segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Curados pelo Senhor

                                                        

Curados pelo Senhor

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 8,22-26) sobre a cura do cego por Jesus.

Assim como os discípulos têm dificuldade para enxergar, o cego “dá trabalho” a Jesus (nota da Bíblia - Edições CNBB).

A cura se deu num processo: via homens andando como árvores, depois enxergava todas as coisas com nitidez.

Assim acontece com todo aquele (a) que se põe no Caminho da Iniciação à fé.

Seguindo o Senhor: Rito, Palavra de Deus, Sacramentos e Evangelização se completam, na mais perfeita sintonia.

E a transformação que abrange a totalidade da pessoa: mente e coração, espírito e sentidos, indivíduo e comunidade, fazendo progressos na prática da caridade.

Supliquemos ao Senhor que cure nossa cegueira, para enxergarmos novos caminhos, quando tudo parece ter perdido o sentido.

Supliquemos ao Senhor, para que curados, tenhamos olhares renovados de esperança, fitos em horizontes mais que queridos, haverão de ser alcançados.

Curados pelo Senhor, para que saibamos ver, com os olhos do coração, aqueles que mais precisam, clamam, mãos estendem, lágrimas vertem, nosso amor e solidariedade suplicam.

Curados de nossa miopia espiritual, sejamos, pois de um quê de miopia em relação ao outro e ao que se passa ao nosso redor, todos somos acometidos.

Curados pelo Senhor de toda e qualquer forma de cegueira, sejamos. Amém.

A torre e a Cruz

                                                           


A torre e a Cruz

Viver é sempre uma possibilidade de decidir... Por exemplo, participar da construção da torre de Babel ou carregar a cruz de cada dia construindo a Jerusalém Celeste?

Conhecemos a passagem bíblica em que se quis a construção de uma cidade com uma torre que alcançasse os céus, e a multiplicação de línguas onde ninguém mais se entendia. Conhecemos também uma passagem do Evangelho em que Jesus nos chama a tomar uma decisão, pois para segui-Lo é preciso renunciar a si mesmo, tomar a cruz de cada dia, pôr-se a caminho…

- Qual a nossa escolha: edificar a torre ou carregar a cruz?
- Babel ou a Jerusalém Celeste, do que, de fato, participamos?

Torre e Cruz, sinais fortes embora diferentes; sinais que podem ser vitais ou mortais.

Reflitamos o que nos reporta a torre e, o necessário contraponto, a cruz, que, aos céus, nos conduz:

Erguer a Torre de Babel
Erguer a Cruz de Nosso Senhor
Desejo de ser como Deus
Desejo de servir a Deus
Autossuficiência
Dependência de Deus
Arrogância
Relação de confiança
Soberba
Humildade
Egoísmo/ambição
Partilha/solidariedade
Opressão
Liberdade
Infidelidade a Deus
Fidelidade a Deus
Eliminação do amor
Relação profunda de amor
Multiplicação da iniquidade
Eliminação da maldade
Escravidão
Libertação
Opressão/dominação
Relação de serviço
Autopromoção
Promoção do bem comum
Ódio/ira
Amor
Linguagem apenas humana
Linguagem do Espírito
Reino limitado e parcial
Reino eterno e universal


A continuidade da reflexão nos possibilitará entender alguns “porquês” da não realização do Projeto Divino.

É tempo de reler Gênesis e parar de teimosamente querer erguer as “torres de Babel” de cada dia. Antes, é tempo de tomar nossa cruz de cada dia, nutridos do mesmo Pão que suplicamos na oração que Ele nos ensinou, que recebemos em cada Eucaristia.

Seguindo Cristo Jesus, fixemos nossos passos na caminhada rumo a Jerusalém Celeste, carregando sem medo nossa cruz de cada dia, na alegre e necessária renúncia.

Carreguemos a cruz com seu exato peso, não a cruz de amanhã, apenas a cruz de hoje. A cada dia a cruz, a cada dia o Pão.


PS: Reflexão inspirada em Gn 11,1-9 e Mc 8,34-9,1.

Cruz: Fonte de Salvação e Amor para nós

                                              

Cruz: Fonte de Salvação e Amor para nós

O comentário do Missal Cotidiano sobre a passagem do Evangelho proclamada na sexta sexta-feira do Tempo Comum (Mc 8,34-9,1) nos enriquece intensamente.

“Jesus estava plenamente ciente da necessidade de chegar a bom termo em Sua missão, e para isto não havia outra maneira a não ser entregar Sua vida ao Pai, capaz de ressuscitá-Lo.

É evidente que o Pai não quer a morte do Filho: quer somente que Ele ofereça amor ao mundo. Mas esta missão não se poderá cumprir sem a provação e sem a fidelidade à condição mortal do homem.

O amor não pode chegar a terra sem passar pela dor. A sorte do Mestre atinge também a dos discípulos. Estes também deverão ‘tomar a cruz’ e ‘segui-Lo’, ‘perder a própria vida’ para salvá-la.

A salvação não virá pelo sucesso, mas pelo sacrifício oferecido por amor; aceito e reconhecido pelo Pai, que saberá restituir a vida. E Cristo será por isso o responsável diante do Pai, quando ‘vier na glória’”  (1)

Por ora, é preciso que os discípulos abracem três propostas do Mestre, que deverão ser vividas com fidelidade e amor incondicional até o fim, no anúncio e testemunho da Boa-Nova d’Ele acolhida:

a)        Para serem fiéis às suas opções de vida é necessário pagar o preço delas (v. 34b) – “se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”;

b)        A vida só tem sentido se e quando é oferecida e doada gratuitamente (vv. 36-37) – “com feito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida? Pois, que daria o homem em troca da sua vida?”;

c)        Jesus deve ser reconhecido como Messias e Salvador de todos os povos (v. 38) – “Aquele, que nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e de minhas Palavras, também o Filho do Homem Se envergonhará quando vier na glória com os Santos Anjos”.  (2)

Agora, cabe a cada de um de nós ver de que modo vivemos nossa fidelidade ao Senhor.

É tempo de viver a fé como resposta de amor à proposta que Deus tem a nos oferecer, mas com a coragem do carregar a cruz, fazendo da vida uma história marcada pela doação, por amor vivido e consumido.

É tempo de carregar com coragem nossa cruz, com a esperança de que assumida por amor, como assim o fez o Senhor, caminharemos para a glória da eternidade.

Na fidelidade ao Senhor, a cruz encontra seu sentido quando assumida e carregada com as motivações das virtudes divinas que nos acompanham: fé, esperança e caridade.


(1) Missal Cotidiano – Ed. Paulus. - P.787
(2) Lecionário comentado – Ed. Paulus – Lisboa – pp.294-295

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Mensagem para o XXVII Dia Mundial do Enfermo (2019)

“Recebestes de graça, dai de graça”

Retomemos a Mensagem do Papa Francisco para o XXVII Dia Mundial do Enfermo – 11/2/2019.

Iluminado pela passagem do Evangelho: “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10,8), palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os Apóstolos a espalhar o Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o Seu Reino

O Papa acena para o cuidado dos doentes, que precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que ele nos é “querido”.

Sendo a vida um dom de Deus, como adverte São Paulo: – “que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7), a existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada, sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3, 24).

Outro aspecto é a postura que se deve ter contra a cultura do descarte e da indiferença, prover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas.

Cita o testemunho de Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes.

Retoma parte da Homilia quando de sua canonização: “Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (...) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o ‘sal’, que dava sabor a todas as suas obras, e a ‘luz’ que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres” (Homilia, 4/IX/2016).

Ela nos ensina a viver o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem.

Acena para a gratuidade humana, como o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância no setor socio-sanitário e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano.

Exorta a todos, nos vários níveis, promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte – “A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão”.

Finaliza com a bênção e nos confiando a Maria, “Salus infirmorum”, para que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos, com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs, cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado.

Com fé humilde e ativa em Deus tudo se alcança

                    


Com fé humilde e ativa em Deus tudo se alcança

Na sétima segunda-feira do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 9,14-29), a partir de um exorcismo realizado por Jesus, e refletimos sobre a necessária fé n’Ele para que sejamos curados e libertos de todo mal e de toda enfermidade, pois de fato, Jesus tem poder sobre todas as forças do mal.

Os discípulos de Jesus não haviam conseguido curar um rapaz epiléptico, na época, considerado como um endemoninhado.

“Os discípulos, tendo embora recebido do Senhor, o poder de expulsar os demônios (cf. Mc 3,15; 6,7), não conseguem exercê-lo num menino possuído por um ‘espírito mudo’.” (1)

Há uma súplica do pai do rapaz para que Jesus o liberte:

“Mestre, eu trouxe a Ti meu filho que tem um espírito mudo. Cada vez que o espírito o ataca, jogo-o o chão e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente rijo. Eu pedi aos Teus discípulos para expulsarem o espírito. Mas eles não conseguiram” (v. 18).

No diálogo do pai com Jesus, embora ele tenha fé, pede que Jesus o ajude em sua falta de fé, e Jesus, por sua vez, repreende-o, por suas palavras:

“Se podes alguma coisa...ajuda-me” (v. 22).

Jesus diz: “Se podes!... Tudo é possível para quem tem fé” (v. 23). E manifesta Seu poder tomando a mão do menino, tido como morto, levanta-o e fica de pé:

“Jesus opera a libertação depois de ter dialogado com o pai do menino e escutado a humilde e sincera profissão de fé do homem”. (2)

Em casa, Jesus explica aos discípulos que a fé, expressa em oração e com confiança, tudo alcança, e Ele, Jesus, é a manifestação da onipotência divina no meio de nós.

Assim lemos no Missal Cotidiano:

“O poder transfigurador de Cristo passa a nós na Igreja, mediante a fé e os sacramentos, que são a continuação de Sua obra de verdadeiro Messias e Salvador, e primeiro Sacramento da Salvação” (3).

Diante das doenças, discórdias, injustiças que agridem a vida em sua totalidade, pode se ter 3 atitudes:

- a primeira é a reação com o desespero, próprio de quem não possui nenhuma perspectiva de libertação;

- a segunda, a procura de soluções pré-confeccionadas e fáceis, apelando para uma fé velha e ultrapassada;

- a terceira que vemos no Evangelho: o caminho da fé humilde e ativa, da oração confiando na força que vem do Senhor. (4)

Oremos:

Concedei-nos, ó Deus, firmas nossos passos no caminho de santidade, a que todos somos chamados e vocacionados: testemunhando uma fé inquebrantável em Deus, mantendo viva a nossa esperança, acompanhada de inflamada e generosa caridade. Amém.

(1); (2); (4) Lecionário Comentado – Volume I do Tempo Comum – Editora Paulus – 2011 – pág. 326

(3) Missal Cotidiano – Editora Paulus – pág. 796

Sejamos Sal e luz na planície do cotidiano (VDTCA)

                                                             

Sejamos Sal e luz na planície do cotidiano

"... quando atraímos o olhar de todos para Deus, e não para nós mesmos, é que somos sal da terra e luz do mundo."

A Liturgia do 5º Domingo do tempo Comum (Ano A) nos convida a refletir sobre o compromisso que abraçamos no dia de nosso Batismo, quando nos tornamos cristãos, discípulos missionários do Senhor.

Fazer brilhar a luz de Deus na noite do mundo, e como sal dar gosto e sentido de Deus a todo o existir, é a nossa grande missão.

Na passagem da primeira Leitura, o Profeta Isaías (Is 58,7-10), em tempos difíceis do pós-exílio, mantém viva a chama da esperança de um tempo novo, expressando a reclamação de Deus contra aqueles que praticam um culto vazio e estéril: de nada adianta a prática de leis externas, que não saem do coração, sem a necessária correspondência na vida.

O Profeta faz, portanto, um convite ao Povo para que respeite a santidade da Lei, colocando-a em prática. De modo especial, retrata na passagem o jejum, que no contexto do capítulo aparece sete vezes.

A prática do jejum deve ser feita com humildade diante de Deus, como expressão da dependência, do abandono e amor para com Ele, a renúncia a si próprio, a eliminação do egoísmo e da autossuficiência.

Jejum é voltar-se para o Senhor, manifestando a entrega confiante em Suas mãos, em total disponibilidade de acolher a ação e o dom de Deus, em gestos concretos de amor e solidariedade.

Deste modo, o jejum jamais pode ser compreendido como uma tentativa de colocar Deus do nosso lado, captando Sua benevolência a fim de que realize prontamente nossos interesses e desejos egoístas.

Somente a prática do jejum autêntico é que levará a comunidade a ser e contemplar a luz de Deus no mundo.

Reflitamos:

- Qual é a relação entre os gestos cultuais e gestos reais de nossa vida. Expressam ambos em sintonia a misericórdia e o Amor de Deus?

De que modo o que celebramos tem determinado a nossa vida?
Que matiz o Amor Divino tem dado as nossas ações?

- Somos uma luz acesa na noite do mundo, em solidariedade expressiva?
   - Somos como Isaías, Profetas do amor e servidores da reconciliação para um mundo novo justo e fraterno?

O Apóstolo Paulo, na passagem segunda Leitura (1Cor 2,1-5), nos exorta a identificação com Cristo, interiorizando a “loucura da Cruz”, que é dom e vida. Deus age através de nossa fragilidade e debilidade, como agiu através dele, um homem frágil e pouco brilhante.

Diante da comunidade de Corinto, o Apóstolo se apresentou consciente de sua fraqueza, assustado e cheio de temor.

O que levou os coríntios a abraçar a fé não foi a sedução de sua personalidade, nem suas brilhantes qualidades de pregador (que não possuía), e tão pouco a coerência de sua exposição, que ao contrário foi acolhida com ironia e indiferença.

O que levou os coríntios a aderirem à proposta de Jesus foi a força de Deus que se impõe, muito além dos limites de quem apresenta ou ouve a Sua proposta.

O Espírito de Deus está sempre presente e age no coração daquele que crê, de forma que a sabedoria humana é suplantada e, assim, somos tocados e elevados pela sabedoria divina.

É preciso que nos coloquemos sempre como humildes instrumentos nas mãos de Deus, para que se realize Seu Projeto de Salvação para o mundo todo.

Com isto, não quer dizer que Deus dispense nossa entrega, doação, técnicas, meios de comunicação, ao contrário, é o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos.

A mensagem da passagem do Evangelho (Mt 5,13-16) é o desdobramento do Sermão da Montanha que, se verdadeiramente vivido na planície, nos faz sal da terra e luz do mundo.

Seguidores do Senhor não podem se instalar na mediocridade, jamais se acomodar, mas pôr-se sempre a caminho, sem nenhuma possibilidade para comodismo e facilidades.

Ser sal e luz implica em total fidelidade dos discípulos ao programa anunciado por Jesus nas Bem-Aventuranças: ser pobre em espírito, sedento de justiça e paz, misericordioso, puro e capaz de sofrer toda forma de incompreensão, calúnia e perseguição.

Ser cristão é um compromisso sério, profético, exigente no testemunhar do Reino em ambientes adversos. 

Não se pode viver um cristianismo “morno” instalado, cômodo, reduzindo a algumas práticas de Oração e de culto (até mesmo de uma Missa apenas aos domingos, como simples expressão de preceito cumprido).

Somente somos sal da terra e luz do mundo quando:

- O nosso agir revela a ação e o compromisso com o Projeto Divino  e apresentamos Jesus como a Luz de todos os Povos, de todas as nações;

- Atraímos o olhar de todos para Deus, e não para nós mesmos.

Discípulos missionários do Senhor devem se preocupar permanentemente em não atrair sobre si o olhar de todos, mas deve, antes e sempre, se preocupar em conduzir o olhar e o coração de todos para Deus e à Proposta de Seu Reino de Amor, Vida e Paz.

Sendo sal, que jamais percamos o gosto, do contrário para nada serviremos. Sendo luz, que jamais permitamos que ela se apague, não obstante as dificuldades próprias da existência.

Que tenhamos a coragem de comunicar a luz de Deus na escuridão do cotidiano, sem jamais perder o gosto do sal de Deus: gosto da partilha, do acolhimento, da misericórdia, da caridade.  Tão somente assim a luz de Deus, que em nós habita pelo Seu Espírito, comunicará luz aos que se encontram ao nosso redor.

Sal e luz, sejamos sempre! Sermão da Montanha ouvido e acolhido, na planície da vida anunciado, testemunhado e corajosamente vivido. Amém!  

Sejamos luz! (VDTCA)

                                                             


Sejamos luz!

Sejamos enriquecidos pelo “Tratado sobre o Evangelho de São Mateus”, do Bispo São Cromácio (séc. IV), para o aprofundamento do capítulo 5 deste Evangelho, em que Jesus nos diz que somos a luz do mundo.

“Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa (Mt 5,14-15).

O Senhor chamou Seus discípulos de sal da terra, porque eles deviam dar um novo sabor, por meio da sabedoria celeste, aos corações dos homens que o demônio tornara insensatos. E também os chamou de luz do mundo porque, iluminados por Ele, verdadeira e eterna luz, tornaram-se também eles luz que brilha nas trevas.

O Senhor é o Sol da justiça; é, por conseguinte, com toda razão que chama Seus discípulos luz do mundo; pois é por meio deles que irradia sobre o mundo inteiro a luz do Seu próprio conhecimento. Com efeito, eles afugentaram dos corações dos homens as trevas do erro, manifestando a luz da verdade.

Iluminados por eles, também nós passamos das trevas para a luz, como afirma o Apóstolo: Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz (Ef 5,8). E noutra passagem: Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas (1Ts 5,5).

Com razão diz também São João numa Epístola sua: Deus é luz (1Jo 1,5); e quem permanece em Deus está na luz, da mesma forma como Ele próprio está na luz. Portanto, uma vez que temos a felicidade de estar libertos das trevas do erro, devemos caminhar sempre na luz, como filhos da luz. A esse propósito, diz ainda o Apóstolo: Vós brilhais como astros no universo. Conservai com firmeza a Palavra da vida (Fl 1,15-16). 

Se não procedemos assim, ocultaremos e obscureceremos com o véu da nossa infidelidade, para prejuízo tanto nosso como dos outros, uma luz tão útil e necessária.

Eis o motivo por que incorreu em merecido castigo aquele servo que, recebendo o talento para dar juros no céu, preferiu escondê-lo a depositá-lo no banco.

Assim, aquela lâmpada resplandecente, que foi acesa para nossa salvação, deve sempre brilhar em nós. Pois temos a lâmpada dos Mandamentos de Deus e da graça espiritual a que se refere Davi: Vosso Mandamento é uma luz para os meus passos, é uma lâmpada em meu caminho (cf. Sl 118,105). E Salomão também diz acerca dela: O preceito da Lei é uma lâmpada (cf. Pr 6,23).

Por isso, não devemos ocultar esta lâmpada da Lei e da fé, mas colocá-la sempre no candelabro da Igreja para a salvação de todos. Então gozaremos da luz da própria verdade e serão iluminados todos os que creem.” (1)

No testemunho da Fé, estas palavras iluminam nosso caminhar, para que a solidifiquemos, com coragem e ousadia, inflamados pelo fogo do Espírito, e assim,  luz do mundo sejamos em todos os momentos, sobretudo nas situações mais sombrias, adversas e obscuras, como um raio da luz divina, com nossas palavras e ações, comuniquemos a esperança de novos tempos, de novas possibilidades.

As palavras do Bispo nos incentivam, de modo muito contundente e irrefutável, a não deixar a chama da caridade, para que, nas situações de desamor sejamos um sinal do Amor divino; nas situações de ódio e rancores, sinais do perdão, ternura e da bondade divinas.

Ontem, hoje e sempre, o mundo precisa de pessoas iluminadas pela Palavra e pela Luz do Santo Espírito. 

Que a luz acesa no dia do nosso Batismo jamais seja apagada pelo vento das contrariedades e das dificuldades, das circunstâncias não favoráveis, ao contrário,  sejam elas, paradoxalmente, porque temos fé no Senhor, a certeza de que Deus não permitirá que a nossa luz se apague.

Nada pode apagar em nós a luz que Deus, um dia, acendeu, nada pode destruir em nós o que Deus, um dia, tenha feito. Sejamos luz! 

(1) Liturgia das Horas - Volume Tempo comum - pp. 1350-1351

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