sexta-feira, 17 de julho de 2026

Relendo os fatos à luz da fé

                                                       

Relendo os fatos à luz da fé

Ninguém está livre de momentos de angústia, de tribulação. Hora mais, hora menos... 

Há momentos em que as coisas transcorrem com normalidade, noutros turbulências que parecem não mais passar.

De vez em quando somos surpreendidos com notícias que nos inquietam, nos levam a momentos de silêncio, de escuta, de questionamentos: suicídios, casamentos falidos, tumores irreversíveis (morte anunciada)...

O Sermão do Bispo Santo Agostinho (séc. V) é uma luz para estes momentos, e ora retomo apenas o seu começo:

Qualquer angústia ou tribulação que sofremos é para nós
aviso e também correção. As Sagradas Escrituras
não nos prometem paz, segurança e repouso;
o Evangelho não esconde as adversidades,
os apertos, os escândalos; mas quem perseverar
até o fim, esse será salvo (Mt 10,22)...”

Precisamos da Sabedoria do Espírito para ler os acontecimentos, buscando sempre um olhar que transcenda a cortina do fato em si. 

A autêntica e frutuosa fé jamais pode ser concebida como não participação no que a nós for próprio; e sua ausência, divino colírio, é uma das maiores limitações que possamos experimentar.

Muitas vitórias poderemos alcançar, mas, evidentemente, nenhuma sem empenho, renúncias, resistência e coragem.

Deste modo, a angústia nunca terá a última palavra e a tribulação terá contornos decifráveis e delimitáveis, porque com a graça e força divina, superável.

Jamais podemos permitir que a angústia e tribulação sejam vistas como limites últimos. 

Precisamos aprender a ver nelas sinais, avisos, aprendizados, amadurecimentos, mais que desejáveis: possíveis: 

Reflitamos:

- Por causa da fé, quantas muralhas foram transpostas?
- Quantos recomeços se fizeram?

- Quantas metas se atingiram?
- Quantos sonhos se realizaram?

- Quantas curas se alcançaram?
- De quantos tropeços fomos levantados?

Concluímos com as palavras do Apóstolo Paulo e do Salmista respectivamente:

“Tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4,13).

“O Senhor é meu escudo e proteção,
meu refúgio, minha rocha... a quem temerei?” (Sl 18,2; 27,1)


A Fé é a possibilidade da interação da Força e Graça Divina no mais profundo de nós, concretizando Esperanças cultivadas e inflamadas pela chama da Caridade, que um dia acesa no coração o foi, e que vigilantes jamais poderemos deixar apagar...  

Ressoe em nosso coração este canto:

“Eu confio em nosso Senhor, com fé, esperança e amor...”

A Cantora Divina entrou nos céus!

                                                     


A Cantora Divina entrou nos céus!

Maria, aquela que cantou na terra, hoje canta nos céus!

No Magnificat, por ela cantado, contemplamos as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. 

Com o Magnificat e sua vida Maria nos revela tríplice segredo:

O segredo da fé – “eis a serva do Senhor”;

O segredo da esperança – “nada é impossível para Deus” e, finalmente,

O segredo de sua caridade missionária – “Maria pôs-se a caminho apressadamente”. Renovado ardor, incansável... Maria, sempre Maria!

No Magnificat ainda, Maria é a cantora da esperança, cantora dos pobres que clamam por um mundo novo, por novas relações religiosas, sociais, políticas, culturais, econômicas...

Maria canta a esperança, canta a confiança, canta o compromisso irrenunciável, canta o sonho que pode se tornar realidade, canta a misericórdia divina, canta o canto dos cantos, o canto da Alegria, o canto do Magnificat!

Que o Magnificat, cantado por Maria, este canto de alegria, confiança e esperança dos pobres, seja o nosso canto.

Para cantá-lo, imitemos em nossa vida as virtudes de Maria: humildade, disponibilidade, serviço, alegria, confiança, esperança, solidariedade, misericórdia...

Em poucas palavras...

                                                         


O sacerdote é...

“O sacerdote é 

o mais pobre dos homens, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; 

é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo

é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro

o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho” (1)

 

(1)        Homilia Santa Missa Crismal – dia 17/04/14 – Papa Francisco

O Pão da Vida, dai-nos, Senhor

                                                 

O Pão da Vida, dai-nos, Senhor

À luz do Tratado sobre os Mistérios, escrito pelo bispo Santo Ambrósio (Séc. IV), reflitamos sobre a Eucaristia aos neófitos.

“O povo purificado, enriquecido com estas vestes, adianta-se para o altar de Cristo, dizendo: E entrarei até o altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude.

Despidas as vestimentas do antigo erro, renovada a juventude como a da águia, apressa-se em ir participar do celeste banquete. Chega, e, ao ver a ornamentação do santo altar, exclama: O Senhor é meu pastor, nada me falta; levou-me a boas pastagens. Conduziu-me às águas da quietude. E mais adiante: Mesmo que caminhe em meio às sombras da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo. Teu cajado e teu bastão são meus arrimos. Preparaste diante de mim uma mesa contra aqueles que me perseguem. Ungiste com óleo minha cabeça e como é luminoso teu cálice embriagador!

Coisa admirável o ter Deus feito chover o maná para sustentar com o alimento celeste os patriarcas. Por isso se disse: O homem comeu o pão dos anjos. No entanto, aqueles que comeram deste pão, todos eles morreram no deserto; o alimento, porém, que tu recebes, pão vivo que desceu do céu, comunica a substância da vida eterna e quem quer que dele comer não morrerá eternamente, pois é o corpo de Cristo.

Considera agora qual deles é de maior valor: o pão dos anjos ou a carne de Cristo, que é o corpo da vida. Aquele maná vem do céu; este está acima do céu. Aquele, do céu; este, do Senhor dos céus. Aquele é corruptível, se guardado para o dia seguinte; este é totalmente imune de corrupção e quem o tomar piedosamente não poderá experimentar a corrupção.

Para aqueles brotou a água da pedra; para ti, o sangue de Cristo. Àqueles, por um momento, a água saciou; a ti o sangue do Senhor refresca para sempre. O povo antigo bebe e tem sede; tu, ao beberes, não podes mais sentir sede, pois, de fato, aquilo era sombra, enquanto isto é realidade.

Se já admiras a sombra, qual não será tua admiração da realidade? Escuta como é sombra o acontecido aos patriarcas: Bebiam da pedra que os seguia; a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou de muitos deles, pois caíram mortos no deserto. Estas coisas foram feitas em figura para nós. Conheces agora o que tem maior valor: a luz supera a sombra; a realidade, a figura; o corpo do Criador vale mais do que o maná do céu.” (1)

A Eucaristia é o alimento indispensável para que vivamos a graça do batismo, como discípulos missionários do Senhor, e darmos testemunhos da fé, esperança e caridade, virtudes divinas que nos movem.

Neófitos (recém-batizados) ou não, todos precisamos deste alimento salutar e de eternidade.

Fundamental que participemos dominicalmente das Missas e tanto quanto possível das Missas nos dias da semana.

A Eucaristia é o ponto alto e a fonte de toda a nossa vida, para carregarmos com fidelidade nossa cruz de cada dia com suas renúncias necessárias.

   

(1) Liturgia das Horas - Volume Tempo Comum III - Editora Paulus p. 457-458

OOportuna para aprofundamento da passagem do Evangelho de João (Jo 6, 24-35) proclamada no 18º Domingo do Tempo Comum.

Resquiescat in pace - Descanse em paz!

                                          


Resquiescat in pace  - Descanse em paz!

O sol escondido sob as nuvens, dia sombrio, como ficaram os dias sem você, desde quando partiu, e meus olhos nadam em lágrimas vertentes.

Hoje, uma lembrança com misto de tristeza suave e dilacerante me consome, e volto meus olhos para o passado, procurando preencher o vácuo que você deixou, que por vezes parece impreenchível.

Não fosse a fé na ressurreição da carne, ficaria apenas a sombra do túmulo, eterna sombra da morte; eterno descanso; ocaso sem esperança; derradeira pulsação da vida, sem desabrochar na outra margem.

Não fosse a fé na ressurreição da carne, aquele momento supremo da vida, seria um eterno sábado; o véu da morte ficaria para sempre posto, e não reconheceríamos os sinais do Ressuscitado, “os panos dobrados e colocados à parte” desde aquela memorável madrugada (cf. Jo 20, 7).

Mas creio na ressurreição da carne, e a morte é o descansar no regaço do Senhor; o dormir o sono da noite, sem horas após o último suspiro e o cerrar dos olhos à luz; o sentimento do frio pelas asas da morte a roçar a fronte; o fugir dos últimos lampejos da vida.

RIP – Resquiescat in pace – Descanse em paz amigo/a. Que o Senhor se compadeça de sua alma e o tenha para sempre em Sua glória, até que um dia também faça a necessária e derradeira passagem e viveremos o epílogo da eternidade e comunhão na glória dos céus, com os anjos e santos. Assim creio. Assim espero. 

Tenho que seguir em frente, lembrando com carinho de cada momento que vivemos; cada sorriso compartilhado; cada lágrima enxugada; cada dificuldade superada...

Descanse em paz! O brilho do Sol nascente vem nos iluminar, até que um dia possamos nos céus nos encontrar. Amém.

Santas amizades, valiosos tesouros divinos

                                      


Santas amizades, valiosos tesouros divinos

Vejamos o que nos diz o Comentário do Missal Cotidiano sobre a passagem do Livro do Sirácida (Eclesiástico) (Eclo 6,5-17):

“Existe uma amizade humana que está entre os mais altos valores da vida. E existe uma amizade no Senhor, ainda mais constante e profunda que se torna ‘comunhão’ na Igreja.

Estamos longe ainda, no livro do Sirácida, da profundeza que terão essas amizades espirituais na era cristã.

Jesus chamará de amigos a seus discípulos até na hora da traição, e revela que não existe amizade quando não se é capaz de renunciar a si própria e à vida em favor dos amigos (Jo 15,13).” (1)

Oremos:

Ó Deus, agradecemos, pela amizade que Vosso Filho estabeleceu conosco, ainda que não merecedores, e a ela não saibamos corresponder.

Nós vos agradecemos pelas amizades que nos concedeis a cada dia, que nos aproximam ainda mais de Vós,  e por elas pedimos, bênçãos, graça e proteção.

Suplicamos-Vos, para que as amizades que fazemos em nossas comunidades, tenham semente de eternidade, porque nascidas e alimentadas no Altar do Banquete de Vida eterna.

Também pedimos por nossos amigos que partiram para junto de Vós, deixando em nossos corações cortante saudade, mas sempre presentes em santas e memoráveis lembranças. Amém.

 

 

(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p. 810

A vida está acima da Lei

                                                          

A vida está acima da Lei

Ouvimos, na sexta-feira da 15ª semana do Tempo Comum, a passagem do Evangelho (Mt 12,1-8), em que Jesus se apresenta como Filho do Homem e Senhor do sábado, e nos exorta a vivência da misericórdia que coloca a vida acima de toda lei.

Crendo no Cristo Glorioso, Ressuscitado, celebramos em cada Eucaristia o mais belo triunfo: a vitória do amor. 

A partir da Páscoa, a Lei se condensa no amor; no amor aprendido com o Amor: Jesus.

De fato, a morte não teve sua última palavra. O Amor que nos amou até o fim venceu. A vida venceu a morte, a fim de que a humanidade nunca mais fique mergulhada na escuridão.

O abismo da morte recebeu a visita do Redentor, para que fizesse triunfar a Sua missão.

A Cruz teve aparência de derrota, na perspectiva da fé é vitória. Jesus morrendo, matou em Si a morte e, nós, por Sua morte somos libertados da morte.

Assumir a cruz de cada dia é contemplar e testemunhar o Amor da Trindade ali presente: Um Deus (Pai) que é eterno Amante, fiel ao eterno Amado (Jesus) em comunhão com o eterno Amor (Espírito Santo).

Ele que fez dom de Si mesmo, num amor incondicional até o extremo: Amor misericordioso, vivido intensamente na fidelidade ao Pai, sob a ação do Espírito na defesa e promoção da vida, portadora da sacralidade divina.

Deste modo, o Apóstolo Paulo nos exorta a “Viver a Caridade, que é a plenitude da Lei”, a plenitude do Amor (Rm 13,8-10), pois quem ama cumpre plenamente a Lei, e como disse Santo Agostinho: “Ame e faça o que quiseres”.

O próprio Jesus nos disse: “ninguém tem amor maior do que Aquele que dá a vida pelos Seus amigos”  (Jo 15,13).

Quanto mais progredirmos no amor de Deus, mais humanos nos tornaremos. O caminho da humanização passa pela prática do amor, concretizada no Amor a Deus e no amor ao próximo; é o que nos disse Santo Irineu: “Deus Se fez humano para que nos tornássemos divinos…”

Somente trilhando O Caminho, acolhendo A Verdade, teremos A Vida; vida plena e abundante, nutrida e movida pela caridade, como expressão madura da liberdade.

Verdade, caridade e liberdade devem nos acompanhar em todo tempo, para que a alegria da Ressurreição celebrada no Altar possa o mundo contagiar. Eis a Boa Nova a anunciar, testemunhar…

Discípulos missionários do Senhor, aprendendo com Ele o verdadeiro Amor, amor que nos ama até o fim, vivamos.

Anunciamos e testemunhamos a Boa-Nova do Senhor: o Amor que cura, salva e liberta; amor como cumprimento alegre e rejuvenescedor de toda Lei, porque se nutre da Fonte do Amor, em cada Eucaristia, que nos revela em todo o Seu esplendor. Amém!  

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG