quinta-feira, 18 de junho de 2026

Misericórdia Divina e humana são inseparáveis

                                                                 

Misericórdia Divina e humana são inseparáveis

A Liturgia das horas nos oferece um Sermão do Bispo São Cesário de Arles (séc. VI), que nos convida a refletir sobre a misericórdia divina e a misericórdia humana. 

Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. É suave a palavra misericórdia, meus irmãos. E se a palavra assim é, o que não será a realidade? Apesar de todos a desejarem, não agem de modo a merecer recebê-la, o que é mau. De fato, todos querem receber a misericórdia, mas poucos querem dá-la.

Ó homem, com que coragem queres pedir aquilo que finges dar! Deve, portanto, conceder misericórdia aqui na terra quem espera recebê-la no céu. Por isto, irmãos caríssimos, já que todos queremos misericórdia, tenhamo-la por padroeira neste mundo, para que nos liberte no futuro.

Há no céu uma misericórdia a que se chega pelas misericórdias terrenas. A Escritura assim diz: Senhor, no céu, Tua misericórdia.

Há, então, a misericórdia terrena e a celeste, a humana e a divina. Qual é a misericórdia humana? Aquela, é claro, que te faz olhar para as misérias dos pobres.

E a misericórdia celeste? Certamente a que concede o perdão dos pecados. Tudo quanto a misericórdia humana distribui pelo caminho, paga-o na pátria a misericórdia divina.

Neste mundo, Deus, em todos os pobres, sofre frio e fome; Ele mesmo o disse: Sempre que o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes. Deus, pois, que no céu se digna dar, quer na terra receber.

Que espécie de gente somos nós que, quando Deus dá, queremos receber, quando Ele pede, nós nos recusamos a dar? Se um pobre tem fome, Cristo sofre necessidade, conforme disse: Tive fome e não me destes de comer. Por conseguinte, não desprezes a miséria dos pobres, se queres esperar confiante o perdão dos pecados. Agora Cristo passa fome, irmãos. Em todos os pobres Ele se digna ter fome e sede. Mas aquilo que recebe na terra, paga-o no céu.

Pergunto-vos, irmãos, que quereis ou que buscais quando vindes à igreja? Não é a misericórdia? Dai, então, a misericórdia terrena e recebereis a celeste. O pobre pede a ti e tu pedes a Deus. O pobre pede um pedaço de pão; tu, a vida eterna.

Dá ao mendigo o que merecerás receber de Cristo. Escuta o que Ele diz: Dai e dar-se-vos-á. Não sei com que coragem queres receber aquilo que não queres dar. Por isto, vindo à Igreja, dai, segundo vossas posses, esmolas aos pobres.”

Diante da misericórdia divina, reconheçamos nossa condição pecadora, a fim de que sejamos mais misericordiosos com aqueles que padecem a miséria no tempo presente. 

Se a misericórdia vivida para com o outro o for, de fato, somos acolhedores e aprendizes da mais bela, perfeita e imensurável misericórdia: a misericórdia divina.

A vivência da misericórdia humana em gestos concretos e solidários com o outro que se vê, é a mais bela e pura expressão da misericórdia divina, que se busca, se deseja, se quer viver, mas que não se vê.

Bem afirma São João que é mentiroso quem diz que ama a Deus que não se vê e não se ama o irmão que se vê (1 Jo 4,20-21).

Aprendizes assíduos da misericórdia divina e humana o sejamos, de fato, e como bem expressa o refrão da Oração Eucarística da Reconciliação:

“Como é grande, ó Pai, a Vossa misericórdia”, e como o próprio Senhor o disse: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).


PS: As obras de misericórdia corporais (dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos); e as obras de misericórdia espirituais (aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as fraquezas do próximo, rezar a Deus pelos vivos e defuntos).

quarta-feira, 17 de junho de 2026

“Fidelidade Constante”

                                                    

“Fidelidade Constante”

Na fidelidade a Ti, Jesus, felicidade encontrarei.
Na fidelidade a Ti, Jesus, para sempre eu viverei.

Fidelidade aos Mandamentos da Lei Divina,
Ao Projeto de Amor tão belo e imensurável,
À Missão por Jesus a Igreja confiada,
Com o Sopro do Espírito, indispensável.

Fidelidade ao anúncio do Evangelho,
Aos Mistérios a serem celebrados,
E na vida de conteúdo acompanhados,
Frutos de eternidade são garantidos.

Fidelidade na construção do Reino,
Como servos inúteis, mas por Deus queridos.
Incansáveis, corajosos, ardorosos,
Porque pelo Paráclito assistidos.

Fidelidade na busca de um novo céu,
De uma nova terra em que tudo se renovará;
Nem mais dor, luto e pranto.
Ó que alegria! Quem do coração a roubará?

Fidelidade constante em tudo e em todas as circunstâncias,
Dentro da Igreja e em todos os âmbitos da vida,
Em todos os espaços, atividades e promessas feitas,
em todos os compromissos, renovada,  vivida.

Fidelidade às promessas feitas
No Sacramento do Matrimônio diante do altar.
Fidelidade, amor e aliança para sempre,
Com tua força e sabedoria que não hão de faltar. 

Fidelidade às promessas feitas
Na ordenação de Seus eleitos
Que os sagrados compromissos se renovem,
Pastor e rebanho mais santos e perfeitos.

Assim são as coisas divinas:
Exigem de nós a “fidelidade constante”,
Sem a cruz renunciar, no amor a Deus,
Que será o nunca bastante.

Fidelidade a Ti, Jesus,
Felicidade encontrarei.
Fidelidade a Ti, Jesus,
Para sempre eu viverei.

Amém. Aleluia!

Passagens bíblicas: 1 Rs 21,1-16; Mt 19,3-12; 21,28-32; Mc 10,1-12; Lc 10,1-12

Perdão: “O amor é mais forte que o pecado"

                                                    

Perdão: “O amor é mais forte que o pecado"

Quem nunca se deparou com afirmações como estas:

“Não consigo perdoar!”
“Perdoo, mas não esqueço!”;
“Tal pessoa não existe mais para mim!”...
E, tantas outras afirmações?

Perdoar é uma das mais difíceis exigências do Evangelho, tanto que Nosso Senhor a incluiu como um pedido na Oração que nos ensinou (Mt 6,7-15; Lc 11,2-4).

Somente com uma vida fundamentada na oração, poderemos dar e receber o perdão, que nos trará consequentemente cura e libertação, tantas vezes por nós desejada, trazendo-nos paz interior e felicidade.

O Bispo São João Crisóstomo (séc. IV) nos apresenta 5 vias da penitência, da reconciliação, para que curemos nossas chagas, recuperando a saúde e melhor participarmos da Mesa Sagrada:

1.  A reprovação dos pecados que cometemos;
2.  O perdão das faltas do próximo;
3.  A Oração;
4.  A esmola = solidariedade;
5.  A humildade.

Colocarmo-nos neste caminho penitencial, com certeza nos ajudará a compreender melhor quem nos ofendeu, e cumprir o ensinamento evangélico de perdoar até setenta vezes sete, isto é, sem limite (Mt 18,22). Perdoando-nos mutuamente, revestidos de sentimentos de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, serenidade (Col 3,12-13).

O monge beneditino Laurence Freeman apresenta seis estágios para que perdoemos de coração:

1.  A aceitação dos sentimentos que temos em relação ao outro: (ira, raiva, ódio);
2.  O desejo de mudança (não se consegue dormir direito, a alegria de viver não é mais a mesma...);
3.  Imaginar porque a pessoa fez o que fez para mim;
4.  Perceber o começo da mudança (o veneno está indo embora...);
5.  Transformar o veneno em compaixão;
6.  A reconciliação com o outro (não é possível se reconciliar sozinho).

É impossível ser feliz sem a prática do perdão, que é o mais maduro testemunho de que o amor é mais forte que o pecado (Catecismo da Igreja Católica parágrafo n. 2844).

Nossa maturidade na fé está na exata medida de quanto somos capazes de perdoar.

Sem a prática do perdão, jamais poderemos rezar:

“Pai Nosso que estais nos céus...”.

Não sejamos palco para nós mesmos!

                                                          

Não sejamos palco para nós mesmos!

Tudo deve ser feito para que
nos coloquemos em perfeita comunhão com o Pai...

A Liturgia da quarta-feira da 11ª semana do Tempo Comum nos apresenta a passagem do Evangelho de São Mateus (Mt 6,1-6;16-18), que nos fala da prática da esmola, da Oração e do jejum.

Muito mais que uma exortação feita por Jesus, para que os discípulos vivam estas práticas, é uma indicação da autêntica maneira de realizá-las, numa verdadeira e frutuosa religiosidade, fundada na sinceridade daquilo que se faz.

Tudo deve ser feito para que nos coloquemos em perfeita comunhão com o Pai, sob Seu olhar, em profunda intimidade com Ele, jamais acompanhadas de atitudes que revelem um coração duplo e hipócrita.

Jamais praticar obras de modo à obtenção da aprovação dos outros, ou até de si mesmos. Se o coração do discípulo estiver em íntima comunhão com o Pai, tudo fará para que seja visto tão apenas por Ele que dará a Sua recompensa, que é o próprio Jesus, que nunca Se separa de quem O procura com sinceridade e abertura total.

Atuar em segredo exige muito mais, pois podemos nos tornar palco de nós mesmos, requerendo reconhecimento e gratidão, acompanhados de autoelogios, autoaplausos acompanhados do vácuo de humildade.

É preciso tão apenas nos tornamos o que, de fato, somos, fazendo brotar, no mais profundo de nosso eu, uma autenticidade sem interesses duvidosos. 

Cada palavra, pensamento ou obra deve ser a pura expressão do amor, experimentado na relação com Deus em favor do outro, da mais frutuosa, piedosa e ativa atitude de quem crê no que celebra em cada Eucaristia, e do que vive e prolonga em cada gesto do cotidiano.

Que a Oração nos coloque em mais intensa comunhão, intimidade e amizade com Deus, para que saibamos viver o autêntico jejum, a morte de toda e qualquer expressão de egoísmo, que consiste na ausência de liberdade, acompanhado de gestos múltiplos, pequenos ou grandes de caridade.

Assim vividas, a Oração e a caridade, a esmola edifica e promove o outro, sem vínculos de dependência de uma das partes, ou  sobressair-se sobre a miséria do outro, da parte de quem a oferece.

Oração: diálogo íntimo com o Senhor

                                                          

Oração: diálogo íntimo com o Senhor

“... quando você rezar, entre no seu quarto,
feche a porta, e reze ao seu pai ocultamente;
e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você.”
(Mt 6, 6)

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 6,1-6.16-18), Jesus nos orienta sobre a autêntica prática da oração, jejum e esmola.

Sobre a oração especificamente, mostra-nos que esta se constitui num dos elementos essenciais para o processo de conversão e sintonia com Deus (Mt 6,5-8).

Para que nossa oração chegue até Deus, ela precisa brotar da sinceridade de um coração sedento de contínua conversão; ser oculta, “no silêncio do quarto”, de portas fechadas e a sós com Deus.

Neste espaço do recolhimento e na intimidade, diante d’Ele, a sós, não há necessidade de usar máscaras e representar papéis, e assim nos colocamos diante do Pai com alma e o coração nus, sem querer encobrir erros, falhas e pecados, revelando a sinceridade do coração e das intenções, porque Deus sabe quem cada um é e o que pretende:

“Javé, Tu me sondas e me conheces. Tu conheces o meu sentar e o meu levantar, de longe penetras o meu pensamento. Examinas o meu andar e o meu deitar, meus caminhos são todos familiares a Ti. A palavra ainda não me chegou à língua, e Tu, Javé, já a conheces inteira. (Sl 138,1-4).

Ponhamo-nos diante de Deus, abrindo a Ele nosso coração, numa relação sincera, íntima, confiante.

Oremos ocultamente, no silêncio do quarto, que é o nosso coração, onde Deus habita, onde podemos encontrá-Lo, então sal da terra e luz do mundo, de fato seremos.

Práticas que nos santificam

                                                        

Práticas que nos santificam

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 6,1-6.16-18), em que Jesus nos aponta o caminho da autêntica e frutuosa prática da Oração, jejum e caridade, e tão somente assim firmamos nossos passos no  caminho de aperfeiçoamento espiritual desejável.

Vejamos no que estas práticas consistem:

A Oração:
Trata-se do relacionamento da criatura com o Criador, através da oração, viver e intensificar a profunda relação filial com Deus;

A Esmola:
Trata-se do relacionamento da criatura com o seu próximo, através da partilha, sobretudo com os mais necessitados;

O Jejum:
Trata-se do relacionamento da criatura com a natureza, com os bens criados por Deus.

O homem e mulher são senhores de todos os bens. Através do jejum, sentem na pele a necessidade do outro; sentem-se interpelados a fazer com que todos participem dos frutos da criação e do trabalho humano.

Concluo com as palavras do Bispo São Pedro Crisólogo (séc. V):

“Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantém a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a Oração, o Jejum e a Misericórdia. O que a Oração pede, o Jejum alcança e a Misericórdia recebe".

terça-feira, 16 de junho de 2026

Em poucas palavras...

 

 


O olhar amoroso de Deus para conosco

“Deus não se repete nunca, é novidade, vivacidade, porque amor. Olha sempre com ‘olhos novos’ para toda criatura. Chama-nos também a participarmos deste seu olhar.

Conservar para cada encontro a limpidez do olhar, sem preconceitos.

Saber renovar-se no amor até nas circunstâncias mais duras. Não por nossa força, mas em humilde adesão ao único que ‘nos vê’ de verdade.” (1)

 

(1) Comentário da passagem (1Rs 21,17-29) – Missal Cotidiano – Editora Paulus - pág. 907

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG