quinta-feira, 2 de julho de 2026

Vivificados pelo Espírito

                                                 


Vivificados pelo Espírito

Sejamos enriquecidos pelo Sermão de Teodoro de Mopsuéstia (séc. V):

“Porém, é notável que ao dar o pão Ele não dissesse: ‘Isto é a figura de meu corpo’, mas: Este é o meu corpo; e da mesma maneira o cálice, não diz: ‘Isto é a figura do meu sangue’, mas: Este é o meu sangue; porque ele quis que tendo estes (o pão e o cálice) recebido a graça e a vinda do Espírito Santo, não apreciemos mais a sua natureza, mas o recebamos como o corpo e o sangue que são de nosso Senhor.

Pois o corpo de nosso Senhor também não teve, por sua própria natureza, a imortalidade e o (poder de) dar a imortalidade, mas foi o Espírito Santo que a deu, e pela ressurreição dentre os mortos recebeu a conjunção com a natureza divina, veio a ser imortal e causa de imortalidade para os demais.

Portanto, tendo dito nosso Senhor: Aquele que come o meu corpo e bebe o meu sangue viverá eternamente, quando viu aos judeus murmurarem e duvidarem desta palavra – pensando que por meio de uma carne mortal não é possível receber a imortalidade –, acrescentou para prontamente resolver a dúvida: Se virdes ao Filho do homem subir para onde estava antes, como se dissesse: ‘Agora isto não vos parece certo porque disse isto de meu corpo; porém, quando me verdes ressuscitado dentre os mortos e subir ao céu, certamente não se poderá mais ter por dura e estranha esta palavra; porque pelos próprios fatos vos convencereis de que passei para uma natureza imortal; se eu não estivesse nela, eu não subiria ao céu’.

E para indicar de onde lhe virá isto, acrescenta em seguida: O Espírito vivifica, porém o corpo de nada serve. Isto, ele diz, lhe virá pela natureza do Espírito vivificante, pela qual ele será transformado para este (estado); que ele seja imortal e que ele concede a imortalidade aos demais – aquilo que Ele não tinha e o que não podia dar aos demais como proveniente de sua natureza, porque a natureza da carne é impotente para um dom e um auxílio deste gênero.

Porém, se a natureza do Espírito vivificante fez o corpo de nosso Senhor desta natureza, da qual ele não era antes, é preciso que tampouco nós, que recebemos a graça do Espírito Santo pelas figuras sacramentais, ainda vejamos como pão e como cálice o que nos é apresentado, mas (consideremos) que é o corpo e o sangue de Cristo, nos quais são transformados pela descida da graça do Espírito Santo: ela, que obtém para os que dela participam o mesmo que por meio do corpo e sangue de nosso Senhor, nós pensamos que recebem os fiéis.

Por isto ele diz: Eu sou o pão da vida descido do céu; e eu sou o pão da vida. E para mostrar que ele é aquilo que ele chama de pão, diz: E o pão que vos darei é meu corpo para a vida do mundo.

Já que, de fato, nós subsistimos nesta vida por meio do pão e do alimento, ele se chama a si mesmo pão da vida descido do céu, significando isto: ‘Verdadeiramente eu sou o pão da vida, que dá a imortalidade aos que creem em mim, mediante este (corpo) visível, pelo qual eu desci e ao qual conferi a imortalidade, e por meio do qual (a dou) aos que creem em mim’. Podendo dizer: ‘Eu sou aquele que dá a vida’, se abstém e no lugar diz: Eu sou o pão da vida.

De fato, já que a imortalidade esperada, cuja promessa nos foi dada aqui, a vamos receber nas figuras sacramentais por meio do pão e do cálice.

Ele devia chamar-se pão a si mesmo e ao seu corpo, de modo que pela própria figura venerássemos aquele que reivindicou esta denominação; para dar-nos a conhecer estes dons, chamou-se a si mesmo de pão, mas quis também, por estas coisas daqui (terrenas), fazer-nos receber sem duvidar estes bens demasiado elevados para as palavras.” (1)

Oremos:

Senhor Jesus Cristo, Pão da Vida e da Imortalidade, cremos em Vossa real presença na Eucaristia, Mistério da fé e do amor e da salvação do mundo.

Concedei-nos a graça de participar de Vossa Mesa, ouvindo Vossa Palavra e com o Vosso Espírito, ajudai-nos a colocá-la em prática.

Dai-nos a graça de sermos  vivificados pela Eucaristia que recebemos, e deste modo, renovarmos sagrados compromissos com a vida em todas as suas dimensões. Amém.

 

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - pág. 455-456

 

Com o Bom Jesus, peregrinos da verdadeira Paz (Bom Jesus)

 

Com o Bom Jesus, peregrinos da verdadeira Paz

Cada dia que amanhece é tempo de graça,
De trilhar novos caminhos, se preciso for.

Pautar nossa vida pela Divina Palavra,

Caminhos iluminados, fé renovada.

 
Pés fortalecidos, peregrinos de esperança,
Caridade, no coração, inflamada.
 
Renovados os sagrados compromissos com a vida,
Fidelidade ao Senhor Bom Jesus, nossa verdadeira Paz.
 
Sonhemos e promovamos a autêntica paz,
Sejamos agraciados pela Sua Saudação Pascal:
 
“A paz esteja convosco” ressoa Sua voz, (1)
No recôndito mais profundo de nosso coração.
 
Não a paz que o mundo dá, com traços de morte,
Violência, mentira, destruição, aniquilação,
 
Mas a paz que nos vem do Alto para nos brindar,
Com cantos de alegria em cada amanhecer.
 
Trilhar em campos dourados com Sua presença,
Fazendo-nos crer que a vida é bela, sagrado viver.
 
Paz desarmada e desarmante ressoa nos céus;
Bendita e profética missão no mundo a viver.
 

Paz desarmada sem soldados, armas ou bombas,
Sangue de inocentes, gritos e lamentos de dor.
 
Paz desarmada, fruto da fragilidade de Sua humanidade,
Com a força ímpar do Divino Mandamento do Amor.
 
Paz desarmante, expressa em gestos de bondade:
Caridade, solidariedade, compaixão, proximidade. 

Pois, tão somente assim, de forma desarmante,
Construiremos uma nova civilização do amor.
 
Paz desarmada e desarmante, nova cultura:
A do encontro, que constrói pontes em vez de muros. 

Que aproxima as pessoas com laços de ternura,
Novas páginas, somente com Ele, se inauguram.

Aos pés do Bom Jesus, dobramos nossos joelhos,
Nossas mãos se estendem em divina missão. 

Queremos ser d’Ele instrumentos da paz,
Pela Eucaristia nutridos, pela Palavra conduzidos. Amém.
 


 
 
 
(1)
  Jo cf. Jo 20, 19-29

PS: Apropriado para o 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matosinhos - 2026 - Conceição do Mato Dentro - MG, que tem como tema - "Senhor Bom Jesus, fazei-nos instrumentos de vossa paz".

Ladainha ao Bom Jesus de Matosinho (Bom Jesus)

                                                      


Ladainha ao Bom Jesus de Matosinho

Ó Bom Jesus, Mestre da oração, confiantes Vos suplicamos:

Ensinai-nos a rezar e a viver como irmãos e irmãs.        Bom Jesus, ouvi-nos.

Inspirai-nos, a caminhar juntos como irmãos e irmãs.     Bom Jesus, ouvi-nos.

Auxiliai-nos, a fim de que sejamos servos de todos e dos últimos. Bom Jesus, ouvi-nos.

Orientai-nos, para que vivamos sem preconceito ou discriminação. Bom Jesus, ouvi-nos.

Inflamai nossos corações com amor fraterno, como Vós amastes. Bom Jesus, ouvi-nos.

Concedei-nos a graça de não julgarmos nossos irmãos e irmãs. Bom Jesus, ouvi-nos.

Fortalecei nosso espírito de solidariedade com os mais necessitados. Bom Jesus, ouvi-nos.

Ajudai-nos a anunciar a Paz como fruto do perdão, da reconciliação e da justiça. Bom Jesus, ouvi-nos.

Iluminai nosso caminho na comunhão, participação e missão como Igreja Sinodal. Bom Jesus, ouvi-nos.

Ajudai-nos a promover a Vida plena. Bom Jesus, ouvi-nos.

Solidificai nossos compromissos com a Fraternidade e a Amizade Social, com esperança no coração enraizada.  Bom Jesus, ouvi-nos.

Guiai nossos passos, para que sejamos peregrinos da esperança. Bom Jesus, ouvi-nos.

Amém.

 

PS: Ladainha escrita a partir dos temas do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos - Conceição do Mato Dentro - MG - de 13 a 24 de junho de 2024.

 

A vida é uma travessia para a eternidade

                                           


A vida é uma travessia para a eternidade

Quando reconhecemos Deus para viver plenamente no mundo da realidade, sabemos de onde viemos, nos movemos e somos.

É preciso saber viver, conscientes de que a vida é caminho; mas precisamos saber de onde viemos e para onde nos dirigimos, pois quem não sabe aonde quer chegar, tanto faz o caminho.

Salutar aprender e reconhecer que não somos obra do acaso, mas fruto de um imenso amor, e que todo nascimento humano é fruto de amor, porém cada nascimento e todos os nascimentos são frutos de um maior, de um infinito amor, o Amor de Deus.

Devemos aprender a reconhecer nossa história pessoal, que é na exata medida, uma história de salvação, pois Deus interveio e sempre intervém para nos libertar, para promover nossa verdadeira e plena maturação humana na história.

Creiamos que Deus vem sempre ao nosso encontro, sobretudo nas situações mais sombrias e adversas, para nos conduzir a uma pátria de felicidade que somente Ele pode nos alcançar (conceder).

Viver é, portanto, uma grande passagem, ou ainda, uma grande travessia, que se iniciou no ventre de uma mãe, e desabrocha no horizonte da eternidade, o céu, e deste modo, somente reconhecendo Deus, reconhecemo-nos, de fato, a nós mesmos, e nossa vida fica plena de sentido e destino. Amém.

 

PS: Fonte – Comentário do Missal Cotidiano sobre a passagem do Livro de Gênesis (Gn 4,32-40) – Editora Paulus – p.1123

O amor é forte como a morte!

                                                              

O amor é forte como a morte!

                            Morte: De quem? Quando? Onde?
                            Morte: O que dizer? Como compreendê-la?

O Bispo Balduíno de Cantuária (séc. XII), em seu Tratado, nos enriquece e nos fortalece sobre o mistério da morte na perscpetiva da fé no Cristo Ressuscitado.

“Forte é o amor, que tem poder para privar-nos do dom da vida. Forte é o amor que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor.

Forte é a morte, poderosa para despojar-nos do revestimento deste corpo. Forte é o amor, poderoso para roubar os despojos da morte e no-los entregar de novo.

Forte é a morte; a ela o homem não pode resistir. Forte é o amor que pode vencê-la, embotar-lhe o aguilhão, travar-lhe o ímpeto, quebrantar-lhe a vitória. Assim será quando for insultada e ouvir: Onde está, ó morte teu aguilhão? Onde está, ó morte, a tua vitória? (cf. Os 13,14 e 1 Cor 15,55).

O amor é forte como a morte (cf. Ct 8,6), porque é a morte da morte o amor de Cristo. Por isto diz: Eu serei tua morte, ó morte; serei tua mordedura, ó inferno (cf. Os 13,14). Também o amor com que amamos a Cristo é forte como a morte, é uma espécie de morte pela extinção da vida antiga, a destruição dos vícios e a rejeição das obras mortas.

Este nosso amor para com Cristo é uma espécie de intercâmbio, embora o Seu amor por nós seja incomparável e o nosso, uma semelhança à Sua imagem.  Pois ele nos amou primeiro (cf 1 Jo 4,10) e pelo exemplo de amor que nos propôs, fez-se para nós um sinete que nos torna conforme à sua imagem; Depusemos a imagem terrena e nos revestimos da celeste; da forma como somos amados, assim amamos. Nisto deixou-nos o exemplo para que sigamos suas pegadas (cf 1 Pd 2,21).

Por isso Ele diz: Põe-Me como um selo sobre teu coração (cf. Ct 8,6). Como se dissesse: “Ama-Me como Eu te amo. Conserva-Me em tua mente e em tua memória; em tua vontade, em teu suspiro; no gemido e no soluço.
Lembra-te homem, de que forma te fiz, quando te pus acima das outras criaturas, com que dignidade te enobreci; como te coroei de glória e de honra; coloquei-te pouco abaixo dos anjos; como tudo submeti aos teus pés. Lembra-te não apenas de quanto fiz por ti, mas quantas crueldades e afrontas por ti suportei. 
Reconhece que ages mal contra Mim quando não Me amas. Quem assim te ama, senão Eu? Quem te criou senão Eu? Quem te remiu senão Eu?

Arranca de mim, Senhor, o coração de pedra. Tira o coração de pedra, tira o coração incircunciso; dá-me um coração novo, coração de carne, coração puro! Tu, purificador dos corações e amante dos corações puros, apossa-Te do meu coração e nele habita, envolvendo-o e enchendo-o. Tu, superior ao que tenho de mais alto, interior ao que tenho de mais íntimo! Tu, forma da beleza e selo da santidade, marca meu coração com Tua imagem. Sela meu coração sob Tua misericórdia. Deus de meu coração e meu quinhão.  Deus para sempre (cf. Sl 72,26). Amém”.

Quando a morte abruptamente invade nossa casa, com a morte de alguém de nossa família, ou mesmo amigos, são arruinados nossos sonhos, desmorona projetos; nossas forças e seguranças são roubadas e nossos afetos feridos.

Morte: Turbulência, virulência, violência, se não contemplada pela fé, demência, carência, falências múltiplas...

Ó Morte! 
Com quem e como vencê-la?

Colocando-se como criatura, em atitude de súplica, diante do Criador. Como criaturas frágeis e limitadas que somos, precisamos acolher silenciosamente os mistérios da vida e da morte, mergulhando com toda a confiança no mistério de Seu amor e redenção.

Diante do mistério da morte uma palavra é indispensável:

Cristo Ressuscitou!
N’Ele a morte da morte.
N’Ele a morte de nossa morte.
N’Ele a possibilidade do rompimento 
da barreira última de nossa história.

Crendo no Ressuscitado e na vida eterna, 
a morte será o início de outra vida 
que não conhecerá epílogo, 
pois o amor é eterno.
N’Ele e com Ele, 
nos tornamos eternos.

Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé, Te suplico!

(1) Liturgia das Horas - Volume IV Tempo Comum - pág. 59-60

Imitar Jesus na vida e na morte

                                                                  


Imitar Jesus na vida e na morte

Sejamos enriquecidos pelo Tratado sobre a Encarnação do Senhor, escrito pelo Bispo Teodoreto de Ciro (séc. V).

“Com liberdade, vai Jesus ao encontro dos sofrimentos preditos a Seu respeito. Por várias vezes os prenunciou aos discípulos, tendo mesmo repreendido a Pedro que repelia o anúncio da Paixão, e declarou que por eles se daria a salvação do mundo.

Por isso apresentou-Se aos que vinham buscá-Lo, dizendo: Sou Eu a quem procurais (cf. Jo 18,5). Acusado, não respondeu. Podendo esconder-Se, não o quis, embora por mais de uma vez Se tenha furtado às ciladas dos perseguidores.

Chora sobre Jerusalém que pela incredulidade atraía para si a ruína e prediz a suprema destruição do templo outrora famoso.

Com toda a paciência suporta ser batido na cabeça por homem duplamente escravo. Esbofeteado, cuspido, injuriado, atormentado, flagelado e por fim crucificado e dado por companheiro de suplícios a dois ladrões, contado entre os homicidas e celerados.

Bebe o vinagre e o fel produzidos pela má videira, coroado de espinhos em lugar de louros e cachos de uva. Escarnecido com a púrpura, batido com a cana, ferido o lado pela lança e enfim levado ao sepulcro.

Tudo isto sofreu enquanto operava nossa salvação. Pois àqueles que se haviam escravizado ao pecado eram devidos os castigos do pecado. Ele, isento de todo pecado, tendo cumprido toda a justiça, suportou a pena dos pecadores, destruindo por Sua Cruz o antigo decreto de maldição.

Cristo, assim diz Paulo, nos remiu da maldição da lei, feito maldição por nós; por que está escrito: Maldito todo aquele que pende do lenho (Gl 3,13; cf. Dt 21,23). Com a coroa de espinhos põe fim ao castigo de Adão. Pois, após o pecado, este ouvira: Maldita a terra em teus trabalhos; germinarão para ti espinhos e abrolhos (cf. Gn 3,17-18).

Com o fel bebeu a amargura e a dor da vida humana passível e mortal. Pelo vinagre assumiu em Si a mudança do ser humano para o pior e concedeu a volta ao melhor. A púrpura significava o reino; a cana, o frágil poder do diabo. A bofetada publicava nossa liberdade, tolerando as injúrias, flagelos e chagas a nós devidas.

O lado aberto, à semelhança de Adão, deixa sair não a mulher que, por seu erro, gerou a morte, mas a fonte de vida que com dupla torrente vivifica o mundo. Uma, no Batistério, nos renova e cobre com a veste imortal; outra, à Mesa Divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos”.

Refletimos sobre a ação redentora de Jesus, que curou nossos tormentos, e contemplamos o imenso amor de Deus por nós.

Ressoando a Carta de Paulo aos Efésios (Ef 4,30-5,2) somos convidados a sermos imitadores de Deus.

Imitá-Lo na vida e na morte para sermos merecedores da vida eterna. Carregando nossa cruz, com renúncias e coragem. renascidos com a Água que jorrou do Seu coração, sejamos também alimentados do mesmo lugar, com a vitalidade do Pão e Sangue Eucarísticos – remédio de imortalidade, antídoto para não morrermos.

Concluindo, somos remetidos às palavras de Santo Tomás de Aquino, séculos mais tarde:

“De fato, nenhum outro Sacramento é mais salutar do que este; nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais”.

A chama profética não pode ser apagada

                           

A chama profética não pode ser apagada

Ser Profeta é ler a História com os olhos
iluminados pelo Espírito que vem do alto.

Assim foram e são os Profetas que se colocaram e se colocam numa caminhada de fé, tornando fecundo o tempo do silêncio, da escuta e fecundação da Palavra.

De modo especial nos atemos à vocação profética de Ezequiel (=Deus fortaleça) que foi Sacerdote e, ao mesmo tempo Profeta.

Escreve durante o período difícil e dramático do exílio na Babilônia, que iniciou em 597 a.C. e sua mensagem ultrapassa o seu tempo iluminando a nossa própria História.

É interessante a passagem (Ez 2,8-3,4) - “Pela primeira vez num texto profético, Deus não entrega à Sua Palavra apenas oralmente, mas oferece um livro que Ezequiel deverá transformar na sua própria linfa vital. A missão profética não é só uma profissão, mas toca a íntima existência do eleito” (LC 108).

O rolo estava escrito no verso, e no reverso as “lamentações, gemidos e prantos” acenando para a difícil missão do Profeta. Abundância da Palavra divina (verso e reverso), mas de conteúdo intenso e que vai comprometer a vida daquele que Deus chamou, pois vocação profética é dom divino e resposta humana. Ninguém é Profeta pelo seu próprio querer.

A Palavra é a linfa vital de nossa vida. Sem ela sucumbimos à mesmice, à mediocridade, e nos exilamos de nós mesmos, como numa fuga de compromissos inauguradores de novos tempos.

Assimilar a Palavra, ruminá-la, assimilá-la a tal ponto que esteja impressa nas entranhas do coração, para que a boca fale do que o coração esteja pleno.

É a Palavra de Deus a linfa vital de que tanto precisamos, para que a chama profética jamais se apague em nós.

A Palavra anunciada, vivida, testemunhada, no silêncio e na Oração, no ardor permanente da missão que comunicará luz ao mundo.

É preciso vigilância para que não se apague a chama profética, a luz de que a obscuridade do mundo tanto precisa. A realidade na qual somos inseridos, a História da humanidade precisa de luminares proféticos que a conduza para horizontes nunca vistos, nunca vividos, como utopia, ou ainda mais, como o horizonte do Reino de Deus, pelo qual nos enamoramos para sempre, na fidelidade ao Senhor, com a força e a vida do Espírito.

Com a linfa vital da Palavra do Pai, com o Sopro do Espírito, seduzidos e fascinados por Cristo, seremos a presença de Ezequiel em nosso tempo.

Que as lamentações, gemidos e prantos não nos acomodem, nem nos façam recuar na fidelidade do carregar da cruz.

Transformar esta dura realidade num contexto de mudança de época, é imperativo necessário em nossa vida, inspirados numa passagem do Livro do Apocalipse:

“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis."
(Ap 21,1.4-5).

Pai Nosso que estais nos céus...

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG