domingo, 12 de julho de 2026

A Palavra de Deus: leitura e oração (XVDTCA)

                             

A Palavra de Deus: leitura e oração
                                      
    “A oração nos purifica, a leitura nos instrui”

Reflexão à luz da Palavra do Semeado conforme as passagens do Evangelho (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9; Lc 8,4-15).

O Semeador é o próprio Jesus, assim como a semente é a Sua Palavra a cair no chão de nosso coração.

Sejamos enriquecidos pelos escritos do Bispo Santo Isidoro (séc. VII) sobre a importância da Palavra de Deus, e em que consiste a diferença da sua leitura ou oração.

“A Oração nos purifica, a leitura nos instrui. Usemos uma e outra, se é possível, porque as duas são coisas boas. Porém, se não for possível, é melhor rezar do que ler.

Quem deseja estar sempre com Deus, deve rezar e ler constantemente. Quando rezamos, falamos com o próprio Deus; mas quando lemos, é Deus que nos fala.

Todo progresso procede da leitura e da meditação. Com a leitura aprendemos o que não sabemos, com a meditação conservamos na memória o que aprendemos.

Da leitura da Sagrada Escritura recebemos uma dupla vantagem, porque ilumina a nossa inteligência e conduz o homem ao amor de Deus, depois de tê-lo arrancado das vaidades mundanas.

Duplo é também o fim que temos de propor-nos a ler: o primeiro, tratar de compreender o sentido das Escrituras; e em seguida, esforçar-nos por proclamá-la com a maior dignidade possível.

Quem lê, de fato, busca em primeiro lugar compreender o que lê, e somente depois trata de expressar de modo mais conveniente o que aprendeu.

Mas o bom leitor não se preocupa tanto de conhecer o que lê quanto de colocá-lo em prática. É menos árduo ignorar completamente um ideal do que, uma vez conhecido, não colocá-lo em prática. Portanto, assim como mediante a leitura demonstramos nosso desejo de conhecer, assim logo após ter conhecido temos de sentir o dever de colocar em prática as coisas boas que aprendemos.

Ninguém é capaz de aprofundar-se no sentido da Sagrada Escritura se não a lê com assiduidade, conforme está escrito: ‘Ama-a e ela te exaltará, glorificar-te-á quando a abraças’.

Quanto mais assíduo se é na leitura da Escritura, mais rico é o entendimento que se alcança. É o mesmo que acontece com a terra: quanto mais a cultivamos, mais produz.

Existem pessoas que, sendo inteligentes, são negligentes na leitura dos textos sagrados. Desta forma, com sua negligência manifestam seu desprezo por aquilo que poderiam ter aprendido mediante a leitura. Outros, no entanto, têm desejos de saber, porém sua escassa preparação se torna um obstáculo. Contudo, estes últimos, mediante uma leitura inteligente e assídua, chegam a conhecer o que os outros ignoram; mais inteligentes, porém preguiçosos e indiferentes.

Assim como uma pessoa, ainda que seja tarda em inteligência, consegue tirar fruto graças ao seu esforço e seu empenho no estudo, assim aquele que negligencia o dom da inteligência que Deus lhe concedeu se torna culpável de reprovação, porque rejeita um dom recebido e o deixa sem dar frutos.

Se a doutrina não está sustentada pela graça, não chega ao coração, mesmo que entre pelos ouvidos. Faz muito barulho por fora, mas não aproveita a alma. Somente quando intervém a graça, a Palavra de Deus desce dos ouvidos ao fundo do coração, e ali age intimamente, levando a compreensão do que foi lido”. (1)

Um pouco antes, São Jerônimo exortou-nos a amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Literalmente afirmou: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”.

Por isso, é importante que todo cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus, que nos é entregue na Sagrada Escritura.

Este diálogo com Ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve haver um diálogo realmente pessoal, pois Deus fala conosco através da Sagrada Escritura e tem uma mensagem para cada um de nós.

A Sagrada Escritura não pode ser vista como uma Palavra do passado, mas como Palavra de Deus dirigida também a nós, quando procuramos entender o que o Senhor quer nos dizer.

Para não cair no individualismo, temos de ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão e para nos unir na verdade de nosso caminho rumo a Deus.

Portanto, apesar de ser sempre uma Palavra pessoal, é também uma Palavra que edifica a comunidade, que edifica a Igreja verdadeiramente Sinodal. Por isso, temos de lê-la em comunhão com a Igreja viva.

O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a Liturgia, nela ao celebrar a Palavra e ao tornar presente o Sacramento do Corpo de Cristo, atualizamos a Palavra em nossa vida e a fazemos presente entre nós.

A Palavra de Deus transcende os tempos, ao contrário das opiniões humanas que passam. O que hoje se apresenta como moderno, amanhã estará ultrapassado. Ela é Palavra de Vida Eterna, tem em si a eternidade, vale para sempre. 

Com a leitura da Palavra Divina, podemos nos instruir acerca da vontade de Deus, mas quando a tomamos para a Oração, abrimos nosso coração e a Ele apresentamos nossos anseios, propósitos, angústias, esperanças,  alegrias e tristezas, em atenta espera de Sua resposta.

Os Salmistas nos ensinam que os ouvidos de Deus estão sempre abertos e prontos a nos conceder uma resposta, ainda que esta nos desinstale, nos questione, exija mudança de rumos, conceitos e paradigmas, e alargamento de horizontes…

“Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei para meu Deus:
do Seu templo ele ouviu a minha voz, e o meu clamor em Sua presença chegou aos Seus ouvidos.” (Sl 17,7)


(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp. 176-177

A Palavra Divina e a fecundidade de nosso coração (XVDTCA)

                                               

A Palavra Divina e a fecundidade de nosso coração
     
 “No silêncio orante, façamos a Palavra florescer”

Reflexão à luz da passagem do Evangelho (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9; Lc 8,4-15), em que nos é apresentada a Parábola do Semeador.

Jesus nos dá a explicação da passagem do semeador que saiu a semear, e da semente que caiu em vários terrenos: à beira do caminho, em terreno pedregoso e com espinhos, e na terra boa.

Cada terreno corresponde a um homem e à sua reação diante da Palavra que foi ouvida. Os diversos terrenos, frequentemente presentes e misturados em nós são a mais perfeita expressão da imagem de nosso coração, desejoso de escutar a Palavra, mas, por vezes, incapaz de compreendê-la profundamente, deixando criar raízes para que dê os frutos abundantes por Deus esperados.

Deste modo, a conversão é algo permanente. A vigilância, perseverança e confiança na Palavra que o Semeador, Jesus, faz em nosso coração são necessárias.

Quando a Palavra acolhida for regada com a força da Eucaristia, e posta em prática, produzimos frutos abundantes de alegria, comunhão, vida, amor e paz.

No silêncio orante, acolhamos a Palavra como semente num coração bom e generoso, onde a Palavra encontra condições favoráveis para florescer e frutificar.

Reflitamos:

- Estamos imunes da superficialidade e dureza de coração na escuta, acolhida e vivência da Palavra Divina?
- Quando nosso coração é como um terreno pedregoso e espinhoso?

- Quem de nós está livre de uma escuta leviana que leva ao imediato esquecimento, insensibilidade e indiferença à Palavra ouvida?

- Estamos totalmente disponíveis para o Plano de Deus, abrindo  mão de planos próprios?
- Como passar do conhecimento à prática da Palavra de Deus?
- Como não cair num ativismo frenético, sacrificando o precioso tempo do recolhimento, da familiaridade, da amizade, intimidade e diálogo com Deus através da Oração?

Oremos:

“Espírito de Jesus, 
Vós que conheceis a nossa vida, as nossas provações, 
o perigo em que vivemos, 
abri os nossos corações, 
para que possamos acolher a Vossa Graça, 
e possamos  compreender aquilo que, 
em nós, atenta à esperança.

Dai-nos luz para discernir os caminhos 
do adversário na nossa vida, 
para não os subestimarmos, 
para estarmos vigilantes, 
para os prevenirmos, 
para podermos lutar corajosamente 
e sermos vitoriosos, 
permanecendo firmes na fé. Amém”.

A eficácia da Palavra Divina (XVDTCA)

                                                

A eficácia da Palavra Divina

Inesgotável a mensagem da Parábola do Semeador (Mt 13,1-23; Mc 4,1-9: Lc 8,4-15):

“A Palavra de Deus é sempre eficaz em si mesma; o homem, todavia, pode resistir-lhe com sua liberdade e torná-La estéril. Também a chuva pode ser estéril se cai sobre as pedras. É o mistério da relação entre graça e livre arbítrio, entre onipotência de Deus e liberdade do homem. Como a luz é única, mas suscita várias cores – branco, vermelho, amarelo etc. – de acordo com a constituição dos corpos sobre os quais se reflete, assim a palavra de Deus é sempre viva e eficaz, mas produz efeitos e frutos diversos de acordo com os corações sobre os quais ela chega”. (1)

Todo discípulo missionário é ao mesmo tempo semeador e chão para a acolhida da Palavra, de modo que precisa estar sempre vigilante, para que não incorra numa espiritualidade vã e estéril.

Abrir-se sempre à graça divina, que cai copiosamente sobre todos, como a chuva que cai sobre os bons e os maus, mas precisa encontrar a acolhida para que possa tornar fecunda nossa vida.

Vigilância para que não sejamos como a semente a cair à beira de um caminho endurecido, por onde transitam os que por ele passam; tão pouco falte profundidade, porque pedregoso ou espinhoso que não suporte as adversidades e provações próprias da condição humana.

Terreno fértil e fecundo seja nosso coração, nutrindo-nos da Seiva do Amor do Santo Espírito: Deus além de conhecer o chão do nosso coração, nos dá a Palavra como semente, a Seiva garantia de fecundidade e abundância de frutos produzidos (Jo 15).

Oremos:

Humildes e confiantes, Vos pedimos, Senhor:
Livrai-nos do mal da esterilidade espiritual;
Do mal do fechamento à Vossa graça santificante;
Da má escuta superficial da Vossa Palavra,
Quando a enterramos no vale da mediocridade,
Porque não a acolhemos com fé profunda e autêntica.

Livrai-nos, Senhor, do mal da incredulidade
Ou da indiferença à Vossa Palavra, tão viva e eficaz,
Quando acolhida com retidão de coração,
E com sagrados compromissos de vivê-la e praticá-La.

Livrai-nos do mal da dureza do coração,
Da fraqueza de ânimo e espírito,
Inevitável quando nos fechamos ao Vosso Santo Espírito,
E nos fragilizamos, porque não nos nutrimos
Do Vosso Pão e do Vosso Sangue,
A nós oferecidos no Banquete Eucarístico de eternidade.

Tão somente libertos destes males e de tantos outros,
É que Vos amaremos e Vos conheceremos,
Adorando-Vos em espírito e verdade
E nos credenciaremos, na solidariedade com nosso próximo,
à graça de um dia alcançar a glória da eternidade. Amém.



(1) O Verbo Se faz Carne – Raniero Cantalamessa – Ed. Ave Maria  – 2013 – p.153

Em poucas palavras... (XVDTCA)

 


Ser terra boa é o que importa

“A única coisa que nos importa – comenta são João Crisóstomo – é não sermos caminho, nem pedregal, nem cardos, mas terra boa (...)

O coração não seja caminho onde o inimigo arrebate, como o pássaro, a semente calcada pelos transeuntes, nem pedregal onde a pouca terra faça germinar imediatamente aquilo que o sol queimará, nem carrascal de paixões humanas e cuidados da vida.” (1)

 

(1) Hablarcondios.org

Em poucas palavras... (XVDTCA)

                                               


O Espírito Santo: caminho único da oração

"Os métodos de meditação são tão diversos como os mestres espirituais. 

Um cristão deve querer meditar com regularidade; doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador (Mc 4,4-7.15-19). 

Mas um método não passa de um guia; o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus.”(1)

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 2707. 

Fecundemos nosso coração (XVDTCA)

                                                       

Fecundemos nosso coração
 
Reflexão à luz da Parábola do Semeador à luz da passagem do Evangelho (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9; Lc 8.4-15), sobre a centralidade da Palavra de Deus em nossa vida. 
 
São palavras do Bispo e Doutor da Igreja, São João Crisóstomo (séc. V), que nos adverte para algo que é terrível e que pode acontecer com mais frequência que possamos pensar: o homem pode fechar-se à Palavra de Deus, recusá-la e, consequentemente, torná-la ineficaz, não produzindo, assim, os frutos maravilhosos que Deus espera e que poderiam ter sido multiplicados:
 
“É possível que a rocha se transforme em boa terra; que o caminho deixe de ser pisado e se converta também em terra fértil, e que os espinhos desapareçam e deixem crescer exuberantemente as sementes.
 
E se não se opera em todos essa transformação, não é, certamente, por culpa do semeador, mas daqueles que não querem mudar”. 
 
No mistério de acolhida da Palavra e no empenho de fazê-la brotar, multiplicar, quem na alma não deixa habitar o verme da preguiça e acomodação, por mais que tenha feito dirá que nada ainda fez, é o que nos leva a refletir São João da Cruz (séc. XVI):
 
“A alma que ama a Deus de verdade não deixa, por preguiça, de fazer o que pode´
 para encontrar o Filho de Deus, o Seu Amado.
E depois de ter feito tudo o que pode,
não fica satisfeita e pensa que não fez nada”.
 
Oportunas as palavras do padre Antonio Maria Zacaria  (séc. XVI): jamais, do Senhor, covardes e desertores o sejamos, em exortação a fim de que imitemos o Apóstolo Paulo:
 
“Nós que escolhemos um tão grande Apóstolo como guia e pai, e fazemos profissão de imitá-lo, esforcemo-nos para que a nossa vida seja expressão da sua doutrina e do seu exemplo. Pois não seria conveniente que, sob as ordens de tão insigne chefe, fôssemos soldados covardes e desertores, ou que sejam indignos os filhos de um tão ilustre pai.”
 
E Padre Antônio Vieira (séc.XVII) sobre esta passagem do Evangelho afirmava que a Palavra pode não dar fruto, mas dará sempre efeito: efeito de Salvação ou efeito de condenação!
 
É a mais pura e incontestável verdade, ninguém ficará neutro diante da Palavra do Senhor que escutou, ou a acolhe, dá fruto nela e acolhe a salvação, ou a rejeita, para ela se fecha e por causa dela se perde, lamentavelmente.
 
De fato, ser filho de Deus, discípulo missionário não é fugir dos confrontos, conflitos, sofrimentos e perseguição, e para tanto, é preciso que Deus nos conceda a maturidade para suportar as dores do parto, pois nisto consiste a vida no Espírito. 
 
Assim é o ser cristão: viver em tensão para o futuro da humanidade e do universo em Deus. A natureza e a humanidade estão envolvidas neste processo de dar à luz o mundo novo. Podemos deste processo, audazes, corajosos protagonistas sermos, ou não.
 
Reflitamos:
 
Como acolhemos a semente da Palavra Divina?
Ao cair sobre o chão do nosso coração, que tipo de terra a Palavra encontra?
 
Estamos no tempo da acolhida e fecundação da Palavra, para que frutos produzamos, que outros comam, ainda que não vejamos os frutos e que deles não possamos saborear. 


Em poucas palavras... (XVDTCA)

 


A necessária disposição da vontade

“A terra boa, o semeador o mesmo e as sementes as mesmas; e no entanto, como é que uma deu cem, outra sessenta e outra trinta?

Aqui a diferença depende também daquele que recebe, mesmo onde a terra é boa, há muita diferença entre uma parcela e outra.

Podeis ver que a culpa não é do lavrador, nem da semente, mas da terra que a recebe; e não por causa da natureza, mas da disposição da vontade.” (1)

 

(1)Sermão de Santo Agostinho – hablarcondios.org

 

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG