Naum: “Ai de ti, cidade sanguinária”
Na sexta-feira da 18ª
Semana do Tempo Comum (ano par), ouvimos a passagem do Livro de Naum (Na 2,1.3;
3,1-3;6-7).
O Livro de Naum é caso
único entre todos os escritos proféticos do Antigo Testamento.
Composto por três
capítulos, são poemas exultantes de militarismo e vingança acerca da queda da
capital do grande império assírio, Nínive:
“O canto triunfal pela
queda de Nínive é um hino de louvor à justiça de Deus exercida sobre todos os
povos.” (1)
Sempre bom lembrar que o
império assírio foi um dos mais despóticos e sanguinários, em que a lei da
espada e da destruição foram princípios militares básicos.
Nele, não encontramos:
- Características
próprias do gênero literário profético, como sejam oráculos condenatórios e
salvíficos;
- Chamamento ao
arrependimento, à conversão;
- Anúncio de castigo,
nenhuma condenação.
No entanto, os poemas de
Naum são “a expressão poética e litúrgica dos sentimentos de ódio e sádica
vingança com os quais uma vítima contempla a morte do seu assassino”. (2)
Quanto ao profeta Naum, “...apenas
sabemos que nasceu em Elcós, que foi um extraordinário poeta e que ninguém o
igualou, em todo o Antigo Testamento, quando se tratou de evocar liricamente o
assalto e a queda de uma grande cidade.” (3)
Não podemos ficar na
leitura superficial do livro, e chegar à conclusão que nada oferece de
importante:
“Parece um escrito
espiritualmente vazio, repleto de rancores nacionalistas... Naum é um profeta
de verdade, e no seu desabafo nacionalista, é manifesta a fé em Deus como
senhor da história e dos povos.” (4)
Pelos adjetivos, imagens
e sentimentos provocados, o alucinante vigor da sua técnica e realismo das suas
invocações, sua obra parece um “quadro impressionista”.
Deste modo, podemos
afirmar que Naum foi um “Poeta vigoroso, concreto me conciso, profeta que
tinha o culto da verdade, judeu de corpo inteiro, tanto nos seus sentimentos
como na sua teologia, passou pelo Novo Testamento sem se dar conta dele. Apesar
de seu escrito poder ser considerado como o cumprimento adiantado do dito do
Senhor: ‘Todos quantos se servirem da espada morrerão à espada’ (Mt
26,52). (5).
De fato, Deus conduz a
história e é contrário à violência e à opressão.
Iluminador o Comentário
do Missal Cotidiano:
“Para os oprimidos Deus
é a grande esperança de libertação; porém sua libertação atinge o íntimo do
homem, livra-o do desejo da violência e leva-o a viver em paz, a fazer da vida
uma festa, a suprimir a maldade. Utopia, dizem. Guerras, violências, rapinas...
são a realidade cotidiana. Isto porque os homens menosprezam a Deus quando,
memo querendo o bem, não têm força para fazê-lo e recaem no mal. Quando às
alianças humanas anteporemos uma sincera e eficiente aliança com Deus?” (6)
Com o Profeta Poeta
Naum, temos a expressiva mensagem de que
todos os poderes passam e jamais podem ocupar o lugar de Deus e que, tão
somente a Ele pertencem toda a honra, glória, poder e louvor.
De fato, sua
misericórdia, bondade, proteção estará sempre conosco. Renovemos nossa
confiança e esperança em Deus, por mais adversas as situações que possamos
passar.
Concluo
citando Santa Teresa D’Avila e Santa Teresa dos Andes, respectivamente, que
inspiraram o título desta reflexão:
“Nada te perturbe, nada te espante,
tudo passa,
Deus não muda, a paciência tudo alcança; quem a Deus tem nada lhe falta: só
Deus basta.”
“Só Deus nos basta para sermos felizes. Apalpo a
cada instante o que é ser toda de Deus e parece-me que, se agora me fosse
necessário passar pelo fogo para consagrar-me a Ele, não titubearia em fazê-lo,
pois todos os sacrifícios desaparecem diante da felicidade de possuir a Deus
só”.
(1) Comentários à Bíblia Litúrgica – Gráfica Coimbra – Palheira –
p.736
(2)Idem - p.
735
(3)Idem - p.
735
(4)Idem - p.
736
(5)Idem – p.
736
(6)Comentário
Missal Cotidiano – Editora Paulus – p. 1124


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