sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Sejamos Profetas de um novo tempo!

                                                               

Sejamos Profetas de um novo tempo!

Há uma história que nos inspira para as diversas interpretações iluminadoras para o nosso cotidiano:       
                                                                   
“Num lugar não muito longe daqui havia um poço fundo e escuro onde, desde tempos imemoriais, uma sociedade de rãs se estabelecera.

Tão fundo era o poço que nenhuma delas jamais havia visitado o mundo de fora. Estavam convencidas de que o universo era do tamanho do seu buraco. Havia sobejas evidências científicas para corroborar essa teoria, e somente um louco, privado dos sentidos e da razão, afirmaria o contrário.

Aconteceu, entretanto, que um pintassilgo que voava por ali viu o poço, ficou curioso e resolveu investigar suas profundezas. Qual não foi sua surpresa ao descobrir as rãs! Mais perplexas ficaram elas, pois aquela estranha criatura de penas colocava em questão todas as verdades já secularmente sedimentadas e comprovadas em sua sociedade. O pintassilgo morreu de dó. Como é que as rãs podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair?

Claro que a ideia de sair era absurda para os batráquios, pois se o seu buraco era o universo, não poderia haver um ‘lá fora’. E o pintassilgo se pôs a cantar furiosamente.

Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cristalinos, borboletas, flores, nuvens, estrelas… o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiram. Algumas acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coaxaram canções novas.

As outras fecharam a cara. Afirmações não confirmadas pela experiência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras. E se puseram a fazer a crítica filosófica, sociológica e psicológica do seu discurso.

A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes dominadas? Seu canto seria uma espécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva? Dúvidas não havia de que o tal canto tinha criado muitos problemas.

Tanto as rãs-dominantes como as rãs-dominadas (que secretamente preparavam uma revolução) não gostaram das ideias que o canto do pintassilgo estava colocando na cabeça do povão.

Por ocasião de sua próxima visita o pintassilgo foi preso, acusado de enganador do povo, morto, empalhado e as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensinara…”.

Refletindo...

É possível que, em algum momento de nossas vidas, possamos nos encontrar como que num fundo de poço, envoltos pela escuridão e afundados na lama do pecado ou da desesperança, com falta de perspectivas, e em nada mais crendo – muito menos em “boas-novas de pintassilgos”.

Ou talvez, acomodados em nosso fundo do poço, na nossa zona de conforto, sem desejo de desinstalação, não querendo, de modo algum, ser importunados, porque, talvez, submersos em nossos desejos, planos, não havendo lugar para a busca do novo, que inquieta, desinstala, e por vezes atemoriza. É mais seguro e confortável ficar no já conhecido – por que se arriscar? Por que acreditar em outras possibilidades que nos cantam os “pintassilgos”?

No entanto, haverá os que se encontram no fundo do poço, esperando a visita de “pintassilgos”, que acenem para um universo muito maior que o universo empobrecedor e repetitivo de um fundo de poço.

Há “pintassilgos” que trazem cantos de alegria e de esperança, e os vejo em nossas comunidades, assim como também em outros lugares, porque pessoas de boa-vontade, que semeiam a verdade da beleza da vida humana, com sua sacralidade.

Há “pintassilgos” que, teimosa e corajosamente, cantam e anunciam seus sonhos, utopias de um novo mundo possível.

Há “pintassilgos” engravatados e outros esfarrapados, com seus belos cantos, pois o canto está para além das vestes e dos lugares que se ocupa, porque trazem no coração a fé de que a humanidade precisa reencontrar o caminho da dignidade promovida, felicidade para todos garantida, o bem comum como possibilidade e realidade, e não apenas princípio sacro de uma sã doutrina.

Há “pintassilgos” de idade pouca e de idade tanta, mas com mesma vivacidade, porque voam nas asas do Espírito, que nos levam ao reencantamento e reapaixonamento pela vida, e nos elevam na busca das coisas do alto onde habita Deus. Cantam que o céu já é possível aqui na terra, e não para um amanhã que se reduza apenas a uma ilusão, evasão ou quimera.

Há “pintassilgos” com cantos belos que nos querem fora do poço da mediocridade, medo, indiferença, mesmice: estão eles atrás de mesas; educando em salas de aula; assentados em reuniões de mobilização, conscientização e reivindicação...

Há “pintassilgos” embalando seus filhos no colo, acarinhando, amamentando, e um mundo melhor para os seus desejando; ou mesmo, à beira de um fogão cantarolando a mais bela melodia de um novo amanhecer, para os que em seu coração se encontram, e no fundo de um poço jamais os querem ver.

Há “pintassilgos” profetas de um novo amanhã, em templos ou fora deles, a Palavra divina proclamando, cantores do Reino, em nosso meio já presente.

Queremos e precisamos destes “pintassilgos”. Mas não basta. Sejamos para o mundo, dos que se encontram no “fundo do poço”, como “pintassilgos”, com cantos dos que sabem reler o passado, para iluminar o presente, acenando para um futuro pleno de vida, amor, alegria e esperança.

Pequenos detalhes cotidianos de amor

                                        


Pequenos detalhes cotidianos de amor
 
Horta? Eu apenas rego.
Comida? Apenas esquento.
Escrevo minhas poesias dos lamentos,
Com a alma em paz, eu sossego.
 
Bendigo por santas mãos que cultivam:
Jardins para as flores tantas;
Flores que encantam,
Hortas para delícias da mesa.
 
São vidas anônimas,
Escrevem suas histórias...
Minha gratidão, meu reconhecimento,
Abençoadas sejam por santo merecimento.
 
Pequenos gestos multiplicados,
No silêncio, suor derramado,
Cansaço, por vezes, superado,
Por Deus, com dons diferentes agraciados.
 
Pequenos detalhes de amor
Que encantam a vida,
Embelezam todo o existir.
Viver é graça, jamais desistir.
 
No altar do Senhor, celebro.
Ora agradecendo por estas vidas tantas
Ora suplicando por elas com orações e cantos
Graça, proteção, divina proteção, reencanto. Amém.

Contemplo a ação divina a partir do gerúndio de Deus

Contemplo a ação divina a partir do gerúndio de Deus

Contemplo a ação divina...
Deus está sempre me amando, acompanhando,
Assistindo, iluminando, em todos os momentos.
Em todas as circunstâncias sinto Sua amável presença.
Não há porque temer tempestades e fortes ventos.

Contemplo a ação divina...
Na família, os laços conjugais revitalizando, reforçando.
Novos rumos apontando, quando desaparecem as perspectivas.
Nos momentos de dúvida, a certeza no coração inaugurando
Para que se concretizem as belas e santas iniciativas.

Contemplo a ação divina...
Através dos pais, no coração dos filhos
A Semente da Palavra Divina semeando,
Em vigilante oração, amor, carinho, cuidado.
O melhor para eles, com Deus desejando.

Contemplo a ação divina...
Naqueles que não se curvam diante das tentações
Do ter, poder, e ser que esvaziam nossas vidas.
Em constante combate da fé se empenhando,
Pois para quem crê não há batalhas perdidas.

Contemplo a ação divina a partir do gerúndio de Deus
Deus, um eterno Gerúndio de Amor, sempre me amando
Deus, um eterno Gerúndio de Perdão, sempre me perdoando
Deus, um eterno Gerúndio de Compaixão e Solidariedade
Minha cruz cotidiana no carregar está me ajudando...

Deus, eterno gerúndio, questiona os meus gerúndios:
Ao Seu amor estou correspondendo?
Ao Seu perdão, meu coração estou abrindo?
A Sua compaixão e solidariedade com o outro o mesmo fazendo?

Deus pacientemente está esperando
Minha resposta sincera de amor,
A Ele rendamos toda honra e glória,
A Ele pertence todo louvor!

Do “gerundismo” ao Gerúndio de Deus

                                              


Do “gerundismo” ao Gerúndio de Deus

Há o belo gerúndio e o “gerundismo”.

Gerúndio, como sabemos, é a forma nominal do verbo que indica uma ação em andamento - amando, perdoando, aprendendo... e não futuro como muitos pretendem.

E foi talvez esta ideia equivocada que deu origem ao chamado “gerundismo”, um vício medonho que foi se incorporando aos poucos ao nosso modo de falar até as coisas mais simples e belas, tornando-as, muitas vezes, desagradáveis aos ouvidos e até criando mal estar em relacionamentos pela sua insuportabilidade.

Além do que usado de forma errônea e excessiva muitas vezes parece o nada querer resolver, o nada poder fazer. Esta é a sensação que tenho e que pode não ser exata, irrefutável, mas é o que sinto sempre que ouço expressões do tipo: “vou estar enviando”, “vou estar encaminhando”, “vou estar  comunicando”, “ vou estar pedindo”, e por aí vai.  

Por que não usar o verbo no futuro do presente de forma simples explorando a beleza da nossa língua: “Enviarei, encaminharei, repassarei...”?

Vale ressaltar que o gerúndio nada tem de abominável, e se bem empregado nos traz belas lições. Veja esta possibilidade que a música popular nos presenteia: “Caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais braços dados ou não.” 

E no aspecto da espiritualidade não tenho dúvida de que: “Ainda que pequemos e continuemos a pecar. Ainda que estejamos pecando, Deus jamais deixará de nos amar”.

Do “gerundismo” sejamos libertos, de belos gerúndios, enriquecidos  e envolvidos pelo Amor de Deus, que está sempre nos olhando nos olhos e nos chamando para que sejamos Seus discípulos missionários no mundo.

Carregando a cruz de cada dia, renunciando o que for preciso, sigamos o Senhor onde Ele está glorioso, reinando eternamente porque é Nosso Deus, Rei e Senhor. Amém.

“Encontramos o Messias”

                                                                         

“Encontramos o Messias”

“Foram, pois, ver onde Ele morava e,
nesse dia, permaneceram com Ele.
Era por volta das quatro da tarde”
(Jo 1, 39)

Não pode ficar contida, retida, aprisionada, a experiência pessoal do encontro com o Senhor, que nos chamou pelo nome, a cada um de um modo, e a cada um em uma determinada hora, como vemos na passagem do Evangelho de João (Jo 1,35-42).

Nisto consiste a vida do discípulo missionário do Senhor: tendo encontrado o Senhor, torna-se intermediário de um novo encontro para outra pessoa.

Mais uma vez, volto às palavras do Papa Bento XVI:

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus Caritas Est, 1).

Ter encontrado com o Senhor é ter feito a experiência do encontro com a misericórdia feito Carne; Alguém que Se fez próximo de nós, muito mais que possamos compreender, e quer conosco caminhar e fazer-nos discípulos missionários Seus.

Num dos “Odes de Salomão” assim lemos: 

“O Senhor deu-Se me a conhecer na Sua simplicidade, na Sua benevolência tornou pequena a Sua grandeza. Tornou-Se semelhante a mim para que eu O acolha, fez-Se semelhante a mim para que eu O revista. Não me espantei ao vê-Lo, porque Ele é a misericórdia! Ele tomou a minha natureza para que O possa compreender, a minha figura para que não me afaste d’Ele” (1).

Nisto consiste o discipulado: encontrar e permanecer com o Divino Mestre, Jesus, deixar-se guiar, permanentemente, por Ele, para que que Ele nos conduza:

“Aos poucos, o rosto de Jesus revela-Se em todo o Seu mistério luminoso, como Cordeiro imolado que redime o pecado do mundo, como Mestre e como Cristo-Messias, que instaura o Reino de Deus na história dos Homens. 

Mas também o rosto do discípulo se ilumina progressivamente, e cada um conhece o seu mistério e sua verdade. Perante o Senhor, que vê no fundo dos corações, cada um recebe de fato, na Sua Palavra, a identidade mais verdadeira e o sentido da sua vida: ‘Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas que quer dizer ‘Pedro’” (2).

Os primeiros discípulos deram sua resposta, agora é o nosso tempo, a oportunidade de também nos tornamos autênticas testemunhas do Messias, d’Aquele que veio ao nosso encontro.

Elevemos a Deus orações, de modo especial, pelos cristãos leigos e leigas, para que, tendo feito este encontro com Jesus, sejam corajosos intermediários, levando muitos ao encontro com o Senhor, sendo no mundo um instrumento e sinal de esperança, fé e caridade, para que a luz de Deus se irradie mais forte e ilumine os cantos sombrios de nossa história, marcado ainda, pelo pecado, sofrimento, dor  e tantos sinais de morte.

(1)         Lecionário Comentado – Vol. Tempo Comum - Editora Paulus - Lisboa 2011 – p.57
(2)        Idem p.69

“Amor Líquido” (Prefácio)

                                                                   


“Amor Líquido” (Prefácio)

A modernidade líquida nos apresenta homens e mulheres desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar”, segundo Zygmunt Bauman (cf. p.8).

As relações são virtuais: “Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medidas par ao líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e despareçam numa velocidade crescente em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de ‘ser mais satisfatória e a mais completa’. Diferentemente dos ‘relacionamentos reais’, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’” (p. 12-13).

Conclui dedicando o livro aos riscos e ansiedades de se viver junto e separado, em nosso líquido mundo moderno.

"Amor Líquido" (Introdução)

                                                              


“Amor Líquido”

Uma dos desafios na missão evangelizadora da Igreja é a criação, fortalecimento de laços verdadeiramente fraternos e duradouros, na mais pura expressão do Mandamento do Amor a Deus e ao próximo, como nos falam os Evangelhos.

Neste sentido, ofereço uma síntese, acompanhada da minha reflexão pessoal, do livro “Amor Líquido”, de Zigmunt Bauman (nascido 19/11/1925 e falecido 9/1/2017), que retrata o tema da fluidez da existência contemporânea, assim como a fragilidade dos laços humanos.

Na era da modernidade, vemos num mundo repleto de sinais confusos, que se transformam com rapidez e forma nunca antes vistas.

Segundo Bauman, a modernidade líquida é um mundo sem forma, de incertezas, de medos, de ausência da concepção de progresso e de fragilidade nas relações sociais.

Isto tem influência em todos os sentidos: na nossa capacidade amar o próximo, o parceiro e até a nós mesmos, e é esta colaboração do autor: ajuda-nos a investigar de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais flexíveis, menos duradouras, acompanhadas de inseguranças cada vez maiores.

Há a priorização dos relacionamentos em “redes”, com mais facilidade de serem mantidas, suprimidas ou excluídas (deletadas), com o desaprendizado de relacionamentos duradouros.

Assim, como em tempo de modernidade líquida a produção de lixo produzido pela humanidade é assustadora, devido ao consumismo e a cultura do descarte e da “última novidade”, também determina a forma com que os relacionamentos se dão: o descarte.

Na modernidade líquida, o amor vivido (“amor líquido’) também determina o rumo da própria humanidade, na forma de se ver o estranho, com o crescente medo, quando o autor analisa a realidade da Europa, mas que podemos estender a todo o mundo (como vemos os estrangeiros, refugiados).



PS: Os “posts” abaixo dão início à síntese do livro (prefácio e mais quatro partes)

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