sexta-feira, 19 de junho de 2026

Saudade

                                                   


Saudade

“Quem dera minha cabeça se tornasse em água, meus olhos, uma fonte de lágrimas, para eu chorar dia e noite os mortos da filha do meu povo!” (Jr 8,23).

Quero sentir a saudade de Jeremias, por não ser como um choro desconsolado, mas confiante na providência divina, sem nostalgia, acompanhado de uma esperança profunda que o impulsiona na missão. 

Não quero a saudade como apenas expressão da falta ou do vazio que tenha ficado com a partida de alguém que se amou e se amará para sempre. Quero a saudade com o olhar da fé na eternidade, onde, nos céus, poderemos nos encontrar.

Quero a saudade da tristeza suave, que aos poucos vai cedendo lugar à expectativa de um possível reencontro para uma conversa sem pauta, sem começo ou término, a não ser por um compromisso inadiável.

Quero uma outra que nos consuma ao volver nosso olhar para o passado e sem mais a presença física de alguém; mas termos a certeza de que suas palavras, gestos, gostos e quanto mais se diga, estão eternamente presentes.

Quero a saudade assumida com doces lembranças de alguém que deixou um vácuo, por vezes, impreenchível, mas que após lágrimas ardentes, do pranto que olhos umedeceram, sejam secados, porque as carregamos nas entranhas do coração.

Saudades... saudades de alguém, quem delas livre está?

Se sentidas, lágrimas vertidas por dentro ou por fora, é porque valeu a pena. Memorável porque marcou como um selo nossas vidas, perpetuamente.

Doces lembranças que nos impelem. Avancemos!

Glorifiquemos a Deus

                                      


Glorifiquemos a Deus

Glorifiquemos a Deus e vivamos nosso compromisso batismal, na ação evangelizadora, jamais deixando que o orgulho, vaidade, prestígio, domínio nos ceguem, a fim de que não façamos perder a beleza de nosso anúncio, ou o colocando em descrédito por ausência de autêntico testemunho.

Glorifiquemos a Deus e não deixemos que os “espinhos da carne” sufoquem nosso amor e dedicação a Ele e ao próximo, ainda que surjam dificuldades e obstáculos, multipliquemos os gestos expressivos de caridade e solidariedade.

Glorifiquemos a Deus enfrentando com força e coragem tudo que possa nos aprisionar, roubando-nos a liberdade que o Senhor  nos alcançou; suportando açoites, perseguições, incompreensões, calúnias por causa de Jesus, se vierem inevitavelmente; pacientes na tribulação, resistentes na tentação e agradecidos a Deus  na prosperidade.

Glorifiquemos a Deus, caminhando todos juntos, como Igreja Sinodal, a serviço do Reino de amor, justiça, verdade, liberdade, vida, santidade, fraternidade e verdadeira comunhão, pela luz da Palavra, iluminados e conduzidos pelo Pão da Eucaristia, alimentados e fortalecidos. Amém.


Fontes inspiradoras: Mt 5,1-12; 2 Cor 11,18-21b-30; Gl 5,1

 

“Revestidos de Cristo”

                                                        

“Revestidos de Cristo”

“Vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo.
Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo”
(Gl 3, 26-27)

Somos uma Igreja “em saída” desde o seu início quando o Senhor nos deu esta ordem: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações!” (Mt 28,19).

É preciso que a Boa-Nova do Evangelho seja anunciada em todos os ambientes e também nas comunidades e espaços virtuais.

Mas a Evangelização somente alcança o seu objetivo se nos revestirmos de Cristo, com a força da oração, abertos ao que o Espírito diz a Igreja em cada tempo e realidade, nas diferentes circunstâncias.

Revestidos com esta força e assistidos pelo Espírito Santo, a Palavra de Deus será anunciada e testemunhada, e novos discípulos faremos para o Senhor, em total fidelidade ao seu mandato.

É sempre tempo favorável para darmos razão de nossa esperança, acompanhado do testemunho da fé com gestos concretos de caridade.

