sábado, 29 de agosto de 2026

O ilimitado amor de Deus por nós

                                                       

O ilimitado amor de Deus por nós

Vejamos o que nos disse o teólogo bizantino medieval Nicolau Cabásilas (1322-1392) a fim de melhor entendermos sobre a qual a novidade da Cruz de Cristo, de Sua Paixão e Morte:

"Duas características revelam o amante e o fazem triunfar: a primeira consiste em fazer o bem ao amado em tudo o que é possível, a segunda em escolher sofrer por ele e sofrer coisas terríveis se necessário. Esta última prova de amor muito superior à primeira não podia, no entanto, concordar com Deus que é impassível a todo o mal [...]. Portanto, para nos dar a experiência do seu grande amor e para mostrar que nos ama com um amor ilimitado, Deus inventa a sua aniquilação, realiza-a e fá-lo de modo a tornar-se capaz de sofrer e de sofrer coisas terríveis. Assim, com tudo o que Ele suporta, Deus convence os homens do seu extraordinário amor por eles e fá-los voltar para Si”.

Podemos falar, portanto, em duas formas de amor: o amor de beneficência e o amor de sofrimento.

Na Cruz, Jesus testemunha o amor em sua expressão sublime e máxima: o amor de sofrimento.

Imitá-lo em nossa vida, implica em muito mais do que fazer tantas coisas por Cristo e pela Igreja, é ser capaz de sofrer por Ele e por sua Igreja, com a maturidade necessária de suportar incompreensões, abandonos, cansaços, dificuldades que possam se fazer presentes em nosso discipulado.

Precisamos permanentemente fazer este salto qualitativo, do amor beneficente ao amor em sua expressão máxima, “o amor de sofrimento”.

E isto somente poderemos fazer se abraçarmos nossa Cruz com fidelidade e viver a loucura da Cruz como falou o Apóstolo Paulo aos Coríntios:

"Uma vez que na sabedoria de Deus o mundo não o reconheceu pela sabedoria, Deus quis servir-se da loucura da pregação para salvar os que creem. Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos. Porque o que se julga loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais forte do que os homens." (I Cor 1,21-25).

Viver e testemunhar o “amor de sofrimento” como o fez Nosso Senhor, implica em reconhecer seu poder que se revelou na impotência, a sabedoria que se revelou na loucura, e a glória que se revelou na sua ignomínia, e finalmente, a riqueza que se revelou em sua pobreza.

Concluo com as palavras do Papa São Leão Magno (séc. V):

“Através d’Ele (Jesus Cristo morto na Cruz) é dado aos crentes a força na fraqueza, a glória na humilhação, a vida na morte”.

A Cruz é a verdadeira sabedoria divina

                                 

A Cruz é a verdadeira sabedoria divina

Senhor Jesus, Vós sois a sabedoria de Deus, e nos destes um ensinamento novo, que tudo revoluciona. 

Contemplo-Vos naquele banquete na casa do chefe dos fariseus, em que nos ensinastes a abandonar a competição e a busca sem escrúpulos dos próprios interesses.

Ajudai-nos a aprender o que nos ensinastes e vivestes: a humildade, que consiste na escolha do último lugar, vivendo um amor gratuito, que escolhe os desprezados para amá-los e servi-los.

Vós que vivestes até o fim na fidelidade a Deus, com Sua Pessoa e Palavra, fostes para nós a revelação definitiva de Deus, fazendo da Cruz a Sua sabedoria; nela morrendo, iniciastes um povo novo, cuja unidade está baseada no amor, fruto de uma conversão.

Ensinai-nos a alcançar a vitória, que coincide com a Vossa aparente derrota na Cruz; e assim descobriremos que nossa força está naquilo que os outros consideram uma fraqueza.

Dai-nos mansidão e sabedoria, para percebermos que a verdadeira riqueza está na pobreza, a verdadeira liberdade no fazer-se escravo, e que a vida se realiza quando a perdemos. 

Ajudai-nos na conversão à sabedoria divina, crendo no poder redentor de Vossa morte na Cruz, e que a verdade do amor tem na morte o seu teste decisivo.

Dai-nos a nova sabedoria de Vosso Reino, não colocando nossa segurança na prudência humana e tão pouco na posse das forças do domínio, pois a prudência humana não põe a humanidade a caminho de novas realizações, para o risco de um amor mais universal; e porque, também, a sede de domínio somada à competição multiplica suas vítimas, gerando dor, sofrimento e morte.

Com Vosso Espírito, Senhor, queremos construir uma sociedade em que não mais se organize e viva em torno da competição, da luta a todo custo pelos primeiros lugares, do lucro.

Também com Vosso Espírito, que as gerações sejam educadas para serem mais humanas e fraternas, estabelecendo relações de mútua ajuda e solidariedade, repelindo toda manifestação de autossuficiência, domínio e competição.

Enfim, Senhor, Vos pedimos que saibamos nos colocar sempre no último lugar, para fazer deste, o próprio lugar para o serviço dos últimos e não para dominação sobre o outro, como sábia, humilde e divinamente o fizestes. Amém.

Fonte inspiradora: Missal Dominical, Missal da Assembleia Cristã, Paulus, 1995 - pp. 1222-1223.
Passagens bíblicas: Eclo 3,19-21.30-31; Sl 67; Hb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14

Os crisóis de nossa purificação

                                                   

Os crisóis de nossa purificação

É sempre tempo para refletirmos sobre História da Salvação do Povo de Deus.
Páginas difíceis, com traições, sacrifícios, devastações,
Desolações, amargura, maldade, infidelidade, cinzas, lágrimas,
O povo ao nada, impiedosamente e absolutamente, reduzido.

Sonhos e esperanças pisoteadas numa sensação de que não havia mais saída.
Vida a ser vivida em terras tão distantes e estranhas, sem história e raízes.
Os que permanecem, um pequeno resto, os pobres por Deus amados e escolhidos,
Mas Deus sempre fiel à Aliança, a História irrevogável de Amor e fidelidade continuará.

Página atroz do Exílio, imposto ao Povo de Deus há muitos séculos.
A ausência da justiça fez sucumbir quaisquer possibilidades de experimentar a paz.
Medito o célebre cântico de nostalgia dos exilados da Babilônia, fonte divina inspiradora.
Dor emudecida, canto de dor sufocado: como cantar em terra tão estranha ao coração?

Ó cruentos dias vividos no exílio, aparente tempo de eternidade;
Verdadeiramente uma espécie de crisol purificador,
Mas é nele que a fé se fortalecerá para o verdadeiro amor;
Braços à esperança dará, tempo novo somente com Deus virá...

Outras páginas hoje são escritas, outros tempos, outros desafios.
Dificuldades podem ser outras, mas a fé é sempre a mesma,
A esperança ganha novos contornos, mas a chama da caridade
É a mesma que os corações do crente fiel aquece e inflama.

Há por vezes crisóis purificadores a serem silenciosamente suportados,
Mas não será o bastante para consumir a fé no coração como dom plantada,
Nem suficiente para fazer sucumbir no lamaçal a vitalidade do sonho e da esperança
Que nos amadurecem para o essencial da existência: amor vivo e encarnado.

Amor ao Deus vivo e único em Três Pessoas glorificado, para sempre adorado:
Santíssima Trindade amada na qual nos fazemos imersos e plenamente fortalecidos
Para suportar o crisol purificador, adentrando pela porta estreita que leva à vida,
Carregando com renúncias, coragem, o crisol purificador da inevitável cruz,

Até que um dia a face do Deus Uno e Trino possamos e mereçamos contemplar.
Amadurecidos e purificados pelo crisol da dor, da fidelidade, dos sacrifícios, da profecia,
Veremos acontecer dias tão sonhados e no coração regados e cultivados,
Na espera da segunda vinda, numa grande, bela e professada Parusia. Amém.

Na Cruz, o Encontro de Três Amores

                                                                   

Na Cruz, o Encontro de Três Amores

Ó Trindade Santa, Mistério de amor e comunhão
Ó indivisibilidade que recebe dos meus lábios
E do meu coração toda honra, glória e louvor!

Deus Pai, o Criador - Ó Eterno Amante!
Jesus Cristo, o Redentor - Ó Eterno Amado!
Espírito Santo, o Santificador - Ó Eterno Amor!

“Ensinai-me a Vos procurar e mostrai-Vos quando Vos procuro; não posso procurar-Vos se não me ensinais nem encontrar-Vos se não Vos mostrais. Que desejando eu Vos procure, procurando Vos deseje, amando Vos encontre, e encontrando Vos ame”
(Santo Anselmo – séc. XII)

Contemplo-vos, adoro-vos
Amo-Vos, por Vós sou amado
sem mérito algum bem sei.
Calo-me! Silencio-me!
Encontro-Vos no mais profundo de mim...

Em poucas palavras...

                                                             


O Mistério da Cruz 

“Senhor Salvador levantou a voz e com incomparável majestade disse: Saibam todos que depois da tribulação se seguirá a graça; reconheçam que sem o peso das aflições não se pode chegar ao cimo da graça; entendam que a medida dos carismas aumenta em proporção da intensificação dos trabalhos. 

Acautelem-se os homens contra o erro e o engano; é esta a única verdadeira escada do paraíso e sem a cruz não há caminho que leve ao céu... 

Ninguém se queixaria da cruz nem dos sofrimentos que lhe adviriam talvez, se conhecessem a balança, onde são pesados para serem distribuídos aos homens."  (1)

 

(1) Santa Rosa de Lima, (1586 -1617), Padroeira da América Latina. 

A Cruz e a Glória

                                                               

A Cruz e a Glória

“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer:
O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens” (Lc 8,44)

Senhor, ouvindo Tuas palavras, contemplo-Te caminhando entre os pobres e os pequenos, teus preferidos, rumo a Jerusalém, onde consumaste teu divino projeto de amor em favor de nós, amando-nos até o fim, na morte do Inocente, do justo na Cruz.

Senhor, antes, Te vejo caminhando no meio do povo, uma presença mansa, discreta. Portadora de bem, vida plena para todos, atraindo ódio daqueles que à Tua Palavra e anúncio do Reino se fecharam, porque incomodados em seus privilégios e interesses.

Senhor, ajudai-nos a Te ver além das aparências e dos entusiasmos fáceis, amando-Te por aquilo que és: verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus, nosso Redentor, que nos chama para Te seguir, em fidelidade incondicional, com renúncias necessárias.

Senhor, afastai de nós toda a tentação de falsas esperanças de soluções fáceis diante das provações e dificuldades que possamos enfrentar, confiando em tua Palavra, que não engana e nos pede coragem e maturidade para o carregar da cruz cotidiana.

Senhor, afastai a tentação do desejo da glória da Ressurreição sem passar pelo Mistério da Cruz, e ensinai-nos a seguir Teus passos, e viver como viveste, em total fidelidade à vontade do Pai, entregando-Te nas mãos dos homens, Tu, que recebeste do Pai todo o poder.

Senhor, como membros de Tua Igreja, ajudai-nos a fortalecer os vínculos da comunhão fraterna, convictos que também no interior da vida da comunidade, o caminho da harmonia comunitária passa pela caridade e humildade; o caminho para a glória passa pela Cruz.

Senhor, enviai o Teu Espírito sobre nós, para que na fidelidade ao Teu Pai de amor, compreendamos melhor a missão que a nós confias, para que cristãos de fato sejamos, seguindo-Te primeiro nos sofrimentos e depois na glória. Amém.

Em poucas palavras...

                                                 


“O caminho desta perfeição passa pela cruz...”

“O caminho desta perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual (2 Tm 4). 

O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das Bem-Aventuranças: 

«Aquele que sobe, nunca mais para de ir de princípio em princípio, por princípios que não têm fim. Aquele que sobe nunca mais deixa de desejar aquilo que já conhece» (São Gregório de Nissa).” (1)

 

(1)        Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n.2015

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG