sexta-feira, 12 de junho de 2026

“Jesus manso e humilde de Coração...”

                                                             

“Jesus manso e humilde de Coração...”

Com a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 11,28-30), proclamado na 15ª semana do Tempo comum, somos questionados sobre a nossa fé. que não permite acomodação, de modo que devemos confiar e buscar força tão somente em Deus, nos cansaços possíveis ao enfrentar os desafios da missão, como discípulos missionários do Senhor.

Já no Antigo Testamento, contemplamos a manifestação de Deus, que se apresenta a Moisés como “Eu sou Aquele que sou”, e a ele confia a missão de conduzir o Povo de Deus, libertando-o da escravidão do Egito para uma terra nova onde corre leite e mel -  (Ex 3,13-20)

Bem sabemos que não foi nada fácil esta missão, mas Moisés confiou  sempre na presença e ação divinas em todos os momentos.

Também nós, hoje, como discípulos missionários do Senhor, como cristãos, não podemos fechar nossos ouvidos a Deus que Se revela a cada um de nós, nos chama pelo nome e nos envia em missão de vida e paz. Não podemos construir uma história na indiferença a Deus e ao Seu Amor por nós.

A Palavra de Jesus penetra nas entranhas mais profundas de nossa alma e coração: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e Eu vos darei descanso”.

Somente Jesus pode nos oferecer o verdadeiro “descanso”, porque é “manso e humilde de coração”, e nos oferece os distintivos, que haveremos de carregar e viver, para que o mundo O reconheça e O veja em nós: a Cruz e o Mandamento do amor a Deus e ao próximo.

Não há discipulado, não há seguimento de Jesus sem a Cruz, que é garantia de Vitória, passagem para a glória – “Quem quiser me acompanhar, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e venha” (Mt 16, 24). Oferece o jugo que Ele mesmo carregou e conosco carrega.

Nosso cristianismo somente pode ser vivido, com alegria e plenamente, na certeza de que Ele caminha ao nosso lado – “Quem se arrasta atrás de seu jugo com subterfúgios e compromissos, é derrubado pelo tédio e abatido pela solidão” (Missal Cotidiano - pág. 1035). 

O discípulo missionário do Senhor não pode jamais deixar-se abater pela solidão, tristeza, desânimo, para que, com amor e fidelidade, possa carregar a cruz com alegria, confiança, disponibilidade, coragem e firmeza, até o fim.

Carreguemos o jugo da cruz, vivendo a Lei do Senhor, a Lei do Amor “... Este é o meu Mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). 

Somente o amor faz viver. O Mandamento do Amor se constitui na expressão máxima da vida cristã, porque Cristo mesmo nos disse – “... Ninguém teve maior Amor do que Aquele que dá a vida por Seus amigos.“ (Jo 15,13). 

E disse o Evangelista João: “Deus amou tanto o mundo que nos deu o Seu Filho único para que não morra quem n’Ele crer mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Nisto consiste a vitalidade e fecundidade de uma fé autêntica: crer em Deus e, no alegre testemunho, levar quantos possamos a esta descoberta e encontro que transforma a nossa vida e sempre nos prepara o melhor.

Reflitamos:

- Como cada um de nós participa na construção do Projeto que Deus tem para a humanidade?

- Sentimo-nos responsáveis pela transformação do mundo em que vivemos?  
- O que fazemos, no testemunho da fé, para transformar s sinais de escuridão em sinais de luz; os sinais de morte em sinais de vida? 

O Senhor entregou Sua vida por nós, aceitou a morte, e morte de Cruz, amando-nos, amou-nos até o fim. Façamos por Ele e pelo nosso próximo o mesmo: descanso, forças e alegria no tempo presente encontraremos, e na eternidade plenamente viveremos. A glória da Cruz e a Lei do Amor, para sempre Amém!

“Jesus Manso e humilde de Coração,
Fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.”

A força da fé, a graça da Oração

                                                                 

A força da fé, a graça da Oração

Reflitamos sobre a necessidade e a força da Oração em todos os momentos de nossa vida, uns pelos outros.

Agrada a Jesus que rezemos pelas outras pessoas, como nos ensina o Bispo São João Crisóstomo (séc. V): 

“A necessidade obriga-nos a rogar por nós mesmos, e a caridade fraterna a pedir pelos outros; mas é mais aceitável a Deus a Oração recomendada pela caridade do que aquela que é motivada pela necessidade”.

Entretanto, temos de pedir a Deus com fé.  Santo Agostinho nos ensina: “A própria fé faz brotar a Oração, e a Oração, logo que brota, alcança a firmeza da fé” - ambas estão intimamente unidas. E ele mesmo nos dirá algum tempo depois em suas Confissões: “Se eu não pereci no erro, foi devido às lágrimas cotidianas, cheias de fé de minha mãe” (Confissões, 3, 12, 21).

E ainda, mais recentemente, o Papa São João Paulo II falou da necessária inter-relação da fé e a razão: 

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade, e em última análise, de conhecer a ele, para que conhecendo-o e amando-o, possa chegar à verdade plena sobre si próprio” (Carta Encíclica Fides et Ratio, preliminar).

A atitude de fé jamais nos dispensará de colaborar, agir, participar, interagir, dons a serviço colocar.

Viver é dar conteúdo substancial a cada página que Deus nos concede a cada dia. Ao escrevê-la, sobretudo a história da fé, nem sempre poderemos corresponder ao esperado por Deus, mas como Ele não nos criou para uma história de linhas tortas, porque tudo que fez, viu que era bom, se a linha de nossa história, pelas vicissitudes e limitações de nossa existência, não for exatamente como o Seu desígnio, Ele nos ajudará a reencontrá-la. E se algo aparentemente parecer o fim, para Deus será apenas o começo.

Nisto consiste Sua onipotência e bondade. Deus nunca perde, e com Ele sempre ganhamos, n’Ele somos mais que vencedores, como o próprio Paulo falou na Carta aos Romanos (cf. Rm 8,37-39).

Aqui voltamos à necessidade da fé que se concretiza na prática da Oração. Voltar-se para Ele, de coração confiante, humildade, em Oração persistente. E Sua misericórdia em resposta de amor se realizará, muito mais do que possamos conceber.

Assim é Deus, assim é o Seu Amor!

O Sacratíssimo Coração e o Santíssimo Sacramento (SCJ)

                                                        

O Sacratíssimo Coração e o Santíssimo Sacramento

Celebraremos a Festa do Sagrado Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade; um coração trespassado do qual jorrou Sangue e Água, prefigurando nosso Batismo e a Eucaristia, nosso salutar Alimento de eternidade.

Retomemos a reflexão de Dom Murilo, muito oportuna para esta Festa:

“1ª pergunta: O que Jesus Eucarístico nos oferece?
Ele nos oferece um caminho de vida e de espiritualidade.

Lemos no livro do Deuteronômio: “Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu” (Dt 8,2).

Para Moisés, a peregrinação dos hebreus pelo deserto, ao longo de quarenta anos, serviu para o Senhor por Seu povo à prova, saber o que tinha no coração e se observaria ou não os Mandamentos Divinos.

Essa longa travessia tornou-se uma referência para todos que viveram no Antigo Testamento. Pouco a pouco, o povo escolhido foi tomando consciência de que a causa de sua desgastante e a cansativa peregrinação foi o esquecimento de Deus.

Quando o Senhor é esquecido, multiplicam-se, imediatamente, bezerros de ouro, que passam a ser adorados.

Séculos depois, Jesus se apresentaria como “caminho” (“Eu sou o caminho...”).

Nos Atos dos Apóstolos, por cinco vezes aparece essa palavra para expressar a Projeto de vida apresentado por Jesus. Ser Seu discípulo é seguir o Caminho.

Atualmente, somos convidados a nos lembrar de que nas estradas que percorremos há “Alguém” que nos acompanha, mesmo que, como aconteceu com os discípulos de Emaús, Sua presença não seja logo percebida.

Na Eucaristia, Jesus nos convida a nos unirmos a Ele. Porque sabe que sozinhos não iremos longe, Ele nos oferece “o Pão descido do céu” (Jo 6,5). Ele próprio é esse Pão.

É um privilégio receber como Alimento o próprio Filho de Deus – privilégio e graça. Afinal, só Ele pode nos dar o perdão dos pecados, a salvação e a vida eterna. Desgraça suprema é viver eternamente longe de Deus.

2ª pergunta: O que Jesus Eucarístico espera de nós?
“Não te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair do Egito!”, lemos no Deuteronômio (8,14).

Pecar é esquecer-se de Deus; é construir uma vida sem referência a Ele; é ignorar Seus Mandamentos; é seguir um caminho próprio. Em nossa época, mais e mais secularizada, pretende-se justamente isto: construir um mundo sem referência ao Criador.

A participação na Eucaristia exige de nós uma abertura para o outro: não podemos amar a Deus, que não vemos, se não amamos o irmão que está ao nosso lado.

Somos chamados a buscar a unidade entre nós, pois o mesmo Cristo que nos alimenta e nos transforma, alimenta e transforma nossos irmãos:

“Porque há um só Pão, nós todos somos um só corpo” (1Cor 10,17). Não podemos ficar indiferentes às divisões em nossa família e em nossas comunidades. Tais divisões nascem do egoísmo, do ciúme e do ódio ciosamente guardado nos corações.

Quem recebe o Senhor deve viver segundo Seus Ensinamentos, acolher quem é amado por Ele e ter sentimentos que Ele possa ter em nós.

3ª pergunta: O que podemos oferecer a Jesus Sacramentado?
Podemos lhe oferecer nossa acolhida: Jesus, esta cidade é Tua. Entra na casa de cada filho e filha desta cidade; também na casa daqueles que não Te conhecem e, por isso, não Te amam!

Somos chamados a lhe oferecer nosso coração: Jesus, meu coração é Teu. É inconstante, é pobre, mas é o que tenho. Toma conta dele e transforma-o segundo o Teu coração, manso e humilde!

Mais do que tudo, devemos adorá-Lo no Santíssimo Sacramento, unindo-nos a todos aqueles que, ao longo dos 465 anos da história desta cidade, O adoraram.” (1)

Como estabelecer a relação da Eucaristia com o Sagrado Coração de Jesus, a partir das três questões apresentadas:

- O que Jesus Eucarístico nos oferece?
- O que Jesus Eucarístico espera de nós?
- O que podemos oferecer a Jesus Sacramentado?

Celebrando a Festa do Sagrado Coração de Jesus, reflitamos:

- O que O Sagrado Coração de Jesus nos oferece?
- O que O Sagrado Coração de Jesus espera de nós?
- O que podemos oferecer ao Coração de Jesus?

Ao concluir, repitamos com o coração sintonizado com o mais belo Coração:

- “Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao Vosso”; e ainda:

- “Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso”.

  

(1) Reflexão feita pelo Arcebispo de Salvador, Dom Murilo S. R. Krieger,  quando da realização da Festa de Corpus Christi - (2014).

Acorramos à Divina Fonte (SCJ)

                                                          

Acorramos à Divina Fonte

Reflexão à luz de um trecho das Obras do Bispo São Boaventura (Séc. XIII), em que ele nos apresenta Jesus como a fonte de vida para a humanidade:

Considera, ó homem redimido, quem é Aquele que por tua causa está pregado na Cruz, qual a Sua dignidade e grandeza.

A Sua morte dá a vida aos mortos; por Sua morte choram o céu e a terra, e fendem-se até as pedras mais duras.

Para que, do lado de Cristo morto na Cruz, se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz:

‘Olharão para Aquele que transpassaram’ (Jo 19,37), a divina Providência permitiu que um dos soldados lhe abrisse com a lança o sagrado lado, de onde jorraram Sangue e Água.

Este é o preço da nossa salvação. Saído d'Aquela fonte divina, isto é, no íntimo do Seu Coração, iria dar aos Sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça, tornando-se para os que já vivem em Cristo Bebida da fonte viva que jorra para a vida eterna (Jo 4,14).

 Levanta-te, pois, tu que amas a Cristo, sê como a pomba que faz o seu ninho na borda do rochedo (Jr 48,28), e aí, como o pássaro que encontrou sua morada (cf. Sl 83,4), não cesses de estar vigilante; aí esconde como a andorinha os filhos nascidos do casto amor; aí aproxima teus lábios para beber a água das fontes do Salvador (cf. Is 12,3).

Pois esta é a fonte que brota no meio do paraíso e, dividida em quatro rios (cf. Gn 2,10), se derrama nos corações dos fiéis para irrigar e fecundar a terra inteira.

Acorre com vivo desejo a esta fonte de vida e de luz, quem quer que sejas, ó alma consagrada a Deus, e exclama com todas as forças do teu coração:

‘Ó inefável beleza do Deus altíssimo e puríssimo esplendor da luz eterna, vida que vivifica toda vida, luz que ilumina toda luz e conserva em perpétuo esplendor a multidão dos astros, que desde a primeira aurora resplandecem diante do trono da Vossa divindade. 

Ó eterno e inacessível, brilhante e suave manancial d'Aquela fonte oculta aos olhos de todos os mortais! Sois profundidade infinita, altura sem limite, amplidão sem medida, pureza sem mancha!’

De Ti procede o rio que vem trazer alegria à cidade de Deus (Sl 45,5), para que entre vozes de júbilo e contentamento (cf. Sl 41,5) possamos cantar hinos de louvor ao Vosso nome, sabendo por experiência que em Vós está a fonte da vida, e em Vossa luz contemplamos a luz (Sl 35,10).” (1)

Nesta Divina Fonte de Amor, bebemos da água cristalina do Amor:

- Que jamais termina, mesmo quando parece terminar nossas forças para trilhar o caminho da fé;

- Para que a secura de nossa alma, por vezes experimentada, seja novamente “hidratada”, e assim possamos avançar no horizonte da esperança que se dilata, amplia, redimensiona;

- Ao participamos do Altar em que Ele Se faz verdadeiramente Comida e Bebida para nos revigorar, e o Mandamento Maior que nos ordenou, ao mundo anunciar, testemunhar.

A esta Divina Fonte de Amor acorramos sem demora, de tal modo que,  fome e sede jamais teremos; senão a sede e fome de justiça, de ver acontecer um novo céu e uma nova terra, porque discípulos missionários do Senhor, que esta sede, no Sermão da Montanha, proclamou: “Bem-Aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5, 6).

À esta Divina Fonte sempre acorramos, sem demora, porque tão apenas n’Ela encontramos a Fonte inesgotável e indizível de Amor. 


(1) Liturgia das Horas - Vol. III - Tempo Comum - p. 571-572

Ressuscitemos o silêncio! (SCJ)

                                                        


Ressuscitemos o silêncio!
Silêncio diante do Coração de Jesus

Na Liturgia da Palavra da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o imensurável amor de Deus por nós.

Na passagem da primeira leitura (Dt 7,6-11), contemplamos o amor de Deus em aliança de misericórdia, fazendo-nos Seu povo preferido, com o compromisso de corresponder a Ele na prática dos Mandamentos Divinos e decretos prescritos.

O Salmo nos apresenta um refrão de indescritível beleza: “O Amor do Senhor Deus por quem O teme, é de sempre e perdura para sempre”.

Na passagem da segunda leitura (1Jo 4,7-16), o Apóstolo João, em sua Primeira Carta, falou que foi Deus quem nos amou primeiro, e somente amando é que o Senhor permanece em nós e nós n’Ele – “e nós conhecemos o Amor que Deus tem para conosco, e acreditamos n’Ele. Deus é Amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com Ele”.

Na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 11,25-30), Jesus, manso e humilde de coração, nos faz o convite: “Vinde a mim vós que estais cansados e fatigados, porque meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

Muito mais do que falar da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, uma Solenidade como esta leva-nos a provocar a comunidade ao silêncio (sobretudo se consideramos que a palavra coração aparece 853 vezes no Antigo Testamento e 156 no Novo Testamento.

Silêncio... Ressuscitar o silêncio.

Considerando que vivemos numa sociedade que multiplica assustadoramente os ruídos.

Ruídos em nossas ruas e praças, casas e trabalho, escolas e hospitais. Até mesmo onde o silêncio não poderia jamais ser exilado, nos Templos Sagrados e no templo sagrado do coração humano, em nossos cultos e celebrações...

Façamos silêncio diante do Coração trespassado do Senhor, do qual jorrou Sangue e Água, e que um pouco antes o discípulo amado, João, reclinou a cabeça. 

Coloquemos nosso coração em sintonia com o Coração de Jesus, para que ao d'Ele semelhante seja, e contemplemos o que neste Coração encontramos.

Os pobres que foram cumulados de bens, os pecadores que foram perdoados, os paralíticos que foram libertados, os cegos que voltaram a ver a luminosidade de um novo dia, os aflitos que reencontraram o sentido e resposta para suas angústias e inquietações, os pequeninos (Seus privilegiados), os famintos que foram saciados; os discípulos que foram chamados; Sua inseparável Mãe, nós, eu, você...

Ressuscitemos o silêncio da alma.
Façamos silêncio em nosso coração!
Silêncio no mais profundo de nós.
Façamos silêncio para contemplar
as maravilhas de Deus!

Tríplice face da misericórdia divina (SCJ)

                                                    

Tríplice face da misericórdia divina

Aprofundemos sobre a Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Passagens bíblicas: Ez 34,11-16; Sl 22,1-6; Rm 5,5b-11; Lc 15,3-7

Reflitamos sobre a tríplice face do amor de Deus à luz da Palavra proclamada.

Amor que procura: a misericórdia de Deus se manifesta no amor que procura, como vemos na Parábola da ovelha extraviada, no Evangelho proclamado.

Assim é o amor de Deus, que veio nos procurar, quando ainda estávamos perdidos. Veio procurar para nos carregar em Seus ombros, e assim o fez, quando o Filho carregou a Cruz da Redenção da Humanidade.

Deus continua nos procurando, para nos amar, para conosco Se relacionar, numa amizade que fora no Paraíso rompida e perdida, mas pelo Filho, no Sangue derramado, reconquistada e para sempre vivida.

Amor que cuida: assim lemos e refletimos na primeira leitura. Deus mesmo vem por meio do Seu Filho, o Bom Pastor do rebanho, que pareciam ovelhas perdidas e abandonadas, sem pastor.

Assim é o amor de Deus que veio cuidar de nossas fragilidades, curar as feridas da alma, e nos fortalecer com o Pão da Vida, Sangue no Cálice da Nova e Eterna Aliança, antídoto para não morrermos, remédio de imortalidade.

Deus continua cuidando de nós, colocando pastores à frente da comunidade; suscitando ministros ordenados, consagrados e consagradas; cristãos leigos e leigas, com o Reino mais que comprometidos, em tantas pastorais, movimentos e organizações.

Amor que renova: amor que nos foi derramado pelo Espírito, que o Pai enviou em nome de Jesus, como Ele mesmo prometera aos Seus discípulos, quando com eles caminhava, e para o apostolado os preparava.

Assim é o amor de Deus, que veio nos renovar, do pecado nos reconciliar, e assim, de coração purificado, vínculos mais estreitos e fortes, laços indestrutíveis de amor fortalecer, para que a luz divina possamos resplandecer.

Deus continua nos renovando na Mesa da Eucaristia que participamos, no Sacramento do Perdão que celebramos e vivenciamos, em cada gesto de amor e acolhida, que em relação ao próximo, generosamente, multiplicamos.

Agradeçamos ao amor do Deus Uno e Trino, Mistério imenso e indizível de amor. Mergulhemos no mar infinito do Seu amor, que contemplamos e encontramos nas chagas abertas do Cristo Redentor, a quem damos toda a honra, glória, poder e louvor.

Contemplemos e bebamos do jorrar abundante de água e sangue, Mistério do Batismo e da Eucaristia prefigurados, de onde nascemos, somos alimentados, e para sempre eternizados, e na comunhão dos céus, um dia esperamos ser acolhidos.

Quando o Coração de Jesus foi trespassado

                                                

Quando o Coração de Jesus foi trespassado

Acolhamos o Sermão de São Pedro Crisólogo, Bispo (Séc. V), sobre a misericórdia de Deus, que alcançamos por meio do Coração trespassado de Jesus.

“Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos (Rm 12,1). Paulo exorta, ou melhor, é Deus que por intermédio de Paulo nos exorta, pois deseja ser mais amado que temido. Deus exorta-nos, porque quer ser mais Pai do que Senhor. Deus exorta-nos, pela Sua misericórdia, para não ter de nos castigar com o Seu rigor. 

Ouve como o Senhor exorta: Vede, vede em mim o vosso corpo, os vossos membros, o vosso coração, os vossos ossos, o vosso sangue. E se temeis o que é de Deus, por que não amais o que também é vosso? Se fugis do Senhor, por que não recorreis ao Pai?

Talvez vos perturbe a enormidade de meus sofrimentos causados por vós. Não tenhais medo. Esta Cruz não me feriu a mim, mas feriu a morte. Estes cravos não me provocam dor, mas cravam mais profundamente em mim o amor por vós. Estas Chagas não me fazem soltar gemidos, mas vos introduzem ainda mais intimamente em meu Coração.

O meu Corpo, ao ser estirado na Cruz, não aumenta o meu sofrimento, mas dilata os espaços do Coração para vos acolher. Meu Sangue não é uma perda para mim, mas é o preço do vosso resgate.

Vinde, pois, convertei-vos e pelo menos assim experimentareis a bondade do Pai, que paga os males com o bem, as injúrias com amor, tão grandes Chagas com tamanha caridade.

Ouçamos, porém, a insistência do Apóstolo: Eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo (Rm 12,1). Pedindo deste modo, o Apóstolo ergueu todos os seres humanos à dignidade sacerdotal: a vos oferecerdes em sacrifício vivo.

Ó inaudito mistério do sacerdócio cristão, em que o ser humano é para si mesmo vítima e sacerdote! O ser humano não precisa ir buscar fora de si a vítima que deve oferecer a Deus; traz consigo e em si o que irá sacrificar a Deus. Permanecem intactos tanto a vítima como o sacerdote; a vítima é imolada, mas continua viva, e o sacerdote que oferece o sacrifício não pode matar a vítima. 

Admirável sacrifício em que o corpo é oferecido sem imolação e o sangue sem derramamento! Pela misericórdia de Deus eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo.

Irmãos, este sacrifício é imagem do sacrifício de Cristo que, para dar a vida ao mundo, imolou o Seu corpo, permanecendo vivo; na verdade, Ele fez de Seu corpo um sacrifício vivo, porque tendo morrido, continua vivo. Num sacrifício como este, a morte teve a sua parte, mas a vítima permanece; a vítima vive, enquanto a morte é castigada.

Por isso, os mártires nascem com a morte, no fim da vida é que começam a vivê-la; com a sua imolação revivem e brilham agora nos céus os que na terra eram tidos como mortos.

Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício  vivo, santo. É o que também cantava o Profeta: Tu não quiseste nem vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo (cf. Sl 39,7; Hb 10,5). 

Ó homem, sê tu sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo que te foi dado pelo poder do Senhor. Reveste-te com a túnica da santidade, cinge-te com o cíngulo da castidade; seja Cristo o véu de proteção da tua cabeça; que a cruz permaneça em tua fronte como defesa.

Grava em teu peito o sinal da divina ciência; eleva continuamente a tua oração como perfume de incenso; empunha a espada do Espírito; faze de teu coração um altar. E assim, com toda confiança, oferece teu corpo como vítima a Deus.

Deus não quer a morte, mas a fé; Ele não tem sede do teu sangue, mas do teu sacrifício; não se aplaca com a morte violenta, mas com a vontade generosa”.(1)

Deus espera tão apenas esta contínua e decidida resposta de amor! Não há outro modo de melhor acompanhar nossos cantos e hinos de louvor, e assim marca nossa espiritualidade e nos desafia a correponder ao Seu imenso amor mais intensamente.

Contemplemos a morte redentora do Senhor. Esta incrível História de Amor, de tal modo que nossos pensamentos não podem compreender, pois ultrapassa as medidas e capacidades humanas, bem como todas as categorias filosóficas, antropológicas etc.

Num mundo marcado pela crueldade e violação da vida, o Mistério de Amor foi jorrado, quando a lança atravessou-lhe o Coração!

Extasiemo-nos diante deste Amor sem medida, um Amor que por Amor nos amou, para que todos tivéssemos vida!

Viver é nada mais, nada menos do que ao Amor de Deus se abrir e corresponder, e vida nova, vida plena, tão somente assim, haveremos de ter, expressão no amor, doação e serviço.

Quando o Coração de Jesus foi trespassado,
Tudo foi redimido, tudo foi renovado,
Em Seu coração fomos mergulhados.
Amém!   


(1) Liturgia das Horas - Volume Quaresma/Páscoa - pág. 695-696    

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