quarta-feira, 2 de abril de 2025

“A mísera e a misericórdia” (VDTQC)

                                  

 “A mísera e a misericórdia”

O Papa Francisco, em sua Carta Apostólica “Misericordia et misera”, por ocasião do encerramento do Ano Santo da Misericórdia (2016), nos apresentou um trecho da passagem do Evangelho sobre a adúltera perdoada (Jo 8,1-11).

“Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: ‘Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

De fato, a autêntica misericórdia divina, que é sempre outra possibilidade de vida, e esta não condena, não elimina, não julga e não mata, ao contrário, acolhe, perdoa, reintegra, reorienta os passos, refaz rumos..., pois sua lógica é de uma nova vida.

Como Paulo, quem descobrir a novidade de Cristo se apaixona pela novidade e por Sua pessoa. 

Assim como o Povo de Deus é sempre chamado a tomar consciência de seu pecado e construir um mundo novo, Paulo também experimentou a misericórdia de Deus por isto afirmou que Cristo é a nossa riqueza, tudo o mais é lixo (Fl 3,8-14).  

Somente Cristo importa! A eficácia salvadora é conhecer Jesus. E, conhecer no sentido bíblico, é entrar em comunhão de vida e de destino com Ele. 

Desta comunhão nasce uma nova pessoa, uma nova criatura. Nossa vida, como a do Povo de Deus, parece às vezes um deserto árido, mas Deus Fonte de Água Viva, por Seu Amor faz surgir um rio de Água Viva (Is 43,16-21).

A aridez do deserto é revitalizada pela intervenção divina que nos ama: a pecadora perdoada passou da aridez do deserto à experiência que a fez nova criatura.

O episódio do perdão concedido à pecadora nos coloca diante de duas possibilidades: a intransigência e a hipocrisia humanas, sempre dispostas a julgar e condenar ou a busca da misericórdia e sua prática, uma vez que somos imperfeitos e limitados. Todos possuímos telhado de vidro.

Evidentemente a misericórdia não é pacto com o pecado, mas resgate do pecador! A lógica da misericórdia é criativa e nos desafia. A dinâmica divina é a misericórdia, um amor que transforma. 

Por isto a lógica de Deus é infinitamente superior: errou – dê conta do erro – não peque mais e entre num caminho comunitário de conversão. A lógica humana é simplista: errou – pagou... Não há possibilidade alguma de vida.

O Amor anunciado e testemunhado por Jesus, liberta, renova e gera uma nova vida. Amemos da mesma forma!

Reflitamos: 

- Qual a lógica que organiza a sociedade?
- A lógica da eliminação sumária ou a reeducação; reintegração daquele que pecou ou sua exclusão?

- Quais são os lixos que nos impedem de viver uma vida nova?
- Do que devemos nos desapegar para servir, a Jesus e Sua Igreja, com maior liberdade e entrega?

- Qual o grau de conhecimento, intimidade, apaixonamento nosso por Cristo?
- O que somos capazes de renunciar por amor a Jesus e a Sua Igreja?

- Quais são as realidades de pecado que somos chamados a abandonar, romper para alcançar uma vida nova, possibilitando-nos a verdadeira celebração da Alegria Pascal?

- Quais roupagens de hipocrisia e intolerância que devemos nos despir, para estarmos dignamente vestidos com os trajes do amor?
- Quais são as pedras que devemos soltar?

- Em quais situações devemos recolher a nossa língua, muitas vezes tão pronta para julgar e condenar? 

Sejamos enriquecidos por estes dois Comentários:

“A satisfação de lançar a pedra nos faz esquecer quem somos, nos liberta de nossa responsabilidade e do sentimento de culpa. Assim fazem-se campanhas contra a prostituição, para que as ruas estejam limpas; marginalizam-se os drogados, para que não possam censurar a nossa inutilidade. Fazem-se casas de correção, para dizermos a nós mesmos que fazemos o possível. Escondemos o espelho para não vermos mais o nosso rosto, e assim pensamos estar limpos”. (1)

“Mas não apenas esse farisaísmo em grande escala. A satisfação  de poder dizer que não somos como a vizinha, ou como o colega de trabalho, é coisa de todos os dias, ou como quando, voltando da Missa de domingo, olhamos com desconfiança para aquele que só tem recebido   da vida situações humilhantes ou que continua a pagar na solidão os erros de sua vida...”. (2)

Como Igreja, tenhamos a coragem de nos identificar com a pecadora. Como Igreja santa e pecadora que somos, suplicamos a Misericórdia Divina, para que purificada de todo pecado, purificada pelo eloquente Sangue de Cristo, na Cruz, derramado, vivendo intensamente o Batismo recebido, na fidelidade ao Espírito, coloque-se a serviço do Reino.

Há uma Oração Eucarística da Igreja que diz claramente que somos uma Igreja santa e pecadora! Reconheçamos nossos pecados, confiemos na Misericórdia Divina, empenhemo-nos por torná-la mais santa. A missão é de todos nós!

Oremos: 

“Concedei, ó Deus todo-poderoso, 
que sejamos sempre contados entre os membros de Cristo 
cujo Corpo e Sangue comungamos.
Por Cristo, Nosso Senhor.
Amém!” 

,

(1) Missal Dominical – Editora Paulus - pág. 243.
(2) Idem

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