Sem murmurações, julgamentos e desprezo

Sem murmurações,
julgamentos e desprezo
Iluminadora é a “Conferência sobre o julgamento do
próximo”, escrita por São Doroteu de Gaza (séc. VI), para que vivamos sem
murmurações, julgamentos e desprezo.
“Irmãos, se recordarmos bem as sentenças dos santos
anciãos e as meditamos sem cessar, difícil será que pequemos ou que sejamos
negligentes.
Se como eles nos dizem, não menosprezarmos o
pequeno e aquilo que julgamos insignificante, não cairemos em faltas graves. O
repito sempre a vocês. Por coisas ligeiras,
como dizer por exemplo: ‘O que é isto? O que é aquilo?’, nasce um mau
hábito na alma, e se começa a desprezar inclusive as coisas importantes.
Percebem quão grave é o pecado que se comete ao julgar o próximo? O que há de
mais grave? Existe algo que Deus deteste tanto e do qual se afaste com tanto
horror?
Os Padres disseram: ‘nada é pior do que julgar'. E,
contudo, é por estas coisas que se dizem ser de pouca importância, que se chega
a um mal tão grande. Se admite uma ligeira suspeita contra o próximo, se pensa:
‘O que importa se escuto o que tal irmão diz? O que importa se também eu digo
somente esta palavra? O que importa se vejo o que vai fazer aquele irmão ou
aquele estranho?’, e o espírito começa a esquecer os seus próprios pecados e a
ocupar-se do próximo. Daí vem os juízos, murmurações e desprezos, e finalmente
se cai nas faltas que se condenavam.
Quando alguém é negligente, a respeito de suas
próprias misérias, quando alguém não chora a sua própria morte, segundo a
expressão dos padres, não pode corrigir-se nunca, porque se ocupa
constantemente do próximo. Entretanto, nada irrita tanto a Deus, nada despoja
ao homem e lhe conduz ao abandono, como fato de murmurar do próximo, de
julgá-lo e de desprezá-lo.
Murmurar, julgar e desprezar são coisas diferentes.
Murmurar é dizer de alguém: ‘aquele mentiu’, ou: ‘enraivecer-se’, ou:
‘fornicou’. Ou outra coisa semelhante. Se murmurou dele, ou seja, se falou
contra ele se revelou seu pecado, existe impulsos da paixão.
Julgar é dizer: ‘aquele é um mentiroso, colérico,
fornicário’. Eis aí que se julga a própria disposição de sua alma e se aplica a
sua vida inteira, dizendo que ele é assim, e se lhe julga como tal. Isto é
grave. Porque uma coisa é dizer: ‘encolerizou-se’, e outra coisa: ‘é colérico’,
pronunciando-se desta forma sobre toda a sua vida.
Julgar ultrapassa em gravidade a todos os pecados,
de modo que Cristo mesmo disse: ‘Hipócrita,
tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás tirar o cisco do olho do teu
irmão’. A falta do próximo a comparou com um cisco, e o juízo uma trave,
pois o julgar é muito grave, mais grave talvez que cometer qualquer outro
pecado.
O fariseu que orava e dava graças a Deus por suas
boas ações, não mentia; mas dizia a verdade; não foi condenado por isso. Na
realidade devemos dar graças a Deus pelo bem que Ele nos concede realizar, já
que é com a Sua ajuda e Seu auxílio.
Desta forma, ele não foi condenado por ter dito:
“Não sou como os demais homens’; não. Foi condenado quando, voltando-se para o
publicano, acrescentou: ‘nem como esse
publicano’. Foi então quando se tornou gravemente culpado, porque julgava a
própria pessoa do publicano, as próprias disposições de sua alma, em uma
palavra: sua vida inteira. Por isso, o publicano partiu dali justificado e ele
não. Não há nada mais grave, nada mais prejudicial, e o digo com frequência,
que julgar ou desprezar ao próximo”.
À luz da Conferência, reflitamos sobre os nossos
relacionamentos cotidianos, e o quanto também podemos incorrer em graves
murmurações, julgamentos e desprezos, tornando desagradáveis a Deus nossas
palavras e orações.
Antes, é preciso que nos voltemos para nossa
própria “miséria”, como o autor mesmo afirma, e sintamos a necessidade da
misericórdia divina, sem nos tornarmos parâmetros de santidade e salvação para
o outro.
É sempre tempo de aprendermos a viver a
misericórdia, compadecendo-se com fragilidade do nosso próximo, o que não é
sinônimo de conivência, cumplicidade.
A misericórdia divina não se afasta da justiça, tão pouco da verdade, não
exclui nem elimina o pecador, mas abomina o seu pecado.
Urge que aprendamos e vivamos a misericórdia
querida por Deus, a fim de que sejamos misericordiosos como o Pai (Lc 6, 36), e
tão somente assim, nossas orações se tornarão agradáveis e chegarão ao coração
de Deus, sendo por Ele ouvidas, e assim, alcançaremos a
justificação.
(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes
– 2013 – pp.741-743
PS: Oportuna para as passagens do Evangelho: Mt
7,1-5; Lc 6,27-38; Lc 6,39-42; Lc 18,9-14
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