domingo, 22 de março de 2026

O soar do sino pelo cortejo da vida (VDTQA)

                                                       


O soar do sino pelo cortejo da vida


À tarde, como naquela tarde memorável dos discípulos de Emaús, ele veio, estilhaçado pela dor e pelo pranto, da páscoa de quem tanto se amou.
 
Olhou-me com olhar suplicante, não na esperança de uma volta, mas uma palavra para curar a dor cortante que deixa quem partiu cedo demais.
 
Sempre cedo demais será a partida de quem se amou em vida passageira.
Sem pseudos-remorsos, certos de que se fez o humanamente possível.
 
Passamos pelas páginas do Evangelho e pela ação humana e divina de Jesus.
Tão humana, marcada pela compaixão; tão divina, com poder sobre a morte.
 
Com a ressurreição do filho da viúva de Naim, inaugura o cortejo da vida.
Com a ressurreição da filha de Jairo nos devolve a vida e nos põe a caminho.
 
A ressurreição do amigo Lázaro, precedida de momentos de dor, compaixão, lágrimas da face do Senhor, a amizade chorada e a vida devolvida.
 
Jesus Cristo, nós Cremos, é a Ressurreição e a vida, e todo o que n’Ele crer
Não morrerá para sempre, à Marta e à nós Sua Palavra eternizou. Aleluia.
 
E com ele trocamos últimas palavras com olhares de esperança renovados:
O Senhor sempre nos mostra outra possibilidade, pois para Ele nada é impossível.
 
Ele sempre nos coloca de pé, e nos aponta um caminho a percorrer,
Não com facilidades, mas único caminho de felicidade que passa pela Cruz.
 
E assim concluímos fazendo um sagrado compromisso, gravado em papel frágil que se decompõe, mas no coração gravado, eternizado.
 
Lá fora, na capela, os sinos dobraram, na melodia de nossa conversa,
E, se pudesse traduzir em palavras seu som a soar pelas ruas e praças:
 
“Não deem passos cambaleantes nos cortejos da morte sem esperança,
Firmem seus passos no cortejo do Caminho, Verdade e Vida: Jesus. Amém.”


 
PS: Passagens do Evangelho:


- Ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,21-43, Mt 9,18-26; Lc 8,40-56
- Ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17)
- Ressurreição da Lázaro – (Jo 11, 1-46)
- Discípulos de Emaps – Lc 24,13-35
- Jesus é o Caminho, Verdade e Vida – Jo 14,6 

Não deixemos morrer... (VDTQA)

                                                       

Não deixemos morrer...

“A tragédia não é quando um ser humano morre.
A tragédia é aquilo que morre dentro da pessoa
enquanto ela ainda está viva.” (Albert Schweitzer)

Vivemos num processo que culmina na morte,
Que pode ser abreviada ou antecipada,
De acordo com as opções que fazemos.

Também pode ser antecipada
Por fatores que ultrapassam nossas vontades,
Através das mais diversas possibilidades.

Evidentemente, a morte tem seus traços,
Deixa lembranças doloridas,
E saudades que nos acompanham.

Mas há uma morte que precisamos enfrentar
E procurar a cura e a libertação, permanentemente:
Aquela que nos faz morrer em vida;

Aquela que o teólogo menciona e nos questiona:
“Aquilo que morre dentro da pessoa
Enquanto ela ainda está viva...”.

A morte com suas múltiplas expressões:
A morte da alegria, dando lugar à tristeza;
A morte da esperança, cedendo o lugar para o nada;

A morte do horizonte inédito, fim de toda expectativa.
A morte do sonho, multiplicando os pesadelos.
A morte da inocência, maculada pela maldade.

A morte das forças, fragilizando os passos.
A morte da alma, em sepulcro abismal.
A morte da fé, ao nada mais crer.

A morte da solidariedade, fomentando o egoísmo.
A morte da graça, fulminada pelo pecado.
A morte do amor, a mais terrível de todas as mortes.

É tempo de revermos o que não pode morrer em nós.
É tempo de fazermos morrer o que já havia de ter morrido.
Sem demora, para que em vão não tenhamos vivido.

É tempo de fazer germinar o mais belo em nós;
Que faça reencantar o mundo com coragem e ousadia.
Iluminando a quantos possamos. É a grande hora.

É tempo de ressuscitar o que há de mais belo em nós:
A capacidade de sonhar, de crer, de esperar, de se solidarizar;
A vida partilhar, na graça e paz viver, simplesmente amar.

Morrer como grão de trigo, para não ser apenas um grão de trigo.
A vida por amor consumir, dando sentido e beleza ao existir;
Renovando forças, a cada dia, sem jamais da vida desistir. Amém.


PS: Oportuno para o 5º Domingo da Quaresma - Ano A, bem como para a Sexta-feira Santa.

Itinerário Quaresmal percorrido, Alegria Pascal transbordante! (VDTQA)

                                                 

Itinerário Quaresmal percorrido, Alegria Pascal transbordante!

É oportuno refletirmos sobre o Itinerário Quaresmal que assumimos e percorremos (Ano A).

Empenhamo-nos na prática do jejum, da esmola e da oração, multiplicando esforços para a necessária e permanente conversão, renovando a graça do Batismo um dia recebido.

1º Domingo - Com Jesus no Deserto, aprendemos a fidelidade incondicional ao Pai, vencendo as tentações satânicas do ter, ser e poder (egoísmo, sucesso e domínio).

2º Domingo - Contemplamos o Filho Amado, que se Transfigurou no alto da Montanha, e todos fomos convidados a ouvi-Lo e testemunhá-Lo na planície, carregando com coragem e fidelidade nossa cruz cotidiana.

A cruz somente pode ser suportada se soubermos imergir diante da presença do Senhor, acolhendo Sua Palavra, no silêncio orante, para ouvir o que Ele tem a nos dizer. Imergir diante de Sua presença, mergulhar em Sua misericórdia para emergir vidas que clamam na planície à beira do caminho – os empobrecidos, desfigurados...

3º Domingo - Redescobrimos com a Samaritana que a sede de amor, vida e paz somente pode ser saciada na Fonte das Delícias Divinas, Jesus.
Somente N’Ele e com Ele, por Sua Palavra e pelo Pão, que é o Seu corpo, somos saciados e nutridos, para que renovemos compromissos com as múltiplas e incontáveis sedes da humanidade de vida e eternidade.

4º Domingo - Como o cego de nascença fomos curados de toda cegueira e, mais do que nunca, nossos olhos se abriram porque fomos agraciados com o colírio da fé que nos permite enxergar caminhos  inauguradores do Reino. Curados por Deus, somos iluminados e iluminadores de um  mundo que sem Ele seria condenado à escuridão, ao enregelamento insuportável, fazendo-nos ciganos pelo mundo sem rumo e sem sentido.

5º Domingo - Quando Lázaro, por seu amigo Jesus, foi ressuscitado, professamos nossa fé n’Aquele que tem poder sobre a vida e a morte, porque Jesus é o Senhor, é a Ressurreição e a Vida.

Ele é homem e Deus que quer vida para todos, tirando-nos das sepulturas tristes e sombrias da morte, quando com olhos amabilíssimos chorou e o Seu amigo ressuscitou.

Com a Ressurreição do Senhor, vida nova se inaugurará.
Ele fará novas todas as coisas.
Percorrido o Itinerário Quaresmal, será Páscoa,
o Sol Divino nos iluminará!
Então, exultantes, voltaremos a cantar o Aleluia Pascal! 

Páscoa: Romper as amarras e colocar-se a caminho! (VDTQA)

                                                        

Páscoa: Romper as amarras e colocar-se a caminho!

Vivemos momentos desafiadores, e torna-se imperativo nossa maior e melhor devoção que agrada a Deus: o serviço e compromisso com os pobres, com os “Lázaros que já cheiram mal, pois estão enterrados há quatro dias” (Jo 11,39).

A Palavra de Jesus é nossa força, resistência e luta de nossas comunidades é a certeza de nossa Páscoa! Ontem, hoje e sempre Ele nos ordena: “Lázaro vem para fora... desatai-o, deixai-o caminhar!” (Jo 11, 43-44).

Grande é a sepultura do mundo que desafia nossa fé, esperança e amor. A cada Páscoa que celebramos nossas comunidades querem sair da situação triste que estão enfrentando.

Celebrar a Páscoa é sair de nossas sepulturas; desatar nossas amarras, para que possamos caminhar como povo livre, terno, fraterno, sem tráfico de pessoas, de órgãos humanos, com a preservação e defesa da beleza e da dignidade da vida que não é mercadoria, fonte de lucro.

Mais do que nunca, nossa Igreja e toda sociedade estão desafiadas a buscar caminhos novos. Que a profecia de Ezequiel se cumpra em nosso meio. ”Porei em vós o meu Espírito para que vivais e vos colocarei em vossa terra, onde sabereis que eu, o Senhor, digo e faço – Oráculo do Senhor” (Ez 37,14).

Renovando a fé na força e vida nova que a Ressurreição de Jesus traz para todos nós, teremos certeza de que não estamos órfãos, como nos disse Santo Agostinho:

Jesus ora por nós como nosso sacerdote, em nós como nossa cabeça e recebe nossas orações porque é Deus”.

Quem souber fazer mais terna esta vida, entenderá o que Jesus disse: 

Eu sou a Ressurreição e a Vida... Quem viver e crer em mim não morrerá, mas viverá para sempre” (Jo 11, 26).

Creio na vida que brota de uma fé Pascal, passando da morte para a vida. Quando a Páscoa celebrarmos na noite da Vigília Pascal, exultaremos de alegria e diremos: “A vida venceu a morte. Aleluia!”

Por ora, é preciso continuar nosso Itinerário Quaresmal até que chegue o dia em que possamos desejar mutuamente: Feliz Páscoa!

Oração da 5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce

                                                        

        Oração da 5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce 

Ó Bom Jesus, aos Vossos pés, colocamo-nos, confiantes, celebrando a 5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce. Acolhidos em Vosso Santuário, em Conceição do Mato Dentro, trazemos a dor e o sofrimento de nossos irmãos e irmãs, diante dos desmandos da mineração, do agro e hidronegócio, dos monocultivos e do consumismo desenfreado, que ceifam vidas, levam à exaustão os bens da natureza, poluem a terra, destroem matas e rios, escravizam a mão de obra humana e fortalecem uma economia a serviço do lucro e não da vida e dos povos.
 
Sob a Vossa graça e bênção, fortalecem nossas esperanças e lutas, o testemunho de tantos profetas e profetizas, de ontem e de hoje, de perto e de longe, quais discípulos missionários que doaram suas vidas no anúncio do Evangelho da Vida, na defesa dos povos e do meio ambiente.
 
Dai-nos coragem, discernimento e perseverança, para respondermos, à altura, aos muitos desafios a serem enfrentados no compromisso com a vida, a dignidade e a justiça.
 
Fazei-nos, ó Bom Jesus, instrumentos Vossos a serviço da ecologia integral, guardiões da Casa Comum, para realizar Vosso Plano de Amor, no cuidado com a Mãe Terra, com as Águas e com a Vida, em prol da recuperação de nossa Bacia do Rio Doce e da construção da sociedade do bem viver e do conviver, sinal do Vosso Reino de Vida, Verdade, Justiça e Paz. Amém.
 
PS: Realizada dia 4 de setembro de 2022 em Conceição do Mato Dentro - MG

Bendito seja Deus pela água…

                                                      

Bendito seja Deus pela água…

Amanhã, Dia Mundial da Água, cabe a nós sem nenhuma possibilidade de omissão, por uma espiritualidade bíblica e ecológica resgatar a beleza da criação, onde a água é elemento vital e perpassa toda a Sagrada Escritura.

Retomo uma Oração que não deve ficar guardada em nossos arquivos, mas que seja sempre forte apelo de conversão para que este bem tão precioso jamais nos falte e também às gerações futuras.

Oração da Campanha da Fraternidade – 2004

"Bendito sejais, ó Deus Criador, pela água, criatura Vossa,
Fonte de vida para a Terra e os seres que a povoam.
Bendito sejais, ó Pai Providente, pelos rios e mares imensos,
pela bênção das chuvas, pelas fontes refrescantes
e pelas águas secretas do seio da terra.

Bendito sejais, ó Deus Salvador, pela água feita vinho em Caná,
pela bacia do lava-pés e pela fonte regeneradora do Batismo.
Perdoai-nos, Senhor Misericordioso,
pela contaminação das águas, pelo desperdício e pelo egoísmo
que privam os irmãos desse bem tão necessário à vida.

Dai-nos, ó Espírito de Deus, um coração fraterno e solidário,
para usarmos a água com sabedoria e prudência
e para não deixar que ela falte a nenhuma de Vossas criaturas.
Ó Cristo, Vós que também tivestes sede,
ensinai-nos a dar de beber a quem tem sede.

E concedei-nos com fartura a Água Viva
que brota de Vosso Coração e jorra para a Vida Eterna.
Amém.”

Bendito seja Deus pela água, 
e que ela não falte para milhões de irmãs e irmãos nossos. 
Amém.

“Vá e não peques mais” (VDTQC)

                                                           

“Vá e não peques mais”

No 5º Domingo da Quaresma (Ano C), a Liturgia da Palavra da Santa Missa nos convida a nos pormos de pé, vivendo de maneira diferente, acolhendo a Palavra de Jesus que foi dirigida à pecadora surpreendida em adultério: “vai e não tornes a pecar”.

É o grande convite para fortalecermos o dinamismo de conversão que iniciamos com a Quarta-feira de Cinzas, voltando-nos para um Deus que nos ama e nos desafia a romper as escravidões que nos afastam de Seu Amor e nos colocando a caminho numa vida nova, até que alcancemos a Ressurreição.

A primeira Leitura (Is 43, 16-21) é uma passagem contida no “Livro da Consolação”, que retrata um contexto de exílio na espera de um novo êxodo (séc. VI a.C.).

O Povo de Deus não podia ficar ancorado numa fuga nostálgica do passado, tão pouco ficar inerte numa saudade que não levasse a uma nova realidade, menos ainda refugiar-se com medo do presente. A lembrança do passado somente é valida quando alimenta a esperança e prepara um futuro novo. Este só será possível quando o Povo de Deus se volta para Ele em fidelidade incondicional.

Deus, de fato, é um Deus libertador que não se conforma com qualquer escravidão que roube a vida e a dignidade do homem e da mulher, e nos acompanha e nos fortalece para que lutemos contra toda forma de sujeição.

A segunda Leitura (Fl 3,8-14) é uma pequena e densa passagem em que o Apóstolo Paulo exorta os fiéis da comunidade a jogar fora todo “lixo” que impeça a mais bela descoberta de Cristo, para se viver a comunhão e a identificação com Ele.

Paulo está preso e escreve esta Carta terna e afetuosa, com palavras de gratidão e exortação à fidelidade a Cristo Jesus, para que a comunidade não se desvie pela pregação dos falsos pregadores.

Somente Cristo importa. Conhecê-Lo numa intimidade de vida, viver em comunhão com Ele, assumir o mesmo destino para Ressuscitar para uma vida nova. É preciso se apaixonar por Cristo e Sua Palavra.

O episódio descrito na passagem do Evangelho (Jo 8,1-11) revela-nos um Deus de Misericórdia que age por meio do Filho, Jesus. 

O cenário de fundo nos coloca frente a uma mulher apanhada em adultério, e de acordo com o Levítico (Lv 20,10) e o Livro do Deuteronômio (Dt 22,22-24), a mulher devia ser morta (lapidada).

Aplicar a Lei ou não, eis a questão colocada para Jesus, que é posto em face à Lei e, ao mesmo tempo, em face de uma mulher adúltera.

Jesus não rejeita a Lei, pede tão apenas que escribas e fariseus se voltem para sua própria vida antes de olhar a mulher e de sentenciar a condenação.        

Que se vejam “no espelho” e também vejam quão pecadores também o são. E, assim, a partir dos mais velhos retiram-se.

A ação de Jesus diante da questão posta revela que a Misericórdia Divina não condena, não elimina, não julga e não mata.

A lógica divina é sempre a possibilidade de uma vida nova. De fato, o amor liberta, renova e gera esta vida nova que tanto ansiamos.

Embora nossa vida pareça, por vezes, um deserto árido, Deus se apresenta como a Fonte de Água Viva; por Seu Amor faz surgir um rio de Água Viva. A aridez do deserto é vitalizada pela intervenção divina, que nos acompanha e nunca desiste de nós, apesar de nossas infidelidades.

Somos interpelados a rever a lógica sobre a qual se organiza a sociedade, passando da eliminação sumária à reeducação e a reintegração daquele que pecou, ainda que o caminho pareça mais difícil, mais longo.

Somos desafiados a viver a lógica da misericórdia que é criativa. É preciso superar a lógica simplista - “errou, pagou...”. A lógica divina é infinitamente superior: “errou, dê conta do erro e não peques mais, e entre num caminho comunitário de conversão”.

Neste Tempo Quaresmal, somos convidados a rever também nossos pecados, e confessá-los diante da Misericórdia de Deus, sobretudo, através do Sacramento da Penitência.

Também convidados somos a cuidar melhor de nossos “telhados de vidro”, sem conivência com o pecado do outro, mas crendo que a Misericórdia Divina é a possibilidade de vida reconciliada, de vida nova para todos.

A alegria de Deus é a conversão do pecador. Deus abomina o pecado e ama o pecador. Ele não quer que ninguém se perca e naufrague no mar imenso de pecado.

É preciso que esvaziemos nossas mãos das pedras, sempre prontas para as lapidações sumárias do outro. Por vezes estas pedras se encontram em nossa língua e em nossos gestos, se nosso coração estiver cheio de rancores, ressentimentos, autossuficiência, soberba...

Libertemo-nos das pedras, revistamo-nos da Misericórdia Divina que em Cristo nos reconciliou e nos fez novas criaturas.

Caminhemos com Jeus, o rosto da misericórdia divina. Amém.

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG