de minha miséria.
A Ti suplico, com clamores e lágrimas, Tua divina misericórdia.

O medo tomou conta de mim, perdi a luz do caminho;
Permiti que a escuridão das trevas me envolvesse;
Coração seduzido por brilhos fugazes e enganadores,
Ferindo-me por entre espinhos, quase insuportáveis dores,
Pisando e me ferindo em pedras, caindo no abismo de mim mesmo.

O medo tomou conta de mim, não seja ele para sempre.
Volto para Ti com coração chagado, envergonhado, ferido,
Como o filho mais novo da Parábola da Misericórdia identificado,
Ponho-me em Tua presença, quero Teu perdão, ainda que...
Ainda que não mereça, Pai Eterno de infinita bondade.

Perdão pela desobediência cometida.
Perdão pela arrogância em mim invadida.
Perdão pela ingratidão ao Teu amor infinito.
Perdão pela amizade corrompida, traída.
Sou Teu, tão frágil, cura minhas feridas.

Cessa meu medo. Acolha-me, ainda que eu não mereça.
Renova-me! Retira-me do lamaçal do pecado,
Ao qual, no mau uso da liberdade, sucumbi.
Perdoa-me! Não posso viver sem Ti.
Não posso viver sem Teu divino amor. Amém.

Com o Ressuscitado, vencemos o medo (XIIDTCA)

 


Com o Ressuscitado, vencemos o medo
 
“Não tenhais medo daqueles que matam o corpo,
mas não podem matar a alma!”
 
Reflitamos sobre a solicitude e o amor de Deus, para com aqueles que Ele chama e envia em missão, uma vez que a perseguição estará sempre presente no horizonte dos discípulos de Jesus.
 
À luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 10,26-33), o tema da inevitabilidade da perseguição na vida dos discípulos é explícito, assim como vimos na primeira Leitura.
 
O Evangelista exorta à superação do desânimo e frustração decorrentes das perseguições.
 
Apresenta como que um “manual do missionário cristão”, que consiste no “discurso da missão” – “Para mostrar que a atividade missionária é um imperativo da vida cristã. Mateus apresenta a missão dos discípulos como a continuação da obra libertadora de Jesus.
 
Define também os conteúdos do anúncio e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir, enquanto testemunhas do Reino” (1)
 
Três vezes aparece a expressão “Não temais”, assegurando a presença, ajuda e proteção divina para superação do medo que impeça a proclamação da Boa Nova; o medo da morte física; e neste medo se pode experimentar a solicitude de Deus, um cuidado que desconhece limites.
 
A mensagem é que a vida em plenitude é para quem enfrentar o medo, na fidelidade, até o fim. O medo não pode nos deixar acomodados.
 
A ternura, a bondade e a solicitude divina são imprescindíveis, pois fortalecem na missão. É preciso se entregar confiadamente nas mãos de Deus:
 
“Jesus encoraja os Seus discípulos a alargar o horizonte da vida e a avaliar os riscos vividos por Sua causa, no contexto mais amplo da vida com Deus, da vida eterna.
 
O cristão é chamado a viver na confiança de que o Pai não o abandona nas mãos dos perseguidores (v.28), que a sua vida, a sua salvação custou o Sangue do Filho e tem por isso, aos Seus olhos, um valor imenso (vv. 29-31).
 
A fidelidade e a confiança no Senhor serão recompensadas por aquele ‘reconhecimento’ que já se manifestou na Ressurreição de Cristo” (2).
 
No testemunho da fé, é possível a perseguição, portanto é necessária a confiança. Anunciar e testemunhar a Boa Nova é não deixar que o medo nos paralise, pois o medo nos impede de ser autênticos discípulos missionários:
 
“O cristão não é chamado a procurar o martírio como prova da sua fé, mas a viver constantemente a vida com os olhos fixos no Alto, isto é, a alargar aquele horizonte que hoje, mais do que nunca, tende a fechar-se no círculo dos benefícios desfrutáveis, aqui e agora.” (3)
 
Também nós precisamos ouvir a todo instante: – “Não tenhais medo”. É preciso que a Palavra de Jesus ressoe em nossos ouvidos e fique entranhada no mais profundo de nosso coração:
 
“Impressiona a história de tantos mártires cristãos, antigos e atuais, que escolheram o caminho da coerência e da fidelidade ao Senhor a custo da própria vida.
 
É com eles que nos encontramos na Comunhão dos Santos, vivida, sobretudo, na Celebração Eucarística; uma companhia que a comunidade dos crentes gosta de ter ao seu redor, mesmo com as pinturas, os afrescos, os mosaicos que adornam as nossas Igrejas (hoje reduzidas muitas vezes a belas obras que se admiram em igrejas-museu) expressões artísticas surgidas para tornar humanamente visível o que vivemos na fé.” (4)
 
Concluindo, apresentemos nas mãos de Deus nossa realidade humana, marcada pela fragilidade e necessitada de Sua força e intervenção.
 
Como cristãos, levantemos o olhar para a vida a que Cristo nos chama, ou seja, “viver a força de contestação profética que viveu Jeremias, que Jesus levou perante as autoridades judaicas e romanos e conduziu os Apóstolos ao martírio.
 
É na relação íntima e comunitária que vivemos com Deus, no desejo de sermos reconhecidos por Ele que se reforça a adesão a Cristo e ao Seu Evangelho, com a esperança libertadora de vivermos confiando no Pai.” (5)
 
Oremos:
 
“Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de Vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no Vosso amor. Por N. S. J. C. Amém.”
 
 
 
(1) www.Dehonianos.org/portal
(2) (3) (4) Lecionário Comentado p. 560.
(5) Idem p. 561.
 

Busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus...

                                                   


                    

Busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus...

 

devemos confiar como se tudo dependesse de Deus

e nos empenhar como se tudo dependesse de nós.

 

Muitas vezes, podemos nos preocupar com as exigências do dia a dia, sem colocar em primeiro lugar a busca pelo Reino de Deus, sem a necessária confiança no Senhor.

 

Na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 6, 24-34), Jesus nos ensina a darmos o devido valor às coisas, colocando Deus em primeiro lugar: “Não podeis servir a Deus e a riqueza”.

 

E, também, convida a nos abandonarmos completamente à Providência de Deus: “Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis.”

 

Não entendamos confiança como sinônimo de passividade ou de comodismo: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.”

 

De fato, a ação divina não dispensa a ação humana, ao contrário, eleva-a como graça da possibilidade de participação na construção do Reino

 

Quanto maior for nossa confiança em Deus, tanto mais cresce nossa responsabilidade. Também poderemos dizer que a responsabilidade é diretamente proporcional à confiança que temos em Deus.

 

Santo Inácio de Loyola diz de forma límpida e contundente: “devemos confiar como se tudo dependesse de Deus e nos empenhar como se tudo dependesse de nós.”.

 

“Buscar o Reino de Deus” com absoluta confiança em Deus, como meros instrumentos, veículos de Sua Mensagem. Lembremo-nos que continuamos a refletir o desdobramento das Bem-Aventuranças, a missão de ser Sal e Luz (Capítulos 5 e 6 de Mateus).

 

Concluindo, podemos afirmar que ser Discípulo do Senhor é ter encontrado uma Pessoa que mudou nossa vida, e que ela só tem sentido e conteúdo quando em relacionamento contínuo e íntimo, renovado no Banquete da Eucaristia.

 

É preciso trilhar o caminho da santidade, empenhados na construção do Reino, com total confiança em Deus e em Sua força, com disponibilidade, fidelidade, alegria e com muito amor a fim de que correspondamos ao Amor Divino que jamais nos falta.

 

Somente assim, comunicaremos luz da Fonte de Luz nas mais diversas situações obscuras, nas "cavernas sombrias e escuras" da existência.

 

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