sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Sem lamentações inúteis

                                                        

Sem lamentações inúteis

Sejamos enriquecidos pelo Sermão escrito pelo Bispo Santo Agostinho (séc. V):

“Qualquer angústia ou tribulação que sofremos é para nós aviso e também correção. As Sagradas Escrituras não nos prometem paz, segurança e repouso; o Evangelho não esconde as adversidades, os apertos, os escândalos; mas quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10, 22). Que de bom teve jamais esta vida desde o primeiro homem, desde que mereceu a morte e recebeu a maldição, maldição de que Cristo Senhor nos libertou?

Não há então, irmãos, por que murmurar, como alguns deles murmuraram, como disse o Apóstolo, e pereceram pelas serpentes (1Cor 10,10). Que tormento novo sofre hoje o gênero humano que os antepassados já não tenham sofrido? Ou quando saberemos nós que sofremos o mesmo que eles já sofreram?

No entanto, encontras homens a murmurar contra seu tempo como se o tempo de nossos pais tivesse sido bom. Se pudessem retroceder até os tempos de seus avós, será que não murmurariam? Julgas bons os tempos passados porque já não são os teus, por isto são bons.

Se já foste liberto da maldição, se já crês no Filho de Deus, se já estás impregnado ou instruído das Sagradas Escrituras, admiro-me de que consideres bons os tempos de Adão. Esqueces que teus pais traziam consigo o mesmo Adão? Aquele Adão a quem foi dito: No suor de teu rosto comerás teu pão e lavrarás a terra donde foste tirado; germinarão para ti espinhos e abrolhos (cf. Gn 3,19 e 18). Mereceu isto, aceitou-o, como vindo do justo juízo de Deus.

Por que então pensas que os tempos antigos foram melhores que os teus? Desde aquele Adão até o Adão de hoje, trabalho e suor, espinhos e cardos. Caiu sobre nós o dilúvio? Vieram os difíceis tempos de fome e de guerra, que foram escritos para não murmurarmos agora contra Deus?

Que tempos aqueles! Só de ouvir, só de ler, não nos horrorizamos todos? Mais razões temos para nos felicitar que para murmurar contra o nosso tempo.”  (1)

Retomamos apenas o começo do Sermão:

“Qualquer angústia ou tribulação que sofremos é para nós aviso e também correção. As Sagradas Escrituras não nos prometem paz, segurança e repouso; o Evangelho não esconde as adversidades, os apertos, os escândalos; mas quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22)...”

 

Ninguém está livre de momentos de angústia, de tribulação. Hora mais, hora menos... 

Há momentos em que as coisas transcorrem com normalidade, noutros turbulências que parecem não mais passar.

De vez em quando somos surpreendidos com notícias que nos inquietam, nos levam a momentos de silêncio, de escuta, de questionamentos: suicídios, casamentos falidos, tumores irreversíveis (morte anunciada)...

Precisamos da Sabedoria do Espírito para ler os acontecimentos, buscando sempre um olhar que transcenda a cortina do fato em si. 

A autêntica e frutuosa fé jamais pode ser concebida como não participação no que a nós for próprio; e sua ausência, divino colírio, é uma das maiores limitações que possamos experimentar.

Muitas vitórias poderemos alcançar, mas, evidentemente, nenhuma sem empenho, renúncias, resistência e coragem.

Deste modo, a angústia nunca terá a última palavra e a tribulação terá contornos decifráveis e delimitáveis, porque com a graça e força divina, superável.

Jamais podemos permitir que a angústia e tribulação sejam vistas como limites últimos. 

Precisamos aprender a ver nelas sinais, avisos, aprendizados, amadurecimentos, mais que desejáveis: possíveis: 

Cada tempo tem suas dificuldades e provações, e à luz do Sermão somos convidados a perseverar até o fim, pois assim alcançaremos a salvação, conforme também diz as Sagradas Escrituras.

Evidentemente que não se pode desmerecer ou desconsiderar as dificuldades, sofrimentos e provações que fazem parte de nossa história, em todos os âmbitos.

Mas o que não podemos é mergulhar num falso saudosismo de que os dias foram melhores, e que hoje tudo é mais difícil. Cada tempo tem suas marcas, seus desafios, e cabe a nós buscarmos, com sabedoria, a melhor forma de enfrentá-los, e de encontrar as respostas e saídas possíveis.

Sem recuos, lamentos inúteis, mas a perseverança se faz necessária, para que não somente encontremos a saída, mas encontremos e passemos pela porta estreita que nos conduz à salvação (Lc 13,22-30).

Troquemos lamentos por confiança, perseverança, paciência, esperança, fidelidade e coragem, no viver dos sagrados compromissos que abraçamos desde o dia memorável de nosso Batismo, em que acolhemos em nós o mais belo Hóspede, o Espírito Santo que em nós faz morada, acompanhando-nos e nos assistindo em todos os momentos, com os dons necessários. Amém.

A Fé é a possibilidade da interação da Força e Graça Divina no mais profundo de nós, concretizando Esperanças cultivadas e inflamadas pela chama da Caridade, que um dia acesa no coração o foi, e que vigilantes jamais poderemos deixar apagar...  

Reflitamos:

- Por causa da fé, quantas muralhas foram transpostas e quantos recomeços se fizeram?

- Quantas metas e sonhos realizaram?

 

- Quantas curas se alcançaram?

- De quantos tropeços fomos levantados?

 

Concluímos com as palavras do Apóstolo Paulo e do Salmista respectivamente:

“Tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4,13);

“O Senhor é meu escudo e proteção, meu refúgio, minha rocha... a quem temerei?” (Sl 18,2; 27,1)

Ressoe, finalmente, este canto: “Eu confio em nosso Senhor, com fé, esperança e amor...”

 

(1)    Liturgia das Horas – Tempo Comum – Volume IV – Editora Paulus – p. 113-114

 


Graça e perseverança na missão

                                                     

Graça e perseverança na missão

 “Tende entre vós o mesmo sentimento
que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5)

Retomo as iluminadoras palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”:

 “A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação, com a carne dos outros. Na Sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura...” E ainda: “Precisamente nesta época, inclusive onde são ‘um pequenino rebanho’ (Lc 12,32), os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16). São chamados a testemunhar, de forma sempre nova uma pertença evangelizadora. Não deixemos que nos roubem a comunidade”

Portanto, é sempre tempo de olhar para frente e ver de que modo podemos contribuir, corajosa e decididamente, nesta “revolução da ternura” e sermos, de fato, uma comunidade sal da terra e luz do mundo, jamais permitindo que nos roubem a comunidade e a alegria de pertencer a esta.

É tempo de reavivar a chama da vocação batismal, que em nós foi acesa, para fazer brilhar a luz de Deus, com nossa ação evangelizadora, na mais bela expressão da ternura de Deus, que acolhe, ama e perdoa e recria a vida plena e feliz para todos.

É tempo de sermos uma Igreja missionária, autêntica casa da iniciação da vida cristã, na qual podemos celebrar nossa fé, formados e conduzidos pela Palavra Sagrada, resplandecendo a luz divina nos acontecimentos do cotidiano, mais conforme os desígnios de Deus.

É tempo de sermos uma Paróquia, comunidade de comunidades, onde se vive a proximidade, a comunhão, a fraternidade; uma Paróquia que não se fecha em si mesma, aberta aos horizontes maiores, que nos interpelam e nos desafiam, em evangélica expressão de solidariedade e missionariedade cristã.

Urge que todos nos empenhemos no anúncio e testemunho da Boa-Nova do Evangelho, expressando, assim, um verdadeiro amor inseparável à Igreja e a Jesus Cristo. Quanto mais nos sentirmos amados e envolvidos pelo amor divino, mais vivo e fervoroso será o nosso sim na missão que nos for confiada. 

Oportunas são as palavras do Apóstolo Paulo: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5), pois se os divinos sentimentos do Senhor tivermos, continuaremos firmes n’Ele (Fl 4,1), com Ele e para Ele, do qual nos vem toda força e graça necessária no bom combate da fé (Fl 4,13; 2 Tm 4,6-7), edificando uma comunidade essencialmente evangelizadora, cumprindo assim a sua missão como pequenino rebanho do Senhor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A fecundidade missionária

 


A fecundidade missionária 


Em tempo favorável ou adverso,
A missão de anunciar o Evangelho
Em todos os espaços nos acompanha.
 
A Igreja, como uma tenda, alargar
Para a necessária inclusão,
A todos/as a Luz divina comunicar.
 
Ainda que a escuridão pareça vencer,
Não perder a esperança de superação,
Acompanhados de súplicas e orações.
 
Ainda que digam que de nada adianta,
Que esforços multiplicados não valem a pena,
Mantenhamos a ternura e a alma serena.
 
Fecundidade missionária é desafio
Para profetas de ontem, de hoje e de sempre,
Na escuta atenta da voz do Verbo.
 
A Sua Palavra penetrante,
Para as sombras, luz radiante.
É Pão que alimenta e sacia.
 
A Sua Palavra espada cortante,
Revela nossos medos e incertezas,
Sobretudo ouvida na Sagrada Mesa.
 
Depois, Palavra que Se faz Pão,
Pão de imortalidade, antídoto para não morrer.
Vigor para os passos: mundo novo há de nascer.
 
“Levanta-te e come”, o anjo nos fala mais uma vez.
Aos cansados, sem forças, à humanidade inteira.
Aos que têm fome de amor, vida e paz verdadeira. Amém. 


Fontes: 1 Rs 19,5-8; Jo 1,14; Hb 4,12; Santo Inácio de Antioquia.
 

“Fica conosco, Senhor, suplicamos...”

                                           

                  

“Fica conosco, Senhor, suplicamos...”
 
Na Liturgia das Horas, encontramos esta oração nas Vésperas, que nos remete ao Evangelho de Lucas (Lc 24, 13-35), que podemos repetir em cada entardecer, certos de que a noite cai lentamente, cede lugar ao anoitecer; como o sol poente cederá lugar à lua, em suas fases naturais:
 
“Ficai conosco, Senhor Jesus, porque a tarde cai e, sendo nosso companheiro na estrada, aquecei-nos os corações e reanimai nossa esperança, para Vos reconhecermos com os irmãos nas Escrituras e no partir do Pão. Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo”. (1)
 

Oremos:
 
Fica conosco, Senhor, e ao participarmos da Tua Mesa,  e na partilha do Pão da Eucaristia, reconheçamos Tua real presença, como os discípulos que Te reconheceram ao partir o Pão, e os olhos foram abertos.
 
Fica conosco, Senhor, e jamais nosso coração seja endurecido e tardio para entender o Mistério de Tua Paixão, Morte e Ressurreição; e que a Tua Palavra nos ilumine e faça arder nosso coração.

 
Fica conosco, Senhor, sobretudo para que solidifiquemos nossa amizade e intimidade contigo, de modo especialíssimo ao participarmos da Ceia da Eucaristia.

 
Fica conosco, Senhor, em todos os momentos, favoráveis ou adversos, obscuros ou luminosos, opacos ou radiantes de luz, alegres ou tristes, angustiados ou cheios de esperança.

 
Fica conosco, Senhor, fortaleça nossa fé, reanima nossa esperança e inflama nossos corações, na mais pura e desejável caridade para com o nosso próximo.

 
Fica conosco, Senhor, pois és nosso “companheiro na estrada”, companheiro de viagem, sobretudo quando passarmos por vales tenebrosos e montanhas de dificuldades.

 
Fica conosco, Senhor, na travessia de desertos áridos da existência, a fim de que vençamos as tentações (ter, poder e ser), porque, contigo, mais que vencedores o somos.

 
Fica conosco, Senhor, a Ti nos dirigimos confiantes, pois Tu vives e Reinas com o Teu Pai, na comunhão com o Espírito Santo, na mais perfeita comunhão de amor.  Amém. 

 

(1)   Oração das Vésperas- Liturgia das Horas (cf Lc 24,13-35)

Naveguemos pelo oceano de incertezas


 

Naveguemos pelo oceano de incertezas

“Coragem, sou Eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27)

Do alto da montanha, olho para a imensidão do mar e me pergunto sobre o que é viver.

Algumas respostas vêm de um grande antropólogo que recentemente nos deixou, Edgar Morin:

- “Por mais que acreditemos armados de certezas e programas, precisamos aprender que toda vida é um navegar num oceano de incertezas, atravessando algumas ilhas ou arquipélagos de certezas, onde nos reabastecemos.” (1)

- “A certeza e o inesperado precisam ser integrados na História humana. Nela, o imprevisto não passa de acaso, é também, como a revolução para Marx, a ‘velha toupeira que trabalha debaixo da terra para aparecer de repente’. A surpresa do inesperado não deve ser anestesiada. Ao contrário, deve nos estimular a compreendê-lo, pensá-lo e, sem poder prevê-lo, pelo menos esperá-lo” (2)

“- As grandes venturas só têm um tempo. Sua lembrança não me enche apenas de saudade, mas também de uma doce e triste alegria.” (3)

- “Em primeiro lugar, quero indicar que o risco do erro e da ilusão é permanente em toda a vida humana, pessoal, social, histórica, em toda decisão e ação e mesmo em toda abstenção, podendo conduzir a desastres.” (4)

E, por fim, a instigante afirmação de Rita Levi-Montalcini, Prêmio Nobel de Medicina:

“ Dê vida a seus dias, em vez de dar dias à sua vida.” (5)

Erros, ilusões, o impensável inesperado, certezas, incertezas, pequenas ou grandes venturas marcadas como selo na memória e no coração...

O mar, o vento, as ondas, as tempestades... Travessias para a outra margem consiste todo o viver...

Viver com intensidade e paixão pela vida, dando vida a cada dia, a cada momento, a cada instante.

Não sucumbir nem ao medo nem ao cansaço, tampouco recolher-se em amedrontada solidão do que possa devorar vorazmente a própria existência.

Descer a montanha, navegar no mar das incertezas, porque Deus, em sua infinita bondade, concede-nos, de fato, “ilhas e arquipélagos de certezas onde nos abastecemos”; e para quem crê, a Eucaristia é, por excelência, uma delas.

Deus Onipotente e misericordioso fez-se presente em nossa travessia, por meio do Seu Filho, e nos comunica o sopro suave do Seu Espírito, e que hoje arde em nossos corações como chama eterna de Amor. Amém.

 

(1)    Lições de um século de vida - Edgar Morin – Bertrand Brasil – p.33

(2)   Idem – p.36

(3)  P.42

(4)  P.91

(5)   P.37



Com a proteção de Maria e do Santo Anjo do Senhor

 


Com a proteção de Maria e do Santo Anjo do Senhor


“À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus;

não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades,

mas livrai-nos sempre de todos os perigos,

ó Virgem gloriosa e bendita”.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois vós entre as mulheres

e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus,

rogai por nós pecadores,

agora e na hora da nossa morte.

Amém” (1)


A proteção do Santo Anjo do Senhor, peçamos:

 

“Santo Anjo do Senhor,

meu zeloso guardador,
se a ti me confiou
a piedade divina,
sempre me rege, me guarda,
me governa e me ilumina.
Amém."

 


(1)  A mais antiga Oração à Nossa Senhora: 
https://www.vaticannews.va/pt/oracoes/a-vossa-protecao.html 

 

Desacelera!

 


Desacelera!


Atividades se multiplicam.

Compromissos assumidos a cumprir,

Uma única agenda não parece ser o bastante.

As cobranças por resultados,

Ora externas, ora autocobranças.

O tempo parece escapar pelos dedos.

Consumidos, por vezes, sem atividade alguma consumar.

 

A vida da cidade impõe seu ritmo,

Mobilidade que exaure forças,

Cansaço, trânsito, acidentes.

A busca por um pequeno espaço,

Tem seus cenários que encantam,

Outros nem tanto assim.

E a vida segue, por vezes, freneticamente.

 

Um suspiro, respiro, paro, reflito.

Me ocorre as palavras do Amado:

"E porque ficar preocupados quanto ao vestuário?

Aprendei dos lírios do campo, como crescem.

Não trabalham, nem fiam, e, no entanto, eu vos digo,

Nem Salomão, em toda a sua glória,

Jamais se vestiu como um só dentre eles.”(1)

 

E ainda um momento a contemplar:

“Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar,

E passou a noite em oração a Deus.” (2)

E o Seu convite é preciso ouvir, jamais recusar,

Ontem aos discípulos, a nós e em todo o tempo:

"Vinde vós, sozinhos, para um lugar deserto,

e descansai um pouco." (3)

 

Desacelerar é mais do que preciso:

Encontrar tempo para o silêncio,

Para a meditação, a alma em oração.

Repouso no Espírito, forças renovar.

Cuidar da mente, do corpo, inseparavelmente.

Encontro com o outro, diálogo, escuta, proximidade.

Criar vínculos de comunhão, sagrada amizade.

 

Façamos silêncio, ainda que por um curto tempo:

Ouçamos a Deus na ausência de nossas palavras.

Ouvir dos lábios do Divino Mestre, palavras que iluminam,

Refazem nossos sonhos, renovam nossas forças.

Desaceleremos e sentemo-nos aos pés do Senhor,

Como outrora fizera Maria, ouçamos Sua Divina Voz.

E com ela aprender a escolher a melhor parte. (4)

Não será jamais uma perda do tempo, mas o resignificá-lo. Amém.

 

 

(1)               Mt 6,28-29

(2)             Lc 6,12

(3)             Mc 6,31

(4)            Lc 10,38-42

 

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG