A humildade: mãe e mestra de todas as virtudes
Reflexão à luz dos Livros "Moralia" sobre
Jó, escrito pelo Papa São Gregório Magno (Séc. VI)
“Ouve, Jó, minhas
palavras e escuta tudo o que digo. A ciência dos arrogantes tem isto de
próprio, que eles não sabem comunicar com humildade o que ensinam e não
conseguem apresentar com simplicidade as coisas boas que sabem.
Vê-se bem, pelo modo
como ensinam, que se colocam, por assim dizer, em lugar muito elevado e olham
de cima para os discípulos, postos embaixo, à distância, e não se dignam
examinar juntos a questão mas apenas se impor.
Com razão disse deles o
Senhor pelo Profeta: Vós os governáveis com severidade e tirania.
Governam, na verdade, com severidade e tirania os que não se apressam em
corrigir seus súditos, expondo-lhes serenamente as razões, mas em dobrá-los com
aspereza e predomínio.
Bem ao contrário, a
verdadeira ciência foge pelo pensamento, com tanto maior ímpeto desse vício da
soberba, quanto com maior ardor persegue com as setas de suas palavras o
próprio mestre da soberba.
Cuida de não apregoar
por suas atitudes o vício que procura extirpar do coração dos ouvintes,
mediante as palavras sagradas. Esforça-se por mostrar a humildade, que é a
mestra e a mãe de todas as virtudes, tanto com as palavras quanto com a vida.
Deste modo procura transmiti-la aos discípulos da verdade, mais por seu modo de
ser do que pelas palavras.
Por isso, Paulo, falando
aos tessalonicenses, como que esquecido das alturas de seu apostolado, disse: Fizemo-nos
pequenos no meio de vós. Também o apóstolo Pedro ao dizer: Preparados sempre a
dar satisfação a quem vos pede explicações sobre a esperança que tendes,
afirma o dever de, na própria ciência da doutrina, manter a virtude do que
ensina, acrescentando: Mas com modéstia e temor, em boa consciência.
Quando Paulo diz ao
discípulo: Ordena e ensina com toda a autoridade, não fala de um domínio, mas
se refere ao dever de persuadir pela autoridade da vida. Com autoridade se
ensina aquilo que se vive antes de dizê-lo, pois não se tem confiança na
doutrina quando a consciência impede a fala. Por conseguinte, Paulo não lhe
sugeriu a força de palavras soberbas, mas a confiança da vida reta.
Sobre o Senhor está
escrito: Ensinava como quem tinha poder, não como os escribas e fariseus. De
modo singular e essencial foi ele o único a pregar o bem com autoridade, porque
nunca cometeu mal algum por fraqueza. Com efeito, pelo poder da divindade,
possuía o que nos ministrou pela inteireza de sua humanidade.” (1)
Peçamos a Deus o dom da ciência e jamais sejamos
soberbos ou nos falte a necessária humildade que é mãe de todas as virtudes como
afirmou o Papa:
“Esforça-se
por mostrar a humildade, que é a mestra e a mãe de todas as virtudes, tanto com
as palavras quanto com a vida. Deste modo procura transmiti-la aos discípulos
da verdade, mais por seu modo de ser do que pelas palavras.”
(1) Liturgia das Horas – Volume III Tempo Comum – Editora Paulus - p.270-271
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