domingo, 15 de fevereiro de 2026

“Livrai-nos do mal” (VIIIDTCC)

                                                                 

“Livrai-nos do mal”

Quando rezamos no Pai Nosso, o que suplicamos ao Senhor que nos livre?

A passagem do Evangelho (Lc 6, 39-45) proclamada no oitavo Domingo do Tempo Comum (ano C)   nos adverte para um mal que rouba a luminosidade de nossa fé, porque rouba a coerência, a transparência e, consequentemente, leva à perda da força do testemunho da Palavra que Senhor nos comunica, leva-nos à hipocrisia.

Suplicamos que nos liberte do fermento da hipocrisia, e que o Senhor nos dê o ázimo da sinceridade e da verdade, e tão somente assim nos tornaremos mais transparentes nas intenções e na pureza do coração, condição indispensável para que um dia a Deus vejamos, pois somente os puros de coração verão a Deus (Mt 5,  8).

De que hipocrisia haveremos de ser libertos?
O que ela é de fato?

Ela consiste em toda tentativa inútil de ludibriar a Deus, porque a Deus ninguém engana. Podemos enganar os outros e a nós mesmos, o que seria o ápice da hipocrisia.

Manifesta-se quando há falsidade do coração, quando professamos com os lábios verdades que não cremos; sentimentos que procuramos expressar, mas não brotam com naturalidade, pureza e autenticidade, porque não vêm das entranhas do coração.

Também quando supomos agradar a Deus com as aparências, com longas Orações, sacrifícios com segundas intenções, beirando à simulação, como que se Deus não conhecesse o mais profundo de nós, como tão bem expressou o Salmista (Sl 138), e acreditamos que Ele veria bondade, onde tão apenas existe uma superficialidade de relacionamento, sem verdadeira entrega a Ele de todo nosso ser, de toda a nossa vida.

Hipocrisia que pode ser sinônimo de astúcia, esperteza, duplicidade, mas nos faz tão apenas falsários, com a estéril tentativa de pagar a Deus com moeda falsa, reduzindo nossa honra ao Senhor com os lábios, mas o coração longe d’Ele se encontrando (Mt 5,  8).

“Livrai-nos do mal, Senhor”

Quantas vezes o repetimos, quantas vezes ainda repetiremos, para que libertos do mal da hipocrisia, fazendo ressoar em nosso coração as palavras do Senhor, alertando-nos que um cego não pode guiar outro cego; é zelo errado e sem sentido querer tirar o cisco do olho do irmão quando se tem uma trave no próprio olho, para que sejamos uma árvore boa, para bons frutos produzir.

Que as palavras e obras de fé, esperança e caridade nos acompanhem cada dia, por isto “Livra-nos, Senhor, do mal” da hipocrisia e de qualquer outro sentimento que não seja conforme Vossos pensamentos, palavras e sentimentos. 

Que saibamos gerar e formar Cristo em nós e nos outros.
 “Livrai-nos do mal, Senhor” Amém.

Peregrinemos vigilantes e orantes (VIIDTCC)


Peregrinemos vigilantes e orantes

Oremos:

Senhor Jesus, ajudai-nos a fazer progressos maiores na coerência entre o que pregamos e o que vivemos, tendo de Vós, mesmos pensamentos e sentimentos, perfeitamente a Vós configurados, renunciando a tudo que for preciso, carregando, cotidianamente, nossa cruz, com incondicional fidelidade.

Senhor Jesus, dai-nos mansidão de coração, para que o nosso seja como o Vosso, compreendendo os limites e fragilidades de nosso próximo, conscientes de que temos sempre uma trave a tirar de nossos olhos, e somente depois, tirarmos o cisco no olho de nossos irmãos.

Senhor Jesus, conduzi-nos no caminho da prudência necessária, para que possamos corresponder ao Vosso amor, numa fé viva que age pela caridade, multiplicando gestos de bondade, ternura, a fim de reacender a esperança no coração de todos com os quais convivemos.

Senhor Jesus, acolhendo e meditando Vossa Palavra, concedei-nos a sabedoria do Vosso Espírito, para que sejamos fieis ao plano de Vosso Pai, compreendendo e amando nossos irmãos, a fim de que não sejamos deles juízes; e tão pouco, cultivemos atitudes de presunção e maldade no coração. Amém.


PS: Inspirado no Evangelho de São Marcos (Mc 6,39-45) 

Os degraus que nos levam ao cume da virtude (VIIDTCA)

 


Os degraus que nos levam ao cume da virtude
 
Na passagem do Evangelho do 7º Domingo do Tempo Comum (ano A), Jesus nos exorta amar os inimigos (Mt 5,38-48).
 
Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Doutor São João Crisóstomo (séc. V), retomando parte deste:
 
“'Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás o teu inimigo. Porém eu vos digo: amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz se levantar o sol sobre bons e maus e faz chover sobre os justos e injustos’ (Cf Mt 5,43-45).
 
Observa como colocou a conclusão de todos os bens. Por isso ensinou a ter paciência com aqueles que nos esbofeteiam e até mesmo a apresentar-lhes a outra face; e não apenas juntar o manto à túnica, mas a caminhar por duas milhas mais com quem nos requisitou para uma, para que em seguida aceitasses com maior facilidade o que era superior a estes preceitos; ou seja, que quem cumprir tudo isso não tenha inimigos. Pois bem: existe algo ainda mais perfeito, porque Ele não diz: Não odeies, mas ama. Não disse: não prejudique, mas sim favoreça. Se alguém examina cuidadosamente, encontrará um acréscimo muito maior que este. Porque agora não só manda amá-los, mas a também rogar por eles.
 
Observas a que degraus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude? Quero que o medites, enumerando-os desde o princípio: o primeiro grau é não injuriar; o segundo, quando injuriados, não nos vingarmos; o terceiro, não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão; o quarto, oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias; o quinto, oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige; o sexto, não odiar a quem nos faz semelhante injustiça; o sétimo, inclusive amá-lo; o oitavo, ainda favorecê-lo. Finalmente, o nono: rogar a Deus por ele. [...]” (1).
 
Ele nos fala dos degraus que Jesus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude:
 
1º - Não injuriar;
2º - Quando injuriados, não nos vingarmos;
3º - Não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão;
4º - Oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias;
5º - Oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige;
6º - Não odiar a quem nos faz semelhante injustiça;
7º - inclusive é preciso amá-lo;
8º - Ainda mais: favorecê-lo;
9º - Rogar a Deus por ele.
 
Assim vivamos na planície do cotidiano, marcado, por vezes, pelas complexas relações com o próximo.
 
Deste modo, viveremos as Bem-Aventuranças, que Nosso Senhor Jesus Cristo nos apresentou, no alto da Montanha (Mt 5,1-12), e tão somente assim, luz do mundo e sal da terra seremos (Mt 5,13-16).
 
Subamos estes degraus para chegarmos ao cume da virtude, a fim de que vivamos o Mandamento Novo do Amor que nos deu nosso Senhor (Jo 13,34), e que viveu plenamente:  um amor com dimensão universal, sem limites, e que nos permite chegar ao cume da virtude.
 
 
(1) Lecionário Dominical Patrístico - Editora Vozes – 2013 - pp. 140-141

Libertos pelo Senhor para amar e servir (VIDTCB)

                                                      


Libertos pelo Senhor para amar e servir
“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse:
 “Eu quero: fica curado!”. No mesmo instante 
a lepra desapareceu e ele ficou curado.”
(Mc 1, 41-42)

Com Liturgia do 6º Domingo do Tempo Comum (ano B), vemos a ação de Deus, que Se revela pleno de Amor, bondade e ternura, através de Sua ação que acolhe, cura, liberta e integra a todos na vida da comunidade.

A vontade de Deus é que se supere toda forma de discriminação e marginalização, e a comunidade deve empenhar-se, com sabedoria e coragem, para que isto se torne uma realidade.

A passagem da primeira Leitura (Lv 13, 1-2.44-46) nos apresenta “a lei da pureza”, e uma visão deturpada de Deus que leva à invenção de mecanismos que discriminam, rejeitam e excluem em nome de Deus, numa total marginalização.

Dentre as impurezas, a lepra era considerada a mais grave, de modo que quem por ela fosse acometido, deveria ser segregado e afastado da convivência diária com outras pessoas, e tal medida tinha uma intenção higiênica e também para evitar o contágio.

Mais grave ainda, era considerado um pecador, amaldiçoado por Deus e indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido nas assembleias em que Israel celebrava o culto na presença do Deus Santo.

Na passagem da segunda Leitura (1Cor 10,31-11,1), o Apóstolo Paulo, na fidelidade ao Senhor, nos apresenta Jesus Cristo, modelo de obediência, doação, Amor  e serviço em favor da libertação de todos, e o cristão deve o mesmo fazer.

Com o Apóstolo, aprendemos que o cristão é livre em tudo aquilo que não atenta contra a sua fé e contra os valores do Evangelho, mas pode prescindir de direitos para um bem maior, que é o amor aos irmãos.

A Lei do Amor se sobrepõe a tudo, inclusive aos direitos de cada um, e assim não nos tornamos obstáculo nem para a glória de Deus, nem para a salvação de nossos irmãos.

Ao amor tudo deve ser subordinado, fazendo de nossa própria vida um dom, uma oferenda agradável a Deus.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,40-45) ao curar o leproso, Jesus inaugura um novo modo de relacionamento, destruindo o triste mecanismo de marginalização que exclui estes do convívio social e da própria comunidade.

Jesus, com palavras e ação, cura e integra a todos na comunidade do Reino, sem jamais compactuar com a discriminação, exclusão, racismo ou qualquer outra forma de marginalização.

Sua ação é expressão de um Deus cheio de Amor que vem ao encontro de nossa humanidade, de nossa condição pecadora e enferma, para nos curar e nos redimir. Jesus toma para Si nossas dores e sofrimentos.

Também revela, com Sua ação, que o Reino de Deus chegou, completou-se o tempo esperado, são tempos novos inaugurados pela presença e ação de Jesus: a cura do leproso revela o Amor de Deus que cura, liberta, integra e impulsiona para o testemunho.

O leproso curado começou a pregar e a divulgar sobre o acontecido, a sua cura. Com isto, o Evangelista sugere que aquele que experimentou o poder integrador e salvador de Jesus se converte, necessariamente, em profeta e testemunha do amor e bondade divina: um discípulo missionário do Reino.

Oportunas as palavras da Igreja, para refletirmos sobre a íntima união da Igreja com toda a família humana:

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. 

Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”. (1)

Reflitamos:

- Quais são as enfermidades que ainda hoje levam à exclusão e à marginalização?
- Até que ponto nossa ação também acolhe, liberta e integra na comunidade e na sociedade?

- De que modo os marginalizados e excluídos se abrem para a acolhida e integração na comunidade e na sociedade?
- Como vivemos a fidelidade ao Senhor, tendo d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos?

- Como expressamos em nossa vida o amor, a ternura e a bondade de Deus para com o nosso próximo?

- Sabemos renunciar a direitos pessoais por bem maiores em favor de outros?

Como Igreja missionária, na fidelidade ao Senhor, também saibamos acolher, perdoar, integrar a todos na vida da comunidade e, com alegria, participar da construção do Reino.

Acolhidos, amados e curados para acolher, amar e curar num círculo que não pode se fechar, interromper.



(1) Constituição Pastoral Gaudium Et Spes  sobre a Igreja no mundo atual  (n.1).

Bem-Aventuranças vividas, mundo transformado (VIDTCC)

                                                             

Bem-Aventuranças vividas, mundo transformado


No 6º domingo do Tempo Comum (ano C), ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,17.20-26), em que Jesus nos apresenta o Sermão da Planície que, se vivido é o único e autêntico caminho para a felicidade que tanto desejamos e buscamos.

Vemos em Sua proposta, um programa de felicidade: Paradoxal caminho da felicidade, porque tão diferente da felicidade que o mundo oferece, porque as Bem-aventuranças vividas, inevitavelmente, a cruz cotidiana deve ser assumida e carregada, com suas necessárias renúncias, para maior liberdade e fidelidade no seguimento ao Senhor.

Importa acolhê-lo, quer na montanha (Mt 5,1-12), ou mesmo na planície (Evangelho de Lucas).

É fundamental que vivamos este Projeto na planície de nosso cotidiano. Não podemos ficar para sempre na montanha, ainda que nos seja tentador (Pedro que o diga).

Enquanto o mundo novo não irrompe nas relações entre nós, os “ais” de Jesus ecoam no mais profundo de nosso coração, bem como o convite à vivência das Bem-aventuranças.

Quando os “ais” de Jesus são acolhidos, rompe-se e supera-se todo egoísmo, prepotência, injustiça, exploração, ilusões, dolorosas frustrações, porque não confiaremos demais nas pessoas (prescindindo de Deus), tão pouco em nós (em execrável autossuficiência), nem confiaremos nas coisas em si, nos bens que passam...

Quando as Bem-Aventuranças são encarnadas, inauguram-se relações de partilha, solidariedade, comunhão e amor, humildade, gratuidade, doação... Ganham vigor as relações fraternas.

Celebrando a Eucaristia, experimentamos a força do Ressuscitado, subimos a montanha Sagrada, onde Deus Se revela e nos envolve com Seu sopro e rompemos com o velho mundo e sua enganadora proposta de felicidade.

Precisamos subir sempre a Montanha Sagrada e respirar o ar de Deus que nos refaz de nossos cansaços, fortalece-nos para suportar sofrimentos, superando quaisquer sinais de marginalização, para que o Reino de Deus aconteça.

Ainda que alcançado por caminhos tão diferentes daquele que a humanidade teima em propor... A felicidade divina é alcançada não por quem tem todos os tesouros da terra, mas por quem fizer de Deus seu grande e belo tesouro.

Nossas comunidades precisam encarnar o Projeto das Bem-aventuranças! Elas são caminhos para se viver com absoluta confiança em Deus e chegar até Ele, alcançando o desejo mais profundo d’Ele para nós, e que desde a concepção desejamos: A felicidade! Para a felicidade que Deus nos criou! É este o genuíno e irremovível Projeto de Deus para nós!

A fé na Ressurreição faz-nos comprometidos com o Projeto das Bem-Aventuranças, alcançando a felicidade desde já, para desabrochar plenamente na madrugada de nossa Páscoa.

A felicidade está ao nosso alcance, mas saibamos o caminho único para alcançá-la: o caminho da Bem-Aventuranças.

Este caminho passa pela cruz, nem sempre pela humanidade, entendido. Por quem recebeu o Batismo, nem sempre bem assumido. Caminho da cruz, aparente sinal de fracasso e desilusão, mas para aquele que crê, certeza de vitória, alegria transbordante no coração. 

Sejamos pobres em espírito, porque a eles pertence o Reino dos Céus, disse o Senhor.

A prática das Bem-Aventuranças na construção do Reino (VIDTCC)

                                                   

A prática das Bem-Aventuranças na construção do Reino

No 6º Domingo do Tempo comum (ano C), a Liturgia nos convida a refletir sobre o caminho para o alcance da verdadeira felicidade.

Na passagem da primeira Leitura (Jr 17,5-8), o Profeta Jeremias nos alerta que viver prescindindo de Deus é percorrer um caminho de morte, renunciando à felicidade e à vida plena.

É preciso vencer toda atitude de autossuficiência e egoísmo, tendo em Deus total confiança e esperança, pois “Prescindir de Deus e não contar com Ele significa construir uma existência limitada, efêmera, raquítica, a que falta o essencial, como um arbusto plantado no deserto, condenado precocemente à morte” (1).

Reflitamos:

- Quais são as referências fundamentais para a construção de nossa vida?
- Onde estão a nossa segurança e esperança?
- De que modo vivemos nossa fidelidade a Deus?

Com a passagem da segunda Leitura (1 Cor 15,12.16-20), continuamos a refletir sobre o Mistério da Ressurreição, que é o fundamento de todo o nosso existir e de nossa fé, e a garantia de nossa própria Ressurreição.

O Apóstolo Paulo afirma que é feliz quem deposita a sua esperança no Cristo Ressuscitado: “A fé em Cristo Ressuscitado desemboca inexoravelmente na inquebrantável esperança de que também os cristãos ressuscitarão. O inverso também é verdadeiro: não esperar a ressurreição dos mortos equivale a não acreditar na ressurreição de Cristo. Não é possível desvincular uma coisa da outra” (2).

Reflitamos:

- Cremos na Ressurreição de Jesus e, por meio dela, a nossa?
- De que modo testemunhamos a fé na Ressurreição do Senhor?

Com a passagem do Evangelho (Lc 6,17.20-26), Jesus nos apresenta o “Sermão da planície”, de modo que a felicidade é alcançada por quem constrói a sua vida à luz dos valores sagrados com simplicidade e humildade, vencendo todo egoísmo, orgulho e autossuficiência, em total compromisso com os empobrecidos.

Deste modo compreendamos as Bem-Aventuranças não como lei, mas Evangelho, uma Boa-Nova que nos orienta e nos conduz para a construção do Reino de Deus.

Os pobres são, por sua vez, “os desprotegidos, os explorados, os pequenos e sem voz, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade pela arbitrariedade dos poderosos” (3).

A Salvação de Deus dirige-se, prioritariamente, a estes pois na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, estão mais abertos para a acolhida da proposta que Deus tem a oferecer por meio de Jesus Cristo:

Jesus louva os pobres que vivem ao mesmo tempo em dois mundos, o presente e o escatológico; ameaça os ricos que vivem em um só mundo, o mundo que escraviza quase inevitavelmente aquele que leva uma vida cômoda. O rico já está satisfeito com o que possui, que não entra no mais íntimo do próprio ser. O pobre, entretanto, só possui a solidão, mas a vive com uma coragem que o leva ao íntimo do seu ser, onde é percebido um mundo novo” (4).

De um lado, as Bem-Aventuranças manifestam que Jesus é enviado pelo Pai ao mundo para a libertação dos oprimidos; de outro, as “maldições”, que são os quatro “ais” de Jesus, “denunciam a lógica dos opressores, dos instalados, dos poderosos, dos que pisam os outros, dos que têm o coração cheio de orgulho e autossuficiência e não estão disponíveis para acolher a novidade revolucionária do ‘Reino'’” (5).

O Sermão, portanto, nos inquieta e nos questiona, porque nos convida a uma mudança, a um regresso a Deus e fazer progressos maiores ainda na prática do Mandamento do Amor a Ele e ao próximo; amor oblativo, amor que é sair de si mesmo e ir de encontro, sobretudo, dos que mais precisam:

“Em uma civilização de consumo, em que o dinheiro é o ídolo ao qual se sacrificam o homem e todos os outros valores, em um mundo superindustrializado e superseguro, em que não há mais lugar para a liberdade autêntica, só ‘o homem das bem-aventuranças', o homem livre das coisas, pode fazer redescobrir a verdadeira face do homem” (6).

Reflitamos:

- De que modo o “Sermão da planície” nos questiona?
- Como vivemos as Bem-Aventuranças?
- Quais “ais” de Jesus, precisamos acolher em atitude de conversão?

Na Celebração Eucarística que participamos, subimos à Montanha Sagrada, onde Deus Se revela e nos envolve com Seu sopro. Respirando o ar de Deus, e refeitos de nossos cansaços, sofrimentos, marginalização, é-nos apresentada a proposta, o programa de Jesus a ser vivido na planície de nossas vidas.

Celebrar a Eucaristia é experimentar a força do Ressuscitado e romper com o velho mundo dos “ais”, e inaugurar o novo mundo das Bem-Aventuranças; rompendo todo egoísmo, prepotência, injustiça, exploração, um mundo sem Deus, logo, um mundo sem amor.

As Bem-Aventuranças são encarnadas quando vivemos com humildade, multiplicando gestos de partilha, solidariedade, comunhão e amor que inauguram relações mais fraternas.

Elas são caminhos para se viver com Deus e chegar até Deus, pois Ele nos criou para a felicidade, e esta somente com Ele, pois “o próprio Deus colocou no coração do homem um desejo íntimo de felicidade” (7).

(1)         (3) (5) - www.dehonianos.org
(2)        (4) (6) Missal Dominical – Editora Paulus – p. 1117
(7) Catecismo da Igreja Católica - n. 1718

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O amor cristão

                                                               

O amor cristão

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração,
de toda tua alma, de todo teu entendimento,
e com toda a tua força. O segundo é este:
 Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
 Não existe outro Mandamento
maior do que este”
(Mc 12,30-31)

O amor cristão tem endereço, destino.
Ora aponta para o sentido vertical,
Ora desafiadoramente para o horizontal,
Ambos de forma total e incondicional.

O amor cristão tem dupla dimensão:
A Deus que não se vê e ao próximo que se vê.
Ama-se a Deus em cada próximo,
Ama-se o próximo em Deus.

O amor cristão tem um brilho próprio
Que irradia luz nas situações mais obscuras,
Porque procede da Divina Fonte de Luz,
Que é Aquele que tanto amamos: Jesus.

O amor cristão ressoa sempre como Boa Nova,
Para criar e recriar relacionamentos
Na mais bela e madura expressão:
A graça de dar e receber o perdão.

O amor cristão é o fermento indispensável
De um mundo novo que deve ser anunciado;
De relações justas e fraternas a serem restabelecidas,
Tornando a vida mais plena e mais bela.

O amor cristão tem um referencial
Que nos ama com amor imensurável:
A medida sem medida do Amor de Deus,
Que máxima expressão na Cruz aconteceu.

Amar como o Apóstolo Paulo cantou,
Infinitamente superior a quaisquer outros dons,
Porque o amor jamais passará,
Que dá novo sentido ao que somos e fazemos.

O amor cristão tem endereço, destino.
Volto à primeira de todas as afirmações sobre o amor cristão:
Urge endereçar nosso amor, concretizá-lo,
Para que nos credenciemos à eternidade.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG