sábado, 21 de março de 2026

“Ninguém jamais falou como este homem”

                                          


“Ninguém jamais falou como este homem”

Senhor Jesus Cristo, fazemos nossas as palavras dos guardas diante dos sumos sacerdotes e fariseus, no Templo, sobre Vós: “Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7,46).

Dai-nos Sabedoria para acolher Vossas Palavras, e tomar posição e decisões coerentes em todos os momentos.

Abri nossa mente e coração à Vossa Revelação de Si mesmo, como Salvador de todos nós, resgatando-nos pelo Mistério de Vossa Morte na Cruz.

Firmai nossos passos, para que, como discípulos missionários Vossos, sejamos livres da miopia farisaica, de modo que Vos vejamos como o Cristo, o Ungido de Deus que veio para nos redimir e conceder vida plena.

Ajudai-nos para que, na fidelidade a Vós, doador de luz e vida, sejamos para mundo iluminados e iluminantes, apaixonados e promotores da vida em todos os âmbitos, e de cada pessoa, desde a concepção ao seu natural declínio.

Enviai-nos sempre o Vosso Espírito de Amor, para que criemos e fortaleçamos vínculos de comunhão fraterna e amizade social em todo o tempo, na alegria da contemplação e compromisso com o Reino pelo qual destes a Vossa vida. Amém.

 

PS: Fonte de inspiração - Comentário do Missal Cotidiano sobre a passagem do Evangelho de João (Jo 7,40-53)

Há lágrimas e lágrimas…

                                              

Há lágrimas e lágrimas…

Assim começa a matéria “Cientistas tentam decifrar o complexo caminho das lágrimas”, do The New York Times, na Folha de São Paulo de 16 de fevereiro de 2009, de Benedict Carey:

“Elas, as lágrimas, são consideradas um alívio, um tônico psicológico e, para muitos a visão de algo mais profundo: A linguagem gestual do coração, a transpiração emocional vinda do poço de uma humanidade comum. As lágrimas lubrificam o Amor e as canções de Amor, os casamentos e os funerais, os rituais públicos e a dor privada e talvez nenhum estudo científico possa, algum dia, capturar todos os seus muitos significados…”

Não tenho a pretensão de comentar a matéria, que acredito muito interessante, apenas cito o início que me levou a refletir no efeito catártico, de purificação que a lágrima pode realizar.

Os diversos sentidos que uma lágrima pode ter...

Os inúmeros conteúdos que ela carrega em si.

Lágrima dos olhos daquele que nasce e daqueles que acolhem a nova vida. 

Qual a diferença que há entre a lágrima da criança, da mãe, e a lágrima do pai?

Lágrimas de um nascimento, lágrimas de uma morte…

Lágrimas que vertem ao receber trágica notícia, lágrimas que abundam ao acolher uma noticia portadora de alegria.

Qual a diferença? Muita! Mas são sempre lágrimas.

Lágrimas de uma derrota, lágrimas de uma vitória.

Lágrimas de uma partida, lágrimas de uma chegada.

Lágrimas por ter medo de enfrentá-las, lágrimas pelas dificuldades superadas.

Lágrimas de uma amizade partilhada, lágrimas de uma amizade perdida. Sempre lágrimas de matizes diferenciados.
Lágrimas por uma derrota experimentada, lágrimas por uma vitória alcançada.

Lágrimas são sempre lágrimas. O importante é saber captar seu conteúdo, sua mensagem. O importante é saber compartilhá-las.

No Evangelho há uma passagem comovente: Jesus vai ver Seu amigo Lázaro e o encontra morto, enterrado há quatro dias, sem esperança alguma.

Numa página inesquecível diz textualmente que Jesus ficou comovido e chorou…

Lágrimas de Jesus: Lágrimas do Homem, lágrimas de Deus.

Lágrimas do amigo da humanidade decaída e mergulhada no sono de morte.

É maravilhoso contemplar o homem Jesus que chora...

Que abre, sobretudo, para nós, a possibilidade do choro. Alguns nos disseram que homem não chora, e alguns de nós acreditamos e por isto carregamos este peso.

Lágrimas são mais que uma produção, elas são, antes de tudo, uma expressão! Ao verterem, escorrerem, levam consigo um grito, um clamor, uma súplica, uma resposta, uma expressão de finitude, limitação, solidariedade, esperança e Ressurreição...

Dorme-se com lágrimas nos olhos, acorda-se com esperança no coração; acorda-se às vezes com lágrimas nos olhos, mas a noite pode-se dormir com outras lágrimas. As lágrimas por ter alcançado a resposta, buscado e encontrado a superação.

Deixemos as lágrimas falarem…

Aprendamos sua linguagem.

Quem disse que as lágrimas não falam? E como falam!

Sua ausência também fala. Entender a linguagem de sua ausência talvez seja mais difícil, mas é possível captá-la, compreendê-la.

Lágrimas são fragmentos de momentos que não passam em mim.

Lágrimas como experiência de humanização, que cala fundo.

Lágrimas silenciosas, reveladoras de desespero profundo.

Lágrimas de amor que ama, mesmo no desencanto do desamor, ou do amor não correspondido...

Lágrimas de coração machucado podem regar sementes de esperança e germinar um mundo novo.

Lágrimas de um coração que pulsa feliz, caindo abundantemente, também regam e eternizam sementes de momentos felizes a florescerem num jardim do amanhã não distante.

Lágrimas entre sorrisos de dor ou de alegria.

Lágrimas que brotam e saem do coração, como transbordamento da alma, que aliviam e acalmam.

Lágrimas lembram nossa meta de Amor, num misto de metade dor, metade alegria, em perfeita harmonia.

Lágrimas sempre  presentes em todas as estações da vida: secadas pelo calor do verão, congeladas às vezes pelo frio do inverno, teimosamente cadentes como um anúncio de outono, mas apontando a beleza e o perfume da primavera.

Ó  matéria prima das lágrimas!

Um olhar que transcenda a lágrima nos permitirá compreender a fonte de sua existência, muitas vezes feitas de sonhos ou  pesadelos, alegrias ou tristezas, angústias ou consolo, desespero ou  esperança, ilusões ou realidade, bondade ou iniquidade, de morte ou vida, de ódio ou de amor, transitoriedade ou eternidade…

Ó lágrima! Que ao verter seja-nos devolvida a serenidade no rosto; a pureza e ação de graças nos lábios e no coração a alegria! 

As faces da lágrima nas faces...

                                                       

As faces da lágrima nas faces...

Lágrimas são mais que lágrimas... Mas o que elas nos revelam?
Com um olhar transcendente contemplemo-las e ouçamos o que nos dizem...

Sou a lágrima que derramou no silêncio escuro de um quarto, por ter vergonha de ser, diante do outro, vertida...

Sou a lágrima que não derramou no silêncio escuro do mesmo quarto, porque disseram que não posso chorar; que o choro é expressão de minha fraqueza...

Sou a lágrima que saiu dos olhos do amigo de Lázaro quando foi ao seu encontro, morto há quatro dias... Expressão de amizade do divino com o humano, da compaixão que consumiu todo o Seu existir...

A mesma lágrima que o Bom Pastor, ao ver Jerusalém, um dia chorou: O Amor que não foi compreendido, acolhido... Que ainda hoje, nos faz pensar nas repetidas incompreensões, da não abertura ao Seu Projeto de amor, vida, salvação...

Sou a lágrima que verteu, copiosamente, nos olhos de Maria aos pés da Cruz, recebendo o corpo do Filho amado.

Sou a lágrima dos bem-aventurados do Reino que, por Deus, serão consolados, pois por Ele foi prometido, porque incompreendidos, caluniados, perseguidos...

Sou a lágrima que caiu porque, ao longo do ano findado, milhões de inocentes, a luz do dia, não viram nascer, porque abortados, mortos o foram...

Sou a lágrima da vitória aparentemente impossível que nada difere da derrota inesperada: o que difere são as suas motivações, tão opostas...

Sou a lágrima do resultado mais que esperado de um concurso, ou um exame, entrevista, podendo ser expressão de êxito ou frustração.

Sou a lágrima dos olhos dos pais ao verem aquele que, ao mundo, veio; seus primeiros choros, primeiros traços, primeiros colos, primeiros toques...

Sou a lágrima das primeiras quedas, sustos; das primeiras ausências sentidas por vezes para sempre; das primeiras aulas em busca de intermináveis saberes...

Sou a lágrima que acompanha a inevitável despedida, ora provisória de uma viagem, ora de uma viagem que será para sempre, portanto voltará a verter...

Sou, portanto, a mesma lágrima da despedida que não conseguimos admitir, a lágrima da saudade de alguém que se foi para aqui dentro ficar...

Sou a lágrima da dor, do esforço, da superação, mas também a lágrima de que valeu a pena não sucumbir diante da exclusão, humilhação...

Sou a lágrima do reencontro, por vezes planejado, outras vezes nem tanto, talvez em mesma intensidade. Mas o que têm em comum? A emoção do reencontro de quem se ama.

Sou a lágrima do sonho destruído, do tudo ou quase tudo perdido, naufragado em intempéries desoladoras, inesquecíveis, inesperadas... Mas a mesma lágrima que rega a semente do recomeço...

Sou a lágrima que goteja diante de altares, em Sacramentos, com indescritível espiritualidade, por todos celebrados, vivenciados com intensa profundidade...

Sou a lágrima pela lágrima não derramada.
Sou a lágrima pela lágrima dos incompreendidos.
Sou a lágrima pela lágrima dos que não choram.
Sou a lágrima por aqueles que desconhecem sua força.

Sou a lágrima que soma com a lágrima daqueles que procuram compreender-me, ouvir-me sem rotulações, definições, proibições...

Lágrima, quem sois?
Sou isto e muito mais
Lágrima, quem sois?
Decifra-me, permita-me, compreenda-me...

Deixe-me ser a lágrima de múltiplas leituras.
Apenas não me ignore, procure ser o que escrevo, ouvir o que grito, mais ainda o que calo...

Lágrima, quem sois?
Sou...

Quem disse que é possível falar com elas?
Não sei se é, ou até sei... Mas que elas falam conosco, não tenho dúvida. Precisamos de coragem para ouvi-las, derramá-las, secá-las, evitá-las, quando possível, no olhar do outro... 

Sagrados compromissos com a fraternidade universal

                            


Sagrados compromissos com a fraternidade universal

Sejamos enriquecidos por estes parágrafos da Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (séc. XX), que nos fala sobre toda a atividade humana que deve ser purificado no Mistério Pascal.

“A Sagrada Escritura, confirmada pela experiência dos séculos, ensina à família humana que o progresso, grande bem para o homem, traz também consigo uma enorme tentação. De fato, quando a hierarquia de valores é alterada e o bem e o mal se misturam, os indivíduos e os grupos consideram somente seus próprios interesses e não o dos outros.

Por esse motivo, o mundo deixa de ser o lugar da verdadeira fraternidade, enquanto o aumento do poder da humanidade ameaça destruir o próprio gênero humano. Se alguém pergunta como pode ser vencida essa miserável situação, os cristãos afirmam que todas as atividades humanas, cotidianamente postas em perigo pelo orgulho do homem e o amor desordenado de si mesmo, precisam ser purificadas e levadas à perfeição por meio da cruz e ressurreição de Cristo.

Redimido por Cristo e tornado nova criatura no Espírito Santo, o homem pode e deve amar as coisas criadas pelo próprio Deus. Com efeito, recebe-as de Deus; olha-as e respeita-as como dons vindos das mãos de Deus.

Agradecendo por elas ao divino Benfeitor e usando e fruindo das criaturas em espírito de pobreza e liberdade, é introduzido na verdadeira posse do mundo, como se nada tivesse e possuísse: ‘Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus’ (1Cor 3,22-23).

O Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, que Se encarnou e veio habitar na terra dos homens, entrou como Homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a em Si. Ele nos revela que Deus é amor (1Jo 4,8) e ao mesmo tempo nos ensina que a lei fundamental da perfeição humana, e, portanto, da transformação do mundo, é o novo Mandamento do amor.

Aos que acreditam no amor de Deus, Ele dá a certeza de que o caminho do amor está aberto a todos os homens e não é inútil o esforço para instaurar uma fraternidade universal.

Adverte-nos também que esta caridade não deve ser praticada somente nas grandes ocasiões, mas, antes de tudo, nas circunstâncias ordinárias da vida.

Sofrendo a morte por todos nós pecadores, Ele nos ensina com o Seu exemplo que devemos também carregar a cruz que a carne e o mundo impõem sobre os ombros dos que procuram a paz e a justiça.

Constituído Senhor por sua Ressurreição, Cristo, a quem foi dado todo poder no céu e na terra, age nos corações dos homens pelo poder de seu Espírito. Não somente suscita o desejo do mundo futuro, mas anima, purifica e fortalece por esse desejo os propósitos generosos com que a família humana procura melhorar suas condições de vida e submeter para este fim a terra inteira.

São diversos, porém, os dons do Espírito. Enquanto chama alguns para testemunharem abertamente o desejo da morada celeste e conservarem vivo esse testemunho na família humana, chama outros para se dedicarem ao serviço terrestre dos homens e prepararem com esse ministério a matéria do reino dos céus. A todos, porém, liberta para que, renunciando ao egoísmo e empregando todas as energias terrenas em prol da vida humana, se lancem decididamente para as realidades futuras, quando a própria humanidade se tornará uma oferenda agradável a Deus”.

Vivendo o Tempo da Quaresma, de modo mais intenso, somos motivados à prática do essencial de nossa fé cristã, que é a vivência do Mandamento do Amor que Nosso Senhor nos deu a ser vivido em sua dupla dimensão, inseparavelmente: amor a Deus e ao próximo.

De fato, como lemos, somente a prática deste Mandamento é que nos possibilitará a construção de uma fraternidade universal, e o fortalecimento dos vínculos de uma amizade social, como tão bem expressou o Papa Francisco em sua Carta Encíclica “Fratelli Tutti".

Assim, também relaciono com a temática da 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica (2021), com o tema“Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”; e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14); e também a Campanha da Fraternidade 2025, com o tema - "Fraternidade e Ecologia integral", e com o lema - "Deus viu que tudo era muito bom" (cf. Gn 1,31).

Concluo, retomando a Oração da Campanha da Fraternidade 2021, porque se trata de um convite a viver a amorosidade, derrubando muros de separações e divisões, ao mesmo tempo que somos desafiados a construir pontes de diálogo, comunhão e proximidade, e respeito a beleza e sacralidade da vida.

Oremos:

“Deus da vida, da justiça e do amor, 
Nós Te bendizemos pelo dom da fraternidade 
e por concederes a graça de vivermos a comunhão na diversidade.

Através desta Campanha da Fraternidade Ecumênica,
ajuda-nos a testemunhar a beleza do diálogo
como compromisso de amor, criando pontes que unem
em vez de muros que separam e geram indiferença e ódio.

Torna-nos pessoas sensíveis e disponíveis 
para servir a toda a humanidade, 
em especial, aos mais pobres e fragilizados, 
a fim de que possamos testemunhar o Teu amor redentor 
e partilhar suas dores e angústias, 
suas alegrias e esperanças, 
caminhando pelas veredas da amorosidade. 

Por Jesus Cristo, nossa paz,
no Espírito Santo, sopro restaurador da vida. Amém”.

Em poucas palavras...

                                                      


O Mistério da Cruz em nossa vida

“Em Jeremias, como em Cristo, há um aspecto trágico: o conhecimento do destino que lhe preparam os inimigos, sem possibilidade de evitá-lo. Não pode fazer outra coisa senão pôr-se nas mãos de Deus e esperar que este venha salvá-lo no cumprimento deste destino...

Deus, porém, mesmo em seu Mistério fulgurante, não esmaga a liberdade do homem; dar-se-á somente àquele que tiver o direito de cativá-lo. Aqui está a razão de ser da obediência de Cristo na cruz, que a Eucaristia nos convida a alcançar.” (1)

 

(1) Comentário Missal Cotidiano – Editora Paulus – p. 280, sobre as passagens: Jr 11,18-20; Jo 7,40-53.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Meditemos sobre as sete dores de Maria

                                                



Meditemos sobre as sete dores de Maria

1ª – A profecia de Simeão (Lc 2,35)

2ª – A fuga para o Egito (Mt 2,13s)

3ª – A perda de Jesus no templo (Lc 2,48)

4ª – O caminho de Jesus para o calvário (Lc 23,27)

5ª – A crucificação de Jesus (Lc 23,33)

6ª – Jesus deposto da cruz (Jo 19,38)

7ª – A sepultura de Jesus (Jo 19,40s)

 


As Sete Dores de Maria

                                               

As Sete Dores de Maria

Contemplo a profecia de Simeão (Lc 2,35):
A espada que transpassaria tua alma.
E assim se fez, no ápice momento,
Aos pés da crudelíssima Cruz.
 
Contemplo a tua fuga para o Egito (Mt 2,13s):
Com José ao teu lado, para defender a vida
Da frágil Criança, que faz tremer as forças do mal,
Que faz cegar pelo medo o coração de Herodes.
 
Contemplo a perda de Jesus no templo (Lc 2,48):
Discutindo com os doutores O encontraste,
Das coisas do Pai já Se ocupando,
Teu coração vivendo proximidade e separação.
 
O caminho para o calvário (Lc 23,27):
Em silêncio acompanhas, nada podes fazer,
A dor te consome. Porém maior que a dor,
É o amor que te une ao teu Filho.
 
A crucificação de Jesus (Lc 23,33):
Como Ele, te sentes crucificada,
Não te afastas sequer por um momento.
Quem poderia sofrer tamanha dor e tormento?
 
Jesus deposto na Cruz (Jo 19,38):
Há pouco, Ele nos deu como nossa mãe;
No discípulo amado, nos fez teus filhos.
Recebe no teu colo quem que no teu ventre foi concebido.
 
A sepultura de Jesus, teu Filho (Jo 19,40s):
Serenidade e doçura tu conservas,
Após três dias sombrios e frios,
Morte vencida na madrugada da Ressurreição. Amém.
 

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG