terça-feira, 15 de julho de 2025

Que o Fogo do Espírito nos inflame!

                                                          

Que o Fogo do Espírito nos inflame!

Celebramos, no  dia 15 de julho, a Memória do Bispo São Boaventura (séc. XIII), que nos enriquece com seu “Opúsculo Literário da Mente para Deus”.

“Cristo é o caminho e a porta. Cristo é a escada e o veículo, o propiciatório colocado sobre a arca de Deus (cf. Ex 26,34) e o Mistério desde sempre escondido (Ef 3,9).

Quem olha para este propiciatório, com o rosto totalmente voltado para Ele, contemplando-O suspenso na Cruz, com fé, esperança e caridade, com devoção, admiração e alegria, com veneração, louvor e júbilo, realiza com Ele a Páscoa, isto é, a passagem.

E assim, por meio do Lenho da Cruz, atravessa o mar Vermelho, saindo do Egito e entrando no deserto, onde saboreia o maná escondido.

Descansa também no túmulo com Cristo, parecendo exteriormente morto, mas experimentando, tanto quanto é possível à Sua condição de peregrino, aquilo que foi dito pelo próprio Cristo ao ladrão que O reconhecera: Ainda hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43).

Nesta passagem, se for perfeita, é preciso deixar todas as operações intelectuais, e que o ápice de todo o afeto seja transferido e transformado em Deus.

Estamos diante de uma realidade mística e profundíssima: ninguém a conhece, a não ser quem a recebe; ninguém a recebe, se não a deseja; nem a deseja, se não for inflamado, até a medula, pelo Fogo do Espírito Santo, que Cristo enviou ao mundo. Por isso, o Apóstolo diz que essa Sabedoria mística é revelada pelo Espírito Santo (cf. 1Cor 2,13).

Se, portanto, queres saber como isso acontece, interroga a graça, e não a ciência; o desejo, e não a inteligência; o gemido da oração, e não o estudo dos livros; o esposo, e não o professor; Deus, e não o homem; a escuridão, e não a claridade.

Não interrogues a luz, mas o Fogo que tudo inflama e transfere para Deus, com unções suavíssimas e afetos ardentíssimos.
Esse Fogo é Deus; a Sua fornalha está em Jerusalém. Cristo acendeu-a no calor da Sua ardentíssima Paixão.

Verdadeiramente, só pode suportá-la quem diz: Minha alma prefere ser sufocada, e os meus ossos a morte (cf. Jó 7,15). Quem ama esta morte pode ver a Deus porque, sem dúvida alguma, é verdade: O homem não pode ver-me e viver (Ex 33,20).

Morramos, pois, e entremos na escuridão; imponhamos silêncio às preocupações, paixões e fantasias.

Com Cristo crucificado, passemos deste mundo para o Pai (cf. Jo 13,1), a fim de podermos dizer com o Apóstolo Filipe, quando o Pai Se manifestar a nós: Isso nos basta (Jo 14,8); ouvirmos com São Paulo: Basta-te a minha graça (2Cor 12,9); e exultar com Davi, exclamando: Mesmo que o corpo e o coração vão se gastando, Deus é minha parte e minha herança para sempre! (Sl 72,26).

Bendito seja Deus para sempre! E que todo o povo diga: Amém! Amém! (cf. Sl 105,48)”.

Oremos:

Senhor, que o Fogo do Espírito nos inflame, para correspondermos melhor ao Projeto de Deus.

Com a Sabedoria a nós comunicada, seja nossa alma inflamada, e acompanhados pela Vossa presença e envolvidos pela Vossa infinita misericórdia, bondade e ternura.

Como peregrinos da esperança, com a Sabedoria do Espírito, contemplamos insondáveis Mistérios Divinos que dão um novo e salutar sentido à nossa vida. Amém.

“Peregrinos longe do Senhor...”

                                                      

“Peregrinos longe do Senhor...”

“... enquanto peregrinamos em meio às coisas deste
mundo passageiro, aspiremos à imortalidade celeste...”

Sejamos enriquecidos pela reflexão do Bispo São Boaventura (séc. XIII).

“Enquanto estamos peregrinando longe do Senhor, a fé é o fundamento que sustenta, a lâmpada que orienta, a porta que introduz a todas as iluminações espirituais... é necessário que nos aproximemos do Pai das luzes com fé pura, dobrando os joelhos do coração, para que, por Seu Filho, no Espírito Santo, nos conceda o verdadeiro conhecimento de Jesus Cristo e, com o conhecimento, também o Seu Amor”.

Reflitamos:

“Enquanto estamos peregrinando longe do Senhor...” Nisto consiste o existir, o ato de viver, mas não viver tão apenas por viver. O tempo presente é o peregrinar.

A fé é o fundamento que sustenta...”
Como peregrinar sem fundamentos, sem princípios, sem âncoras? Como sustentar o existir, para que não seja um mero existir, sem perspectivas, horizontes, anseios, sonhos, projetos?

 “... a lâmpada que orienta...
É a fé que nos mostra por onde andar em meio à escuridão, na penumbra. Bem disse o Senhor: “quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). N’Ele crendo, iluminados e iluminadores o somos...

“... a porta que introduz a todas as iluminações espirituais...”
Quem suportaria a escuridão pior, a escuridão da alma? Quais compromissos se renovariam e se multiplicariam de um coração ou alma na escuridão? Nenhum. Tudo o que fizermos seja porque por Ele iluminados, para o mundo iluminar.

“... dobrando os joelhos do coração, para que, por Seu Filho, no Espírito Santo, nos conceda o verdadeiro conhecimento de Jesus Cristo e, com o conhecimento, também o Seu Amor”.

A fé e o dobrar dos joelhos do coração nos alcançam o perfeito e verdadeiro conhecimento, e o essencial, o amor. Conhecimento e amor alcançados que só se renovam na perfeita busca, na perfeita prática. 

É próprio do Amor de Deus querer nosso crescimento e sustentar a nossa fé para que cresçamos no amor. E, assim ancorados pela fé e enraizados na caridade a nossa esperança vai se materializando...

Urge, portanto, traduzir a nossa fé, visibilizando-a em compromissos irrenunciáveis: a fé como experiência pessoal e sua manifestação comunitária e social.

Oremos

“Concedei-nos que, enquanto peregrinamos em meio às coisas deste mundo passageiro, aspiremos à imortalidade celeste, e que, pela fé, esperança e caridade, saboreemos desde já as alegrias do Vosso Reino.”

Confiemos plenamente no Senhor

                                               

Confiemos plenamente no Senhor

Ouvimos na terça-feira da 15ª Semana do Tempo Comum (ano par), a passagem do Profeta Profeta Isaías (Is 7,1-9), com uma mensagem fundamental: Deus nunca abandona o Seu povo e está sempre presente.

Com o Profeta, aprendemos que não se pode confiar em alianças efêmeras, passageiras, temporais (nações potentes, exércitos estrangeiros...).

A confiança e a esperança devem ser tão apenas em Deus, do contrário, pode se incorrer em maior sofrimento e opressão.

É preciso que, como Povo de Deus, saibamos ler os sinais de Deus, para não confiarmos em falsas seguranças e ilusórias esperanças. Somente Deus, Sua presença e Palavra, devemos ter como nossa “rocha segura”.

Esta promessa de Salvação se deu em Jesus Cristo: contemplemos e professemos a fé em Jesus Cristo, que veio nos trazer a Salvação; Ele é o Emanuel prometido, ou seja, o “Deus conosco” (Mt 1,23).

Na fidelidade ao Senhor Jesus, renovemos sagrados compromissos com o Reino, iluminados pelo Santo Espírito que ilumina nossos caminhos obscuros, sobretudo quando vemos noticiários cotidianos em que a mentira, a maldade, o roubo, o desmando, a corrupção parecem prevalecer sobre as atitudes e pessoas de boa vontade. 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Sejam nossos cultos agradáveis a Deus

                                                             

Sejam nossos cultos agradáveis a Deus

“Vossas mãos estão cheias de sangue!
Lavai-vos e purificai-vos”  (Is 1,15-16).

Na segunda-feira da 15ª Semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Livro do Profeta Isaías (Is 1,10-17).

Senhor, fazei com que o brado de Isaías, tão carregado de dramaticidade, nos sensibilize, para não apresentarmos a Vós ofertas inúteis, acompanhadas de incenso, pois seria abominável.

Senhor, dirigi nossos passos, para que o amor e a verdade se encontrem em nosso ser e agir, pensamentos e palavras, no relacionamento cotidiano com nosso próximo.

Senhor, que jamais Vos ofereçamos sacrifícios, louvores e orações com as mãos gotejadas de sangue, e, assim, jamais nos descuidemos da promoção da justiça.

Senhor, não apenas queremos participar assiduamente das Missas, e nela rezar pelas necessidades dos pobres, órfãos, mas nos empenharmos concretamente em favor deles.

Senhor, ajudai-nos a viver uma fé comprometida, oferecendo nossas mãos, força, inteligência e voz, para que a paz e a justiça floresçam e reinem em todo o mundo. Amém!

Fonte de inspiração: Comentário do Missal Cotidiano, Editora Paulus, 1997, p.1019.

Perdão vivido, expressão de maturidade cristã

                                               


Perdão vivido, expressão de maturidade cristã

Assim rezamos na Oração que o Senhor nos ensinou: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Sejamos enriquecidos pelos parágrafos 2842-2845 do Catecismo da Igreja Católica sobre esta súplica.

Este “como”, assim lemos, “não é único no ensinamento de Jesus”. Vejamos outros:

 Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48);

- “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36);

 Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Observar o mandamento do Senhor é impossível, quando se trata de imitar, do exterior, o modelo divino.

Isto somente se torna possível quando se tratar de uma participação vital, vinda “do fundo do coração”, na santidade, na misericórdia e no amor do nosso Deus.

Tendo de Jesus os mesmos sentimentos (Fl 2,1.5), podemos perdoar-nos mutuamente como Deus nos perdoou em Cristo (Ef 4, 32), pois para o Senhor, o perdão é o amor que ama até ao extremo do amor (Jo 13,1).

A parábola do servo desapiedado conclui o ensinamento do Senhor sobre a comunhão eclesial, termina com estas palavras: “Assim procederá convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão do fundo do coração” (cf. Mt 18,23-35).

De fato, é “no fundo do coração”, que tudo se ata e desata, e deste modo, não se encontra em nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão. 

O perdão estende-se até aos inimigos (Mt 5,43-44), e quando vivido, transfigura o discípulo, configurando-o com o seu Mestre.

O perdão é o cume da oração cristã, e dom da oração só pode ser recebido num coração em sintonia com a compaixão divina.

Perdão vivido é “...testemunha também que, no nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. Os mártires de ontem e de hoje dão este testemunho de Jesus. O perdão é a condição fundamental da reconciliação ((2 Cor 5,18-21) dos filhos de Deus com o seu Pai e dos homens entre si”.

Quanto ao limite e medida para o perdão, não existem, pois reflete o perdão divino, que é ilimitado e imensurável; de modo que somos eternos devedores do amor de uns para com os outros, como nos falou o Apóstolo Paulo aos Romanos (Rm 13,8), e a comunhão da Santíssima Trindade é a fonte e o critério da verdade de toda a relação (1Jo 3,19-24), que por sua vez, é vivida na oração, sobretudo na Eucaristia (Mt 5,23-24).

O Catecismo conclui citando São Cipriano, bispo e mártir do séc. III:

“Deus não aceita o sacrifício do dissidente e manda-o retirar-se do altar e reconciliar-se primeiro com o irmão: só com orações pacíficas se podem fazer as pazes com Deus. O maior sacrifício para Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e um povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Concluindo, é sempre tempo de perdoar e ser perdoado, e tão somente, podemos perdoar o outro, porque antes, amados e perdoados por Deus o fomos, de modo ilimitado e imensurável.

Perdão assim vivido, fará com que cresçamos na maturidade cristã, e contribui para a construção de relações mais fraternas e partícipes da cultura da paz, pois assim nos falou o Senhor Jesus: – “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

“Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência”

                                                            


“Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência”

Ultrapassar os limites da condição humana é a grande tentação que vem desde o Éden, o grande pecado de nossos pais, que herdamos e que, como possibilidade, todos também o temos.

Quantas vezes se coloca de lado o Projeto d’Aquele que nos criou, para se seguir os próprios caprichos e astúcias, dando ouvido e asas aos desejos nem sempre pronunciáveis e desejáveis.

Quantas vezes a ilusão toma conta de nosso coração, com pretensa promessa de realização pessoal e solidificação da felicidade plena.

Quantas vezes o delírio de onipotência cega a humanidade, fazendo suas vítimas (holocaustos, promoção da miséria, guerras, discriminações, exclusões), vilipendiando a dignidade e sacralidade da existência humana.

Delírio de onipotência!

Crudelíssimo delírio que nos afasta da Verdadeira Onipotência: Deus. Afastamento que traz consigo consequências nefastas, e mais que indesejáveis, numa palavra: deploráveis.

Deste modo, nos perguntamos: quem melhor do que Maria, que lutou corajosamente contra a serpente e o mal, para nos ensinar a tornar a desejada libertação um fato em nossa vida?

Maria também travou uma luta interior contra o mal. Teve de ultrapassar as mesmas dificuldades e tentações na realização do plano de Salvação de Deus para a humanidade. 

Deste modo, foi concebida sem a mancha do pecado, da desobediência, da infidelidade, a Imaculada Conceição.

Maria tão humana, inteiramente sim para Deus.
Maria tão humana, inteiramente para a vontade divina.

Que nossa devoção consista em imitá-la em tamanha fidelidade, somente assim, estaremos libertos do terrível delírio de onipotência e de suas marcas de pecado. 

Com o Nascimento do Redentor, visibilizou-se e visibiliza a Onipotência da Misericórdia Divina.

Quanto mais nos abrirmos para a Divina Onipotência, mais libertos seremos do desejo de onipotência, que, paradoxalmente, nos fragiliza. 

Oremos:

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que nos cega, nos faz prisioneiros de nós mesmos, de nossos interesses, desejos, cobiça, presunção, petulância.

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que rompe os laços sagrados da fraternidade.

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que nos afasta de Vós, que Se faz e quer fazer-Se tão próximo e íntimo a nós.

Livrai-nos, Senhor, de todo delírio de onipotência; Vos pedimos com o coração contrito e confiante em Vossa misericórdia. Amém.


PS: Is 10,5-7.13-16; Sl 137,6

Do delírio de onipotência, livrai-nos Senhor (súplica)

                                                         


Do delírio de onipotência, livrai-nos Senhor (súplica)

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que nos cega, nos faz prisioneiros de nós mesmos, de nossos interesses, desejos, cobiça, presunção, petulância.

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que rompe os laços sagrados da fraternidade.

Livrai-nos, Senhor, do delírio de onipotência, que nos afasta de Vós, que Se faz e quer fazer-Se tão próximo e íntimo a nós.

Livrai-nos, Senhor, de todo delírio de onipotência, Vos suplicamos com o coração contrito e confiante em Vossa misericórdia. 

Livrai-nos, Senhor, de todo delírio de onipotência, para que tomemos consciência de que quando somos fracos, com a Vossa graça, é que nos tornamos fortes.

Livrai-nos Senhor, de todo delírio de onipotência, para jamais prescindirmos de Vossa presença, peregrinando na esperança de novos céus e nova Terra.

Livrai-nos, Senhor de todo delírio de onipotência, para que jamais façamos verter lágrimas de tristeza e decepção dos divinos olhos do Vosso Filho.

Livrai-nos Senhor, de todo delírio de onipotência, para que a nossa a vida de pequeninos do Vosso rebanho, leve Vosso Filho cantar louvores a Vós. Amém.

 

PS: Is 10,5-7.13-16; Sl 137,6; Mt 11, 25-27.

 

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG