domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cortemos o rancor pela raiz (VIDTCA)

                                                                   

Cortemos o rancor pela raiz

“...extirpai vossas paixões enquanto são jovens,
antes que se endureçam em vós e que não tenhais que sofrer”.

A Conferência sobre o rancor, escrita por São Doroteu de Gaza (séc. VI), muito nos enriquece ao celebramos o 6º Domingo do Tempo Comum, em que ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,17-37).

“Evágrio disse: ‘Encolerizar-se e contristar a alguém são coisas impróprias ao monge’. E também: ‘Quem tem triunfado da cólera, tem triunfado dos demônios. Porém, aquele que é presa desta paixão está em absoluta oposição à vida monástica’.

Que há que dizer de nós que, sem limitar-nos à irritação e a cólera, chegamos às vezes ao rancor? O que temos de fazer a não ser chorar nosso estado tão lastimoso e indigno do homem? Sejamos vigilantes, irmãos, cooperemos com Deus, para preservar-nos do amargor desta funesta paixão.

Talvez alguém se desculpe com seu irmão pela perturbação causada ou a ferida infligida, porém, mesmo depois da desculpa, permanece incomodado e conserva pensamentos contra seu irmão. Ele não deve dar importância a esses pensamentos e rechaçá-los imediatamente. Isso é o rancor, e para não colocar-se em perigo detendo-se nele é preciso, como disse, muita vigilância; é necessária a desculpa e é imperativo o combate.

Ao pedir desculpas simplesmente para cumprir com o preceito, curou-se da cólera momentaneamente, mas não lutou ainda contra o rancor: conserva-se o rancor contra o seu irmão. Uma coisa é o rancor, outra a cólera, a irritação, e outra a desavença.

Vou dar-vos um exemplo que vos fará compreender: alguém acende um fogo. A princípio não consegue mais do que um pequeno carvão. Isso representa a palavra do irmão que nos ofende. Vede, não é mais do que um pequeno carvão, porque, o que é uma simples palavra de vosso irmão? Se a suportais, extinguis o carvão. Se, ao contrário, começas a pensar: ‘Por que disse isso? Posso bem responder-lhe! Se não quisesse ofender-me, não teria me falado assim! Que ele saiba que eu também posso prejudicá-lo’.

Como alguém que acende um fogo, vós estais lançando ali raminhos ou qualquer outra coisa e produzis fumaça, que é a perturbação. A perturbação não é mais que o movimento e a afluência de pensamentos que despertem e inquietam o coração. E essa excitação, chamada também ira, impulsiona a vingar-se do ofensor. Como disse o abade Marcos: ‘A malícia introduzida nos pensamentos excita o coração; mas, dissipada com a oração e a esperança, perece’.

Suportando uma simples palavra de vosso irmão, vocês podem extinguir o pequeno carvão antes que a perturbação apareça. Porém, inclusive esse ânimo perturbado ainda podeis acalmá-lo facilmente enquanto nasce, com o silêncio, com a oração, com uma simples satisfação que brote do coração. Se, ao contrário, continuais a produzir fumaça, ou seja, exaltando e excitando o vosso coração, pensando:

“Por que me disse aquilo? Eu também posso lhe responder!”, a afluência e o entrechoque dos pensamentos avivando e ebulindo o coração provocam a chama da exasperação. Esta, segundo Basílio, é somente a ebulição do sangue em torno ao coração. Isso é a irritação, chamada também rancor. Se quiserdes, ainda podeis extingui-la antes que se transforme em cólera. Mas se continuais a perturbar-vos e a perturbar aos demais, fazeis como o que joga troços de madeira à fogueia para avivar o fogo: a lenha se transforma em brasas, e isto é a cólera.

É o mesmo que dizia o abade Zósimo quando lhe pediram que explicasse esta sentença: ‘Onde não há irritação, não há combate’. Se ao começo da perturbação, assim como aparecem a fumaça e as chispas, alguém se adianta e acusa a si mesmo e oferece uma satisfação, antes que se eleve a chama da irritação, permanece em paz.

Mas se, provocada a irritação, esta não se acalma e persiste na perturbação e na exaltação, se parece ao que lança madeira ao fogo e continua a alimentá-lo até que se torne em brasas vivas. Como as brasas, feitas carvão e postas de lado, subsistem anos sem se corromper, mesmo que se lance água em cima, assim a cólera que se prolonga se converte em rancor e já não é possível livrar-se dele a não ser vertendo sangue.

Disse-vos a diferença dos quatro graus: compreendam-nos bem. Agora sabeis o que é a primeira perturbação, o que é a exasperação, o que é a cólera e o que é o rancor. Percebeis como uma só palavra chega a produzir um mal tão grande? Se desde o começo se tivesse censurado a si mesmo, se tivesse suportado pacientemente a palavra do irmão, sem querer se vingar, nem responder duas ou cinco palavras por uma só, e responder ao mal com o mal, se teriam evitado todos esses males.

Por isso não cesso de recomendar-vos, extirpai vossas paixões enquanto são jovens, antes que se endureçam em vós e que não tenhais que sofrer. Pois uma coisa é arrancar uma planta pequena e outra desarraigar uma grande árvore”. (1)

Em nossos relacionamentos, pode acontecer que vivamos experiências semelhantes. No entanto, urge que o rancor seja cortado na raiz para que não cresça e fique impossível de ser extirpado de nosso coração, como São Doroteu nos ensinou.

É preciso sempre dar um passo adiante na fraternidade, no amor e na sinceridade de nossa fé, e tão somente assim, seremos sal da terra e luz do mundo.

Se não cultivarmos o rancor e ressentimentos em coração, poderemos rezar com amor e confiança a oração que o Senhor nos ensinou: – “O Pai Nosso”, sobretudo a súplica do perdão:

“Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nos perdoamos a quem nos tem ofendido...”.

(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp. 135-137

A Palavra de Deus ilumina nossos caminhos (Salmos)

                                                            

A Palavra de Deus ilumina nossos caminhos

Sejamos enriquecidos pelo Comentário sobre os Salmos, escrito pelo Bispo Santo Ambrósio (Séc. IV), em que nos convida a abrir bem a nossa boca à Palavra de Deus e proclamá-la com júbilo.

“Esteja sempre em nosso coração e em nossos lábios a meditação da sabedoria! Proclame a tua língua o direito, e a Lei de Deus more em teu coração. Assim te diz a Escritura: Falarás sobre eles assentado em casa, andando pelos caminhos, dormindo, levantando-te. Falemos do Senhor Jesus, porque Ele é a sabedoria e a Palavra, pois é o Verbo de Deus. Também está escrito: Abre tua boca à Palavra de Deus.

Exala-a quem faz ressoar Seus ditos e medita Suas palavras. D’Ele falemos sempre. Falamos sobre a sabedoria, é Ele! Falamos da virtude: é Ele! Falamos de justiça, ainda é Ele! Falamos de paz, é Ele também! Falamos sobre a verdade, a vida, a redenção, sempre Ele!

Está escrito: Abre tua boca à palavra de Deus. Abre tu, Ele fala. Por esta razão, diz Davi: Ouvirei o que falará em mim o Senhor, e o próprio Filho de Deus: Abre tua boca, Eu a encherei. Nem todos, porém, como Salomão, podem alcançar a perfeição da sabedoria. Nem todos, como Daniel. Em todos, no entanto, segundo suas possibilidades se infunde o espírito da sabedoria, em todos os que são fiéis. Se crês, tens o espírito da sabedoria.

Por isso medita sempre, fala das realidades de Deus, sentado em casa. Dizendo ‘casa’, podemos entender a Igreja; ou ‘casa’ , o mais íntimo em nós, onde falamos dentro de nós.

Fala com prudência, para te livrares do pecado, não caias por falar demais. Assentado, fala contigo mesmo como um juiz. Fala em caminho, não fiques à toa nunca. Falas no caminho, se em Cristo falas, Cristo é o caminho. No caminho fala a ti, fala a Cristo. Escuta de que modo lhe falarás: Quero que os homens orem em todo lugar, levantando mãos puras, sem cólera nem disputas.

Fala, ó homem, dormindo, e que não te surpreenda o sono da morte. Ouve como falarás dormindo: Não entregarei ao sono meus olhos e minhas pálpebras à sonolência, enquanto não encontrar um lugar para o Senhor, uma tenda para o Deus de Jacó.

Quando te ergues ou te reergues fala-lhe para cumprir o que te foi ordenado. Ouve como Cristo te desperta. Tua alma diz: A voz de meu irmão faz-me ouvir à porta e Cristo diz: Abre-me, minha irmã esposa. Escuta como despertas a Cristo. Diz a alma: Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, a despertar e ressuscitar a caridade. A caridade é Cristo”.

Este Comentário nos ajuda no aprofundamento do primeiro pilar da Evangelização, que encontramos nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – (CNBB) - Doc 109: o pilar da Palavra.

Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus, a mais sublime, santidade, justiça e Redenção, de modo que, quem se gloria, no Senhor se glorie, pois d’Ele temos recebido de Sua plenitude, graça sobre graça.

Jesus é a Palavra do Pai que nos comunica luz, vida, paz, força, alegria, amor e quanto mais precisarmos.

Urge que cresçamos cada dia na intimidade com Deus, acolhendo e meditando a Sua Palavra nas Sagradas Escrituras, em momentos intensos e fecundos de oração.

Neste sentido, a Igreja tem motivado a rica tradição da Leitura Orante da Palavra de Deus, com seus passos (Leitura, Meditação, Oração e Contemplação).

Que assim aconteça em nossas comunidades, a fim de que tenhamos uma Espiritualidade enraizada e fundamentada na Sagrada Escritura.

Deste modo fortaleceremos os inseparáveis pilares da Evangelização Pão da Palavra, Pão da Eucaristia, Caridade e Ação Missionária.

Temos sede da Palavra de Deus (VIDTCA)

                                                       

Temos sede da Palavra de Deus

“O Senhor coloriu com muitos tons Sua Palavra.”

Sejamos enriquecidos pelo Comentário sobre o Diatéssaron, escrito pelo Diácono Santo Efrém (Séc. IV), em que nos apresenta a Palavra de Deus como fonte inexaurível de vida.

“Que inteligência poderá penetrar uma só de Vossas Palavras, Senhor? Como sedentos a beber de uma fonte, ali deixamos sempre mais do que aproveitamos.

A Palavra de Deus, diante das diversas percepções dos discípulos, oferece múltiplas facetas. O Senhor coloriu com muitos tons Sua Palavra. Assim, quem quiser conhecê-La, pode nela contemplar aquilo que lhe agrada. Nela escondeu inúmeros tesouros, para que neles se enriqueçam todos os que a eles se aplicarem.

A Palavra de Deus é a árvore da vida a oferecer-te por todos os lados o fruto abençoado, à semelhança do rochedo fendido no deserto que, por todo lado, jorrou a bebida espiritual. Comiam, diz o Apóstolo, do alimento espiritual e bebiam da bebida espiritual.

Se, portanto, alguém alcançar uma parcela desse tesouro, não pense que este seja o único conteúdo desta Palavra, mas considere que encontrou apenas uma porção do muito nela contido. Se só esta parcela esteve a seu alcance, não diga que essa Palavra seja pobre e estéril, nem a despreze. Pelo contrário, visto que não pode abraçá-La totalmente, dê graças por sua riqueza.

Alegra-te por seres vencido, não te entristeças por te ultrapassar. O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte. Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte.

Pois, se tua sede se sacia sem que a fonte se esgote, quando estiveres novamente sedento, dela poderás beber. Se, porém, saciada tua sede também se secasse a fonte, tua vitória redundaria em mal.

Dá graças, então, pelo que recebeste. Pelo que ainda restou e transbordou não te entristeças. Aquilo que recebeste e a que chegaste é a tua parte. O que sobrou é tua herança. Se, por fraqueza tua, em uma hora não consegues entender, em outras horas, se perseverares, poderás recebê-lo.

Não te esforces, com maligna intenção, por beber de um só trago aquilo que não pode ser tomado de uma vez. Não desistas, por indolência, de tomá-lo aos poucos”. (1)

Nisto consiste a riqueza da Palavra de Deus, e que a diferencia de todas as palavras e de todos os demais livros: a Palavra é sempre uma Boa-Nova, se lida com a luz e sabedoria do Espírito, e se  acolhida no mais profundo de nossos corações.

Bebamos desta fonte inesgotável, e uma vez saciada nossa sede, voltemos novamente a Ela, pois sempre nos enriquecerá e nos comunicará realidades novas.

A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12) e jorra abundantemente, para que não morramos de sede na travessia do deserto de nossa existência. Ela é fonte inesgotável de água cristalina para quem tem sede de amor, vida, verdade, paz, justiça e fraternidade.

(1) Liturgia das Horas - Volume I - Tempo Comum - pp. 173-174

“Livrai-nos do mal” (VIIIDTCC)

                                                                 

“Livrai-nos do mal”

Quando rezamos no Pai Nosso, o que suplicamos ao Senhor que nos livre?

A passagem do Evangelho (Lc 6, 39-45) proclamada no oitavo Domingo do Tempo Comum (ano C)   nos adverte para um mal que rouba a luminosidade de nossa fé, porque rouba a coerência, a transparência e, consequentemente, leva à perda da força do testemunho da Palavra que Senhor nos comunica, leva-nos à hipocrisia.

Suplicamos que nos liberte do fermento da hipocrisia, e que o Senhor nos dê o ázimo da sinceridade e da verdade, e tão somente assim nos tornaremos mais transparentes nas intenções e na pureza do coração, condição indispensável para que um dia a Deus vejamos, pois somente os puros de coração verão a Deus (Mt 5,  8).

De que hipocrisia haveremos de ser libertos?
O que ela é de fato?

Ela consiste em toda tentativa inútil de ludibriar a Deus, porque a Deus ninguém engana. Podemos enganar os outros e a nós mesmos, o que seria o ápice da hipocrisia.

Manifesta-se quando há falsidade do coração, quando professamos com os lábios verdades que não cremos; sentimentos que procuramos expressar, mas não brotam com naturalidade, pureza e autenticidade, porque não vêm das entranhas do coração.

Também quando supomos agradar a Deus com as aparências, com longas Orações, sacrifícios com segundas intenções, beirando à simulação, como que se Deus não conhecesse o mais profundo de nós, como tão bem expressou o Salmista (Sl 138), e acreditamos que Ele veria bondade, onde tão apenas existe uma superficialidade de relacionamento, sem verdadeira entrega a Ele de todo nosso ser, de toda a nossa vida.

Hipocrisia que pode ser sinônimo de astúcia, esperteza, duplicidade, mas nos faz tão apenas falsários, com a estéril tentativa de pagar a Deus com moeda falsa, reduzindo nossa honra ao Senhor com os lábios, mas o coração longe d’Ele se encontrando (Mt 5,  8).

“Livrai-nos do mal, Senhor”

Quantas vezes o repetimos, quantas vezes ainda repetiremos, para que libertos do mal da hipocrisia, fazendo ressoar em nosso coração as palavras do Senhor, alertando-nos que um cego não pode guiar outro cego; é zelo errado e sem sentido querer tirar o cisco do olho do irmão quando se tem uma trave no próprio olho, para que sejamos uma árvore boa, para bons frutos produzir.

Que as palavras e obras de fé, esperança e caridade nos acompanhem cada dia, por isto “Livra-nos, Senhor, do mal” da hipocrisia e de qualquer outro sentimento que não seja conforme Vossos pensamentos, palavras e sentimentos. 

Que saibamos gerar e formar Cristo em nós e nos outros.
 “Livrai-nos do mal, Senhor” Amém.

Peregrinemos vigilantes e orantes (VIIDTCC)


Peregrinemos vigilantes e orantes

Oremos:

Senhor Jesus, ajudai-nos a fazer progressos maiores na coerência entre o que pregamos e o que vivemos, tendo de Vós, mesmos pensamentos e sentimentos, perfeitamente a Vós configurados, renunciando a tudo que for preciso, carregando, cotidianamente, nossa cruz, com incondicional fidelidade.

Senhor Jesus, dai-nos mansidão de coração, para que o nosso seja como o Vosso, compreendendo os limites e fragilidades de nosso próximo, conscientes de que temos sempre uma trave a tirar de nossos olhos, e somente depois, tirarmos o cisco no olho de nossos irmãos.

Senhor Jesus, conduzi-nos no caminho da prudência necessária, para que possamos corresponder ao Vosso amor, numa fé viva que age pela caridade, multiplicando gestos de bondade, ternura, a fim de reacender a esperança no coração de todos com os quais convivemos.

Senhor Jesus, acolhendo e meditando Vossa Palavra, concedei-nos a sabedoria do Vosso Espírito, para que sejamos fieis ao plano de Vosso Pai, compreendendo e amando nossos irmãos, a fim de que não sejamos deles juízes; e tão pouco, cultivemos atitudes de presunção e maldade no coração. Amém.


PS: Inspirado no Evangelho de São Marcos (Mc 6,39-45) 

Os degraus que nos levam ao cume da virtude (VIIDTCA)

 


Os degraus que nos levam ao cume da virtude
 
Na passagem do Evangelho do 7º Domingo do Tempo Comum (ano A), Jesus nos exorta amar os inimigos (Mt 5,38-48).
 
Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Doutor São João Crisóstomo (séc. V), retomando parte deste:
 
“'Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás o teu inimigo. Porém eu vos digo: amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz se levantar o sol sobre bons e maus e faz chover sobre os justos e injustos’ (Cf Mt 5,43-45).
 
Observa como colocou a conclusão de todos os bens. Por isso ensinou a ter paciência com aqueles que nos esbofeteiam e até mesmo a apresentar-lhes a outra face; e não apenas juntar o manto à túnica, mas a caminhar por duas milhas mais com quem nos requisitou para uma, para que em seguida aceitasses com maior facilidade o que era superior a estes preceitos; ou seja, que quem cumprir tudo isso não tenha inimigos. Pois bem: existe algo ainda mais perfeito, porque Ele não diz: Não odeies, mas ama. Não disse: não prejudique, mas sim favoreça. Se alguém examina cuidadosamente, encontrará um acréscimo muito maior que este. Porque agora não só manda amá-los, mas a também rogar por eles.
 
Observas a que degraus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude? Quero que o medites, enumerando-os desde o princípio: o primeiro grau é não injuriar; o segundo, quando injuriados, não nos vingarmos; o terceiro, não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão; o quarto, oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias; o quinto, oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige; o sexto, não odiar a quem nos faz semelhante injustiça; o sétimo, inclusive amá-lo; o oitavo, ainda favorecê-lo. Finalmente, o nono: rogar a Deus por ele. [...]” (1).
 
Ele nos fala dos degraus que Jesus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude:
 
1º - Não injuriar;
2º - Quando injuriados, não nos vingarmos;
3º - Não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão;
4º - Oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias;
5º - Oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige;
6º - Não odiar a quem nos faz semelhante injustiça;
7º - inclusive é preciso amá-lo;
8º - Ainda mais: favorecê-lo;
9º - Rogar a Deus por ele.
 
Assim vivamos na planície do cotidiano, marcado, por vezes, pelas complexas relações com o próximo.
 
Deste modo, viveremos as Bem-Aventuranças, que Nosso Senhor Jesus Cristo nos apresentou, no alto da Montanha (Mt 5,1-12), e tão somente assim, luz do mundo e sal da terra seremos (Mt 5,13-16).
 
Subamos estes degraus para chegarmos ao cume da virtude, a fim de que vivamos o Mandamento Novo do Amor que nos deu nosso Senhor (Jo 13,34), e que viveu plenamente:  um amor com dimensão universal, sem limites, e que nos permite chegar ao cume da virtude.
 
 
(1) Lecionário Dominical Patrístico - Editora Vozes – 2013 - pp. 140-141

Libertos pelo Senhor para amar e servir (VIDTCB)

                                                      


Libertos pelo Senhor para amar e servir
“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse:
 “Eu quero: fica curado!”. No mesmo instante 
a lepra desapareceu e ele ficou curado.”
(Mc 1, 41-42)

Com Liturgia do 6º Domingo do Tempo Comum (ano B), vemos a ação de Deus, que Se revela pleno de Amor, bondade e ternura, através de Sua ação que acolhe, cura, liberta e integra a todos na vida da comunidade.

A vontade de Deus é que se supere toda forma de discriminação e marginalização, e a comunidade deve empenhar-se, com sabedoria e coragem, para que isto se torne uma realidade.

A passagem da primeira Leitura (Lv 13, 1-2.44-46) nos apresenta “a lei da pureza”, e uma visão deturpada de Deus que leva à invenção de mecanismos que discriminam, rejeitam e excluem em nome de Deus, numa total marginalização.

Dentre as impurezas, a lepra era considerada a mais grave, de modo que quem por ela fosse acometido, deveria ser segregado e afastado da convivência diária com outras pessoas, e tal medida tinha uma intenção higiênica e também para evitar o contágio.

Mais grave ainda, era considerado um pecador, amaldiçoado por Deus e indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido nas assembleias em que Israel celebrava o culto na presença do Deus Santo.

Na passagem da segunda Leitura (1Cor 10,31-11,1), o Apóstolo Paulo, na fidelidade ao Senhor, nos apresenta Jesus Cristo, modelo de obediência, doação, Amor  e serviço em favor da libertação de todos, e o cristão deve o mesmo fazer.

Com o Apóstolo, aprendemos que o cristão é livre em tudo aquilo que não atenta contra a sua fé e contra os valores do Evangelho, mas pode prescindir de direitos para um bem maior, que é o amor aos irmãos.

A Lei do Amor se sobrepõe a tudo, inclusive aos direitos de cada um, e assim não nos tornamos obstáculo nem para a glória de Deus, nem para a salvação de nossos irmãos.

Ao amor tudo deve ser subordinado, fazendo de nossa própria vida um dom, uma oferenda agradável a Deus.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,40-45) ao curar o leproso, Jesus inaugura um novo modo de relacionamento, destruindo o triste mecanismo de marginalização que exclui estes do convívio social e da própria comunidade.

Jesus, com palavras e ação, cura e integra a todos na comunidade do Reino, sem jamais compactuar com a discriminação, exclusão, racismo ou qualquer outra forma de marginalização.

Sua ação é expressão de um Deus cheio de Amor que vem ao encontro de nossa humanidade, de nossa condição pecadora e enferma, para nos curar e nos redimir. Jesus toma para Si nossas dores e sofrimentos.

Também revela, com Sua ação, que o Reino de Deus chegou, completou-se o tempo esperado, são tempos novos inaugurados pela presença e ação de Jesus: a cura do leproso revela o Amor de Deus que cura, liberta, integra e impulsiona para o testemunho.

O leproso curado começou a pregar e a divulgar sobre o acontecido, a sua cura. Com isto, o Evangelista sugere que aquele que experimentou o poder integrador e salvador de Jesus se converte, necessariamente, em profeta e testemunha do amor e bondade divina: um discípulo missionário do Reino.

Oportunas as palavras da Igreja, para refletirmos sobre a íntima união da Igreja com toda a família humana:

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. 

Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”. (1)

Reflitamos:

- Quais são as enfermidades que ainda hoje levam à exclusão e à marginalização?
- Até que ponto nossa ação também acolhe, liberta e integra na comunidade e na sociedade?

- De que modo os marginalizados e excluídos se abrem para a acolhida e integração na comunidade e na sociedade?
- Como vivemos a fidelidade ao Senhor, tendo d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos?

- Como expressamos em nossa vida o amor, a ternura e a bondade de Deus para com o nosso próximo?

- Sabemos renunciar a direitos pessoais por bem maiores em favor de outros?

Como Igreja missionária, na fidelidade ao Senhor, também saibamos acolher, perdoar, integrar a todos na vida da comunidade e, com alegria, participar da construção do Reino.

Acolhidos, amados e curados para acolher, amar e curar num círculo que não pode se fechar, interromper.



(1) Constituição Pastoral Gaudium Et Spes  sobre a Igreja no mundo atual  (n.1).

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