sexta-feira, 1 de março de 2024

Que a riqueza não nos ensurdeça!


Que a riqueza não nos ensurdeça!

A parábola do rico e do Lázaro é um clamor por solidariedade que nos leva a seriíssimos questionamentos (Lc 16,19-31)

“Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza é vista não como gerência daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status.

Tal atitude marca a riqueza financeira (capitalização sem distribuição), a riqueza cultural (saber não para servir, mas para sobrepujar) e riqueza afetiva
(possessividade, sem verdadeira comunhão)…”

Vivemos numa sociedade marcada pela lógica do lucro, da expropriação, da competição, do aumento pecaminoso da distância entre os ricos e os pobres; da brutal e não menos pecaminosa má distribuição dos bens materiais; do consumo inescrupuloso com consequências ecológicas nefastas…

O saber, o conhecimento, os avanços nem sempre para todos acessíveis. Ainda é assustador o analfabetismo em todos os âmbitos (ser alfabetizado não é apenas saber ler)…

A possessividade afetiva leva-nos a manipulação do outro, apropriação, descartabilização. Procura-se alguém para amar, quando encontra, não se contentando, logo a busca de outro. 

A coisificação do outro é um dos seríssimos problemas que vemos a cada instante. Veja o que o mesmo autor afirma:  

“Até a afetividade transforma-se em posse. As pessoas não se sentem satisfeitas enquanto não possuem o objeto de seu desejo, e quando o possuem, não sabem o que fazer com ele, passando a desejar outro… Pois não sabem entrar em comunhão”

Como podemos mais uma vez constatar, a lógica do comportamento humano ainda é muito distante da Lógica Divina, tida como infinitamente superior.

A lógica humana diz: concentre, a Lógica Divina diz: partilhe.
A lógica humana diz: lucro acima de tudo, a Lógica Divina diz: A vida acima de tudo.

A lógica humana diz: use, consuma, descarte até mesmo pessoas… a Lógica Divina diz: eternize o relacionamento, edifique-o…

A lógica humana diz: coisifique o outro, a Lógica Divina diz: o outro não é coisa, mas um ser para amar e ser amado!

A lógica humana… A Lógica Divina…


PS: Fonte da citação: Liturgia Dominical – Johan Konings – SJ - Editora Vozes – Pág. 459-460.

Conversão e fidelidade ao Senhor

Conversão e fidelidade ao Senhor

À luz da passagem do Profeta Isaías (Is 55,1-11), proclamada na terça-feira da primeira semana do Tempo da Quaresma, refletimos sobre os pensamentos de Deus, que não são como os pensamentos dos homens.

O Senhor nos fala pelo Profeta: "Meus pensamentos não são os vossos pensamentos; vossos caminhos não são os meus caminhos".

Trata-se de um pequeno trecho do “Livro da Consolação”, que retrata a fase final do exílio (anos 550-540 a.C.).

De fato, a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens; às vezes, oposta e inconciliável com ela, embora sempre superior, pois se trata da lógica da gratuidade e do amor, doação, partilha e serviço, graça sobre todos derramada.

Reencontrar com o Senhor implicará, portanto, na necessária abertura, conversão, desejo sincero de mudança e fidelidade. 

Conversão é sempre o eterno recomeço e, para tanto, é preciso coragem e confiança. Conversão é, por natureza, um processo inacabado, que exige a escuta da Palavra de Deus, acompanhada da reflexão, da oração e da captação da vontade divina, para viver na mais bela, perfeita e desejada sintonia com Ele, na certeza da felicidade.

Deste modo, voltando terão que retomar o Projeto de Deus, em atitude de conversão e fidelidade ao Senhor e aos Seus Mandamentos.  

O Povo de Deus encontra-se farto de belas palavras e promessas de libertação, que tardam em se realizar, e com isto a impaciência, a dúvida e o ceticismo enfraquecem a resistência dos exilados.

O Profeta, para evidenciar a eficácia da Palavra de Deus, utiliza o exemplo da chuva e da neve que, vindas do céu, tornam fecunda a terra, multiplicando a vida nos campos.

Uma imagem muito sugestiva, considerando que os judeus exilados na Babilônia devem se lembrar da chuva que cai no norte de Israel e da neve no monte Hermon. A água alimenta o rio Jordão, correndo por todo Israel, e por onde passa gera vida e fecundidade.

A mensagem central é que a Palavra de Deus não falha, pois indica sempre caminhos de vida plena, verdadeira, expressa na liberdade e paz sem fim, não necessariamente segundo a lógica do tempo dos homens, dos seus desejos, projetos, interesses e critérios.

É necessário que se aprenda e respeite o ritmo e o tempo de Deus. E também, a eficácia da Palavra divina não dispensa compromissos e indica os caminhos que devem ser percorridos, renovando o ânimo para a intervenção no mundo. A Palavra divina não adormece a ação humana, mas impele para a transformação e renovação do mundo.

Como Povo de Deus, jamais poderá ter a pretensão de reduzir Deus aos próprios esquemas, ao contrário. É preciso organizar a vida  segundo os critérios e desígnios divinos, se necessário prescindir das certezas possuídas, preconceitos e autossuficiências.

É preciso confiar plenamente na bondade de Deus, trilhar Seu Caminho que conduz a uma história de Salvação e Vida.

Esta passagem muito nos ajuda na compreensão da cultura pós-moderna que comete um erro com consequências funestas: o prescindir de Deus.

Anuncia-se a morte de Deus, e que Seus valores não permitem ao homem potencializar suas capacidades e ser verdadeiramente feliz.

Urge que nos coloquemos nesta atitude de abertura e conversão aos desígnios divinos, para que reencontremos sempre o caminho da autêntica realização, da vida plena e da felicidade.

A onipotência do amor de Deus

                                                

A onipotência do amor de Deus

Fortalecei, ó Deus Pai todo-poderoso, nossa fé posta à prova pela experiência do mal, da dor e do sofrimento e da morte, sobretudo neste tempo de pandemia pelo mundo todo.

Fazei-nos perceber a Vossa presença, que por vezes parece ausente e incapaz de impedir o mal, e curai nossa cegueira, dando-nos o necessário colírio da fé.

Concedei-nos a graça de contemplar Vossa onipotência no modo mais misterioso, na humilhação voluntária e na Ressurreição de Vosso Filho, pelas quais venceu o mal.

Aumentai em nós o amor por Vosso Filho, o Cristo crucificado, que  é “força de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1, 25).

Vos glorificamos, ó Deus Pai, pois na Ressurreição e na exaltação de Cristo, exercestes Vossa força e mostrastes a extraordinária grandeza do Vosso poder para nós que cremos (cf. Ef 1, 19-22). Amém.

 

PS: Fonte inspiradora – Catecismo da Igreja Católica parágrafos n. 272

 Escrito em março de 2021

Como argila nas mãos de Deus

                                                      


Como argila nas mãos de Deus

“O Senhor Deus plasmou o homem com o pó da terra”
(Gn 2,7)

Em tempos em que não havia a disponibilidade tão fácil de acesso, mantinha sempre uma pasta com mensagens que via ou que recebia, para compartilhá-las em momento oportuno.

Hoje retomei a pasta, e dentre tantas mensagens e reflexões, uma me chamou a atenção:

“Eu, naquele entardecer da criação, senti passos no jardim. Era Ele, o Senhor da criação. Acontece que, nesse entardecer, Ele parou, inclinou-se, com um olhar carregado de amor. E, de repente, juntou-me do chão, a mim, pobre e pequeno punhado de terra e ficou a me olhar pensativo… Remexeu-me longamente… longamente… com todo o carinho!

E, então, começou a me amassar: primeiro, retirou de mim uma porção de impurezas que O atrapalhavam: pedrinhas, pedacinhos de pau, ciscos. E eu fui ficando terra pura, do Seu gosto. Fez ainda operações, que eu não compreendia, nem poderia compreender: “Pode por acaso um vaso dizer ao oleiro: eu entendo disso mais do que você?”  (Is 29,16).

Eu nada perguntei. Oferecia simplesmente o meu ser em disponibilidade de amor. Deixava-me trabalhar. Deixava que Ele me fizesse. Porque eu sabia que era obra sua e que ele transformava com amor.

De fato, fui tomando forma. Uma forma à maneira sua, à sua imagem! Para que haveria eu de servir no futuro? Eu não o sabia. “Como argila nas mãos de um oleiro, assim estava eu em Suas mãos” (Jr 18, 6).

E fui-me tornando obra de Deus. “E ele aplicava seu coração em aperfeiçoar-me, pondo cuidado vigilante em tornar-me belo e perfeito” (Eclo 38, 31).

Depois, veio uma etapa difícil. Porque foi um forno superaquecido que ao barro vejo dar força e consistência. É o calor e o valor de minha vida que leva a bom termo a obra de Suas mãos, o Senhor Criador.

A cada vaso muito querido, Ele dá contornos de eternidade. Então, comecei a olhar em torno de mim. E descobri outros vasos que Suas mãos hábeis e cheias de amor haviam amassado e modelado artisticamente. Sem Se cansar, dava Ele mais outra demão aqueles que não haviam saído bem.

Cada um tinha sua forma e sua cor, sem dúvida, isso conforme a destinação no mundo. Mas, do mais humilde ao mais rico, todos eram lindos, todos bem feitos. Ele nos tinha feito como Ele bem queria (…).

“Pode, por ventura, um vaso perguntar ao oleiro: por que me fizeste assim? Não tem o oleiro poder sobre o barro para fazer da mesma argila um vaso de uso nobre e outro de uso vulgar?” (Rm 9, 20-21).

Ó Oleiro Divino, Criador e Pai, permite que se cumpra em mim a obra que começaste. Seja meu projeto o Teu Projeto sobre mim!” (1).

Somos exatamente como um barro na mão do Oleiro Divino, que nos criou por amor e nos modela segundo o Seu querer, aperfeiçoando-nos.

Uma obra nas mãos de Deus, inacabada, imperfeita, com suas inquietações, múltiplas possibilidades, no exercício do livre arbítrio que nos concedeu.

Por vezes não compreendemos determinados fatos em nossa vida, e somente algum tempo depois, é que vamos descobrir o quanto eles puderam e nos ajudaram em nosso amadurecimento e crescimento em todos os aspectos.

Vivendo este tempo de quarentena, aproveitemos para avaliarmos o quanto, de fato, cada um de nós está se deixando modelar pela mão divina, para que correspondamos aos Seus desígnios e Projeto.

Como barro nas mãos divinas, felizes e plenos de vida seremos (Jo 10,10).

(1)         D. Estevão Bettencourt, osb

Cuidar da vinha, frutos saborosos produzir

                                                    

Cuidar da vinha, frutos saborosos produzir

A Evangelização é a vocação própria da Igreja

Na Liturgia da 2ª Sexta-feira da Quaresma, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 21,33-43.45-46).

A Sagrada Escritura nos fala da vinha como a imagem do Povo de Deus, e do Seu desejo de que frutos produzamos: amor, paz, justiça, bondade e misericórdia.

Neste Tempo da Quaresma, como convictos e corajosos discípulos missionários, renovamos a confiança em Deus e a fidelidade à missão que ele nos confiou por meio do Seu Filho, em comunhão com o Espírito que nos conduz.

É missão da Igreja buscar caminhos para concretizar sua missão essencial que é evangelizar, como nos falou o Apóstolo Paulo: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; é, antes uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho" (1Cor 9,16).

Assim compreendamos a essência da Igreja, que existe para pregar e ensinar; ser o canal do dom da graça; reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa, que é o memorial da Sua morte e gloriosa Ressurreição.

De fato, esta missão deve acontecer em meio às amplas e profundas mudanças da sociedade atual, o que a torna ainda mais urgentes.

Para responder a este e outros desafios, a Igreja deve começar por evangelizar a si mesma, para conservar o frescor, o alento e a força para anunciar o Evangelho, como exortou o Concílio Vaticano II: a Igreja se evangeliza por uma conversão e renovação constantes, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade, como sinal e instrumento do Reino.

Na “Evangelii Gaudium”, o Papa Francisco diz de modo muito apropriado: “Uma Igreja em saída”, ou seja, “uma comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam... ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva” (n. 24).

Nisto consiste o cuidado e cultivo da vinha do Senhor, que Ele mesmo nos confiou para produzirmos os frutos do Reino de Deus, em maior sintonia e fidelidade à Sua vontade, que nos é anunciada em cada encontro, e de modo especial em cada Ceia Eucarística, em comunidade, alimentados pelo Pão da Palavra, da Eucaristia e da Caridade, com a seiva do amor do Espírito Santo.

Neste processo de conversão, para que sejamos uma “Igreja em saída”, são inesgotáveis os caminhos que podemos trilhar, na concretização de nossos Planos Pastorais com suas inúmeras atividades, dentro e fora da Igreja, com seus inúmeros desafios.

Renovemos a graça de dar razão de nossa esperança, numa fé mais sólida, e caridade ativa, que torne o mundo mais justo e fraterno, sem fincar âncoras no já conhecido, lançando as redes em águas mais profundas (Lc 5,1-11).

Supliquemos para que Maria, a Mãe da Igreja, a perfeita discípula missionária do Senhor, através da qual Deus nos enviou e nos concedeu o mais Belo e Bendito Fruto da Vinha, Jesus Cristo, nosso Salvador, nos acompanhe e nos incentive com sua materna presença, para que não percamos jamais o ardor missionário de anunciar a Boa-Nova do Evangelho do Seu Amado Filho.

Em poucas palavras...

 


“Tudo está nas mãos do Pai...”

“A história, de Abel a José, a Cristo e, finalmente, a nós é cheia de violência e povoada por homens que tentam de todos os modos libertar-se de outros homens, porque estes têm mais  privilégios, porque perturbam sua caminhada para o êxito...

Mas os projetos dos homens não são decisivos. Tudo está nas mãos do Pai, que tudo encaminha para o bem, apesar do mal, servindo-Se, muitas vezes, do mal.” (1)

 

 

(1)               Comentário do Missal Cotidiano - Editora Paulus - pág. 218-219 - sobre a passagem do Livro do Gênesis (Gn 37,3-4.12-13a.17b-28)

sábado, 14 de maio de 2011

Caminhos novos... Por que não buscá-los?

Caminhos novos... 
Por que não buscá-los?
Sol ilumina, aquece e renasce sempre.
Sol poente indispensável para sol nascente.
Se há outras possibilidades, busquemos...
Novo dia, novo amanhecer...
Novo endereço, nova possibilidade
Luz levar, alegria semear...
Com o blog a espiritualidade renovar...

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG