quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Em poucas palavras...(XXIVDTCA)

                                             


O amor de Deus é eterno

“O amor de Deus é «eterno» (Is 54, 8): «Ainda que as montanhas se desloquem e vacilem as colinas, o meu amor não te abandonará» (Is 54, 10). «Amei-te com amor eterno: por isso, guardei o meu favor para contigo» (Jr 31, 3).”

 

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 220

A parábola do servo sem compaixão ” (XXIVDTCA)

                                                


A parábola do servo sem compaixão

 

Aprofundando a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 18,21-35); voltemo-nos para a Bula Misericordiae Vultus”, do Papa Francisco, quando da declaração do Ano da Misericórdia (08/12/15 - 20/11/16). 

“Temos depois outra parábola da qual tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã.

Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 22) e contou a parábola do «servo sem compaixão».

Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e fá-lo meter na prisão.

Então o senhor, tendo sabido do fato, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: «Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?» (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: «Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração» (Mt 18, 35).

A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os Seus verdadeiros filhos.

Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir.

Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração.

Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: «Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento» (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.

Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o Seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias.

A misericórdia de Deus é a Sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros.”

Contemplamos a misericórdia divina através da parábola, em que Jesus nos apresenta a pergunta de Pedro, sobre quantas vezes se deve perdoar um irmão: deve-se perdoar setenta vezes sete, ou seja, o perdão se expressa em plenitude ilimitada.

Jesus, de fato, é o rosto da misericórdia divina:

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré” (Misericodiae vultus” – Papa Francisco).

Sejam nossas comunidades lugar do aprendizado e da vivência do perdão, que deverá ser vivido em todos os âmbitos e em todo o tempo, como sinal do Reino de Deus.

 

PS: A dívida do servo perdoado era exorbitante (10.000 talentos; sendo que um talento equivale a 6000 denários; 1 denário equivalente a um dia de trabalho). Seriam necessários mais de 165.000  anos para pagamento de sua dívida. De outro lado, a dívida não perdoada por ele em relação ao seu devedor era de apenas 100 denários, ou seja, menos de um terço de dias de trabalho de um ano: conclusão – de fato, o amor de Deus por nós é pleno e ilimitado (exorbitante). De acordo com a nota da Bíblia de Jerusalém, 10.000 talentos equivale a 174 toneladas de ouro; 100 denários a 0,30 gramas de ouro.

 

Em poucas palavras... (XXIVDTCA)

                                                       


Eucaristia e comunhão vivida

“Não há limite nem medida para este perdão essencialmente divino (Mt 18,21-22; Lc 17,3-4). Quando se trata de ofensas (de «pecados», segundo Lc 11, 4, ou de «dívidas» segundo Mt 6, 12), de fato nós somos sempre devedores: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros» (Rm 13, 8). A comunhão da Santíssima Trindade é a fonte e o critério da verdade de toda a relação (1 Jo 3,19-24). E é vivida na oração, sobretudo na Eucaristia (Mt 5,23-24): 

«Deus não aceita o sacrifício do dissidente e manda-o retirar-se do altar e reconciliar-se primeiro com o irmão: só com orações pacíficas se podem fazer as pazes com Deus. O maior sacrifício para Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e um povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (São Cipriano).” (1)

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 2845

A dimensão ilimitada do perdão (XXIVDTCA)

 


A dimensão ilimitada do perdão

Sejamos enriquecidos pelo Sermão n.139 escrito por São Pedro Crisólogo (séc. V), bispo e doutor da Igreja.

“Assim como o ouro fica escondido na terra, assim também o sentido divino se oculta nas palavras humanas. Por isso, sempre que nos é proclamada a palavra evangélica, a mente deve colocar-se alerta e o espírito deve prestar atenção, para que o entendimento possa penetrar o segredo da ciência celeste.

Digamos por que o Senhor começa hoje com estas palavras: Tenham cuidado, se teu irmão te ofende, repreende-o, se ele se arrepende, perdoa-o.

Coragem, irmão! Deus te ordena: perdoa, perdoa os pecados; sê misericordioso frente ao delito, perdoa as ofensas de que fostes objeto, não percas agora os poderes divinos que tens; tudo o que tu não perdoares em outro, o negas a ti mesmo.

Repreende-o como juiz, perdoa-o como irmão, pois a caridade unida à liberdade e a liberdade fundida com a caridade expele o terror e anima ao irmão.

Quando o irmão te fere está exaltado, quando comete um delito, está enfurecido, está fora de si, perdeu todo sentimento de humanidade; quem não o socorre pela compaixão, quem não lhe cura mediante a paciência, quem não lhe sara perdoando-o, não está são, está mal, enfermo, não tem comiseração, demonstra ter perdido os sentimentos humanitários.

O irmão está furioso, atribui à enfermidade: tu, ajuda-o como a um irmão; tudo o que ele faça em semelhante situação atribui à sua perturbação, e o ocorrido não poderás imputá-lo ao irmão; e tu prudentemente lançarás a culpa à enfermidade, e ao irmão, o perdão; desta forma, sua saúde redundará em tua honra e o perdão te acarretará o prêmio.

Se teu irmão te ofende, repreende-o; se ele se arrepende, perdoa-o. Perdoa ao que peca, perdoa ao que se arrepende, para que, quando tu, por sua vez, pecares, o perdão te seja concedido como compensação, não como doação.

Sempre é bom o perdão, porém quando é devido, torna-se duplamente doce. Aquele que, perdoando, já se assegurou o perdão antes de pecar, evitou o castigo, tem inclinado ao juiz em seu favor, enganou o juízo.

Se te ofende sete vezes em um dia, e sete vezes volta a dizer-te: “sinto muito”, o perdoarás. Por que constrange com a lei, reduz no número e coloca um limite de perdão Aquele que tanto nos favorece pela misericórdia e que tão facilmente concede pela graça? E se em lugar de sete te ofende oito vezes? Vai prevalecer o número sobre a graça? Pode contrapor-se o cálculo à bondade? Pode uma só culpa condenar ao castigo a quem sete vezes consecutivas obtém o perdão? De jeito nenhum. Se é proclamado feliz aquele que perdoou sete vezes, muito mais feliz será aquele que perdoa setenta vezes sete.

Esquecido deste mandato, Pedro interroga ao Senhor, dizendo: Se meu irmão me ofende, quantas vezes devo perdoá-lo? Até sete vezes? Jesus lhe responde: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

Portanto, o número prescrito não limita, mas amplia o perdão, e ao que o preceito coloca um limite, o assume ilimitadamente a livre vontade; de maneira que se perdoares até o limite do que ordena o preceito, outro tanto te será contado à obediência, te será contado ao prêmio. E se o número sete setuplicado por dias, meses e anos implica a concessão da totalidade do perdão, calcule o cristão e julgue o ouvinte que cotas não alcançará o número sete setuplicado setenta vezes sete.

Então realmente vai cessar toda forma contratual de débitos e créditos; então se abolirá de verdade qualquer condição servil; então chegará àquela liberdade sem fim; então será recuperado o campo eterno e imortal; então chegará o verdadeiro perdão quando será inclusive abolida a própria necessidade de pecar, quando, cancelada toda imundície, o mundo deixará de ser imundo, quando com o retorno da vida deixará de existir a morte, quando estabelecido o reinado de Cristo, o diabo perecerá definitivamente.

Orai, irmãos, para que o Senhor aumente em nós a fé e possamos finalmente crer, ver e possuir estes bens.”(1)

Como afirmou o bispo, o número prescrito não limita, mas amplia o perdão: o perdão tem dimensão universal e infinita, porque assim é o amor de Deus: verdadeiramente indizível.

Também nós somos chamados a viver a graça do perdão, não apenas pedir perdão a Deus, mas viver sua prática em relação ao nosso próximo, assim como rezamos na Oração que o Senhor nos ensinou – “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Cf. Mt 6,11).

 

(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 - pág. 213-214

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Bem-Aventuranças: único caminho para a felicidade

                                                        

Bem-Aventuranças: único caminho para a felicidade

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5-12a), em que Jesus nos apresenta o Sermão da Montanha, que se vividas é o único e autêntico caminho para a felicidade que tanto desejamos e buscamos.

Vemos em sua proposta, um programa de felicidade: Paradoxal caminho da felicidade, porque tão diferente da felicidade que o mundo oferece, porque as Bem-aventuranças vividas, inevitavelmente a cruz cotidiana deve ser assumida e carregada, com suas necessárias renúncias, para maior liberdade e fidelidade no seguimento ao Senhor.

Importa acolhê-lo, quer na montanha (Evangelho de Mateus - Mt 5,1-12a), ou mesmo na planície (Evangelho de Lucas - Lc 6,20-26).

É fundamental que vivamos este Projeto na planície de nosso cotidiano. Não podemos ficar para sempre na montanha, ainda que nos seja tentador (Pedro que o diga).

Enquanto o mundo novo não irrompe nas relações entre nós, os “ais” de Jesus ecoam no mais profundo de nosso coração, bem como o convite à vivência das Bem-aventuranças.

Quando os “ais” de Jesus são acolhidos (Lc 6,20-26), rompe-se e supera-se todo egoísmo, prepotência, injustiça, exploração, ilusões, dolorosas frustrações, porque não confiaremos demais nas pessoas (prescindindo de Deus), tão pouco em nós (em execrável autossuficiência), nem confiaremos nas coisas em si, nos bens que passam...

Quando as Bem-aventuranças são encarnadas, inauguram-se relações de partilha, solidariedade, comunhão e amor, humildade, gratuidade, doação... Ganham vigor as relações fraternas.

Celebrando  a Eucaristia, experimentamos a força do Ressuscitado, subimos a montanha Sagrada, onde Deus Se revela e nos envolve com Seu sopro e rompemos com o velho mundo e sua enganadora proposta de felicidade.

Precisamos subir sempre a Montanha Sagrada e respirar o ar de Deus que nos refaz de nossos cansaços, fortalece-nos para suportar sofrimentos, superando quaisquer sinais de marginalização, para que o Reino de Deus aconteça.

Ainda que alcançado por caminhos tão diferentes daquele que a humanidade teima em propor... A felicidade divina é alcançada não por quem tem todos os tesouros da terra, mas por quem fizer de Deus seu grande e belo tesouro.

Nossas comunidades precisam encarnar o Projeto das Bem-aventuranças! Elas são caminhos para se viver com absoluta confiança em Deus e chegar até Ele, alcançando o desejo mais profundo d’Ele para nós, e que desde a concepção desejamos: A felicidade! Para a felicidade que Deus nos criou! É este o genuíno e irremovível Projeto de Deus para nós!

A fé na Ressurreição faz-nos comprometidos com o Projeto das Bem-aventuranças, alcançando a felicidade desde já, para desabrochar plenamente na madrugada de nossa Páscoa.

A felicidade está ao nosso alcance, mas saibamos o caminho único para alcançá-la: o caminho da Bem-Aventuranças.

Este caminho passa pela cruz, nem sempre pela humanidade, entendido!
Por quem recebeu o Batismo, nem sempre bem assumido!
Caminho da cruz, aparente sinal de fracasso e desilusão,
Mas para quem crê, vitória, alegria transbordante no coração! 
Sejamos pobres em espírito porque a Eles pertence o Reino dos Céus, disse o Senhor.

Peregrinos da esperança, testemunhas das Bem-Aventuranças

 


Peregrinos da esperança, testemunhas das Bem-Aventuranças

Senhor Jesus, firmai nossos passos, para que, peregrinos da esperança, sejamos homens e mulheres das bem-aventuranças, de tal modo que:

- Nada esperemos do mundo, mas de Vosso Amado Pai;

- Olhemos de alto a baixo o mundo, e sem rancor, abertos  completamente a Deus, cuja face misericordiosa nos revelastes;

- Tenhamos uma existência marcada pela atitude de serviço e de amorosa disponibilidade, que Vós assumistes no momento do batismo;

- Vivamos como Vós vivestes, em total abertura para o Reino de Deus, recebendo-o, desde já, como uma profunda alegria em sua existência terrena, muitas vezes pouco atraente;

- Sejamos confortados e saciados, porque amados filhos de Deus e discípulos Vossos;.

- Jamais seremos desapontados nas promessas, pois sabemos em quem colocamos nossa confiança e esperança. Amém.

 

 

PS: Fonte – Comentário do Missal Cotidiano – Editora Paulus – passagem do Evangelho (Lc 6,20-26) – p. 1255

Oportuno para a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,1-12a)

Sempre Contigo, Senhor

                                                       

Sempre Contigo, Senhor

“Bem-aventurados vós, os pobres,
porque vosso é o Reino de Deus”
 (Lc 6,20)

Ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,20-26), na quarta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum, em que Jesus nos apresenta as Bem-aventuranças.

Rezemos a partir do Sermão de São Bernardo (séc. XII), muito oportuno para nossa espiritualidade, como peregrinos da esperança, na fidelidade ao Senhor:

“É melhor para mim, Senhor,
sofrer a tribulação,
contanto que estejas comigo,
do que reinar sem Ti,
passar bem sem Ti,
gloriar-me sem Ti.

É melhor para mim, Senhor,
abraçar-me a Ti na tribulação,
ter-Te comigo no forno ardente,
do que estar sem Ti,
ainda que fosse no próprio Céu.

Que me importa o Céu sem Ti?
E, contigo, que me importa a terra?”

Feita com piedade e sinceridade, a oração nos torna mais perfeitamente configurados a Jesus, tendo d’Ele mesmos  sentimentos, e assim, com as renúncias necessárias, tomamos e carregamos nossa cruz de cada dia, com confiança, coragem e serenidade.

Portanto, jamais nos distanciemos do Senhor e de Seu Projeto de vida e felicidade plena para todos nós.

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG