quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Sementes da esperança
Fervorosos discípulos missionários do Ressuscitado
Fervorosos discípulos missionários do Ressuscitado
“Fomos consepultados com Cristo, diz Paulo (Rm 6,4)
e acrescenta como quem já recebeu as arras da ressurreição:
E com Ele ressuscitamos (cf. Rm
6,4).”
Sejamos enriquecidos
pelo Comentário sobre o Evangelho de
João, de Orígenes, presbítero (Séc. III):
“Destruí este templo
e em três dias o reedificarei (Jo 2,19). Os apegados ao corpo e às coisas
sensíveis, creio, parecem indicar os judeus, que irritados por terem sido
expulsos por Jesus, acusando-os de transformarem a casa do Pai em mercado de
seus produtos, pedem um sinal.
Por esse sinal devia
Jesus justificar o seu procedimento e provar que era o Filho de Deus, o que
eles na sua incredulidade não queriam admitir. Mas o Salvador ajuntou uma
palavra sobre seu corpo, como se falasse daquele templo; aos que interrogavam: Que
sinal mostras para assim fazeres?, responde: Destruí este templo e em
três dias o reedificarei.
Todavia ambos, tanto o
templo como o corpo de Jesus, compreendidos como unidade, parecem-me ser figura
da Igreja. Por ter sido edificada com pedras vivas; feita casa espiritual
para o sacerdócio santo (1Pd 2,5).
Edificada sobre o
fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo sua máxima pedra angular
o Cristo Jesus (Ef 2,20), existindo em verdade, como templo. Se, porém, por
causa da palavra: Vós sois o corpo de Cristo e membros uns dos outros (1Cor
12,27), se entender serem destruídas e deslocadas as junturas e disposições das
pedras do templo, como se lê no Salmo 21 sobre os ossos de Cristo, pelas
ciladas das perseguições e tribulações e por aqueles que combatem a unidade do
templo por contradições, levantar-se-á o templo e ressuscitará o corpo ao
terceiro dia. Após o dia da maldade que pesa sobre ele, e após o dia da
consumação que se seguir.
Seguirá de perto o
terceiro dia do novo céu e da terra nova, quando esses ossos, quero dizer, toda
a casa de Israel, serão reerguidos, no grande domingo, em que a morte é
vencida.
Assim a ressurreição de
Cristo depois da paixão contém o mistério da ressurreição do corpo total de
Cristo. Como aquele corpo de Jesus, sensível, foi pregado na cruz, sepultado e
depois ressuscitado, assim todo o corpo dos santos de Cristo com ele foi pregado
na cruz e agora já não vive mais. Cada um deles, à semelhança de Paulo, não se
gloria em coisa alguma a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo por quem
está crucificado para o mundo e o mundo para Ele.
Por isto não apenas foi
cada um de nós, junto com Cristo, pregado à cruz e crucificado para o mundo,
mas também, junto com Cristo, sepultado: Fomos consepultados com Cristo,
diz Paulo (Rm 6,4) e acrescenta como quem já recebeu as arras da ressurreição: E
com Ele ressuscitamos (cf. Rm 6,4).”
(1)
Cristo falava do templo
do seu corpo, quando da destruição e reconstrução que faria.
Como o Apóstolo Paulo,
renovemos nossa fidelidade a Jesus, com as renúncias necessárias, para
carregarmos cotidianamente nossa cruz.
Mortos com
Ele para também com Ele ressuscitarmos, crendo e contemplando as arras da
Ressurreição. De fato, não nos faltam os sinais da Ressurreição, da vitória de
Cristo sobre o pecado e a morte.
A morte na
cruz não ficou sem a última palavra: A Ressurreição.
Renovemos
nossa fé: Creio em Deus Pai todo-poderoso... na ressurreição da carne, na vida
eterna. Amém.”
(1) Liturgia das Horas – Volume IV – Editora Paulus - p. 172-174
“Por que as pessoas procuram uma religião?”
Uma pergunta aparentemente simples, mas nem tanto: “Por que as pessoas procuram a religião?”
Cura: interação da ação divina e humana
Cura: interação da ação divina e humana
"Pois a glória de Deus é o homem vivo,
e a vida do homem é a visão de Deus. "
Reflitamos sobre a enfermidade e a cura, quando Jesus curou a sogra de Pedro, bem como a muitos enfermos de diversas doenças, ao final da tarde (Mc 1,29-39; Lc 4,38-44).
Assim lemos no Comentário do Missal Dominical:
“A experiência de uma enfermidade ou de uma situação de perigo pertence à da bagagem de todo homem.
Numa sociedade secularizada não existe o dilema entre dirigir-se ao médico ou recorrer à oração e acender uma vela.
Isto não quer dizer que tenha desaparecido a religiosidade ou que seja sintoma de ateísmo. Talvez se tenha simplesmente mudado o modo de encontrar-se com Deus.
O mundo foi confiado ao homem para que o transforme, construindo uma realidade sempre mais humana através da ciência e da organização social, que constituem o instrumento e as modalidades de transformação.
Esta tarefa se insere no quadro da relação Deus-homem e a ciência se torna seu lugar de encontro. E o é porque o homem, enquanto artífice no meio das realidades terrestres, se torna colaborador de Deus, e a ciência é a nova síntese baseando-se nos elementos do ‘criado-por-Deus’.
A ciência, pois, longe de afastar de Deus, aproxima mais profundamente dele, pelo respeito ao homem.
No quadro da fé, Cristo é libertador-vencedor da morte por Sua Ressurreição. Sua vitória é radical, mas em estado potencial. Cabe ao homem ‘novo’ tornar consistente esta vitória de Cristo.
Vencer a doença pela pesquisa científica significa ‘viver a Ressurreição de Cristo’. A libertação da moléstia, que a ciência realiza, assume uma significação particular no contexto do símbolo da libertação radical.
Debelar uma enfermidade, eliminar uma praga social, é símbolo-sacramento da libertação para a qual o Pai conduz a humanidade.”
Retomo duas afirmações para reflexão:
- “Numa sociedade secularizada não existe o dilema entre dirigir-se ao médico ou recorrer à oração e acender uma vela”;
- “Vencer a doença pela pesquisa científica significa ‘viver a Ressurreição de Cristo’”.
A oração, como expressão da fé em Deus, não dispensa a interação e colaboração do saber humano, das tecnologias, do desenvolvimento dos recursos disponíveis para debelar, curar as enfermidades das quais somos todos vulneráveis.
A fé em Deus, ao contrário, é um impulso para que mais pessoas tenham acesso ao que a medicina pode oferecer para curar e tornar a vida mais digna, mais humana.
A fé não dispensa compromissos com políticas públicas para que todos tenham acesso a um melhor atendimento médico, em Unidades Básicas, Postos de Saúde, Hospitais etc.
A fé em Deus nos leva à indignação e denúncia de desvios dos recursos que deveriam ser revertidos na promoção do bem comum, favorecendo melhores condições de atendimento a um enfermo, sobretudo os mais pobres.
Acender velas a Deus, confiando em Seu poder de curar, é possível e necessário, mas não se pode exigir que Ele faça o que esteja ao alcance de todos nós.
Urge vencer a doença pela pesquisa científica, a cada dia mais avançada, e isto nos faz verdadeiramente pascais, partícipes do Mistério da Paixão e Morte do Senhor, que veio no curar e nos salvar.
A cura de Deus, portanto, é graça, e podemos acender nossas velas em oração, mas sejam favorecidos todos os meios possíveis que o saber científico desenvolveu, como graça de Deus, para que as dores sejam amenizadas, enfermidades curadas.
Cura do corpo e da alma foram ações de Jesus, e serão sempre, pois Deus nos quer vivos e saudáveis, porque fomos criados à Sua imagem e semelhança, e, o Seu sopro de criador, recebemos, e nos tornamos Sua morada.
Finalizo com as palavras do Bispo Santo Irineu (séc. II):
“Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus. Com efeito, se a manifestação de Deus, através da criação dá a vida a todos os seres da terra, muito mais a manifestação do Pai, por meio do Verbo, dá a vida a todos os que veem a Deus”.
(1) Comentário do Missal Dominical - Editora Paulus - p.893
Continuemos a missão do Senhor
A confiança dos inocentes na ação divina
A confiança dos inocentes na ação divina
Na segunda-feira da quinta semana do Tempo da Quaresma, ouvimos a passagem do Livro do Profeta Daniel (Dn 13,1-9.15-17.19-30.33-62), que nos apresenta o testemunho de fidelidade da bela e jovem Suzana (origem do hebraico, que significa lírio, açucena).
Como bem sabemos, ela foi insidiada por dois juízes anciãos de Israel, no tempo do Exílio na Babilônia.
Trata-se de um relato fruto da mais fina psicologia, com uma notável tensão progressiva até ao ensinamento didático que se pretende transmitir: o triunfo da inocência sobre a maldade.
Quanto à sua redação, remonta provavelmente ao século I a.C., e reflete a polêmica contra os saduceus e as autoridades políticas e religiosas desse tempo.
Com a narração, vemos a condenação amarga e maldosa dos chefes perversos e mentirosos, afastados de Deus e indignos de sua missão como guias do povo.
A atitude confiante de Suzana no Senhor reflete a confiança dos pobres e pequeninos em Deus, que defende os inocentes e nunca os abandona, porque têm tão somente n’Ele a esperança.
Suas palavras: – “Prefiro cair nas vossas mãos sem ter feito nada, a pecar na presença do Senhor”, é o grito dos mártires Macabeus e a mais bela expressão dos seus heroicos sentimentos, séculos mais tarde.
A jovem, sem nenhum apoio humano, com a consciência inocente, conta com a intervenção de Deus na pessoa e palavras de Daniel, como nos revela a passagem.
Experimenta a intervenção divina, que sempre se manifesta de modo surpreendente, invertendo uma situação aparentemente irreversível.
Este relato bíblico remete a ontem, hoje e em todos os tempos àqueles que procuram manter viva a fé em sintonia com a vida, em absoluta confiança em Deus, mantendo firme esperança em Sua Palavra, que nos impele ao relacionamento profundo e fecundo de amor.
Concluindo, lembramos a passagem do Evangelho de João (Jo 8,1-11), sobre a pecadora surpreendida em adultério, e a ação misericordiosa em seu favor, desmascarando a hipocrisia dos escribas e fariseus, escondidos em sua falsidade.
Por sua atualidade, pode ser também uma página iluminadora para refletirmos sobre o sofrimento dos inocentes; as injustiças cometidas contra os pobres de todos os tempos; e de modo especial toda e qualquer forma de violência cometida contra a mulher, em sua pecaminosa expressão – o feminicídio.
Fonte de pesquisa:
Lecionário Comentado – Volume Quaresma-Páscoa - Editora Paulus - Lisboa – 2011 - pp. 232-233
Comentários à Bíblia Litúrgica – Gráfica Coimbra 2 – pp.681-682