Tudo isto pode acontecer vivendo as obras de misericórdia corporais e espirituais, edificando nossa vida na rocha firme da Palavra de Jesus Cristo, e nutridos pela força e vitalidade da Eucaristia.

A autenticidade da vida de fé não consiste em fuga,  mas no empenho em sagrados compromissos de santidade e santificação da família e do mundo. Tendo Deus plantado em nós a semente da fé, ela se torna luminosa, incapaz de ser ocultada.

Uma fé autêntica nos faz olhar para um amanhã mais esperançoso, vivendo no tempo presente, compromissos concretos para a sua viabilização. Afinal não estamos sozinhos, fomos revestidos de Cristo, e a força do Espírito nos é comunicada, assim como sua assistência para que sejamos fiéis à vontade de Deus, e assim vermos acontecer a chegada do Seu Reino.

Revestidos de Cristo somos uma nova criatura e com isto emergem responsabilidades morais, como também o Apóstolo nos falou em sua Carta aos Colossenses (Cl 3,10-12): 

“Revestistes-vos do homem novo... revesti-vos de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência”.

Precisa-se de Profetas! (Parte I)

                                                     

Precisa-se de Profetas!

O Profeta é a consciência crítica do povo.
O Profeta é um “ser contra...”

Desmascara as astuciosas cumplicidades com o mal; denuncia com firmeza os vícios e infidelidade do povo, a falsidade do culto, os abusos do poder, desmascara idolatrias, não compactua com injustiças, não se acomoda diante do “aprisionamento” de Deus e de Sua Palavra.

É o “juízo” de Deus sobre a malícia humana; é a simultaneidade da comunicação da vontade divina. Sua voz é apelo à conversão do coração, em nível pessoal e também coletivo. Sua vida, obra e denúncia são consequências de seu amor... A denúncia do mal não lhe faz amargo! Ele olha para o horizonte com confiança e esperança...

O Profeta é:

-  o homem da aliança:
- aquele que faz faz uma leitura divina dos acontecimentos humanos;
- é feliz porque sua felicidade é fruto da releitura humana da onipotência divina e da releitura divina da fraqueza humana;

- o homem dos três tempos: passado, presente e futuro... Ele lê o presente com um olhar retrospectivo (aliança do Sinai) e com olhar prospectivo (Nova e Eterna Aliança);
- alguém que não somente fala em nome de Deus, mas é Deus quem fala nele: Uma revelação perfeita!

Seu vigor é fruto de Alimento Divino. Nutre-se do Pão da Vida no Sacrifício Eucarístico... Alimento que o capacita para ser no mundo sinal da misericórdia divina, concretizado no cumprimento do amor ao próximo.

Reflitamos: 

- O que mais poderia ser dito sobre o ser Profeta?
- Sinto-me chamado por Deus para a vocação profética?

- Sinto a graça de Deus me acompanhando no realizar da vocação profética?
- Quais são as vocações proféticas bíblicas que mais me encantam?
- Quais são as vocações proféticas que hoje me encantam?


A comunidade de Jesus será autêntica quando for uma comunidade de Profetas, em que todos vivem com fidelidade e ardor a graça do batismo, como sacerdotes, profetas e reis, vivendo com alegria como discípulos missionários do Senhor.

Precisa-se de Profetas! (Parte II)

                                                      

Precisa-se de Profetas!

Ninguém é Profeta porque
quer, tão pouco por iniciativa própria.

Para reconduzir o povo à fidelidade, ao relacionamento fraterno, Deus toma a iniciativa de constituir Profetas. Vocação profética é uma prerrogativa divina, cabe a nós dar a resposta. A vocação profética é um dom divino a nós concedido. Vivê-la intensamente é uma resposta ao primeiro passo dado por Deus que vem sempre ao nosso encontro.

Profetas autênticos Deus suscita. Vocacionados, com a graça divina, superam todas as dificuldades da missão.

Precisa-se de Profetas! Peçamos ao Pai que nos envie Profetas. Pois, quando eles faltam, o povo perde o rumo de sua caminhada. Perde seus horizontes e mergulha num abismo de mediocridade, num deserto de esterilidade, num oceano de desumanidade, num lamaçal de atrocidades…

Quando se calam as suas vozes:

- campeia a força dos interesses falsos e impuros, chegando ao absurdo de não se ter vergonha da imoralidade e absoluta perda da sanidade mental, espiritual, intelectual, psicológica etc;

- inaugura o permissivismo, o relativismo (ausência da verdade absoluta) em que tudo é permitido até mesmo a eliminação da vida. Anuncia-se a morte de Deus para a proliferação de deuses. A humanidade não pode ter futuro prescindindo de Deus;

- irrompe a escuridão, instaura-se o caos;

- robustece  e multiplica a infidelidade e idolatria. 

É tempo da missão profética da Igreja: vozes proféticas são e serão sempre luminares, portadores da luz divina para um mundo novo e por isto reafirmamos: “O Senhor é minha luz e Salvação, a quem temerei?”

Finalizo citando Santo Antônio, em um dos seus memoráveis sermões: “Quem está repleto do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários testemunhos sobre Cristo, a saber: a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência; falamos estas línguas quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras. Por este motivo o Senhor nos amaldiçoa, como amaldiçoou a figueira em que não encontrara frutos, mas apenas folhas.”

Diz São Gregório:

“Há uma lei para o pregador: que faça o que prega. Em vão pregará o conhecimento da lei quem destrói a doutrina por suas obras.”

Através da Palavra e dos sinais os cristãos serão homens e mulheres no coração do mundo e, ao mesmo tempo, serão homens e mulheres no coração da Igreja!

Senhor, derramai em mim o fogo do Vosso Espírito,
para que a chama profética não se apague!

Senhor, derramai em mim a Vossa graça,
Para que o ardor da vocação profética não esfrie!

Senhor, derramai em mim a Vossa esplendorosa luz,
Para que eu seja fiel ao Caminho que a Vós conduz!

Precisa-se de Profetas! (Parte III)

                                                            

Precisa-se de Profetas!

Precisa-se de Profetas!
Mas, o que é ser Profeta em nosso tempo?

Aprofundando a vocação profética, que recebemos no dia de nosso Batismo, veremos que ser Profeta é, antes de tudo, um dom de Deus e uma resposta humana. 

A missão profética não é iniciativa da Igreja, tão pouco nossa, mas do Espírito Santo.

Os Profetas surgem onde e quando menos esperamos. Com a consciência da unção divina, une culto à prática da justiça, de modo que é constituído por Deus “para arrancar e demolir, para destruir e abater, para edificar e plantar (Jr 1,10)”.

Sua ação é fruto de um encontro decidido, marcante e apaixonado por Cristo, que o torna portador de uma fé convicta, cultivador de profunda intimidade com os Mistérios divinos.

O Profeta é permanente discípulo da escola do Amor. Aprendiz voraz da sabedoria divina do Mestre e de tantos testemunhos dos mártires e Profetas de todos os tempos.

Acolhe a Semente do Verbo antes de anunciá-La! Para falar antes com a vida e depois com as palavras e, assim, sua profecia não seja um alienante contratestemunho; sabe que é preciso cultivar a coerência entre a fé e a vida.

Sabedor da necessária, plena e permanentemente abertura à vontade de Deus: Sua vontade sempre se submete à vontade d’Aquele que o seduziu.

Compromissado com a vida do povo simples é anunciador de uma redenção radical, levando-o a purificação de todas as suas infidelidades em contínuo processo de conversão do coração, correspondendo de maneira incansável aos desejos divinos.

Não há profecia se não for o Profeta um homem de fé! Devendo estar em permanente processo de amadurecimento e acrisolamento da mesma, que vai conferi-lo e revesti-lo de autoridade divina, impossibilitando-o de se enamorar com o autoritarismo, seja de que ordem for. A vocação profética desperta no coração do Profeta uma inquietude missionária!

Ele sabe que é preciso rezar todos os dias para manter acesa a chama do profetismo em seu ministério, renovando sempre a conduta de outrora, com invejável vigor (cf. Ap 2,5).

Num mundo marcado pelas relações interesseiras, o Profeta é  sinal e testemunha da gratuidade do Amor divino, por isto sabe que precisa se alimentar na oração e na escuta da Palavra de Deus, em diálogo aberto e sincero, confiando a Deus suas inquietações, angústias, preocupações, alegrias, certezas, esperanças... Muitas vezes confrontando com realidades de tristeza e desolamento, o profeta deve irradiar e testemunhar a alegria de ser Igreja, santa e pecadora, tudo fazendo para torná-la mais santa e servidora, em incontestável fidelidade ao Senhor...

A voz do Profeta é como a voz de Deus no aqui e agora... Sempre em constante sintonia e abertura para captar o sopro do Espírito, agindo como mediador e porta-voz de Deus.

Portanto, saberá calar para que a voz de Deus possa ressoar, terá uma voz intrépida a denunciar o que contraria e uma voz incansável a anunciar o mundo querido por Deus.

Por ser voz de Deus, é aquele que fala em nome de Deus! E muito mais, Deus através dele fala!

Deve, pois, falar com a autoridade d’Aquele que o envia. Portanto, precisa saber escutar, aprender e acolher a voz de Deus, para que todo povo tenha vida.

O Profeta, num mundo marcado por ruídos e barulhos ensurdecedores, é o homem do silêncio que gera o novo. Num mundo em que se semeiam mentiras e contravalores, mensagens supérfluas e tão frágeis, tão passageiras, o Profeta é mensageiro de um anúncio que não envelhece, não perde a pertinência e atualidade, não lhe sendo permitido escolher lugar, tempo e missão, porque a iniciativa é de Deus.

O Profeta não é alguém que fica nas nuvens...
Mas, com os pés fincados na realidade e nas asas do
Espírito age num lugar concreto, no cotidiano da vida...

Precisa-se de Profetas! (Parte IV)

                                                            

Precisa-se de Profetas! 
O Profeta é o poeta que sonha...

Precisa-se de Profetas, que são aqueles que sabem dar a ousada e necessária resposta aos desafios de cada tempo.

E o Profeta sabe em quem confiou:
“O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei?” (Sl 27,1)

Por isto arrisca a vida contra toda incompreensão, solidão, abandono, perseguição; jamais se deixando intimidar na luta incansável contra a idolatria, empenhando-se na luta pela libertação integral da pessoa e de todas as pessoas... Jamais se deixará devorar pelas estruturas de morte que devoram a vida.

Num mundo em que muitos já não têm esperança (alguns falam em “hopelessness”), o Profeta é, por excelência, homem da esperança divina contra toda falta de esperança humana.

Pessoa humana concreta, com paixões, sentimentos, limitações... Possui uma sexualidade integrada e integradora, possibilitando que esteja bem consigo e com todos.

A conjuntura atual está sempre na mente e no coração do Profeta! Portanto, o Profeta deve buscar respostas para os desafios, não se conformando diante destes, procurando a libertação de todo mal, de toda e qualquer forma de eliminação da vida...

Diante de práticas e mentalidades de banalização e violação da vida, o Profeta não deixa perder o valor sagrado da vida diante dos avanços da biotecnologia...

Ama e defende a vida, desde a concepção até seu declínio natural. Preocupado e desejoso de um futuro promissor, o Profeta sabe o quanto é preciso investir na educação e conscientização das crianças e juventude, sendo assim, compromete-se com a juventude que se degrada e se elimina: “juventude uma opção que não podemos deixar de fazer”.

Sua missão exige dinamismo invejável para promover o cortejo da vida: caminho da esperança, ressurreição, transformação do choro de morte na alegria da vida...; em contraposição aos cortejos de morte: sem esperança, fome, analfabetos, excluídos, drogados, vazios de sentido existencial, relativismo, etc., para que sua profecia chegue à alma daquele que o ouve...

O Profeta é o poeta que sonha... Mas que não sonha só,
Porque é parte de um povo que a Deus se consagra.

Como poeta, escreve a poesia e o canto de um
Mundo Novo, onde todos possam viver
como irmãos e filhos de um mesmo Pai.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG