sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Em poucas palavras...

                                             


Antes, adquirir virtudes

“Procurai adquirir as virtudes que julgais faltarem nos vossos irmãos, e já não lhes vereis os defeitos, porque vós mesmos não os tereis” (1)

 

(1) Santo Agostinho, Comentário sobre os salmos, 30, 2, 7

O Amor de Deus cura as feridas da alma

                                                                         

O Amor de Deus cura as feridas da alma

Há Missas que ecoam para sempre,
Como deve ecoar sempre o Mistério celebrado,
A Palavra proclamada, na homilia explicada...
Quero então a uma delas voltar.

À Missa se volta? Desde quando?
A Missa continua, prolonga-se, eterniza-se...
Momento de graças vivenciado,
Para sempre eternizado.

O Profeta Isaías cantou a missão do Servo,
Sobre o qual pousaria o Espírito do Senhor,
Para o ano da graça anunciar
E a libertação dos cativos propiciar.

Nesta missão algo maravilhoso fará.
A mais preciosa cura que precisamos
Em grau maior ou menor, vejamos:
“Ele vem curar a ferida da alma”

“Ferida da alma” Sem espiritualizações fúteis.
Quantas vezes ela nos marca e teima permanecer...
O que fazer para curá-la, cicatrizá-la?
Haverá ferida mais difícil a ser curada?

Desconheço, pois ela está no mais profundo do nosso ser.
Para curá-la somente o Seu Extremo Amor.
Reconhecê-la, assumi-la, desejar curá-la.
Sem reminiscências, cicatrizes ardentes.

Somente o Amor de Deus tem poder pleno para curá-la.
O Amor de Deus cura as feridas da alma.
O Amor de Deus cura todas as feridas.
Se assumidas, pelo Amor Divino serão redimidas.

Seu Extremo e Indizível Amor
Que contemplamos em Suas chagas e feridas.
Amor, bondade, mansidão, ternura exaladas,
Para que tantas almas feridas sejam curadas.

Sejamos curados pelo Amor Divino
Destas indesejáveis feridas do íntimo.
Sejamos também desta cura instrumentos.
Bem ao lado há alguém que dela precisa.

Curados para curar com a ação do Santo Espírito.
Curados de nossas feridas para curar do outro as feridas.
Haverá graça maior que Deus possa por nós realizar?
Por isto, Seu Espírito age revitalizando nossas vidas.

Para quem em Deus confia
Não há feridas eternas.
Que Seu Amor imensurável
Nos acompanhe a cada dia!

O sinal da Cruz Redentora

                                                                         

O sinal da Cruz Redentora

Com este Sermão do Bispo e Doutor da Igreja, São João Crisóstomo (séc. IV), reflitamos sobre o Mistério da Cruz Redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois tudo se consuma entre nós pela Cruz.

“Portanto, que ninguém se envergonhe dos sagrados símbolos de nossa Salvação, que em si contém a origem de todos os bens, e pelos quais temos vida e existimos. Antes, levemos por toda a parte, como uma coroa, a Cruz de Cristo. Tudo, de fato, se consuma entre nós pela cruz. Quando temos de regenerar-nos, ali está presente a cruz; quando nos alimentamos do místico alimento; quando somos consagrados ministros do altar; se é necessária qualquer outra ação sagrada, ali está sempre presente este símbolo da vitória. Daí o fervor com que o inscrevemos e desenhamos sobre as nossas casas e paredes, sobre as janelas, sobre nossa fronte e sobre o coração.

Porque este é o sinal de nossa salvação, o sinal da liberdade do gênero humano, o sinal da mansidão do Senhor para conosco que como ovelha foi levada ao matadouro.

Portanto, quando te persignar, considera todo o mistério da cruz e apaga de ti toda ira e todas as demais paixões. Quando te persignar, ocupa amplamente toda a tua frente libertando assim a tua alma. Sabeis bem que coisas são as que nos geram a liberdade. Daí que Paulo, para levar-nos a isso, quero dizer, para a liberdade que nos convém, nos conduziu pela memória da Cruz e do Sangue do Senhor. Foram comprados, disse ele, por alto preço. Não vos deixeis escravizar pelos homens.

É como se dissesse: Pensa no preço que foi pago por ti e nunca te farás escravo dos homens; e chama preço à cruz. É necessário que a formemos não somente com os dedos, mas primeiramente o façamos com a vontade e uma grande fé.

Se com esta condição a traças em tua casa, nenhum demônio impuro poderá estar contra ti, pois verá a espada com que foi ferido com ferida mortal. Se nós, que somente ao ver o lugar onde executam os réus, sentimos horror, considera o que sofrerão o seu poder e cortou a cabeça do dragão.

Não te envergonhes, pois, de tão grande dom, para que Cristo não se envergonhe de ti quando venha em sua glória e se veja este sinal que desce, mais brilhante que os raios do sol, diante de Cristo. Porque então verás a cruz clamando somente com sua presença e defendendo diante de todo o orbe a casa do Senhor e demonstrando que da parte Dele nada faltou para salvar-nos.

Este sinal no tempo de nossos antepassados, e também nos atuais, abriu as portas fechadas; este sinal destruiu os venenos; este sinal desfez a força da cicuta; este sinal curou as mordidas das feras venenosas. Pois se abriu as portas infernais, abriu as portas do céu e renovou a entrada ao paraíso; destroçou-se a força dos demônios, porque seria extraordinário que vencesse os venenos, as feras e as outras coisas semelhantes a estas?

Grava isto em tua mente e abraça este sinal, salvação de nossas almas. Porque esta cruz salvou e converteu ao orbe, afastou o erro, trouxe a verdade, fez da terra céu e dos homens fez anjos.

Por virtude da cruz já não são temíveis os demônios; a morte já não é morte, mas sono; pela cruz tudo o que nos era contrário ficou abatido, por terra pisoteado. De modo que se alguém te pergunta: Adoras ao Crucificado? Com voz forte, com rosto alegre, responde-lhe: O adoro e nunca deixarei de adorá-Lo. E se esse tal te ridiculariza, chora tu por sua loucura. Dá graças ao Senhor por tão imensos benefícios que se não fosse pela revelação ninguém poderia nem sequer conhecê-los”. (1)

Somos remetidos às palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: – “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16,24).

Vemos quão precioso é o sinal da cruz que tantas vezes fazemos, e que não pode ser feito de qualquer maneira, como tão bem expressou São João Crisóstomo.

Bem como não podemos fazer da cruz uma espécie de amuleto, ou coisa semelhante, menos ainda um enfeite para nossos corpos e vestes, ou em nossas paredes.

Concluamos com as palavras do Apóstolo Paulo aos Gálatas:  “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).


(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.205-207

O Senhor Se compadeceu de nós

                                                           

O Senhor Se compadeceu de nós

“Felizes de nós, se o que ouvimos e cantamos também executamos.
A audição é nossa semeadura, e nossos atos, frutos da semente”

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja (séc. V), em um de seus Sermões, nos fala do Senhor que se compadeceu de nós, e espera que não apenas ouçamos e cantemos, mas que também coloquemos em prática.

Ouvir, cantar e viver:
 “Felizes de nós, se o que ouvimos e cantamos também executamos. A audição é nossa semeadura, e nossos atos, frutos da semente.”

Não entremos sem frutos na Igreja:
“Disse isto de antemão para exortar vossa caridade a não entrardes sem fruto na Igreja, ouvindo tantas coisas boas sem realizá-las. Porque por Sua graça fomos salvos, assim diz o Apóstolo, não por nossas obras, não aconteça alguém se ensoberbecer (Ef 2,8-9), pois por Sua graça fomos salvos (Ef 2,5). Pois não precedeu nenhuma vida virtuosa que Deus pudesse amar e dizer: ‘Ajudemos, socorramos estes homens porque vivem bem’.”

Deus se compadeceu e nos salvou:
“Desagradava-lhe nossa vida, desagradava-lhe em nós tudo o que fazíamos, mas não lhe desagradava o que Ele mesmo fez em nós. Por isto, o que nós fizemos, Ele o condenará; o que Ele próprio fez, Ele o salvará. Não éramos bons. Mas Ele se compadeceu de nós e enviou Seu Filho para morrer não pelos bons, mas pelos maus, não pelos justos, mas pelos ímpios. Na verdade Cristo morreu pelos ímpios (Rm 5,6). E como continua? Mal se encontra alguém que morra por um justo, pois talvez alguém se atreva a morrer por um bom (Rm 5,7). Quiçá haja alguém que ouse morrer por um bom. Mas pelo injusto, pelo ímpio, pelo iníquo, quem quererá morrer? Só Cristo, para que, justo, justifique até mesmo os injustos”.

Deus jamais nos abandona e jamais desiste de nós:
“Não tínhamos, meus irmãos, nenhuma obra boa, mas todas eram más. E sendo tais os atos dos homens, Sua misericórdia não abandonou os homens.”

Envia Seu Filho para nos remir pelo preço do sangue derramado:
“Deus enviou Seu Filho, para remir-nos, não por ouro, não por prata, mas ao preço de Seu Sangue derramado, Cordeiro imaculado levado como vítima pelas ovelhas maculadas, se é que só maculadas e não totalmente corrompidas! Recebemos então esta graça.”

Vivamos esta graça e correspondamos ao amor de Deus:
“Vivamos de modo digno dessa graça e não façamos injúria à grandeza do dom que recebemos. Tão grande Médico veio a nós e perdoou todos os nossos pecados."

Não recaiamos na “doença” ingratos ao próprio médico, Jesus:
“Se quisermos recair na doença, não só nos prejudicaremos a nós mesmos, mas seremos ingratos ao próprio Médico.”

Sigamos Jesus, o Caminho, a vida da humildade:
“Sigamos os caminhos que Ele próprio indicou, muito em especial a via da humildade, via que Ele mesmo Se fez por nós. Mostrou-nos pelos preceitos o caminho da humildade e criou-o padecendo por nós. Com o intuito de morrer por nós – e sem poder morrer – o Verbo Se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), para poder morrer por nós, Aquele que não podia morrer. E com Sua morte matar nossa morte.”

Ele que tinha condição divina, não Se apegou a mesma, e despojando-Se foi morto na Cruz:
“Fez isto o Senhor, isto nos concedeu. O excelso humilhou-Se, humilhado foi morto e, ressurgindo, foi exaltado, a fim de não nos deixar mortos nas profundezas, mas de exaltar em Si na Ressurreição dos mortos aqueles que já agora exaltou pela fé e o testemunho dos justos.”

O Senhor nos deu a humildade como caminho para confessar e invocar Seu nome:
“Deu-nos então a humildade como caminho. Se nos agarrarmos a ela, confessaremos o Senhor e com toda razão cantaremos: Nós Te confessaremos, Senhor, confessaremos e invocaremos Teu nome (Sl 74,2).”

Oremos:

Ó Deus, concedei-nos a graça de compreender e corresponder ao Vosso amor, manifestado a nós, por meio do Seu Filho. Assistidos pelo Vosso Espírito, jamais nos apresentemos com as mãos e coração vazios de frutos por vós esperados.

Ó Deus, ajudai-nos a seguir os passos do Vosso Filho, trilhando a via da humildade, fazendo progressos no caminho de santidade, adorando-Vos em espírito e verdade e Vos amando concretamente na pessoa de nosso próximo.

Ó Deus, que não sejamos apenas ouvintes de Vossa Palavra, mas dela praticantes, não nos enganando a nós mesmos, mas empenhados em colocá-la em prática, na defesa da vida e da dignidade humana. Amém.

“O Amor veio ao nosso encontro”

                                                                    

“O Amor veio ao nosso encontro”

Assim falou o Bispo e Doutor Santo Agostinho (séc. V):

“Na procura de Deus, é Ele quem
Se adianta e vem ao nosso encontro."

De fato, já dissera o Senhor que não fomos nós que O escolhemos, mas foi Ele que nos escolheu e nos enviou em missão, com a assistência do Espírito, para que inauguremos novas relações na superação do pecado, procurando construir relações mais justas e fraternas.

Também já dissera o Senhor que não nos chama de servos, mas de amigos. Ainda que paradoxal pareça ser, quanto mais servos o formos, mais amigos de Deus o seremos – “somos servos inúteis” é o que devemos dizer depois de o melhor e mais belo trabalho, por amor, ter feito.

Deste modo, embora O procuremos Ele já nos encontrou muito antes, quando o pecado entrou no mundo e do Seu convívio nos afastamos.

Porém em Sua infinita Misericórdia Deus jamais nos abandonou. Veio sempre ao nosso encontro fazendo Aliança conosco desde Abraão, firmando-a com Moisés, libertando-nos do Egito, dando-nos o Decálogo para que se vivido jamais voltássemos ao tempo de escravidão; suscitou inúmeros Profetas para serem Sua voz audível, uma vez que é próprio de Suas criaturas precisarem ouvir alguém que lhes faça reconhecer a trágica infidelidade e o necessário retorno para o Seu amor, carinho, ternura, bondade e compaixão como tão bem rezam e expressam os Salmistas.

Na plenitude dos tempos, Ele mesmo veio ao nosso encontro, encarnando-Se em Jesus Cristo. Fez-Se Verbo, Carne, assumiu nossa condição humana, viveu em tudo o que vivemos menos o pecado.

É próprio do amor de Deus vir sempre ao nosso encontro, sobretudo quando teimosamente e tragicamente ao Seu amor nos fechamos. Deus que nos criou por amor, não nos ignora. Tudo o que Ele quer de nós é uma resposta de amor.

Quando vemos cenas de violência, infidelidades de toda ordem, destruição da vida em todos os seus aspectos, relações marcadas pelas desigualdades sociais, conflitos étnicos e religiosos, preconceitos que se pretendem eternos, não será tudo isto um fechamento aos Desígnios de Deus e a Sua comunicação universal, a linguagem do amor, como vimos em Pentecostes?

Deus incansavelmente Se antecipa e vem ao nosso encontro. Não haverá jamais  perspectivas para a História se não nos deixarmos encontrar pelo Amor. Somente no encontro amoroso com Deus é que todo nosso existir ganha plenitude de vida, alegria, amor e paz...

Concluo com as palavras de Santo Agostinho, que lemos em suas Confissões:
                
“Onde Te encontrei, Senhor, para Te conhecer?
Não estavas certamente em minha
memória antes que eu Te conhecesse...
Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova,
tarde Te amei!

Estavas dentro e eu fora Te procurava.
Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas
formosas que fizeste. Estavas comigo,
Contigo eu não estava. (...)

Sejamos fortalecidos no carregar da Cruz! (XXIIDTCA)

                                                                

Sejamos fortalecidos no carregar da Cruz!

A Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano A) traz um convite que a muitos assusta e desaponta: “A loucura da Cruz”. No entanto, se quisermos ser discípulos do Senhor não há outro caminho, senão o caminho da Cruz.

Somos, portanto, convidados a rever o grande sinal que nos identifica, o Sinal da Cruz, que tantas vezes fazemos, e por vezes sem pensar no que o gesto implica: carregar a Cruz com fé, coragem e fidelidade como ponte necessária para a eternidade. Sem Cruz não há como conceber e alcançar a eternidade.

Mais uma vez nos deparamos com a necessária decisão: a lógica do mundo - dominação, poder, sucesso - ou a lógica de Deus - o caminho do amor, doação, fidelidade e Cruz, que é o amor até as últimas consequências.

Na passagem da primeira Leitura (Jr 20,7-9), temos as “confissões de Jeremias”. A sua vocação vivida enfrentando sofrimentos, solidão, maledicência, perseguição, cárcere, e também acusado de traição. Sofrimentos suportados por que coração seduzido e inflamado pelo Amor divino.  Ao realizar a vocação profética é chamado de “profeta da desgraça”.

Jeremias sentiu os apelos irresistíveis da Palavra, impulsionando à ousadia e confiança, num contexto social e político extremamente difícil. Ele, por tudo que viveu e pelo compromisso com Deus assumido, foi o “grito de um coração humano dolorido”, apenas curado pela Caridade Divina.

O profeta não é profeta por livre escolha, mas por desígnios divinos. Cada tempo precisa de profetas, de Jeremias que se apaixonem pela Palavra de Deus e Seu Projeto de vida, justiça e paz para todos; e  encontrem na Palavra Divina um fogo devorador. Somente assim viveremos intensamente nosso Batismo.

O testemunho de Jeremias questiona nossa coragem, fidelidade, ousadia, no trilhar do caminho profético:

- Teremos nós mesma sedução e coragem?
- Nossa “boca” é a boca que proclama sem medo o Projeto Divino?

O Apóstolo Paulo, na segunda Leitura (Rm 12,1-2), séculos mais tarde, outra grande história de um coração extremamente apaixonado e seduzido por Deus, exorta-nos a assumir atitudes coerentes com a fé que professamos, tornando nossa vida um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, não nos conformando ao mundo que vivemos, mas configurando-nos com o Senhor e Seu Evangelho, oferecendo a vida inteiramente a Deus.

O Apóstolo insiste que o culto que Deus espera de nós é uma vida vivida no amor, no serviço, na doação em entrega total a Deus e aos irmãos.

Com a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 16,21-27) somos desafiados a trilhar o caminho da Cruz, o caminho da entrega incondicional a Deus e do dom da vida colocada, por amor, a serviço, à luz das intervenções e inquietações do Apóstolo Pedro dirigidas ao Divino Mestre, Jesus.

O discípulo de Jesus não deve buscar o sofrimento pelo sofrimento, porém se eles vierem, desde que não sejam sofrimentos sem causa, o seguidor de Jesus sabe que este não pode prescindir da Cruz, sabe que está sujeito a perseguições, sofrimentos, incompreensões. Mas jamais será um sofredor sem causa. Sua causa é a paixão pelo Reino, que o faz irremovível.

O discípulo de Jesus sabe que “Quem busca um Cristo sem Cruz, acabará encontrando uma Cruz sem Cristo”; assim também, sabe que se quiser descomplicar seu existir terá que fazer da sua vida uma doação ao outro. Tudo se torna menos difícil quando nos colocamos no caminho do amor, da fidelidade, doação e serviço ao outro.

Nossa cruz torna-se suportável, seu peso mais leve, porque Ele mesmo já dissera – “Vós que estais cansados, vinde a mim porque meu fardo é leve e meu jugo é suave” (Mt 11,28-30).

Finalizando, Jeremias, Paulo, Pedro e outros tantos, muito nos ensinaram no caminhar da fé.

Reflitamos:

- O que nos ensinam no caminhar da fé?
- O que precisamos rever em nossa vida, pensamentos, palavras e ações para que melhor correspondamos aos desígnios de Deus?

- O que fazer para que nossa vida seja um culto agradável ao Senhor?
- Como estamos carregando nossa Cruz de cada dia?
- Quais as renúncias necessárias?

O discípulo de Jesus tem que renunciar a si mesmo, oferecer sua vida por amor,  colocando-se à serviço do Reino; discernindo, entre as coisas, os bens que passam que devem ser utilizados, e os bens eternos que devem para sempre ser abraçados.

O discípulo sabe que, como disse o Presbítero Santo Tomás de Aquino, “O menor bem da graça é superior a todo bem do Universo”.

Seduzidos pelo Senhor (XXIIDTCA)

                                                              

Seduzidos pelo Senhor

 “Tu me seduziste, Senhor,
e eu deixei-me seduzir” (Jr 20,7)

No 22º Domingo do Tempo Comum (ano A), ouvimos a passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 20,7-9).

Trata-se de um trecho das “confissões” amarguradas e dolorosas do Profeta Jeremias, decorrente do exercício do seu ministério, paradigma do Profeta perseguido.

A narração é a continuação dos acontecimentos da saída do cárcere do Profeta, preso devido a um oráculo que dirigiu contra o reino de Judá (Jr 19,14 - 20,6).

Jeremias, chocado com a experiência da prisão, queria fugir da missão por Deus confiada, mas não teve forças e sentiu-se incapaz para esta fuga.

O Profeta se sente enganado por Deus que, através de sua missão, o colocou à margem da sociedade (v. 7); quanto à Palavra de Deus, se tornou para ele motivo de opróbrio, vergonha e desonra.

O Profeta desejaria rebelar-se contra Deus, mas tem consciência da inutilidade de sua impotência diante do Mistério de Deus: a Sua voz é como fogo e não há como abafá-la, extingui-la, apagá-la (v.9).

No texto, com matizes de Oração, sobressai a sequência facilmente perceptível: sedução, dominação, violência (v. 7-8).

O profeta Jeremias só vê um caminho: responder a este chamado de Deus. O Senhor é mais forte do que ele e sua rebelião (Jr 20,14-18).

Assim diz o Comentário do Missal Dominical:

O ministério profético, sobretudo, não é uma vocação à tranquilidade: é incômodo para quem fala e para quem ouve.

Jeremias desejaria subtrair-se à ingrata tarefa, mas a Palavra de Deus queima-o por dentro com tal veemência, que não pode contê-la.

Sua alma é terreno de batalha, onde batem forças dificilmente conciliáveis entre si: Deus, o mundo, a busca de si mesmo. Só resta ao Profeta uma possibilidade: deixar-se seduzir por seu Senhor.” (1)

Jeremias é definitivamente vencido por Deus, e assim é um exemplo para todo cristão que é chamado a reconhecer em si mesmo o sinal da vocação ao amor e ao testemunho:

Quem se deixa seduzir pelo Senhor, porque descobre que é objeto do Seu amor, encontra em si mesmo a força e não se furta à oferta contínua de todas as provas que lhe vêm do seu testemunho.

Olhemos para Jeremias, mas, sobretudo para Cristo que cumpre a figura d’Ele.

Ele é o verdadeiro Servo, que sofre e oferece a vida em sacrifício. A Sua obediência nos conforte e coloque entusiasmo no nosso testemunho...

Entreguemos a nossa vida ao Senhor, para que iluminada por Ele, saiba crescer e cumprir constantemente a Sua vontade.” (2)

Jeremias, um Profeta provado até o extremo, mas definitivamente vencido por Deus. Ele oferece a sua vida como sacrifício espiritual agradável a Deus. E isto é o que Deus espera de cada um de nós, paradoxalmente, no carregar da cruz cotidiana, sem esmorecimentos, com a certeza de que a vida perdendo, por Ele consumindo, na fidelidade a Jesus, com a força do Espírito Santo, alcançaremos a plena felicidade e eternidade.

Concluindo:

Seduz somente quem ama, e somente o amado se deixa seduzir. De igual modo é apenas na experiência vital do Amor de Deus que amadurece a coragem de poder partilhar perspectivas tão duras, como as da livre aceitação da prova ou de suportar com fé o sofrimento e a dor.

Isto significa estarmos apaixonados por Cristo, no verdadeiro sentido da palavra: isto é, no significado etimológico de poder ‘sofrer’, de poder passar através do Gólgota, oferecendo a nossa vida ao Pai, juntamente com Cristo e na força de Oração mais verdadeira que se possa pensar...

Toda a nossa vida, em todas as suas manifestações, inclusive a amargura e a tristeza, está orientada para Cristo e deve ser envolvida na caminhada em direção ao grande dia do Senhor que esperamos.” (3)

Que nossa vida cristã seja uma resposta ao Amor de Deus que nos seduz, como seduziu a Jeremias, a tantos Profetas, homens e mulheres de todos os tempos.

O autêntico relacionamento com Deus somente ocorre numa intensa e contínua relação de amor e sedução. Não procuremos um Cristo sem Cruz, porque certamente encontraremos uma Cruz sem Cristo.

E renovando a graça da vocação profética, recebida no dia de nosso Batismo, elevemos a Deus esta Oração:

“Espírito Santo, iluminai o nosso coração, para que possamos colocar todos os sofrimentos, nossos e alheios, à luz esplêndida da Cruz do Senhor Jesus.

Fazei que não desprezemos as cruzes da vida, tornando-nos próprios obstáculos para a propagação do Reino de Deus e ‘escândalo’ para nossos irmãos.

Reavivai em nós a consciência de sermos filhos, filhos amados e socorridos sempre pela ternura e pelo amor do Pai. Amém.” (4)



(1) Missal Dominical - p. 787.
(2) Lecionário Comentado – Editora Paulus - pp. 229-231
(3) (4) Idem p. 233

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