sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

"Amor Líquido" (Introdução)

                                                              


“Amor Líquido”

Uma dos desafios na missão evangelizadora da Igreja é a criação, fortalecimento de laços verdadeiramente fraternos e duradouros, na mais pura expressão do Mandamento do Amor a Deus e ao próximo, como nos falam os Evangelhos.

Neste sentido, ofereço uma síntese, acompanhada da minha reflexão pessoal, do livro “Amor Líquido”, de Zigmunt Bauman (nascido 19/11/1925 e falecido 9/1/2017), que retrata o tema da fluidez da existência contemporânea, assim como a fragilidade dos laços humanos.

Na era da modernidade, vemos num mundo repleto de sinais confusos, que se transformam com rapidez e forma nunca antes vistas.

Segundo Bauman, a modernidade líquida é um mundo sem forma, de incertezas, de medos, de ausência da concepção de progresso e de fragilidade nas relações sociais.

Isto tem influência em todos os sentidos: na nossa capacidade amar o próximo, o parceiro e até a nós mesmos, e é esta colaboração do autor: ajuda-nos a investigar de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais flexíveis, menos duradouras, acompanhadas de inseguranças cada vez maiores.

Há a priorização dos relacionamentos em “redes”, com mais facilidade de serem mantidas, suprimidas ou excluídas (deletadas), com o desaprendizado de relacionamentos duradouros.

Assim, como em tempo de modernidade líquida a produção de lixo produzido pela humanidade é assustadora, devido ao consumismo e a cultura do descarte e da “última novidade”, também determina a forma com que os relacionamentos se dão: o descarte.

Na modernidade líquida, o amor vivido (“amor líquido’) também determina o rumo da própria humanidade, na forma de se ver o estranho, com o crescente medo, quando o autor analisa a realidade da Europa, mas que podemos estender a todo o mundo (como vemos os estrangeiros, refugiados).



PS: Os “posts” abaixo dão início à síntese do livro (prefácio e mais quatro partes)

“Amor Líquido” (Capítulo I)

                                                               


“Amor Líquido” 

“Apaixonar-se e desapaixonar-se” – capítulo I

Bauman, neste capítulo, nos ajuda a refletir sobre a liquidez do amor, no líquido mundo moderno não há lugar para relações duradouras:

 “Afinal, a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco, às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização...

Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’” (p. 19).

Ao falar da natureza do amor, afirma que o amor é afim à transcendência; possui impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo. Também porque em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro (p.21).

Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo, numa amálgama irreversível.

Deste modo, esta abertura é a admissão a liberdade no ser, uma liberdade que se incorpora no outro, o companheiro no amor.

Citando Erich Fromm, diz – “A satisfação no amor individual não pode ser atingida... sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras” (p.21)porque “sem humildade e coragem não há amor.

Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não mapeada. É a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos” (p. 22).

Para Bauman, o amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. A diferença é que o amor encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento:

“Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir” (p. 23).

Neste sentido, o amor é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto amado: “Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo.

Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado par ao mundo.

‘’O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito à autossobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a -ciumentamente – guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultante em exaltação. O amor é irmão xifópago da sede de poder – nenhum dos dois sobreviveria à separação” (p. 24).

Mas no líquido mundo moderno, que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao uso instantâneo, não há lugar para amor duradouro, sólido, como nos fará compreender nas páginas seguintes ao abordar novas formas de relacionamentos como nas redes virtuais, “chats”, em que se entra e sai quando se deseja, mantem-se enquanto se quiser determinado relacionamento; relacionamentos como “livro de bolso” (relações que são guardadas no “bolso’ e podemos nos utilizar delas quando for preciso); CSS – casais semisseparados.

Permite-nos ver como os relacionamentos refletem o líquido mundo moderno, com relações descartáveis, liquefazendo a solidez também do amor, daí a consequência da fragilização dos laços humanos.

“Amor Líquido” (Capítulo II)


“Amor Líquido” 

“Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade” – capítulo II

Bauman, neste capítulo, nos ajuda a refletir como são os relacionamentos no líquido mundo moderno; os filhos como a aquisição mais cara que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida.

Outra questão fundamental: para o autor, o consumismo sem limites e sua insatisfação e o paralelo com as relações que também são mais marcadas pela quantidade, do que pela qualidade – “quando a qualidade o decepciona, você procura salvação na quantidade. Quando a duração não está disponível, é a rapidez na mudança que pode redimi-lo” (p. 77).

Nesta modernidade líquida, também entra em crise a questão da proximidade virtual e a distância virtual: “a suspensão, talvez até a anulação, de qualquer coisa que transforme a contiguidade topográfica em proximidade. A proximidade não exige mais a contiguidade física; e a contiguidade física não determina mais a proximidade” (p.81).

Citando Schluter e David Lee, nos diz que podemos usar a privcacidade como um traje pressurizado –“tudo menos convidar ao encontro, tudo menos envolver-se”. Deste modo os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade.

Os lares se transformaram em compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais; e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados –“Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta.

A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente, lado a lado” (citando autores acima mencionados). (cf p. 84

Segundo Bauman, “A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum” (p. 84).

Finaliza o capítulo refletindo como a modernidade líquida faz do outro um objeto de consumo:

“O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objeto de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem em termos de seu ‘valor monetário’... A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor” (p. 96).



“Amor Líquido” (Capítulo III)


“Amor Líquido” 

“Sobre a dificuldade de amar o próximo” – capítulo III

É retratado neste capítulo a dificuldade de estabelecer relacionamentos duradouros, a fluidez nas relações, o medo do apego nas relações, as relações virtuais e os conceitos de mixofobia e mixofilia em tempos de modernidade líquida.

Como tudo isto pode ser entendido à luz do preceito do amor ao próximo que é o ato de origem da humanidade, pois “todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude” (p. 98).

Bauman acentua a necessidade que possuímos de ser amados – “O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos” (p. 100).

Trona-se inconcebível qualquer violação da negação dignidade humana, pois “aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobreviver à morte de sua própria humanidade”, e ainda, “a negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma” (p. 103).

Cita Ludwig Wittgenstei, que observou em meio à segunda Guerra: “Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem. Ou mais uma vez, ‘nenhum’ tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma ‘única’ alma” (p. 102).

Para Bauman, “o valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo ‘sine qua non’ de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo” (p. 105).

Outra questão que Bauman nos apresenta neste líquido mundo moderno, é o medo do outro, que se apresenta como perigo, daí a construção de “bunkers”, condomínios cada vez mais fechados com segurança (cf. p. 120, p. 130-133 refere-se a São Paulo).

Quanto às cidades, assim resume: “As cidades se tornaram depósitos de lixo para problemas gerados globalmente. Os moradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para contradições globais” (p. 124).

Finalmente a cidade atrai e repele, numa ambígua experiência: enquanto mixofobia se tem medo de se misturar, do diferente, do outro. Enquanto mixofilia, cria possibilidades do encontro:

“A cidade favorece a mixofobia do mesmo modo e a mesmo tempo que a mixofilia. A vida urbana é intrínseca e irreparavelmente ambivalente” (p. 135).

Deste modo há uma coexistência de ambas em toda cidade e dentro de cada um de seus habitantes – “Trata-se reconhecidamente de uma coexistência problemática, cheia de som e fúria, embora signifique muito para as pessoas que se encontram na ponta receptiva da ambivalência líquido-moderna” (p. 136).

Daqui decorre a necessidade de criação de espaços mixófilos, em que todas as categorias de moradores seriam tentadas a frequentar e  compartilhar de modo regular e consciente (p.137).

"Amor líquido" (capítulo IV e conclusão)

"Amor líquido"

“Convívio destruído” – capítulo IV

No último capítulo é abordada a questão da xenofobia: “Um espectro paira sobre o planeta: o espectro da xenofobia. Suspeitas e animosidades tribais, antigas e novas, jamais extintas e recentemente descongeladas, misturaram-se e fundiram-se a uma nova preocupação, a da segurança, destilada das incertezas e intranquilidades da existência líquido moderna” (p. 143).

Cada vez mais, refugiados se veem sob o fogo cruzado, numa encruzilhada (p.164). São expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas a sua entrada é recusada em todos os outros, tornam-se alvo fixo em que se descarrega o excesso da angústia.

Presenciamos o medo do terrorismo em escala mundial, os conflitos imigratórios, a superação das barreiras geográficas.

O líquido mundo moderno produziu quantidade imensa de lixo e continua a produzir e ausência de espaços para aterros (p. 148),  fomenta um consumismo sem precedentes na história, nem por isto uma humanidade feliz.

Temos uma sociedade do consumo e para o consumo, um sistema econômico capitalista que cada vez mais aumenta as desigualdades sociais, etc.

Conclui com estas palavras que nos colocam perante um desafio: “O continuado descontrole da rede já global de dependência mútua e de ‘vulnerabilidade reciprocamente assegurada’ decerto não aumenta a chance de se alcançar tal unidade. Isso só significa, contudo, que em nenhuma outra época a intensa busca por uma humanidade comum, assim como a prática que segue tal pressupostos, foi tão urgente e imperativa como agora”.

Para Bauman, na era da globalização – “a causa e a política da humanidade compartilhada enfrentam a mais decisiva de todas as fases que já atravessaram em sua longa história”, assim termina. (p. 183).



“Sejamos contemplativos na ação”

“Sejamos contemplativos na ação”

Em todo tempo somos convidados a construir a vida sobre o alicerce firme da Palavra de Deus (Mt 7, 21-27).

Precisamos colocá-la no centro de nossa vida de modo que ela ilumine nossos pensamentos, reoriente nossos sentimentos e revitalize nossas ações.

Não basta que sejamos meros ouvintes da Palavra, mas ardorosos praticantes para que possamos entrar no Reino dos Céus.

Não bastam práticas externas de culto, rezas, procissões, terços... Mas a vivência de tudo aquilo que se reza e se celebra.

Não basta ter o nome inscrito no livro de batizados de uma paróquia, fazer parte de um movimento ou apenas dizer que está numa pastoral.

Não basta aparecer na Igreja nos casamentos e funerais, ou momentos especiais ou até mesmo buscar os Sacramentos, sem também procurar todo seu conteúdo vital e existencial que transforma nossa vida…

Não basta o conhecimento mais profundo, exegético, teológico da Palavra Divina, mas sua encarnação cotidiana nas relações com o outro (próximo) e com o Outro (Deus).

Tomando consciência de nossa realidade limitada, passível de pecado, deixando-nos conduzir pela Palavra Divina para acertadas escolhas, para que a Bênção Divina seja, em nós, abundantemente derramada.

Trilhar o caminho da santidade com total confiança, fidelidade, disponibilidade, coerência, amor e serviço na construção do Reino de Deus é preciso.

Assim viveremos as Bem-Aventuranças, realizando o Projeto da felicidade que Jesus nos apresentou, tendo sal em nós mesmos, e sendo luminosos para o mundo, tendo a caverna escura de nossa existência iluminada com a mais bela e resplandecente luz: a Luz Divina!

Que não construamos sobre a areia da superficialidade, do abandono de Deus, dos ritos exteriores que não são a expressão do que se passa no mais profundo de nós... Construir sobre a areia é certeza de construção com trágico desmoronamento...

Que a Palavra seja o sólido firmamento de nossa história. Que cada dia, cada ação seja um tijolo sobre a Rocha da Palavra que é o próprio Cristo Jesus. Nenhum vento ou tempestade desmoronará nossa casa, nossos sonhos, nossos projetos...

Que a Palavra de Deus e a Eucaristia nos alimentem nesta graça concedida por Deus: viver em absoluta fidelidade a Ele, somente assim nossa vida terá sentido. Todo projeto e construção terão êxito.

Concluindo, tudo isto nos leva a pensar na “Espiritualidade Inaciana” que se resume em ser “contemplativos na ação”.

Contemplativos na medida em que olhamos o mundo e sua realidade com os olhos de Deus. Na ação enquanto este olhar nos tira da acomodação e nos leva a agir no mundo, para transformar toda a realidade em que não brilham a Glória de Deus e a felicidade da pessoa humana.

Sejamos contemplativos na ação!
Façamos da Palavra nosso alicerce,
Que ela seja o “centro” de todo nosso existir...
Que o amor à Palavra Divina seja expressão de nosso anseio de encontro e relacionamento mais profundo com Deus, como assim expressou São Francisco de Assis:

“Senhor, quem és Tu? Quem sou eu?
Tu és o meu Tudo; eu sou o Teu nada!” 

O mistério da Iniquidade

                                                   


O mistério da Iniquidade

“Pois o mistério da iniquidade já opera;
somente até que seja removido aquele que agora o detém.”

No que consiste o mistério da iniquidade? Como enfrentar e superar?

A iniquidade é comumente identificada como maldade, pecado, crime, injustiça...

Iniquidade é quando se chega ao ponto do não conhecimento dos limites, porque já não se tem mais consciência de si e tão pouco dos outros. O “eu” sucumbiu aos próprios interesses e mesquinhez aviltante.

Nada sobra quando a iniquidade se instaura no coração e determina desejos, sentimentos e ações decorrentes.

Ela é o desenfreamento dos desejos a ponto da insanidade da mente, dos pensamentos, levando a atitudes abomináveis de destruição da beleza da vida do outro e mesmo da própria vida, pois rompe os limites, com dilaceramentos e fendas que não se fecham mais, por que devoradoras do próprio ser.

A iniquidade é a ação humana por vezes solidificada e até estruturada, ocultando os seus reais autores/sujeitos.

Não se pode imputar a este ou àquele tal ato, tal consequência. É satanicamente transvestida e diluída, e é preciso muita sensibilidade e criticidade para detectá-la, para também encontrar os meios para sua superação e sanação.

A iniquidade não possui, no entanto, vitalidade eterna, ainda que o germe de pretensão nela possa estar presente, ela pode ser superada.

O mistério da iniquidade tem rosto e manifestações muito concretas, entre elas a maleficência, a vilania, a impiedade, a maldade, a improbidade, a virulência, a crueldade, a torpeza, a tirania, o nepotismo, a desumanidade...

Ele corrói os sonhos de igualdade, partilha e justiça multiplicando pesadelos, sobretudo para os pobres e os pequenos, impondo sobre estes pesos sociais quase insuportáveis.

Curvar-se diante do mistério da iniquidade, com sentimentos de impotência, não é próprio de quem crê, de quem professa a fé no Deus bíblico, no Deus da vida, dos pequenos e dos pobres.

É preciso, sobretudo quem crê no Cristo Ressuscitado, pôr-se de pé, alvejar as vestes no Sangue do Cordeiro Imolado e Vencedor (Ap 7,13), no corajoso testemunho e compromisso com um mundo novo possível, com o Reino de Deus.

Percebemos algumas brechas no mistério da iniquidade e constatamos que ele não possui bases sólidas e indestrutíveis, de modo que é impossível que compactuemos com as suas manifestações, com seus diversos nomes e rostos.

Haveremos de pautar a vida pelos princípios e valores da dignidade e sacralidade da vida e, de modo mais explícito, conjugar e orientar a vida à luz da Palavra de Deus, do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo;

Tomar consciência se não estamos fomentando com pensamentos, palavras, omissões e ações. É necessária a conversão e permanente vigilância;

Revisitar os Profetas bíblicos e com eles reaprender a conduta agradável ao Senhor, com a coragem necessária para não ceder a este mistério para sobreviver ou obter aparentes e ilusórias vantagens.

Finalmente, o Apóstolo Paulo nos ajuda, na sua compreensão para superação, com breves palavras acende uma luz para o nosso caminhar, afastando-nos das trevas do erro, iluminando-nos com a luz da verdade, para que transformemos a iniquidade em novas relações de justiça e fraternidade:

“Ninguém de modo algum vos engane; porque o dia não chegará sem que venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição..., Pois o mistério da iniquidade já opera; somente até que seja removido aquele que agora o detém” (2Ts 2,3.7).

Enfim, há um pensamento muito apropriado – “o abismo chama abismo”. O cair no abismo da iniquidade chama novos abismos da iniquidade, no qual se cairá irremediável e tristemente a humanidade.

Como batizados, mortos para o pecado e vivos para Deus, somos novas criaturas. Evitemos e fujamos dos abismos da iniquidade.

Não podemos ceder ao mistério da iniquidade, que como um fio misterioso entrelaça todas as camadas da existência, como uma teia.

Busquemos as coisas do alto, onde habita Deus, sem jamais nos cansarmos no multiplicar de esforços para tornar o mundo mais fraterno, a vida mais bela e consonante com os desígnios de Deus.

Urge que o Paraíso nunca seja saudade, mas eterna esperança e compromisso, até que alcancemos a eternidade. Amém!

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG