quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A escada da correção fraterna

                                                 

A escada da correção fraterna

A Liturgia da Palavra, da quarta-feira da 19ª Semana do Tempo Comum, nos ilumina para que sejamos uma Comunidade do Ressuscitado, onde se vive a misericórdia expressa no amor para com outro, fazendo de tudo para redimi-lo de seu pecado, para fortalecimento dos vínculos fraternos.

A Igreja há de ser por excelência uma comunidade de amor, marcada pela comunhão fraterna. Mas, por causa da condição humana, das fraquezas, os pecados também nela se fazem presentes.

Não há Igreja onde reine a suprema perfeição, por isto a necessidade da prática da misericórdia para renovar as pessoas, fortalecer os laços de fraterna amizade; afinal, somos um só Corpo, um só Espírito.

Já no Antigo Testamento, o Profeta Ezequiel nos convidava a sermos como que sentinelas para com o nosso próximo, caso este tenha errado; vigilantes para os sinais que possam destruir a vida do Povo de Deus.

É preciso ser vigilantes na misericórdia que edifica, sem a indiferença e a apatia diante do erro; e deste modo, sentinelas do Senhor seremos quando nos tornamos Seus preciosos instrumentos de bondade e reconciliação (Ez 33,7-9).

Com a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 18,15-20), refletimos sobre o caminho da correção fraterna, como degraus ou passos que devem ser dados para reintegrar o irmão que pecou contra a comunidade.

Poderíamos chamar de “escada da correção fraterna”. Sempre motivados pelo amor e pela verdade, tudo fazermos para resgatar o irmão que se extraviou, pois afinal, somos a Igreja que nasceu do Coração da Divina Misericórdia, Jesus.

O primeiro passo ou degrau:
Falar pessoalmente e diretamente com o irmão que tenha pecado contra nós ou a comunidade, em atitudes ou palavras inconvenientes. Talvez o passo mais difícil, pois implica coragem, sinceridade, desejo de ver o bem do outro acontecer. Jamais devemos falar de alguém se não pudermos antes falar ao primeiro interessado. Em caso de impossibilidade, melhor aumentar a oração, o silêncio, o recolhimento para que se diga no tempo oportuno, se necessário for.

O segundo degrau:
Falar com o irmão que pecou com mais uma, duas ou três pessoas que tenham sensibilidade e sabedoria. Sempre movidos pela reta intenção, verdade e caridade, sem o quê não terá sentido. Tanto neste como em outros passos, nunca dizer porque se ouviu dizer, sem fatos, provas. Não falar tão apenas a partir de boatos, “nuvens” sem consistência...

O terceiro degrau:
Dizer à Igreja. Afinal, a Igreja na pessoa de Pedro recebeu de Jesus a autoridade de ligar e desligar; atar e desatar; reconciliar, reintegrar... Sempre movidos pela misericórdia, todo empenho multiplicado para que se restaure a comunhão, o pecador, abominando seu pecado. Assim é Deus conosco, ama-nos embora pecadores, nos salva por sermos pecadores, não ama nossos pecados.

O quarto degrau:
Sem o êxito da correção alcançado, considerá-lo como gentio, como pagão. A Igreja, de fato, não exclui o infrator, pois na verdade, a própria pessoa que se fechou à proposta do Reino e se autoexcluiu da comunidade. Mesmo assim ficará este nas orações da comunidade reunida em nome do Senhor.

Acrescentemos à reflexão a  carta de Paulo aos Romanos (Rm 13,8-10), que afirma: “A caridade é o pleno cumprimento da Lei” e que “não devemos ficar devendo nada um ao outro a não ser o amor mútuo”.

O amor se vivido não nos permitirá violação e ignorância da Lei Divina, dos preceitos divinos, que são a garantia de convivência e de vínculos fraternos eucaristizados no Altar do Senhor, iluminados pela Palavra proclamada em cada Missa que participamos.

O Apóstolo nos recorda que temos uma dívida eterna que deve ser quitada cotidianamente: o amor mútuo. Paradoxalmente uma dívida que quanto mais se paga mais se tem. Quanto mais se ama, mais amor se tem. Amar é multiplicar o amor que no coração foi semeado. Não amar é desertificar o coração onde Deus quis morar. Não tornemos desertos áridos nosso coração!

Saldar alegremente esta dívida com pequenos gestos: um abraço, um sorriso, uma palavra, um reconhecimento, uma atividade pastoral, um trabalho social, um texto postado, uma mensagem enviada, um telefonema, um olhar carinhoso, um minuto de atenção, um pouco da presença, o partilhar e brindar a amizade que se tem.

Andar pelas ruas e praças, enviar uma mensagem, uma sadia conversa, uma partilha sobre um bom livro ou uma poesia, sobre uma música ou um filme, assistir a uma partida de futebol...

Saldemos alegremente esta dívida com grandes gestos de compromissos sociais, políticos, ecológicos, eclesiais...

Desejar a perfeição, é empenhar-se no fortalecimento da comunhão, procurando caminhos de correção e superação dos conflitos, sem jamais ferir ou esquecer a prática da caridade, como expressão da misericórdia.


PS: apropriado para o XXIIIDTCA

Em poucas palavras...

                                               


Nossa intimidade com Cristo

“A pertença a Cristo implica uma ruptura, pois determina uma opção...

A intimidade com Cristo torna-se comunhão e alimenta uma fé capaz de transportar montanhas.”

 

 

(1)               Comentário do Missal Cotidiano – Editora Paulus -  da passagem (1 Cor 7,25-31) – pág. 1252

Oração do Papa Francisco a Nossa Senhora

                                     


                 Oração do Papa Francisco a Nossa Senhora

“Ó Maria, Tu sempre brilhas em nosso caminho como sinal de salvação e esperança.

Nós nos entregamos a Ti, Saúde dos Enfermos, que na Cruz foste associada à dor de Jesus, mantendo firme a Tua fé.

Tu, Salvação do povo romano, sabes do que precisamos e temos a certeza de que garantirás, como em Caná da Galileia, que a alegria e a celebração possam retornar após este momento de provação.

Ajuda-nos, Mãe do Divino Amor, a nos conformarmos com a vontade do Pai e a fazer o que Jesus nos disser.

Ele que tomou sobre Si nossos sofrimentos e tomou sobre Si nossas dores para nos levar, através da Cruz, à alegria da Ressurreição. Amém.

Sob a Tua proteção, buscamos refúgio, Santa Mãe de Deus.

Não desprezes as nossas súplicas, nós que estamos na provação, e livra-nos de todo perigo, Virgem gloriosa e abençoada.”


PS: Oração feita na Missa celebrada pelo Papa no Santuário do Divino Amor, dia 11 de março de 2020 – Itália

Entre o transitório e o eterno

                                                            


Entre o transitório e o eterno

“Pois a figura deste mundo passa” (1 Cor 7,31)

O Apóstolo Paulo, na passagem da Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 7,25-31),  insiste sobre a brevidade e caducidade do tempo e nos propõe um discernimento evangélico dos valores que norteiam a nossa vida.

Somente a relação com o Senhor Vivo e Ressuscitado confere o verdadeiro valor e o significado de todas as opções de nossa vida. 

Aprendemos a relativizar o tempo presente, assim como as estruturas que resultam da intervenção humana.

Crendo no Senhor vivo e Ressuscitado, a profissão de fé em Sua Ressurreição, é ser convicto de que foi inaugurado um novo tempo e aprender a fazer as devidas relativizações das coisas que passam, para que não se perca o desejo e o encontro das coisas que não passam.

Como cristãos, cremos que tudo se encaminha para o mundo novo, e o Apóstolo aponta para algumas realidades que são transitórias, sem desmerecimento de sua importância: o matrimônio, o riso, o pranto, a posse de bens e sua venda.

Elas não são em si realidades últimas, de modo que o cristão precisa de sabedoria para saber usar das coisas do mundo, viver as relações conjugais, familiares, sociais, mas não devem estar completamente absorvidos por elas.

A sabedoria cristã requer que usemos as coisas que passam e abracemos as que não passam, as eternas, e, de modo especialíssimo, o amor de Deus e dos irmãos.

Sendo assim, o cristão casa-se ou não, chora ou ri, alegra-se ou se entristece, compra e vende, mas ciente de que estas dimensões não são um fim em si mesmas.

O Apóstolo, com toda propriedade, exorta-nos para que evitemos toda forma de apego e posse, uma vez que vivemos numa situação que se tornou provisória. E, mais uma vez, lembramos que somos peregrinos longe do Senhor, com Ele tão próximo, até que um dia possamos com Ele na glória entrar.

Na fidelidade ao Senhor, aprendamos a pautar nossa vida pelos valores eternos que dão beleza e sentido a nossa vida, e somente abertos à Sabedoria do Espírito estabeleceremos uma relação filial para com Deus, estabelecendo relações sinceras, livres, edificantes, mutuamente, enquanto criaturas d’Ele que somos.

Somente a intimidade com Jesus Cristo se torna uma verdadeira comunhão e alimenta uma fé que é capaz de transportar montanhas, para que o horizonte da esperança seja possível, porque fundando e edificado sobre o fundamento da caridade que jamais passará. 

“O Martírio do amor...”

                                            


“O Martírio do amor...”
 
Ao celebrar no dia 12 de agosto a Memória de Santa Joana Francisca de Chantal, sejamos enriquecidos pelo escrito de uma de suas secretárias.

“Certo dia, Santa Joana disse estas fervorosas palavras, logo fielmente recolhidas:
 
Filhas diletíssimas, muitos dos nossos santos Padres e colunas da Igreja não sofreram o martírio; sabeis dizer-me por que razão? Após a resposta de cada uma, disse a santa Madre:
 
Quanto a mim, creio que isto aconteceu assim, por haver outro martírio que se chama martírio de amor, em que Deus, conservando em vida Seus servos e servas a fim de trabalharem para Sua glória, os faz ao mesmo tempo mártires e confessores.
 
Sei que, por disposição divina – acrescentou – as filhas da Visitação são chamadas a este martírio com o mesmo ardor que levou a afrontá-lo aquelas servas mais afortunadas.
À pergunta de uma irmã sobre o modo como poderá se realizar este martírio, respondeu: Abri-vos inteiramente à vontade de Deus e tereis a prova.
 
O Amor divino mergulha sua espada até o mais íntimo e secreto de nossas almas, e separa-nos de nós mesmas. Conheci uma alma a quem o amor separou de tudo quanto lhe agradava, como se o golpe dado pela espada de um tirano lhe tivesse separado o espírito do corpo.
 
Percebemos que falara de si mesma. Tendo outra irmã indagado quanto tempo duraria esse martírio, explicou: Desde o momento em que nos entregamos a Deus sem reservas, até o fim da vida.
 
No entanto, isto só diz respeito às pessoas magnânimas, que, renunciando completamente a si mesmas, são fiéis ao amor; os fracos e inconstantes no amor, nosso Senhor não os leva pelos caminhos do martírio, mas deixa-os viver a passos lentos, para que não se afastassem dele; pois nunca força a livre vontade.
 
Quando, por fim, lhe foi perguntado se este martírio de amor poderia ser igualado ao martírio do corpo, respondeu: Não nos preocupemos com a questão da igualdade, muito embora eu julgue que um não ceda ao outro, porque o amor é forte como a morte (Ct 8, 6). E ainda porque os mártires de amor sofrem dores mil vezes mais agudas conservando a vida para cumprir a vontade de Deus, do que se tivessem de dar mil vidas para testemunhar a sua fé, o seu amor e a sua fidelidade.” 
 
Nascida em Dijon (França), no ano de 1572. Casou-se com o barão de Chantal, e foi mãe de seis filhos, os quais educou na piedade.
 
Após a morte do marido, levou uma admirável vida de perfeição, sob a direção de São Francisco Sales, praticando especialmente a caridade para com os pobres e enfermos. Antes de morrer (1641) fundou e governou com sabedoria a Ordem da Visitação.
 
“Martírio do Amor?”. Quantos o viveram e vivem entre nós: mães e pais no amor e cuidado de seus filhos; educadores/professores plantando semente do saber num contexto marcado por dificuldades; profissionais inúmeros,  que no martírio do amor, mais que pelo dinheiro necessário, realizam tudo com extremo amor, como que um sacerdócio, vivendo com toda intensidade e caridade.
 
Martírio do amor no cuidado de crianças, enfermos, idosos, muitos que para a sociedade nada dizem, nada contam, porque vítimas de uma cultura do descarte.
 
Martírio do amor vivido no zelo pastoral de tantos nomes que conhecemos movidos, tão apenas pelo mais belo e puro amor: Jesus Cristo.
 
Urge nos abrirmos ao profundo e sincero martírio do amor, para acolher o Verdadeiro Amor, o Pão Vivo descido do céu que nos garante a eternidade.
 
Finalizando, retomemos suas palavras:
 
“Abri-vos inteiramente à vontade de Deus
e tereis a prova.
O amor divino mergulha sua espada até o mais íntimo e
secreto de nossas almas,
e separa-nos de nós mesmas.
Conheci uma alma a quem o amor separou de tudo
quanto lhe agradava, como se o golpe dado
pela espada de um tirano lhe tivesse
separado o espírito do corpo”.
 
Roguemos ao Senhor a graça necessária para que vivamos o martírio do amor, como discípulos missionários do Senhor, peregrinando na esperança, edificando uma Igreja verdadeiramente sinodal à serviço do Reino de Deus. Amém.
 

Em poucas Palavras... (Nossa Senhora)

                                     


Maria Santíssima que a Igreja nos ensina a crer

“Cremos que Maria Santíssima, que permaneceu sempre Virgem, tornou-se Mãe do Verbo Encarnado, nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo; e que por motivo desta eleição singular, em consideração dos méritos de seu Filho, foi remida de modo mais sublime, e preservada imune de toda a mancha do pecado original; e que supera de longe todas as demais criaturas, pelo dom de uma graça insigne.

Associada por um vínculo estreito e indissolúvel aos mistérios da Encarnação e da Redenção, a Santíssima Virgem Maria, Imaculada, depois de terminar o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celestial; e, tornada semelhante a seu Filho, que ressuscitou dentre os mortos, participou antecipadamente da sorte de todos os justos.

Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no céu a desempenhar seu ofício materno, em relação aos membros de Cristo, cooperando para gerar e desenvolver a vida divina em cada uma das almas dos homens que foram remidos.” (1)

 

(1) Solene Profissão de fé na conclusão do «Ano da Fé» proclamado por ocasião do XIX centenário do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo em Roma – Papa São Paulo VI  – Praça de São Pedro -  30/06/1968 – parágrafos nn.14-15.

“Tal como ouvimos, assim vimos”

                                                         

“Tal como ouvimos, assim vimos”

Retomo parte do Comentário sobre os Salmos, escrito pelo Bispo Santo Agostinho (Séc. V).

“Tal como ouvimos, assim vimos (Sl 47,9). Ó Igreja feliz! Em certo tempo ouviste, em outro tempo viste. Ouviu em promessas, vê na realização; ouviu na profecia, vê no Evangelho.

Tudo quanto agora se cumpre foi antes profetizado. Levanta os olhos e lança um olhar sobre o mundo. Contempla a herança até os confins da terra.

Vê já se realizando aquilo que foi dito: Adorá-lo-ão todos os reis da terra, todas as nações o servirão (Sl 71,11). Vê já realizado o que se disse: Eleva-Te acima dos céus, ó Deus, e Tua glória sobre a terra inteira (Sl 107,6).

Vê Aquele de pés e mãos fixos por pregos, cujos ossos, pendendo do lenho, foram contados, lançada a sorte sobre Sua túnica.

Vê reinando Aquele que viram perdendo; vê assentado no céu Aquele que desprezaram andando na terra.

Vê desde então cumprir-se: Lembrar-se-ão e se converterão para o Senhor todos os extremos da terra; adorarão em Sua presença todos os povos (Sl 21,28).

Ao ver tudo isto, exclama jubilosa:
Tal como ouvimos, assim vimos (Sl 47,9) [...]”.

Subamos ao Monte Tabor, e contemplemos o Senhor e Sua imensa compaixão pela humanidade, e Seu Senhorio incontestável.

Ouçamos a voz Divina e, deste modo, o escuro mais profundo de nossa alma será iluminado, e revigoradas nossas
forças, desceremos a Montanha para o testemunho da fé, em gestos concretos de compaixão e solidariedade para com tantos desfigurados, sempre atentos à voz do Filho Amado, pois tal como vimos e ouvimos, é preciso anunciar e testemunhar a Boa Nova do Reino. Amém.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG