domingo, 22 de março de 2026

“Vem para fora!”

                                            

“Vem para fora!”
 
No 5º Domingo da Quaresma (ano A), refletimos sobre a ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-45), com a presença de Marta, Maria e outros, na passagem mencionada.
 
Como Igreja, somos convidados a renovar sagrados compromissos com a vida, transformando as realidades de morte, que fazem parte de nossa história em todos os seus âmbitos.
 
À luz do Missal Dominical reflitamos sobre a graça que recebemos através do nosso Batismo, de sagrados compromissos com a promoção de vida:
 
“Com este domingo conclui-se um ciclo batismal denso de ensinamentos: Cristo, água para nossa sede – Cristo, luz para nossas trevas – Cristo, ressurreição para nossa vida.
 
Hoje, a ciência e a pesquisa do homem estão totalmente voltadas para a defesa da vida, revigoramento da vida: os progressos da medicina e da cirurgia, as técnicas de transplante e dos corações artificiais, as curas pelo rejuvenescimento dos tecidos, o prolongamento da vida humana em escala cada vez mais elevada, a diminuição da mortalidade infantil.
 
No entanto, é exatamente nesta sociedade que surgem fermentos de morte e dissolução; permanecemos indiferentes perante o morticínio de tantas populações; queremos o aborto livre, o direito à eutanásia; o direito ao suicídio; transformamos as festas em tragédias. Como entender esses contrassensos? A morte, a grande e irresistível inimiga do homem, só é vencida por Cristo. E o cristianismo não é um mistério de tristeza e morte, mas de vida, alegria, certeza, esperança.
 
Enxertados em Cristo pelo Batismo, vencemos nossa morte na Sua morte; ressuscitamos no Cristo Ressuscitado. É a vitória de cada homem batizado sobre a morte.
 
É a vitória de toda a história sobre a morte, história que, na perspectiva cristã, não caminha para o caos final, mas para a Ressurreição final.
 
É a vitória da criatura sobre a morte; ela escapa à condenação na perspectiva dos céus novos e terra nova. Essa perspectiva dá à vida tranquilidade, serenidade interior, paz profunda, confiança e esperança.
 
Em Cristo não há uma parcela de vida, por menor que seja que não se destine à Ressurreição.” (1) 
 
Retomemos, também,  a Mensagem Quaresmal 2010, escrita pelo Papa Bento XVI:
 
“Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: “'Eu sou a Ressurreição e a vida... Crês tu isto?' (Jo 11, 25-26).
 
Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré:  'Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo' (v. 27).
 
A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele.
 
A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência”.
 
As citações acima nos levam à contemplação do Mistério da Paixão e Morte do Senhor, que alcança o momento ápice com a Sua Ressurreição, e nesta a Ressurreição e vida para aquele que n’Ele viver e crer.
 
A ressurreição de Lázaro renova uma esperança em nosso coração: com Deus, a morte nunca tem a derradeira palavra e para Deus nada é impossível. Assim professamos ao rezar a nossa fé.
 
Continuando a reflexão, hoje, percorro a cidade, meditando na Palavra do Senhor, diante dos túmulos edificados por mãos humanas, onde por vezes, também posso me encontrar como Lázaro, morto há quatro dias e já cheirando mal, por ataduras e sudário envolvido.
 
Sua Palavra encontrando, ainda que pequena fresta nas entranhas de minha alma, traz a certeza da libertação tão desejada, porque somente o Senhor tem Palavra de vida eterna, e pode nos fazer as necessárias passagens e, a maior delas, da morte para a vida.
 
“Lázaro, vem para fora!” Lázaro sou eu, e quantos anseiam encontrar a luz do Senhor, que ilumina nossas noites escuras, tornando-as claras como a luz do dia.
 
Lázaro somos nós, e quantos desejam que a pedra do túmulo seja removida, para novos ares, novas possibilidades.
 
E assim, continua o Senhor dirigindo-nos Sua Palavra de vida eterna e irrevogável: “Lázaro, vem para fora!”, diz a cada um de nós:
 
Vem para fora dos teus pecados capitais!
Vem para fora de tua soberba!
Vem para fora de tua avareza!
Vem para fora de tua luxúria!
 
Vem para fora de tua ira!
Vem para fora de tua gula!
Vem para fora de tua inveja!
Vem para fora de tua preguiça!
 
Vem para fora de teu egoísmo!
Vem para fora de teu desespero!
Vem para fora de tua indiferença!
Vem para fora da tua falta de esperança!
 
Vem para fora da tua ausência de solidariedade!
Vem para fora do exílio da compaixão em teu coração!
Vem para fora da cumplicidade com o mal!
Vem para fora da conivência com atitudes que tornam a vida um pesadelo!
 
Vem para fora de tuas dependências, que te roubam a sobriedade e a paz!
Vem para fora da injustiça, cometida ou compactuada, pequenas ou grandes!
 
Vem para fora do teu eu sepulcral e adentre o meu coração dilatado pela lança na Cruz, para que nele coubesses e reencontrasses o amor, o perdão, a ternura e quanto mais precisasses para ser feliz.
 
Vem para fora do teu eu de miséria, adentre o meu coração de misericórdia, tome meu leve fardo e meu suave jugo, porque sou manso e humilde de coração.
 
Toma tua cruz e, com a renúncia necessária, liberta-te de todas as amarras, que te impeçam de ser livre e feliz, pois, na Cruz morrendo, foi para a liberdade que Eu te libertei (cf. Gl 5,1).
 
Retira o sudário que oculta a tua face, contempla meu rosto vivo, glorioso e Ressuscitado, e seja no mundo sinal da misericórdia do Pai; ama-Me em cada pessoa, que deves amar e servir, na mais bela expressão do autêntico amor, com o meu Espírito.
 
"Vem para fora!"
“Creio em Deus Pai...”

 
(1) Missal Dominical - Editora Paulus - p. 177  

Nenhum comentário:

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG