sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

“Amor Líquido” (Capítulo II)


“Amor Líquido” 

“Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade” – capítulo II

Bauman, neste capítulo, nos ajuda a refletir como são os relacionamentos no líquido mundo moderno; os filhos como a aquisição mais cara que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida.

Outra questão fundamental: para o autor, o consumismo sem limites e sua insatisfação e o paralelo com as relações que também são mais marcadas pela quantidade, do que pela qualidade – “quando a qualidade o decepciona, você procura salvação na quantidade. Quando a duração não está disponível, é a rapidez na mudança que pode redimi-lo” (p. 77).

Nesta modernidade líquida, também entra em crise a questão da proximidade virtual e a distância virtual: “a suspensão, talvez até a anulação, de qualquer coisa que transforme a contiguidade topográfica em proximidade. A proximidade não exige mais a contiguidade física; e a contiguidade física não determina mais a proximidade” (p.81).

Citando Schluter e David Lee, nos diz que podemos usar a privcacidade como um traje pressurizado –“tudo menos convidar ao encontro, tudo menos envolver-se”. Deste modo os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade.

Os lares se transformaram em compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais; e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados –“Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta.

A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente, lado a lado” (citando autores acima mencionados). (cf p. 84

Segundo Bauman, “A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum” (p. 84).

Finaliza o capítulo refletindo como a modernidade líquida faz do outro um objeto de consumo:

“O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objeto de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem em termos de seu ‘valor monetário’... A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor” (p. 96).



“Amor Líquido” (Capítulo III)


“Amor Líquido” 

“Sobre a dificuldade de amar o próximo” – capítulo III

É retratado neste capítulo a dificuldade de estabelecer relacionamentos duradouros, a fluidez nas relações, o medo do apego nas relações, as relações virtuais e os conceitos de mixofobia e mixofilia em tempos de modernidade líquida.

Como tudo isto pode ser entendido à luz do preceito do amor ao próximo que é o ato de origem da humanidade, pois “todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude” (p. 98).

Bauman acentua a necessidade que possuímos de ser amados – “O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos” (p. 100).

Trona-se inconcebível qualquer violação da negação dignidade humana, pois “aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobreviver à morte de sua própria humanidade”, e ainda, “a negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma” (p. 103).

Cita Ludwig Wittgenstei, que observou em meio à segunda Guerra: “Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem. Ou mais uma vez, ‘nenhum’ tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma ‘única’ alma” (p. 102).

Para Bauman, “o valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo ‘sine qua non’ de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo” (p. 105).

Outra questão que Bauman nos apresenta neste líquido mundo moderno, é o medo do outro, que se apresenta como perigo, daí a construção de “bunkers”, condomínios cada vez mais fechados com segurança (cf. p. 120, p. 130-133 refere-se a São Paulo).

Quanto às cidades, assim resume: “As cidades se tornaram depósitos de lixo para problemas gerados globalmente. Os moradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para contradições globais” (p. 124).

Finalmente a cidade atrai e repele, numa ambígua experiência: enquanto mixofobia se tem medo de se misturar, do diferente, do outro. Enquanto mixofilia, cria possibilidades do encontro:

“A cidade favorece a mixofobia do mesmo modo e a mesmo tempo que a mixofilia. A vida urbana é intrínseca e irreparavelmente ambivalente” (p. 135).

Deste modo há uma coexistência de ambas em toda cidade e dentro de cada um de seus habitantes – “Trata-se reconhecidamente de uma coexistência problemática, cheia de som e fúria, embora signifique muito para as pessoas que se encontram na ponta receptiva da ambivalência líquido-moderna” (p. 136).

Daqui decorre a necessidade de criação de espaços mixófilos, em que todas as categorias de moradores seriam tentadas a frequentar e  compartilhar de modo regular e consciente (p.137).

"Amor líquido" (capítulo IV e conclusão)

"Amor líquido"

“Convívio destruído” – capítulo IV

No último capítulo é abordada a questão da xenofobia: “Um espectro paira sobre o planeta: o espectro da xenofobia. Suspeitas e animosidades tribais, antigas e novas, jamais extintas e recentemente descongeladas, misturaram-se e fundiram-se a uma nova preocupação, a da segurança, destilada das incertezas e intranquilidades da existência líquido moderna” (p. 143).

Cada vez mais, refugiados se veem sob o fogo cruzado, numa encruzilhada (p.164). São expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas a sua entrada é recusada em todos os outros, tornam-se alvo fixo em que se descarrega o excesso da angústia.

Presenciamos o medo do terrorismo em escala mundial, os conflitos imigratórios, a superação das barreiras geográficas.

O líquido mundo moderno produziu quantidade imensa de lixo e continua a produzir e ausência de espaços para aterros (p. 148),  fomenta um consumismo sem precedentes na história, nem por isto uma humanidade feliz.

Temos uma sociedade do consumo e para o consumo, um sistema econômico capitalista que cada vez mais aumenta as desigualdades sociais, etc.

Conclui com estas palavras que nos colocam perante um desafio: “O continuado descontrole da rede já global de dependência mútua e de ‘vulnerabilidade reciprocamente assegurada’ decerto não aumenta a chance de se alcançar tal unidade. Isso só significa, contudo, que em nenhuma outra época a intensa busca por uma humanidade comum, assim como a prática que segue tal pressupostos, foi tão urgente e imperativa como agora”.

Para Bauman, na era da globalização – “a causa e a política da humanidade compartilhada enfrentam a mais decisiva de todas as fases que já atravessaram em sua longa história”, assim termina. (p. 183).



“Sejamos contemplativos na ação”

“Sejamos contemplativos na ação”

Em todo tempo somos convidados a construir a vida sobre o alicerce firme da Palavra de Deus (Mt 7, 21-27).

Precisamos colocá-la no centro de nossa vida de modo que ela ilumine nossos pensamentos, reoriente nossos sentimentos e revitalize nossas ações.

Não basta que sejamos meros ouvintes da Palavra, mas ardorosos praticantes para que possamos entrar no Reino dos Céus.

Não bastam práticas externas de culto, rezas, procissões, terços... Mas a vivência de tudo aquilo que se reza e se celebra.

Não basta ter o nome inscrito no livro de batizados de uma paróquia, fazer parte de um movimento ou apenas dizer que está numa pastoral.

Não basta aparecer na Igreja nos casamentos e funerais, ou momentos especiais ou até mesmo buscar os Sacramentos, sem também procurar todo seu conteúdo vital e existencial que transforma nossa vida…

Não basta o conhecimento mais profundo, exegético, teológico da Palavra Divina, mas sua encarnação cotidiana nas relações com o outro (próximo) e com o Outro (Deus).

Tomando consciência de nossa realidade limitada, passível de pecado, deixando-nos conduzir pela Palavra Divina para acertadas escolhas, para que a Bênção Divina seja, em nós, abundantemente derramada.

Trilhar o caminho da santidade com total confiança, fidelidade, disponibilidade, coerência, amor e serviço na construção do Reino de Deus é preciso.

Assim viveremos as Bem-Aventuranças, realizando o Projeto da felicidade que Jesus nos apresentou, tendo sal em nós mesmos, e sendo luminosos para o mundo, tendo a caverna escura de nossa existência iluminada com a mais bela e resplandecente luz: a Luz Divina!

Que não construamos sobre a areia da superficialidade, do abandono de Deus, dos ritos exteriores que não são a expressão do que se passa no mais profundo de nós... Construir sobre a areia é certeza de construção com trágico desmoronamento...

Que a Palavra seja o sólido firmamento de nossa história. Que cada dia, cada ação seja um tijolo sobre a Rocha da Palavra que é o próprio Cristo Jesus. Nenhum vento ou tempestade desmoronará nossa casa, nossos sonhos, nossos projetos...

Que a Palavra de Deus e a Eucaristia nos alimentem nesta graça concedida por Deus: viver em absoluta fidelidade a Ele, somente assim nossa vida terá sentido. Todo projeto e construção terão êxito.

Concluindo, tudo isto nos leva a pensar na “Espiritualidade Inaciana” que se resume em ser “contemplativos na ação”.

Contemplativos na medida em que olhamos o mundo e sua realidade com os olhos de Deus. Na ação enquanto este olhar nos tira da acomodação e nos leva a agir no mundo, para transformar toda a realidade em que não brilham a Glória de Deus e a felicidade da pessoa humana.

Sejamos contemplativos na ação!
Façamos da Palavra nosso alicerce,
Que ela seja o “centro” de todo nosso existir...
Que o amor à Palavra Divina seja expressão de nosso anseio de encontro e relacionamento mais profundo com Deus, como assim expressou São Francisco de Assis:

“Senhor, quem és Tu? Quem sou eu?
Tu és o meu Tudo; eu sou o Teu nada!” 

A caridade é condição para a paz

                                                                  


A caridade é condição para a paz

Reflexão à luz da passagens bíblicas (1 Jo 3,7-10; Sl 971.7-8.9; Jo 1,35-42), sobre a Pessoa de Jesus, Sua missão e a prática da caridade, que Ele viveu e nos ensinou.

Para que foi enviado o Filho de Deus, cujo nascimento celebramos no dia do Natal do Senhor?

Jesus é o Filho de Deus enviado para aniquilar as forças mortificantes da dignidade humana. E precisamente nesta dimensão social, a capacidade de ‘tirar o pecado do mundo’ irá demonstrar-se como a capacidade de amar: não é só uma vitória contra o egoísmo individual, mas também contra as apertadas malhas construídas em redor do homem, por quem está interessado na sua ruína”. (1)

Cremos n’Ele e em Seu poder, portanto, temos que amar como Ele nos amou. Neste sentido, o Bispo Santo Agostinho afirmou:

“Somente a caridade permite distinguir os filhos de Deus dos filhos do diabo. Os que possuem a caridade nasceram de Deus, os que não a têm não nasceram de Deus.

É este o grande critério de discernimento. Se tu tivesses tudo, mas te faltasse esta última coisa, de nada te valeria o que tens; se não tens as outras coisas, mas possuis esta, já cumpriste a Lei”.

Isto nos remete às palavras do Apóstolo Paulo, e que poderão nos conduzir ao longo deste ano, a fim de que façamos progressos na prática da caridade, pois isto é o que conta, e nos identifica com nosso Senhor, que amamos, anunciamos e testemunhamos:

“E, sobretudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).

“O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 13,10);

“Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine... O amor jamais passará.” (1 Cor 13,1-8).

Considerando os fatos nos noticiários, que tanto nos entristecem, a estatística da miséria, da desigualdade social, somados a tantos outros acontecimentos, urge que a humanidade reencontre o caminho da prática da caridade, e a cultura do cuidado como o percurso da Paz.

A paz a ser promovida no mundo está sob nossa responsabilidade. E o primeiro passo é o reaprendizado da caridade. 

Neste sentido, papel fundamental desempenha a família, com simples palavras e gestos, num aprendizado que se aprofunda, amadurece e perpassará todas as instâncias e âmbitos de decisões que determinam o rumo da história da humanidade.



(1) Lecionário Comentado – Editora Paulus - Lisboa - pág.309

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Política: a prática sublime da caridade (1)


Política: a prática sublime da caridade

Apesar das dificuldades e decepções, não podemos recuar, nem nos omitir dos sagrados compromissos com a atividade política, que deve ser a prática sublime da caridade, como nos ensina a Doutrina da Igreja, e como tão bem expressou o Papa São Paulo VI, na “Octogesima Adveniens”, em 1971: “A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros.” (n.46).

E ainda, retomando a preciosa citação da poetisa Gabriela Mistral: “Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar que fazem de cada recuo um ponto de  partida para um novo avanço”, façamos desta situação adversa que vivemos um momento favorável.

Se os fatos revelam um notável recuo, é a partir do recolhimento, reflexão, formação e diálogo, que juntos reencontraremos o caminho da construção e solidificação da democracia, com a preservação da liberdade de participação política de todos; transparência necessária na administração do bem público; fortalecimento dos espaços de participação e decisão dos rumos de nossa nação em todos os níveis (municipal, estadual, nacional). 

Portanto, que o “recuo das ondas” não seja sinônimo de apatia, indiferença, omissão diante da vocação política que todos possuímos.

Não nos foi dado um espírito de timidez e desânimo, e sim o Espírito do Senhor que nos orienta e conduz, para que avancemos no inadiável compromisso com o anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus Cristo, participando alegres e corajosamente da construção de um mundo novo, justo e fraterno, com vida plena e feliz para todos.

Política: a prática sublime da caridade (2)



Política: a prática sublime da caridade

 “A Sagrada Escritura é para nos ajudar a decifrar o mundo; para
nos devolver o olhar da fé e da contemplação, e transformar
a realidade numa grande revelação de Deus”.

Apesar das dificuldades e decepções, não podemos recuar, nem nos omitir dos sagrados compromissos com a atividade política, que deve ser a prática sublime da caridade, como nos ensina a Doutrina da Igreja, e como tão bem expressou o Papa São Paulo VI, na “Octogesima Adveniens” (parágrafo n.46), em 1971 ao celebrar o octagésimo aniversário da Rerum Novarum, que nos fala sobre um tema que está na pauta do dia: a política como promoção do bem comum:

- O poder político a serviço do bem de todos e além das fronteiras nacionais:
“Atendo-se, pois, à sua vocação própria, o poder político deve saber desvincular-se de interesses particulares, para poder encarar a sua responsabilidade pelo que se refere ao bem de todos os homens, passando mesmo para além das fronteiras nacionais”.

- A política tomada a sério, em seus diversos níveis, na promoção do bem comum:
“Tomar a sério a política, nos seus diversos níveis, local, regional, nacional e mundial, é afirmar o dever do homem, de todos os homens de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade”.

- Uma definição do que vem a ser a política:
“A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros. Sem resolver todos os problemas, naturalmente, a mesma política esforça-se por fornecer soluções, para as relações dos homens entre si”.

- O campo de atuação e domínio da política:
“O seu domínio é vasto e abrange muitas coisas, não é porém, exclusivo; e uma atitude exorbitante que pretendesse fazer da política algo de absoluto, tornar-se-ia um perigo grave”.

- A autonomia da realidade política e o compromisso dos cristãos em coerência ao Evangelho:
“Reconhecendo muito embora a autonomia da realidade política, esforçar-se-ão os cristãos, solicitados a entrarem na ação política, por encontrar uma coerência entre as suas opções e o Evangelho e, dentro de um legítimo pluralismo, por dar um testemunho, pessoal e coletivo, da seriedade da sua fé, mediante um serviço eficaz e desinteressado para com os homens”.

Ontem, hoje e sempre, ecoam as palavras do Papa Paulo VI, em 1975, que nos levam a refletir sobre a missão do cristão leigo e leiga e de todo batizado no mundo:

“Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma de evangelização...

O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass media" e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento.”. (Evangelli Nuntiandi, n.º 70)

Também são oportunas as palavras dos Bispos na Conferência Nacional (CNBB), quando disseram nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (2015-2019): 

Promova-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, por meio de formação permanente e ações concretas.

Com a crise da democracia representativa, cresce a importância da colaboração da Igreja no fortalecimento da sociedade civil, na luta contra a corrupção, bem como no serviço em prol da unidade e fraternidade dos povos, em especial na América Latina.” (n.123).

Urge que, no testemunho da fé, como discípulos missionários do Senhor, vivamos a atuação e compromisso político, como concretização e promoção do bem comum, para que sejamos sal, fermento e luz.

Embora a nossa participação política não se esgote no período eleitoral, este é um momento privilegiado, frente à possíveis descasos do poder público, precariedade de serviços necessários à população, desvios ou não aplicação verbas para o que é de fato essencial, e outros tantos fatos que clamam por mudanças efetivas.

Como Igreja, iluminados pela Doutrina Social da Igreja, não nos é permitido omissão nestes sagrados compromissos de participação da construção do Reino de Deus inaugurado por Jesus, com a força do Espírito Santo.

Porém, se dificuldades existem, a Palavra de Jesus, ontem, hoje e sempre, nos renova para os sagrados compromissos: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32).

E para que superemos os nossos medos, na desafiadora e necessária participação política, Ele afirma ainda: “Coragem, Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Seja a Palavra de Deus luz em nossas reflexões, compreensão da realidade e, sobretudo, uma Palavra decisiva em nossa vivência da fé, na prática da verdadeira política que, como vimos, é a sublime prática da caridade.

Esteja a Palavra de Deus em nossas mãos e mente, pois como afirmou Santo Agostinho - A Sagrada Escritura é para nos ajudar a decifrar o mundo; para nos devolver o olhar da fé e da contemplação, e transformar  a realidade numa grande revelação de Deus”.

E ainda, retomando a preciosa citação da poetisa Gabriela Mistral: “Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço”, façamos desta situação adversa que vivemos um momento favorável.

Se os fatos revelam um notável recuo, é a partir do recolhimento, reflexão, formação e diálogo, que juntos reencontraremos o caminho da construção e solidificação da democracia, com a preservação da liberdade de participação política de todos; transparência necessária na administração do bem público; fortalecimento dos espaços de participação e decisão dos rumos de nossa nação em todos os níveis (municipal, estadual, nacional). Portanto, que o “recuo das ondas” não seja sinônimo de apatia, indiferença, omissão diante da vocação política que todos possuímos.

Não nos foi dado um espírito de timidez e desânimo, como falou o Apóstolo Paulo – “Pois Deus não nos deu espírito de timidez, mas de poder, de amor e de equilíbrio” (2 Tm 1,7), pois é o Espírito Santo que nos orienta e conduz, para que avancemos no inadiável compromisso com o anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus Cristo, participando alegres e corajosamente da construção de um mundo novo, justo e fraterno, com vida plena e feliz para todos.

Enfim, encorajados pela Palavra do Senhor, luz para nosso caminho, assim como o Povo de Deus viveu e celebrou a noite da libertação da escravidão do Egito e a celebrou com cantos e júbilo, também nós, partícipes da Nova e Eterna Aliança, revigorados pelo Banquete de Eternidade, nos empenhemos concretamente nesta noite de libertação, que se repete ao longo da história, quando não nos omitimos e nos comprometemos no escrever de novas linhas da história com vida plena, digna, abundante e feliz para todos, como Igreja, participando com todo o empenho na construção do Reino de Deus.

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