sábado, 12 de setembro de 2026

Eternos aprendizes do perdão (XXIVDTCA)

                                                         

Eternos aprendizes do perdão

Na Liturgia da quinta-feira da 19ª Semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 18,21-19-1), que nos fala sobre a prática do perdão, que devemos viver nos relacionamentos fraternos, dentro e fora da Comunidade.

Retomemos o que nos diz o Apóstolo Paulo sobre a vivência da caridade, como pleno cumprimento da Lei: “Não devais nada a ninguém. A não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei.” (Rm 13,8).

De fato, há uma dívida que todos somos mais ou menos insolventes: a dívida do amor recíproco:

“Deveríamos preocupar-nos verdadeiramente com isto. Por isto sentimos que é para nós a exortação de Paulo, que apela a que vivamos o ‘amor mútuo’. Amar é entregar-se totalmente a um outro, é passar da lógica consumista do ‘tu és meu’, para a oblativa do ‘eu sou para ti’: uma experiência a que não é possível colocar limites” (1)

Mas para viver este amor a um outro (próximo) é preciso sentir-se amado por Deus, o totalmente Outro, que nos ama e quer que o mesmo façamos:  “Dou-vos um Mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13,34).

Sentir-se amado por Deus leva-nos ao empenho de correspondência ao Seu amor, e isto se dá concretamente na restituição do amor na caridade fraterna, corrigindo e permitindo que sejamos corrigidos, sem marcas de presunção, rivalidade ou despeito.

Vejamos o que nos diz o Lecionário Comentado:

“Não podemos estar em relação com a infinita riqueza de Deus se não estivermos em relação com a pobreza do irmão” (2)

Somos encorajados a viver como reconciliados; empenhados na busca da paz, ajudando-nos e deixando-nos ajudar, de modo a criar vínculos mais sólidos e fraternos na comunidade em que participamos:

“Preocupemo-nos em deixar este mundo depois de termos desatado ou ajudado a desatar todos os vínculos, então as portas do Céu abri-se-ão para nós (Mt 18,18)” (3).

Oportunas são as palavras do Bispo Santo Agostinho (séc. IV), que aplicou exatamente à correção fraterna as palavras do Apóstolo Paulo sobre a caridade: 

“Ama e faze o que queres. Seja que cales, cala por amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja que perdoes, perdoa o amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.

Sendo assim, que Deus nos conceda coração e espírito novos, para nos tornarmos mais sensíveis ao nosso próximo, no pleno cumprimento da Lei, o Mandamento do Amor, que consiste no compêndio de toda a Lei.

Supliquemos a Ele, para que jamais desistamos deste aprendizado, desta difícil e revitalizante expressão de amor, que sabe corrigir sem desencorajar e lutar sem ofender.

De fato, na escola do Divino Mestre do Amor, somos todos eternos aprendizes. Há muito que aprender, sem cansaços, recuos e desistências.

Somente deste modo, não veremos o perdão como a fraqueza de quem não sabe fazer valer as suas razões, mas como a novidade que rompe as cadeias, que tornam a pessoa amarrada a si mesma (4).

  
(1)  Lecionário Comentado - Editora Paulus - p.281.
(2)  Idem – p. 157
(3)  Idem - p.284.
(4)  Idem – p. 158

Em poucas palavras... (XXIVDTCA)

                                                                  


Eucaristia e Penitência

“Eucaristia e Penitência. A conversão e a penitência cotidianas têm a sua fonte e alimento na Eucaristia: porque na Eucaristia torna-se presente o sacrifício de Cristo, que nos reconciliou com Deus: pela Eucaristia nutrem-se e fortificam-se os que vivem a vida de Cristo: «ela é o antídoto que nos livra das faltas cotidianas e nos preserva dos pecados mortais» (Concílio de Trento).” (1)

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo  1436

Em poucas palavras...(XXIVDTCA)

                                             


O amor de Deus é eterno

“O amor de Deus é «eterno» (Is 54, 8): «Ainda que as montanhas se desloquem e vacilem as colinas, o meu amor não te abandonará» (Is 54, 10). «Amei-te com amor eterno: por isso, guardei o meu favor para contigo» (Jr 31, 3).”

 

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 220

Rezando com os Salmos - Salmo 102 (103) (XXIVDTCA)

                               



Contemplemos a bondade divina

“–1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor,
e todo o meu ser, Seu santo nome!
–2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor,
não te esqueças de nenhum de seus favores!

 –3 Pois Ele te perdoa toda culpa,
e cura toda a tua enfermidade;
–4 da sepultura Ele salva a tua vida
e te cerca de carinho e compaixão;
–5 de bens ele sacia tua vida,
e te tornas sempre jovem como a águia!

 –6 O Senhor realiza obras de justiça
e garante o direito aos oprimidos;
–7 revelou os Seus caminhos a Moisés,
e aos filhos de Israel, Seus grandes feitos.

–8 O Senhor é indulgente, é favorável,
é paciente, é bondoso e compassivo.
–9 Não fica sempre repetindo as Suas queixas,
nem guarda eternamente o Seu rancor.
–10 Não nos trata como exigem nossas faltas,
nem nos pune em proporção às nossas culpas.

 –11 Quanto os céus por sobre a terra se elevam,
tanto é grande o seu amor aos que o temem;
–12 quanto dista o nascente do poente,
tanto afasta para longe nossos crimes.
–13 Como um pai se compadece de seus filhos,
o Senhor tem compaixão dos que o temem.

 –14 Porque sabe de que barro somos feitos,
e se lembra que apenas somos pó.
–15 Os dias do homem se parecem com a erva,
ela floresce como a flor dos verdes campos;
–16 mas apenas sopra o vento ela se esvai,
já nem sabemos onde era o seu lugar.

–17 Mas o amor do Senhor Deus por quem o teme
é de sempre e perdura para sempre;
– e também Sua justiça se estende
por gerações até os filhos de seus filhos,
–18 aos que guardam fielmente Sua Aliança
e se lembram de cumprir os Seus preceitos.

 –19 O Senhor pôs o seu trono lá nos céus,
e abrange o mundo inteiro Seu reinado.
=20 Bendizei ao Senhor Deus, Seus anjos todos,
valorosos que cumpris as suas ordens,
sempre prontos para ouvir a sua voz!

 –21 Bendizei ao Senhor Deus, os Seus poderes,
Seus ministros, que fazeis Sua vontade!
=22 Bendizei-O, obras todas do Senhor
em toda parte onde se estende o Seu reinado!
Bendize, ó minha alma, ao Senhor!”

O Salmo 102(103) é um hino de louvor à bondade e misericórdia divinas:

“A misericórdia divina age em nossa vida e na história. Deus nos preserva de muitos males, nos enche de benefícios e com clemência nos perdoa.” (1)

Glorifiquemos a Deus por sua bondade, paciência e compaixão em todo o tempo, ainda que por momentos difíceis possamos passar, pois Ele vem sempre ao nosso encontro em todo o tempo:

“Graças à misericordiosa compaixão do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos veio visitar (cf. Lc 1,78). Amém.

 

 

(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – p. 813

A parábola do servo sem compaixão ” (XXIVDTCA)

                                                


A parábola do servo sem compaixão

 

Aprofundando a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 18,21-35); voltemo-nos para a Bula Misericordiae Vultus”, do Papa Francisco, quando da declaração do Ano da Misericórdia (08/12/15 - 20/11/16). 

“Temos depois outra parábola da qual tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã.

Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 22) e contou a parábola do «servo sem compaixão».

Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e fá-lo meter na prisão.

Então o senhor, tendo sabido do fato, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: «Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?» (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: «Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração» (Mt 18, 35).

A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os Seus verdadeiros filhos.

Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir.

Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração.

Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: «Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento» (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.

Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o Seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias.

A misericórdia de Deus é a Sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros.”

Contemplamos a misericórdia divina através da parábola, em que Jesus nos apresenta a pergunta de Pedro, sobre quantas vezes se deve perdoar um irmão: deve-se perdoar setenta vezes sete, ou seja, o perdão se expressa em plenitude ilimitada.

Jesus, de fato, é o rosto da misericórdia divina:

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré” (Misericodiae vultus” – Papa Francisco).

Sejam nossas comunidades lugar do aprendizado e da vivência do perdão, que deverá ser vivido em todos os âmbitos e em todo o tempo, como sinal do Reino de Deus.

 

PS: A dívida do servo perdoado era exorbitante (10.000 talentos; sendo que um talento equivale a 6000 denários; 1 denário equivalente a um dia de trabalho). Seriam necessários mais de 165.000  anos para pagamento de sua dívida. De outro lado, a dívida não perdoada por ele em relação ao seu devedor era de apenas 100 denários, ou seja, menos de um terço de dias de trabalho de um ano: conclusão – de fato, o amor de Deus por nós é pleno e ilimitado (exorbitante). De acordo com a nota da Bíblia de Jerusalém, 10.000 talentos equivale a 174 toneladas de ouro; 100 denários a 0,30 gramas de ouro.

 

Em poucas palavras... (XXIVDTCA)

                                                       


Eucaristia e comunhão vivida

“Não há limite nem medida para este perdão essencialmente divino (Mt 18,21-22; Lc 17,3-4). Quando se trata de ofensas (de «pecados», segundo Lc 11, 4, ou de «dívidas» segundo Mt 6, 12), de fato nós somos sempre devedores: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros» (Rm 13, 8). A comunhão da Santíssima Trindade é a fonte e o critério da verdade de toda a relação (1 Jo 3,19-24). E é vivida na oração, sobretudo na Eucaristia (Mt 5,23-24): 

«Deus não aceita o sacrifício do dissidente e manda-o retirar-se do altar e reconciliar-se primeiro com o irmão: só com orações pacíficas se podem fazer as pazes com Deus. O maior sacrifício para Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e um povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (São Cipriano).” (1)

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 2845

A dimensão ilimitada do perdão (XXIVDTCA)

 


A dimensão ilimitada do perdão

Sejamos enriquecidos pelo Sermão n.139 escrito por São Pedro Crisólogo (séc. V), bispo e doutor da Igreja.

“Assim como o ouro fica escondido na terra, assim também o sentido divino se oculta nas palavras humanas. Por isso, sempre que nos é proclamada a palavra evangélica, a mente deve colocar-se alerta e o espírito deve prestar atenção, para que o entendimento possa penetrar o segredo da ciência celeste.

Digamos por que o Senhor começa hoje com estas palavras: Tenham cuidado, se teu irmão te ofende, repreende-o, se ele se arrepende, perdoa-o.

Coragem, irmão! Deus te ordena: perdoa, perdoa os pecados; sê misericordioso frente ao delito, perdoa as ofensas de que fostes objeto, não percas agora os poderes divinos que tens; tudo o que tu não perdoares em outro, o negas a ti mesmo.

Repreende-o como juiz, perdoa-o como irmão, pois a caridade unida à liberdade e a liberdade fundida com a caridade expele o terror e anima ao irmão.

Quando o irmão te fere está exaltado, quando comete um delito, está enfurecido, está fora de si, perdeu todo sentimento de humanidade; quem não o socorre pela compaixão, quem não lhe cura mediante a paciência, quem não lhe sara perdoando-o, não está são, está mal, enfermo, não tem comiseração, demonstra ter perdido os sentimentos humanitários.

O irmão está furioso, atribui à enfermidade: tu, ajuda-o como a um irmão; tudo o que ele faça em semelhante situação atribui à sua perturbação, e o ocorrido não poderás imputá-lo ao irmão; e tu prudentemente lançarás a culpa à enfermidade, e ao irmão, o perdão; desta forma, sua saúde redundará em tua honra e o perdão te acarretará o prêmio.

Se teu irmão te ofende, repreende-o; se ele se arrepende, perdoa-o. Perdoa ao que peca, perdoa ao que se arrepende, para que, quando tu, por sua vez, pecares, o perdão te seja concedido como compensação, não como doação.

Sempre é bom o perdão, porém quando é devido, torna-se duplamente doce. Aquele que, perdoando, já se assegurou o perdão antes de pecar, evitou o castigo, tem inclinado ao juiz em seu favor, enganou o juízo.

Se te ofende sete vezes em um dia, e sete vezes volta a dizer-te: “sinto muito”, o perdoarás. Por que constrange com a lei, reduz no número e coloca um limite de perdão Aquele que tanto nos favorece pela misericórdia e que tão facilmente concede pela graça? E se em lugar de sete te ofende oito vezes? Vai prevalecer o número sobre a graça? Pode contrapor-se o cálculo à bondade? Pode uma só culpa condenar ao castigo a quem sete vezes consecutivas obtém o perdão? De jeito nenhum. Se é proclamado feliz aquele que perdoou sete vezes, muito mais feliz será aquele que perdoa setenta vezes sete.

Esquecido deste mandato, Pedro interroga ao Senhor, dizendo: Se meu irmão me ofende, quantas vezes devo perdoá-lo? Até sete vezes? Jesus lhe responde: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

Portanto, o número prescrito não limita, mas amplia o perdão, e ao que o preceito coloca um limite, o assume ilimitadamente a livre vontade; de maneira que se perdoares até o limite do que ordena o preceito, outro tanto te será contado à obediência, te será contado ao prêmio. E se o número sete setuplicado por dias, meses e anos implica a concessão da totalidade do perdão, calcule o cristão e julgue o ouvinte que cotas não alcançará o número sete setuplicado setenta vezes sete.

Então realmente vai cessar toda forma contratual de débitos e créditos; então se abolirá de verdade qualquer condição servil; então chegará àquela liberdade sem fim; então será recuperado o campo eterno e imortal; então chegará o verdadeiro perdão quando será inclusive abolida a própria necessidade de pecar, quando, cancelada toda imundície, o mundo deixará de ser imundo, quando com o retorno da vida deixará de existir a morte, quando estabelecido o reinado de Cristo, o diabo perecerá definitivamente.

Orai, irmãos, para que o Senhor aumente em nós a fé e possamos finalmente crer, ver e possuir estes bens.”(1)

Como afirmou o bispo, o número prescrito não limita, mas amplia o perdão: o perdão tem dimensão universal e infinita, porque assim é o amor de Deus: verdadeiramente indizível.

Também nós somos chamados a viver a graça do perdão, não apenas pedir perdão a Deus, mas viver sua prática em relação ao nosso próximo, assim como rezamos na Oração que o Senhor nos ensinou – “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Cf. Mt 6,11).

 

(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 - pág. 213-214

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