segunda-feira, 9 de março de 2026

Falar somente o que for de proveito espiritual

                                         


Falar somente o que for de proveito espiritual

Assim nos falaram os Pais do Deserto em um dos ditos anônimos:

“Um dos anciãos disse: ‘No início, costumávamos reunir-nos e falar do proveito espiritual; tornamo-nos como coros, coros de anjos, e éramos elevados ao céu.

Agora nos reunimos e chegamos a caluniar, afastando-nos um aos outros para o abismo’.”  (1)

Este dito pode nos ajudar nos tempos atuais, sobretudo no mundo virtual, em que se multiplicam postagens, comentários, críticas privadas de caridade, que por vezes podem criar muros, distanciamentos e não pontes de fraternidade, comunhão e amizade sincera.

E se considerarmos o avanço da Inteligência Artificial na geração de conteúdos, pode se tornar ainda mais grave.

O problema não são as ferramentas disponíveis, mas o bom uso que delas façamos, lembrando as palavras do Papa Leão XIV:

“Por isso, a exposição mediática, o uso das redes sociais e de todos os instrumentos hoje à disposição devem ser sempre avaliados com sabedoria, tendo como paradigma de discernimento o serviço à evangelização. ‘Tudo me é lícito ! Sim, mas nem tudo convém’ (1 Cor 6,12)”. (2)

Concluo com as palavras do Papa Francisco:

“Na era da inteligência artificial, não podemos esquecer que a poesia e o amor são necessários para salvar o humano. O que nenhum algoritmo conseguirá abarcar é, por exemplo, aquele momento de infância que se recorda com ternura e que continua a acontecer em todos os cantos do planeta, mesmo com o passar dos anos.” (3)

 

(1) Ditos anônimos dos Pais do Deserto – Editora Vozes – 2023 – n.238 – pp. 173

(2)Carta Apostólica –“Uma fidelidade que gera futuro” de 8 de dezembro de 2025

(3)Carta Encíclica Dilexit Nous – Papa Francisco – 2024 – parágrafo n. 20

Uma súplica pelos amigos

                                                        

Uma súplica pelos amigos

“Como a águia que vela por seu ninho 
e revoa por cima dos filhotes, 
Ele o tomou, estendendo as Suas asas, 
E o carregou em cima de Suas penas” (Dt 32,11)

Quando tuas inquietações e preocupações forem tantas, como que te fazendo cair no caminho, lá estarei para te estender a mão e te levantar, para aliviar teus fardos a fim de te pores a caminho, sem jamais desistir de encontrar as superações necessárias.

Quando sonhos que te moviam se tornarem pesadelos, levando-te ao mais profundo do abismo do desespero, aparentemente sem consolo, te farei voltar à planície, a fim de que não desista jamais deles. Se sagrados forem, imortais serão.

Quando não mais forças tiveres para subir à montanha em busca da brisa que nos envolve e nos dá novo fôlego para enfrentar as tramas diabólicas do cotidiano que nos asfixiam, lá estarei invocando sobre ti o Sopro do Espírito.

Quando os mares das adversidades e contrariedades parecerem ser mais fortes, num aparente naufrágio, sem perspectiva de travessia para a margem, estarei presente, te resgatando com a Palavra do Divino Mestre que todos precisamos: “Coragem!”.

Quando a linha do horizonte a ti se apresentar com nuvens escurecidas, sem perspectivas de luminosidade, com o enterro da semente da esperança, lá estarei para te dizer que juntos e com fé, a faremos desabrochar, florescer, ressuscitar.

Quando o céu e o brilho das estrelas, o calor do sol dourado, e a beleza da prateada forem apenas astros, lá estarei para te ajudar a encontrar o reencantamento pela beleza da vida, fazendo-te reencontrar contigo mesmo e com o Sol Nascente que te conduz e ilumina.

Quando nem pela palavra, nem pelos atos eu nada mais puder fazer, na mais pura e fina flor da misericórdia, elevarei orações por ti, no silêncio fecundo que te fará reencontrar o caminho, para que voes mais alto nas asas do Espírito, porque Deus jamais te abandonará.

Levanta-te, creia, luta, não desistas jamais!
Leva contigo minha súplica a Deus,
E com ela, a certeza de que não seremos vencidos,
Porque com Ele, somos mais que vencedores.

Levanta-te,  amigo(a)!

Mulher, o Senhor está contigo! Não temas!

 


Mulher, o Senhor está contigo! Não temas!

O II Encontro para Mulheres da Diocese de Guanhães -MG, promovido pela Renovação Carismática Católica (RCC) tem como tema – Mulher, o céu nunca te perdeu de vista” e como lema - “Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi." (cf. Gn 28,15)

Encontro favorável para refletirmos, rezarmos e nos comprometermos com a transformação da cruel realidade de tanta Mulheres:

- Marcadas por tristeza que devora suas forças, no ápice da depressão;

- Com dores nas entranhas da alma;

- A violência de tantos nomes dentro de casa;

- Traídas de tantas formas;

- Que sofrem por não conseguirem ser mães;

- Mães que assumem sozinhas o peso da educação e sustento dos filhos;

-  Que se acreditam feias e até nem mais se olham no espelho;

- Que, em crise de abandono de tantos, pensam que Deus, também, delas Se esqueceu;

- Com aparência de fortes, mas destruídas por dentro;

- Em situações tantas que, no silêncio, continuamos a lembrar...

Assim como falou a Jacó, Deus fala a nós, mulheres e homens de boa vontade: “Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi." (cf. Gn 28,15).

Lembremos, também, das palavras do Profeta Isaías:

“Pode uma mulher esquecer-se do filho de suas entranhas? Mesmo que ela se esquecesse, Eu, contudo, não me esquecerei de ti!” Vê que eu te gravei em minhas mãos, e os teus muros estão sempre diante de mim.” (Is 49,15-16)

Olhemos para o alto, busquemos as coisas do alto, onde habita Deus: 

- “Aspirai as coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus.” (cf. Cl 3,1-11).

Urge que renovemos nossa fé na onipotência do amor e bondade divinas que jamais nos desampara, confiando em Sua terna e eterna  presença na história de Seu Povo, na história das mulheres marcadas pela dor, mas também marcadas pela coragem, resiliência, que sonham e se comprometem com um novo céu e nova terra.

Tenhamos, finalmente, Maria como Mãe e Modelo dos que jamais recuam na promoção e defesa da dignidade e da vida, no sentido mais amplo e belo que se possa pensar. Amém.

“Salve Rainha, Mãe de Misericórdia...”

Se... Se te faltares a força.

                                                 

Se...
 
Se te faltares a força.
Se te roubarem a poesia.
Se te sequestrarem a utopia.
 
Se perderes a alegria de amar e servir.
Se teu coração deu lugar à idolatria.
Se perderes a força e o vigor da profecia.
 
Se te rasgarem a fantasia.
Se te escravizarem com a mentira.
Se não vislumbrares horizonte.
 
Se nada esperares do amanhã.
Se macularem a pureza da alma.
Se não apoiarem teus projetos.
 
Se não mais crês e nem vives o perdão.
Se vires tua vida como uma tela cinza.
Se te sentires sozinho como numa ilha.
 
Se sentires a fé enfraquecer.
Se quiserem amarelar tua esperança.
Se os desafios apagarem o crepitar da chama da caridade.
 
Se não mais nas pessoas acreditares.
Se nem em ti mais acreditares.
Se a morte levar quem tu tanto amas.
 
Se te sentires inquieto e sem paz.
Se te sentires para o essencial, incapaz.
Se não suportares o peso de tua cruz.
 
Tens que te reinventar e refazer.
Tens que aprender a recomeçar.
Tens que em Deus confiar.
 
Tens que buscar n’Aquele que nos renova,
Por sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição,
A graça, sabedoria, luz e forças necessárias.
 
Tens que retomar o combate da fé,
No carregar da cruz cotidiana, força reencontrarás,
Do Pão da Palavra e da Eucaristia te revigorarás.
 
Tens que o mar da vida, com coragem, atravessar.
E assim haverá de ser, com Ele e nada sem Ele, Jesus.
Ventos, tempestades não te submergirão.
 
Do outro lado do aparentemente impossível,
Seja no tempo presente ou na eternidade,
Com os que não se entregam, te encontrarás. Amém.


As mulheres e as virtudes cardeais

                                                       

As mulheres e as virtudes cardeais

Em nossas comunidades, encontramos inúmeras mulheres discípulas missionárias do Senhor que, como Maria Madalena, a “Apóstola dos Apóstolos”, segundo Santo Tomás de Aquino, testemunham a fé no Cristo Ressuscitado, fazendo renascer, a cada dia, a esperança, porque inflamadas pela caridade.

Também, as encontramos em lares, escolas, hospitais, universidades, meios de comunicação, e em tantos outros lugares...

São elas movidas pelas virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança); amantes da justiça, cujo fruto do trabalho são as virtudes, porque ensinam a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza (Sb 8, 7).

Mulheres prudentes, que dispõem da razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o verdadeiro bem e para escolher os justos meios para atingi-lo; sem jamais confundir prudência com a timidez ou o medo, a duplicidade ou dissimulação.

Mulheres sedentas de justiça, movidas e comprometidas pela virtude moral da constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.

Deste modo, desejam e lutam pelos direitos de todos estabelecendo harmonia nas relações humanas, objetivando a promoção do bem comum, vivendo com retidão de pensamentos e conduta.

Mulheres fortes, que em meio às dificuldades, enfrentando-as com coragem e ousadia, asseguram a firmeza e a constância na realização do bem; resistem às tentações de desistir e evadir do mundo, pondo-se cotidianamente de pé na superação dos obstáculos, vencendo os medos, mesmo da morte, enfrentando provações e, por vezes, perseguições e discriminações.

Vivem a renúncia de si mesmas, com o sacrifício da  própria vida, na defesa de uma causa justa, porque creem no Senhor e em Sua Palavra, e assim rezam – “O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória” (Sl 118, 14); “No mundo haveis de sofrer tribulações: mas tende coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33).

Mulheres que agem com Temperança, moderando a atração dos prazeres, encontram equilíbrio no uso dos bens criados; vivendo o domínio da vontade sobre os instintos, mantêm os desejos nos limites da honestidade, guardando sã discrição e não se deixando arrastar pelas paixões do coração.

São verdadeiramente Pascais, testemunhas corajosas do Ressuscitado, a quem dedico estas palavras do Bispo Santo Agostinho: “Viver bem é amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o proceder [...], de tal modo que se lhe dedica um amor incorrupto e íntegro (pela temperança), que mal algum poderá abalar (fortaleza), que a ninguém mais serve (justiça), que cuida de discernir todas as coisas para não se deixar surpreender pela astúcia e pela mentira (prudência)” .



PS: Publicado no jornal Folha Diocesana – Diocese de Guarulhos - Ed. n.264

Nossa glória está tão somente no Senhor

                                                


Nossa glória está tão somente no Senhor

Sejamos enriquecidos por uma das homilias de São Basílio Magno, bispo (séc. IV):

Não se glorie o sábio de seu saber, não se glorie o forte de sua força, nem o rico de suas riquezas (Jr 9,22).

Qual é então o verdadeiro motivo de glória e em que consiste a grandeza do homem? Quem se gloria – diz a Escritura – glorie-se nisto: em conhecer e compreender que eu sou do Senhor (Jr 9,23).

A nobreza do homem, a sua glória e a sua dignidade consistem em saber onde está a verdadeira grandeza, aderir a ela e buscar a glória que procede do Senhor da glória. Diz efetivamente o Apóstolo: Quem se gloria, glorie-se no Senhor. Estas palavras encontram-se na seguinte passagem: Cristo Se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, ‘quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (1Cor 1,31).

Por conseguinte, é perfeito e legítimo nos gloriarmos no Senhor quando, longe de orgulhar-nos de nossa própria justiça, reconhecemos que estamos realmente destituídos dela e só pela fé em Cristo somos justificados.

É nisto que Paulo se gloria: desprezando sua própria justiça, busca apenas a que vem por meio de Cristo, ou seja, a que se obtém pela fé e procede de Deus; para assim conhecer a Cristo, o poder de Sua ressurreição e a participação em Seus sofrimentos, configurando-se à Sua morte, na esperança de alcançar a ressurreição dos mortos.

Aqui desaparece todo e qualquer orgulho. Nada te resta para que te possas gloriar, ó homem, pois tua única glória e esperança está em fazeres morrer tudo que é teu e procurares a vida futura em Cristo. E como possuímos as primícias desta vida, já a iniciamos desde agora, uma vez que vivemos inteiramente na graça e no dom de Deus.

É certamente Deus quem realiza em nós tanto o querer como o fazer, conforme o Seu desígnio benevolente (Fl 2,13). E é ainda Deus que pelo Seu Espírito nos revela a sabedoria que, de antemão, destinou para nossa glória.

Deus nos concede força e resistência em nossos trabalhos. Tenho trabalhado mais do que os outros – diz também Paulo – não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo (1Cor 15,10).

Deus nos livra dos perigos para além de toda esperança humana. Experimentamos, em nós mesmos, – diz ainda o Apóstolo – a angústia de estarmos condenados à morte. Assim, aprendemos a não confiar em nós mesmos, mas a confiar somente em Deus que ressuscita os mortos. Ele nos livrou, e continuará a livrar-nos, de um tão grande perigo de morte. N’Ele temos firme esperança de que nos livrará ainda, em outras ocasiões (2Cor 1,9-10).”

Quaresma, tempo favorável de conversão, reorientação de nossos passos, revisão de pensamentos e condutas, bem como superação de pecaminosas omissões.

Um sinal de conversão é tomar consciência de que nossa glória é verdadeira quando nos gloriamos no Senhor.

Não é pela sabedoria, poder ou riqueza que devemos nos gloriar, mas na força e poder que nos vêm do Senhor.

Nossa sabedoria é importante, mas em sintonia e aberta à Sabedoria divina, para que melhor correspondamos aos desígnios divinos, e caminhemos juntos ao encontro da felicidade tão desejada.

Sabedoria humana e divina não se contrapõem; fundamental que sabedoria humana seja sempre iluminada e conduzira pela Sabedoria divina, em abertura ao Santo Espírito que nos assiste e nos conduz.

Experimentar a força da onipotência divina em nossa fragilidade, pois nosso poder deve ser sempre expressão de doação e serviço, não despotismo ou tirania, como o Senhor nos ensinou ao lavar os pés dos seus discípulos (cf. Jo 13,1-5).

Todo poder é criador, quando movido pelo mandamento do amor que o Senhor nos confiou: poder sem amor é domínio e destrói a beleza da vida.

Riqueza possuída não é garantia de felicidade plena alcançada, pois tão somente o Senhor pode nos conceder a verdadeira alegria.

Apegos materiais demasiados, como deuses, nos cegam e nos levam aos abismos de possíveis desumanidades e cegueira diante dos clamores dos empobrecidos, dos “Lázaros” que suplicam migalhas de nossas mesas, como nos fala o Evangelho (Lc 16,19-31).

Gloriemo-nos tão somente no Senhor, para que a sabedoria, poder e riqueza estejam a serviço da fraternidade, comunhão e vida plena para todos. Amém.


PS: Apropriado para a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 16,1-8)
 

Sem conversão não haverá Alegria Pascal

                                                   


Sem conversão não haverá Alegria Pascal                         

                     “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) 

Conversão sim, perversão aos desígnios divinos, jamais!
Dureza de cerviz, “cabeça dura”, também jamais.
Coração contrito, arrependido, humilhado, Deus não despreza,
 
Somente Deus pode mudar nosso coração
de pedra em coração de carne,
E espera que reconheçamos nossa condição pecadora.
Perdão peçamos e concedamos:
Relações mais humanas e fraternas estabeleçamos,
na família e em qualquer lugar.
 
Somente Deus, com Seu poder, é capaz de dobrar
o que aparentemente é rígido; 
aquilo que para as forças humanas é impossível de ser dobrado:
Para vencermos a prepotência dos fortes, a arrogância dos sábios, 
abertos à sabedoria maior: o Saber Divino,
tendo do Senhor os mesmos sentimentos;
em nossa fraqueza, Sua Divina força testemunharmos.
 
Somente Deus, com Sua bondade e ternura,
pode aquecer o que é gélido,
Fazendo crepitar em nosso coração a chama do Seu Amor;
Encorajando-nos para sermos; instrumentos em Suas mãos.
Subindo e descendo do Monte Tabor,
Atentos à voz do Verbo, o Filho Amado,
Sua Palavra, na planície do cotidiano, vivermos.
 
Que a Palavra Divina, neste tempo forte de reconciliação, 
nos inquiete e nos desinstale de possíveis e indesejáveis apatias, 
que fragilizam nossos compromissos;
de preguiças paralisantes, 
de ilusões que nos deixem entorpecidos,  
de desejos manchados, que nos afastam da vontade divina a nosso respeito, de reconhecimento sem que o mereçamos.
 
Experimentemos a dor da contrição.
Deixemos que Deus toque o nosso coração;
Que provoque em nós um despertar,
Para que nos abramos ao Seu Amor, tão sublime e incomparável.
 
É Quaresma, tempo favorável de conversão e salvação.
Tempo favorável de jejum, partilha e oração.
Tempo de sermos mais fraternos, mais a Cristo configurados.
Com os compromissos batismais renovados na Eucaristia.
Amém.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG