sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Terra, teto e trabalho para todos!

                                                   



Terra, teto e trabalho para todos!
 
Retomemos a síntese do discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, sobretudo quando defrontamos com graves problemas sociais que afligem o mundo.
 
Para o Papa, o encontro de Movimentos Populares é um grande sinal: “Vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!”
 
Sobre os movimentos populares, disse: “não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar”.
 
Sobre a palavra “Solidariedade”, conceitua: ela não é uma palavra e nem alguns atos de generosidade esporádicos.
 
A solidariedade “é pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.
 
Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas.
 
É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar.
 
A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem”.
 
Vê no encontro a resposta para um anseio muito concreto, o desejo de que todos tenham terra, teto e trabalho:
 
“Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja.”
 
Sobre cada anseio, discorre brevemente acenando para a gravidade e necessidade de caminhos para superação, em sua defesa e promoção, a fim de que ninguém seja excluído do sagrado direito aos três:
 
1 - A Terra: “Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sofrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais.
 
A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal.
 
Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.
 
A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo.
 
A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI, 300).
 
2 – O Teto: uma casa para cada família.
“Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas.
 
Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.”
 
Há eufemismos que escondem a triste realidade (falta de moradia, injustiças, miséria, fome...). Atrás de cada eufemismo há um crime, afirma o Papa.
 
“Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias.
 
Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.”
 
Exorta que se favoreça para que todas as famílias tenham uma moradia, e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto, escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes (e todas as coisas que criam vínculos e que unem), acesso à saúde; à educação e à segurança, favorecendo a integração autêntica e respeitosa, espaços de sadias convivências).
 
3 – O trabalho:
 
Para o Papa, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e, assim, privando da dignidade do trabalho.
 
Menciona o desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas que não são inevitáveis, porque são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
 
Lembra um ensinamento (aproximadamente ano 1200) que merece ser citado:
 
“Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.
 
Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro...”
 
Em seguida, fala da gravíssima cultura do descarte de crianças, jovens e idosos. 
 
Denuncia a existência de uma terceira guerra mundial em cotas: “Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra.
 
Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economias que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. 
 
E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor.
 
Também aborda a questão da Paz e da Ecologia: “não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta.
 
São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos.
 
Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.”
 
Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!”
 
Denuncia um sistema econômico centrado no deus dinheiro que também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente:
 
“As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo”.
 
Anuncia a preparação de uma Encíclica sobre Ecologia que vai aprofundar questões como estas que não nos permite indiferença:
 
“Falamos da terra, de trabalho, de teto... falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza...
 
Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza?
 
Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença.
 
O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.”
 
Apresenta um guia de ação, um programa revolucionário: as Bem-Aventuranças, (cf. Mt 5, 1-12; Lc 6, 20; Mt 25, 30-46).
 
É preciso promover a cultura do encontro que é tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância, com o necessário aprendizado do “caminhar juntos":
 
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.”
 
Acena para que não haja mais nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho permite.
 
Finaliza dando a bênção, exortando para que se siga na luta, e entrega uma recordação, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.
 
Convida-nos à firme esperança, com renovados compromissos, sem desânimo e desilusão, a fim de que todos tenham direito a terra, teto e trabalho.
 
Sejamos, portanto, iluminados pela mensagem e nos unamos com todas as pessoas que não medem esforços para que referidos direitos sejam alcançados, a fim de que tenhamos uma nova realidade, sem marginalizações e exclusões, prefigurando o sinal do Reino de Deus entre nós.


Lamentos sentidos que tocaram os céus

                                                     

Lamentos sentidos que tocaram os céus

Impressiona-nos a história do martírio de São Paulo Miki e seus companheiros, pela coragem que testemunharam a fé no Senhor, cuja Memória celebramos dia 06 de fevereiro, escrita por um autor do século XVI.

“Quando as cruzes foram levantadas, foi coisa admirável ver a constância de todos, à qual eram exortados pelo Padre Passos e pelo Padre Rodrigues.

O Padre Comissário permaneceu sempre de pé, sem se mexer e com os olhos fixos no céu. O Irmão Martinho cantava Salmos de ação de graças à bondade divina, aos quais acrescentava o versículo: Em Vossas mãos, Senhor (Sl 30,6). Também o Irmão Francisco Blanco dava graças a Deus com voz clara. O Irmão Gonçalo recitava em voz alta o Pai-nosso e a Ave-Maria.

O nosso Irmão Paulo Miki, vendo-se colocado diante de todos no mais honroso púlpito que nunca tivera, começou por declarar aos presentes que era japonês e pertencia à Companhia de Jesus, que ia morrer por haver anunciado o Evangelho e que dava graças a Deus por lhe conceder tão imenso benefício. E por fim disse estas palavras:

“Agora que cheguei a este momento de minha vida, nenhum de vós duvidará que eu queira esconder a verdade. Declaro-vos, portanto, que não há outro caminho para a salvação fora daquele seguido pelos cristãos. E como este caminho me ensina a perdoar os inimigos e os que me ofenderam, de todo o coração perdoo o Imperador e os responsáveis pela minha morte, e lhes peço que recebam o Batismo cristão.

Em seguida, voltando os olhos para os companheiros, começou a encorajá-los neste momento extremo. No rosto de todos transparecia uma grande alegria, mas era no de Luís que isto se percebia de modo mais nítido.

Quando um cristão gritou que em breve estaria no paraíso, ele fez com as mãos e o corpo um gesto tão cheio de contentamento que os olhares dos presentes se fixaram nele. Antônio estava ao lado de Luís, com os olhos voltados para o céu. 

Depois de invocar os santíssimos nomes de Jesus e de Maria, entoou o Salmo Louvai, louvai, ó servos do Senhor (Sl 112,1), que tinha aprendido na escola de catequese em Nagasáki; de fato, durante o catecismo, costumavam ensinar alguns Salmos às crianças.

Alguns repetiam com o rosto sereno: ‘Jesus, Maria’; outros exortavam os presentes a levarem uma vida digna de cristãos; e por estas e outras ações semelhantes demonstravam estar prontos para a morte.

Finalmente os quatro carrascos começaram a tirar as espadas daquelas bainhas que os japoneses costumam usar. Vendo cena tão horrível, os fiéis gritavam: ‘Jesus! Maria!’ Seguiram-se lamentos tão sentidos de tocar os próprios céus. Ferindo-os com um primeiro e um segundo golpe, em pouco tempo os carrascos mataram a todos.”


São Paulo Miki foi um religioso jesuíta, sacerdote da Companhia de Jesus, um dos mártires do Japão, filho de um renomado militar, membro de uma família samurai da Provínicia de Harima, conhecido como excelente pregador e orador.

Paulo era filho de pais nobres, e foi educado no Colégio Jesuíta, em Anquiziama, no Japão. A convivência na Escola Jesuíta logo despertou nele o interesse de se unir à Companhia de Jesus.

Como não havia nenhum bispo na região de Fusai, Paulo não pode ser ordenado no tempo certo, mais tarde tornou-se o primeiro sacerdote jesuíta em sua pátria.

Memórias como estas celebradas no Senhor, questionam nossa fé; se de fato levamos uma vida digna de cristãos, vivendo com autenticidade a graça do Batismo, como profetas, sacerdotes e reis.

Os lamentos de Paulo Miki e seus companheiros tão sentidos tocaram os próprios céus, somados a tantos outros lamentos de mártires e testemunhas intrépidas, que professaram a fé desde o princípio da fidelidade no seguimento do Senhor.

Outros lamentos tão sentidos se multiplicam, lá e em outros tantos lugares, de cristãos perseguidos e mortos no testemunho da fé.

Ainda hoje, milhares de cristãos pelo mundo são perseguidos, mortos, impedidos de professarem a fé cristã.

Elevemos Orações por estes, e também peçamos a graça de corresponder como estes mártires numa vida cristã mais coerente, com maior fidelidade ao Evangelho do Senhor, e dizer como o Apóstolo Paulo:

– Com Cristo, eu fui pregado na Cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim Se entregou” (Gl 2,19b-20).

Senhor, rezamos por todas as pessoas que participam da missão de Jesus e do seu tríplice múnus: sacerdotal, profético e real:

Que vivendo a graça do Batismo participem do sacerdócio de Cristo através da busca da santificação pessoal e comunitária, na Oração, na intercessão, em profunda comunhão convosco.

Participem, corajosamente, do múnus profético através da Palavra que denuncia o pecado e anuncia a chegada do Vosso Reino de: amor, paz, alegria, justiça, verdade e liberdade.

Conduzidos por Vosso Espírito, nesta participação, renovem o compromisso com a verdade e os valores morais, sem medo da atração da ira dos que sejam contrários à proposta do Evangelho, a exemplo João Batista e tantos Profetas/mártires, que foram vítimas do ódio, da vingança, da perseguição e por vezes culminando na própria morte.

Sejam partícipes do múnus régio pelo serviço aos irmãos e irmãs, no amor, doação e entrega da própria vida como fizestes, Vós que viestes para servir e não para ser servido, para dar a vida em resgate de muitos.

Pai Nosso que estais nos céus...

A manifestação do Espírito

                                                           

A manifestação do Espírito

Sejamos enriquecidos por uma das Homilias de um autor espiritual do quarto século, que nos fala da ação do Espírito Santo, para que sejamos plenificados com toda a plenitude de Cristo.

“Todos os que são considerados dignos de se tornarem filhos de Deus e renascerem do alto no Espírito Santo, trazendo em si a Cristo – que os ilumina e os regenera – são guiados de diversos modos pelo Espírito e conduzidos invisivelmente pela graça, tendo no coração a paz espiritual.

Às vezes, desfazem-se em lágrimas e gemidos pela humanidade, pelo gênero humano elevam preces e choram, ardendo de afeto por todos os homens.

Outras vezes, de tal maneira se inflamam pelo Espírito, com tamanho entusiasmo e amor, que, se possível fosse, acolheriam em seu coração todos os homens, sem distinção entre bons e maus.

Entretanto, outros, pela humildade dos seus espíritos, colocam-se abaixo de todos, julgando-se os mais abjetos e desprezíveis.

Por vezes, são guardados pelo Espírito numa alegria inefável.

Ora, eles são como um valente, que, revestido com toda a armadura do rei, desce para o combate e luta contra os fortes inimigos e os vence. Assim o homem espiritual, munido com as celestes armas do Espírito, ataca os adversários e, no fim da peleja, calca-os aos pés.

Ora, em absoluto silêncio, repousa a alma em paz e sossego, entregue unicamente ao gozo espiritual e a uma paz indizível, no perfeito contentamento.

Por vezes, por certa compreensão e sabedoria inefável e conhecimento secreto do Espírito, é instruído pela graça sobre coisas que a língua não consegue dizer.

De outras vezes, é como qualquer outra pessoa.

E assim a graça habita e age de várias maneiras na alma, renovando-a conforme a vontade divina, provando-a de modos diferentes para torná-la íntegra, irrepreensível e pura diante do Pai do céu.

Oremos, então, também nós a Deus, oremos no amor e imensa esperança de que ele nos concederá a celeste graça do dom do Espírito. A nós também o próprio Espírito nos governe e leve a realizar toda a vontade divina e nos restaure com a riqueza de Sua paz a fim de que, conduzindo-nos e fazendo-nos viver sempre mais em Sua graça e progresso espiritual, nos tornemos dignos de alcançar a perfeita plenitude de Cristo, segundo disse o Apóstolo: Para que sejais plenificados com toda a plenitude de Cristo”.

Vivendo a graça do discipulado, experimentamos constantemente a ação e presença do Espírito, como nos descreve o autor:

"E assim a graça habita e age de várias maneiras na alma, renovando-a conforme a vontade divina, provando-a de modos diferentes para torná-la íntegra, irrepreensível e pura diante do Pai do céu.".

Supliquemos a vinda e presença do Santo Espírito em socorro de nossa fraqueza, a fim de que na fidelidade ao Senhor e à Boa-Nova que Ele nos comunicou, como Igreja, participaremos da construção do Reino de Deus, pregrinando na esperança de um novo céu e uma nova terra (2 Pd 3,13).

"Vinde Espírito Santo! Enchei os coraçoes dos Vossos fiéis..."

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Caminhando sobre as pétalas dos ipês

                                                    


     Caminhando sobre as pétalas dos ipês


“Permanecei inabaláveis e firmes na fé,

sem vos afastardes da esperança que vos dá o Evangelho,

que ouvistes, que foi anunciado a toda criatura debaixo do céu.” (1)

 

Manhã de primavera, caminhando sobre as pétalas,

que anunciam uma nova estação começada.

Pensamentos elevados aos céus, em súplicas.

 

Relembro pequenos gestos contemplados,

mãos enrugadas pelo tempo, trêmulas estendidas,

Aos pés de uma cruz, braços estendidos suplicantes...

 

Na sala de espera de um hospital, notícia recebida

Lágrimas copiosas vertidas, ainda pude ouvir:

“nossa bela criança para Deus voltou, partiu...”

 

Paisagens cortantes da alma, de cinzas pelos campos,

Árvores queimadas, vidas sacrificadas, fumaça asfixiante,

Talvez por fatalidade, talvez por desejos insanos.

 

As criaturas e a criação gemendo em dores de parto,

De novos tempos, numa necessária ecologia integral.

Do contrário, futuro comum ameaçado, o que esperar?

 

Ouço canções que me devolvem a confiança e esperança,

De novos amanheceres possíveis, não há que desistir

Mantenhamos a fé inabalável, não nos afastemos da esperança.

 

O amor de Deus nos impele para não nos curvarmos.

As estações se sucederão e novas primaveras virão.

As pétalas caem em gesto último, beleza ao chão pisado.

 

Novas primaveras hão de vir.

Não podemos jamais desistir.

Peregrinos da esperança a caminho.

 

(1) Cl 1,23

Permaneçamos inabaláveis e firmes na fé

                                                             


Permaneçamos inabaláveis e firmes na fé

“Permanecei inabaláveis e firmes na fé, sem vos afastardes da esperança que vos dá o Evangelho, que ouvistes, que foi anunciado a toda criatura debaixo do céu.” (1)

Notícias publicadas em jornais europeus, há alguns anos fazia esta publicidade: “Uma má notícia: Deus morreu. Uma boa notícia: não é preciso”.  “É provável que Deus não exista. Então pare de se preocupar e comece a curtir a vida”.

Preocupa-nos o crescimento do relativismo, ateísmo crescentes e o crescimento do número dos que se dizem sem religião.

Deste modo, oportuno que retomemos o comentário do Missal Cotidiano (na íntegra), sobre a passagem do Livro do Êxodo proclamada na 16ª quinta-feira do Tempo Comum:

“O povo sente que teve um contato excepcional com Deus: cobre o rosto em face daquela luz que é sinal de sua presença.

Hoje, porém, quantos pensam em Deus? Há tantas formas de ateísmo prático!

Dizem: Quem pode saber dele? Quem já o viu? Não temos necessidade dele!... O pensamento de Deus é incômodo para quem é egoísta, sensual, dominador, injusto, avarento... porque – queiramos ou não – tem-se o pressentimento de que Deus não tolera estas coisas e não se tem a coragem de abandoná-las.

Mas quem pensa seriamente em Deus, sente que ele é vida, força, liberdade, beleza; sente que ele dá força para nos libertarmos do mal, para tornar a vida livre e bela.

Quem crê em Deus não pode agir como se não cresse. Deus não é indiferente às nossas ações: é Pai.” (2)

Como discípulos missionários do Senhor, é fundamental que professemos nossa fé, e que ela seja acompanhada da esperança e expressa na autêntica e fecunda caridade.

Acolhamos a exortação Paulina acima mencionada, e vivamos com alegria, amor, zelo e ardor a graça da missão que o Senhor nos confiou. Amém.

 

(1) Cl 1,23

(2)Comentário da passagem do Livro do Êxodo (Ex 19,1-2.9-11.16-20b) - Missal Cotidiano – Editora Paulus p.1059

Santa Águeda, virgem e mártir, modelo de fidelidade ao Senhor!

                                                            

 

Santa Águeda, virgem e mártir, modelo de fidelidade ao Senhor!
 
Ao celebrar a memória de Santa Águeda (séc. III), sejamos enriquecidos pelo Sermão escrito pelo Bispo São Metódio da Sicília (Séc. IX):
 
“A comemoração do aniversário de Santa Águeda nos reúne a todos neste lugar, como se fôssemos um só. Bem conheceis, meus ouvintes, o combate glorioso desta mártir, uma das mais antigas e ao mesmo tempo tão recente que parece estar agora mesmo lutando e vencendo, através dos divinos milagres com os quais diariamente é coroada e ornada.
 
A virgem Águeda nasceu do Verbo de Deus imortal e Seu único Filho, que também padeceu a morte por nós. Com efeito, João, o teólogo, assim se exprime: ‘A todos aqueles que O receb

eram, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12)’.
É uma virgem esta mulher que nos convidou para o Sagrado Banquete; é a mulher desposada com um único esposo, Cristo, para usar as mesmas expressões do Apóstolo Paulo, ao falar da união conjugal. É uma virgem que pintava e enfeitava os olhos e os lábios com a luz da consciência e a cor do Sangue do verdadeiro e divino Cordeiro; e que, pela meditação contínua, trazia sempre em seu íntimo a morte d’Aquele que tanto amava.
 
Deste modo, a mística veste de seu testemunho fala por si mesma a todas as gerações futuras, porque traz em si a marca indelével do Sangue de Cristo e o tesouro inesgotável da sua eloquência virginal.
 
Ela é uma imagem autêntica da bondade, porque, sendo de Deus, vem da parte de seu Esposo nos tornar participantes daqueles bens, dos quais seu nome traz o valor e o significado: Águeda (que quer dizer ‘boa’) é um dom que nos foi concedido por Deus, verdadeira fonte de bondade.
Qual a causa suprema de toda a bondade, senão aquela que é o Sumo Bem? Por isso, quem encontrará algo mais que mereça, como Águeda, os nossos elogios e louvores?
 
Águeda, cuja bondade corresponde tão bem ao nome e à realidade! Águeda, que pelos feitos notáveis traz consigo um nome glorioso, e no próprio nome demonstra as ilustres ações que realizou!
 
Águeda, que nos atrai com o nome, para que todos venham ao seu encontro, e com o exemplo nos ensina a corrermos sem demora para o verdadeiro bem, que é Deus somente!”
 
Quanto à sua história, embora não se tenha tanto material disponível, é mais um testemunho de alguém que teve o coração por Cristo seduzido, e N’Ele encontrou a razão do existir, o sentido último e fundamental: a Salvação.
 
Águeda, um luminar da fé que correspondeu ao dom que foi concedido por Deus, a verdadeira fonte da bondade; um autêntico testemunho de entrega, doação na expressão máxima do martírio, em corajosa e incondicional fidelidade a Deus.
 
Águeda pôde rezar com o Salmista: “O Senhor é minha luz e salvação, a quem eu temerei?”, ou ainda: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal eu temerei…” (Sl 27 e 91).
 
Através de sua fragilidade, Deus manifestou Sua onipotência; e com ela, aprendemos a expressar no mundo a bondade divina, através de palavras e muito mais através dos gestos; bem como aprendemos a correr sem demora para o verdadeiro bem, Deus, pois somente Deus e Sua graça nos bastam.
 
Águeda, a “virgem que pintava e enfeitava os olhos e os lábios com a luz da consciência e a cor do Sangue do verdadeiro e divino Cordeiro; e que, pela meditação contínua, trazia sempre em seu íntimo a morte d’Aquele que tanto amava” também nos ensina a também a ver o mundo com os olhos de Deus, e com os lábios proclamar ao mundo o seu projeto, já experimentado e vivenciado na meditação contínua, na mais perfeita configuração à Jesus Cristo que, por amor, em nosso favor morreu e Ressuscitou.
 
 
Uma página viva que revela uma bela verdade: O amor é a força que move o mundo, possibilita dar às coisas seu real valor, discernindo o que é relativo e o que é absoluto!
 
Águeda foi exemplo de quem manteve a virgindade e fidelidade ao Senhor, mesmo tendo sido condenada a ficar em lugar de má fama e enfrentando toda e qualquer forma de sedução de Quintiano, cônsul do imperador romano. Este ordenou que ela fosse torturada através de açoites, dilaceramento por meio de ganchos de ferro, e queimada com chamas de tochas.
 
Águeda sofria tudo isto com alegria, deixando o cônsul furioso. Isto o levou a ordenar, cruelmente, que os seios dela fossem esmagados e arrancados. Mais tarde a reencarcerou, e determinou que nenhum alimento ou socorro médico lhe fosse concedido.
 
Ao ser levada de volta para a prisão, ela orou: "Senhor, meu Criador, Tu me tens protegido sempre desde meu nascimento; Tu me tens livrado do amor ao mundo, e me tens dado paciência para sofrer. Recebe agora minha alma". Após dizer essas palavras entregou sua vida.
 
Hoje, num mundo de permissividade, em que o prazer se torna como que um ídolo, com perda de valores morais, banalização da sexualidade, muitas vezes ausência de firmes princípios, esta Santa, reconhecida pela Igreja, é mais um exemplo a ser imitado na fidelidade ao Senhor.
 
Celebrar a memória de Santa Águeda é celebrar a alegria de ver multiplicar, em cada tempo, cristãos convictos da fé e do Evangelho que ouvem, acolhem, proclamam e, com a vida, testemunham.
 
Reflitamos:
 
-  Até que ponto entregamos nossa vida pelo Evangelho e por causa de Jesus?
-  Qual a intensidade e profundidade de nosso apaixonamento por Cristo?
-  Que sinal profético somos, no mundo, da Palavra de Deus?
 
Que, a exemplo de Santa Águeda, saibamos nos colocar nas mãos de Deus com absoluta confiança e esperança, e roquemos a Deus para que nos conceda cada vez mais sermos sinal de Jesus Cristo no mundo, na pureza de alma e coração, que somente é possível quando participamos ativa, piedosa e frutuosamente da Mesa da Eucaristia, prolongando-A no cotidiano, a fim de que não haja a separação empobrecedora do culto e a vida.
 
 
(1)
Memória celebrada no dia 5 de fevereiro.

Enviados pelo Senhor em missão

                                              


 

Enviados pelo Senhor em missão 

“A missão de Jesus é a nossa missão” 

A Liturgia da Palavra da quinta-feira da quarta Semana do Tempo Comum, apresenta-nos a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 6,7-13), em que Jesus envia os discípulos em missão.
 
Jesus, o Profeta do Pai por excelência, envia os discípulos dois a dois para pregar a Boa Nova do Evangelho, anunciando a conversão, mudança de mentalidade e atitudes para a acolhida da chegada do Reino; bem como lhes confere o poder que tem junto do Pai para expulsar demônios, curar os enfermos, inaugurar relações novas de vida e liberdade.
 
Há, porém, algumas exigências que devem marcar a vida dos discípulos do Senhor:
 
- Alegria da missão por Ele confiada; o despojamento, pobreza, simplicidade, liberdade total diante de tudo e de todos, confiança incondicional no poder e na providência divina, maturidade para suportar a rejeição e as adversidades.
 
Assim afirma o Missal dominical:
 
“Quem anuncia não deve ter nada que pese, deve ser leve e desembaraçado, não tanto de alforje e capa, mas antes, livre de interesses humanos, de ideologias a defender, de compromissos com as potências deste mundo. Essas coisas não lhe permitem estar livre, condicionam-no, embaraçam-lhe o trabalho, enfraquecem-lhe o zelo, impedem-no de merecer crédito”.
 
A missão somente será possível e acompanhada de êxito, porque a promessa do Senhor se cumpriu, o Espírito Santo, o Paráclito nos foi enviado.
 
Não tendo Ele outros planos, apenas confiando em nossa participação, sabia muito bem que precisaríamos de “Alguém” que nos acompanhasse, nos assistisse. Por isto, voltando para o Pai, nos enviou o Seu Espírito.
 
A presença do Espírito Santo nos enriquece com Seus dons, e assim, fortalecidos, levemos adiante a missão evangelizadora, como ardorosos, corajosos e apaixonados Discípulos Missionários do Senhor.
Oportuno retomar esta singela mensagem fictícia:
 
“Conta-se que Jesus, no dia da sua Ascensão aos céus, se encontrou com S. Gabriel Arcanjo que vinha, caminho contrário, cumprir alguma missão aqui na terra.
 
Gabriel, ao ver o Senhor subindo aos céus e que a terra ficaria sem Ele, olhou também para o planeta e observou um cenário curioso: a terra estava coberta por uma nuvem negra e o contraste negro-azul não resultava muito agradável a não ser por uns poucos, pouquíssimos, pontos de luz.
 
Chamou a atenção do Arcanjo o ambiente desolador, mas chamou-lhe mais imperiosamente a atenção a existência desses poucos pontos de luz.
 
O Arcanjo perguntou então ao Senhor: “e aqueles pontos de luz? O que são? Jesus respondeu: “são a minha mãe e os meus outros discípulos. Eles vão iluminar toda a terra”.
 
Gabriel, conhecendo a debilidade humana, depois de pensar um pouco, disse: “Senhor, excetuando a tua mãe, e se eles falharem?”. Ao que Jesus respondeu: “Eu não tenho outros planos”. Dito isso, Jesus continuou ascendendo rumo ao Pai.”
 
Urge aprender com os Apóstolos, os Santos e tantos quantos que deram testemunho de sua fé, que sem paixão por Jesus, fascínio por Ele e pelo Reino, não há apostolado, não há missão e tão pouco profecia.
 
É sempre tempo de reavivar a chama profética, crepitar ardente no coração, para que a alegria da missão torne visível o quanto nos configuramos ao Senhor, e assim geremos e formemos Cristo em nós e nos outros crendo que O Senhor tem apenas um plano para nós realizarmos:
 
“Não só a Igreja na sua totalidade, mas também cada cristão deve sentir-se escolhido pessoalmente, chamado e enviado: cada um de nós faz parte de um projeto cósmico, a construção do Reino de Deus. O grande pecado seria sentirmo-nos sozinhos ou sentirmo-nos inúteis” (1)
 
Como Igreja, continuamos a missão do Senhor, em todo tempo e lugar.
 
Reflitamos:
 
- Qual é a missão que Jesus me confia?
- Sinto alegria em realizá-la?
- Como realizar com êxito esta missão?
 
- Onde e quando sinto a presença e ação de Deus se revelando em minha vida?
- Quais exigências estão mais presentes ou ausentes na missão que realizo como discípulo missionário do Senhor?
 
- Como não temer e sucumbir diante da hesitação da fé, no enfraquecimento da esperança que inevitavelmente congela o fogo da caridade que deve arder em nossos corações, sobretudo quando acolhemos a Palavra Divina e nos nutrimos do Pão do Amor, o Pão da Eucaristia?
 
Concluímos com as palavras de São Cirilo de Jerusalém (séc. IV), sobre a ação do Espírito Santo na vida da Igreja:
 
“Branda e suave é a Sua aproximação; benigna e agradá­vel é a Sua presença; levíssimo é o Seu jugo! A Sua chegada é precedida por esplêndidos raios de luz e ciência. Ele vem com o amor entranhado de um irmão mais velho: vem para salvar, curar, ensinar, aconselhar, fortalecer, consolar, ilu­minar a alma de quem O recebe, e, depois, por meio desse, a alma dos outros”. Amém.
 
 
 
(1) Leccionário Comentado - Editora Paulus - Lisboa - p. 714


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