quinta-feira, 9 de julho de 2026

As parábolas do Reino de Deus (XVDTCA)

                                                         

As parábolas do Reino de Deus

“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
O campo é o mundo. A boa semente são
os que pertencem ao Reino.”

No capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, encontramos sete parábolas de Jesus Cristo sobre o Reino de Deus: do semeador; do grão de mostarda; do fermento; do trigo e do joio; do tesouro escondido; da pérola valiosa e da rede.

Reflitamos, sobre a primeira Parábola do semeador, sobre o modo como acolhemos a Palavra de Deus, e como comunicamos a Boa-Nova do Reino, que jamais pode ser interrompida, e que, aos poucos, vai revelando seu esplendor e fecundidade, a vida que Deus quer para a humanidade.

A linguagem em forma de Parábolas mexe com os ouvintes, arma controvérsia, e é um método pedagógico de reflexão em busca da verdade.

O Evangelista Mateus tem como sua preocupação a vida da comunidade, de modo que nas sete Parábolas, e na interpretação destas, apresenta Jesus como o Pastor que exorta, anima, ensina e fortalece a fé dos que creem.

Sejamos fortalecidos em nosso itinerário de fé, trilhando caminhos, ainda que difíceis e desafiadores, mas sempre iluminados pela Palavra Divina proclamada, acolhida, meditada, partilhada, celebrada e testemunhada.

Que nos empenhemos para que a Palavra caia num chão fértil, que deve ser nosso coração, para que produza os frutos por Deus esperados: justiça, paz, amor, alegria, felicidade...

A Palavra de Deus é eficaz; é preciso que tornemos nosso coração mais fecundo, em séria e atenta escuta e vivência desta Palavra.

Também, que nutridos pela força da Eucaristia, inebriados pelo Vinho Novo, a nós oferecidos no Cálice da Salvação, sejamos cada vez mais comprometidos com a mesa de nossos irmãos no cotidiano, até que sejamos merecedores de ser partícipes do Banquete Eterno, na glória da eternidade. Amém. 

Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal

PS: Oportuno para reflexão das passagens do Evangelho: Lc 13,18-21; Mc 4,1-20; Mt 13,1-23

A Palavra de Deus: leitura e oração (XVDTCA)

                             

A Palavra de Deus: leitura e oração
                                      
    “A oração nos purifica, a leitura nos instrui”

Reflexão à luz da Palavra do Semeado conforme as passagens do Evangelho (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9; Lc 8,4-15).

O Semeador é o próprio Jesus, assim como a semente é a Sua Palavra a cair no chão de nosso coração.

Sejamos enriquecidos pelos escritos do Bispo Santo Isidoro (séc. VII) sobre a importância da Palavra de Deus, e em que consiste a diferença da sua leitura ou oração.

“A Oração nos purifica, a leitura nos instrui. Usemos uma e outra, se é possível, porque as duas são coisas boas. Porém, se não for possível, é melhor rezar do que ler.

Quem deseja estar sempre com Deus, deve rezar e ler constantemente. Quando rezamos, falamos com o próprio Deus; mas quando lemos, é Deus que nos fala.

Todo progresso procede da leitura e da meditação. Com a leitura aprendemos o que não sabemos, com a meditação conservamos na memória o que aprendemos.

Da leitura da Sagrada Escritura recebemos uma dupla vantagem, porque ilumina a nossa inteligência e conduz o homem ao amor de Deus, depois de tê-lo arrancado das vaidades mundanas.

Duplo é também o fim que temos de propor-nos a ler: o primeiro, tratar de compreender o sentido das Escrituras; e em seguida, esforçar-nos por proclamá-la com a maior dignidade possível.

Quem lê, de fato, busca em primeiro lugar compreender o que lê, e somente depois trata de expressar de modo mais conveniente o que aprendeu.

Mas o bom leitor não se preocupa tanto de conhecer o que lê quanto de colocá-lo em prática. É menos árduo ignorar completamente um ideal do que, uma vez conhecido, não colocá-lo em prática. Portanto, assim como mediante a leitura demonstramos nosso desejo de conhecer, assim logo após ter conhecido temos de sentir o dever de colocar em prática as coisas boas que aprendemos.

Ninguém é capaz de aprofundar-se no sentido da Sagrada Escritura se não a lê com assiduidade, conforme está escrito: ‘Ama-a e ela te exaltará, glorificar-te-á quando a abraças’.

Quanto mais assíduo se é na leitura da Escritura, mais rico é o entendimento que se alcança. É o mesmo que acontece com a terra: quanto mais a cultivamos, mais produz.

Existem pessoas que, sendo inteligentes, são negligentes na leitura dos textos sagrados. Desta forma, com sua negligência manifestam seu desprezo por aquilo que poderiam ter aprendido mediante a leitura. Outros, no entanto, têm desejos de saber, porém sua escassa preparação se torna um obstáculo. Contudo, estes últimos, mediante uma leitura inteligente e assídua, chegam a conhecer o que os outros ignoram; mais inteligentes, porém preguiçosos e indiferentes.

Assim como uma pessoa, ainda que seja tarda em inteligência, consegue tirar fruto graças ao seu esforço e seu empenho no estudo, assim aquele que negligencia o dom da inteligência que Deus lhe concedeu se torna culpável de reprovação, porque rejeita um dom recebido e o deixa sem dar frutos.

Se a doutrina não está sustentada pela graça, não chega ao coração, mesmo que entre pelos ouvidos. Faz muito barulho por fora, mas não aproveita a alma. Somente quando intervém a graça, a Palavra de Deus desce dos ouvidos ao fundo do coração, e ali age intimamente, levando a compreensão do que foi lido”. (1)

Um pouco antes, São Jerônimo exortou-nos a amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Literalmente afirmou: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”.

Por isso, é importante que todo cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus, que nos é entregue na Sagrada Escritura.

Este diálogo com Ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve haver um diálogo realmente pessoal, pois Deus fala conosco através da Sagrada Escritura e tem uma mensagem para cada um de nós.

A Sagrada Escritura não pode ser vista como uma Palavra do passado, mas como Palavra de Deus dirigida também a nós, quando procuramos entender o que o Senhor quer nos dizer.

Para não cair no individualismo, temos de ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão e para nos unir na verdade de nosso caminho rumo a Deus.

Portanto, apesar de ser sempre uma Palavra pessoal, é também uma Palavra que edifica a comunidade, que edifica a Igreja verdadeiramente Sinodal. Por isso, temos de lê-la em comunhão com a Igreja viva.

O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a Liturgia, nela ao celebrar a Palavra e ao tornar presente o Sacramento do Corpo de Cristo, atualizamos a Palavra em nossa vida e a fazemos presente entre nós.

A Palavra de Deus transcende os tempos, ao contrário das opiniões humanas que passam. O que hoje se apresenta como moderno, amanhã estará ultrapassado. Ela é Palavra de Vida Eterna, tem em si a eternidade, vale para sempre. 

Com a leitura da Palavra Divina, podemos nos instruir acerca da vontade de Deus, mas quando a tomamos para a Oração, abrimos nosso coração e a Ele apresentamos nossos anseios, propósitos, angústias, esperanças,  alegrias e tristezas, em atenta espera de Sua resposta.

Os Salmistas nos ensinam que os ouvidos de Deus estão sempre abertos e prontos a nos conceder uma resposta, ainda que esta nos desinstale, nos questione, exija mudança de rumos, conceitos e paradigmas, e alargamento de horizontes…

“Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei para meu Deus:
do Seu templo ele ouviu a minha voz, e o meu clamor em Sua presença chegou aos Seus ouvidos.” (Sl 17,7)


(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp. 176-177

A Palavra do Senhor e a fecundidade de nosso coração (XVDTCA)

                                                        

A Palavra do Senhor e a fecundidade de nosso coração

Reflexão à luz da Parábola do Semeador (Mt 13,18-23; Mc 4,13-20; Lc 8,4-15):


“Os diversos terrenos, frequentemente presentes e misturados em nós, são a imagem do nosso coração desejoso porventura de escutar a Palavra, mas incapaz de compreendê-la em profundidade e de deixá-la criar raízes, de modo a poder dar fruto.

É necessário proceder a um trabalho atento e sapiente, libertando o coração de pedregulhos e de espinhos, separando a terra boa, isto é, exercendo aquela vigilância contínua a que convidam outras páginas do Evangelho (cf. Lc 12,35ss), e um sábio discernimento sobre tudo o que ocupa os nossos sentimentos e os nossos pensamentos” (1)

Completemos a reflexão com o Comentário do Missal Cotidiano (2), e assim, podemos falar em quatro categorias de pessoas ao ouvir a Palavra de Deus:

1º - Aqueles que a ouvem com planos próprios, sem muita disponibilidade para se questionar com a Palavra;

2º - Outros são superficiais, pois ouvem levianamente a Palavra, e da mesma forma esquecem;

3º - Muitos não têm tempo para tirar conclusões da Palavra, porque “têm muito que fazer”;

4º - Mas têm alguns que realmente refletem sobre a Palavra ouvida, e se dispõem a “mudar”, com uma disponibilidade mais ou menos ampla, que só Deus pode medir.

Corroborando ainda mais a reflexão: 

“O homem dos primeiros três quadros escuta, mas não compreende. Os motivos são diversos e colocam em evidência obstáculos cada vez mais sutis e, por vezes, difíceis de descobrir. A razão pode estar na intervenção do Maligno, mas também em algumas atitudes humanas, como a volubilidade e a superficialidade que se manifestam quando é necessário enfrentar dificuldades e provações, ou então a inquietação que nasce da preocupação pelas riquezas” (3).

De outro lado, a compreensão da Palavra de Deus não é um exercício intelectual, porque nasce da acolhida atenta e amorosa do que se ouviu, e da fé incondicional no Senhor, que nos dirige a Palavra divina para que, acolhida em chão fértil e pleno de fé, dê saborosos e abundantes frutos Pascais.

Além de nos questionarmos sobre o modo como acolhemos a Palavra, e com qual terreno nos identificamos, há uma segunda questão que o Comentário do Missal nos apresenta:

Na explicação da Parábola, o Senhor fala dos que ouvem, e notemos que não aparecem “Aqueles que não ouvem”.

Entretanto, há muitos que ainda não ouviram a Palavra do Senhor, e precisamos nos questionar se, como discípulos missionários do Senhor, estamos vivendo a graça de anunciar e testemunhar a Palavra de Deus a muitos, em todos os âmbitos e em todos os momentos.

Concluindo, oportunas as Palavras do Apóstolo Paulo aos Romanos (Rm 10,14-15):

“Como, pois, invocarão Aquele em quem não creram? e como crerão n’Aquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o Evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas”.


(1) (3) - Lecionário Comentado – Tempo Comum – Volume I - Editora Paulus – Lisboa – 2011 – p.796
(2) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p.1067

A Palavra Divina e a fecundidade de nosso coração (XVDTCA)

                                               

A Palavra Divina e a fecundidade de nosso coração
     
 “No silêncio orante, façamos a Palavra florescer”

Reflexão à luz da passagem do Evangelho (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9; Lc 8,4-15), em que nos é apresentada a Parábola do Semeador.

Jesus nos dá a explicação da passagem do semeador que saiu a semear, e da semente que caiu em vários terrenos: à beira do caminho, em terreno pedregoso e com espinhos, e na terra boa.

Cada terreno corresponde a um homem e à sua reação diante da Palavra que foi ouvida. Os diversos terrenos, frequentemente presentes e misturados em nós são a mais perfeita expressão da imagem de nosso coração, desejoso de escutar a Palavra, mas, por vezes, incapaz de compreendê-la profundamente, deixando criar raízes para que dê os frutos abundantes por Deus esperados.

Deste modo, a conversão é algo permanente. A vigilância, perseverança e confiança na Palavra que o Semeador, Jesus, faz em nosso coração são necessárias.

Quando a Palavra acolhida for regada com a força da Eucaristia, e posta em prática, produzimos frutos abundantes de alegria, comunhão, vida, amor e paz.

No silêncio orante, acolhamos a Palavra como semente num coração bom e generoso, onde a Palavra encontra condições favoráveis para florescer e frutificar.

Reflitamos:

- Estamos imunes da superficialidade e dureza de coração na escuta, acolhida e vivência da Palavra Divina?
- Quando nosso coração é como um terreno pedregoso e espinhoso?

- Quem de nós está livre de uma escuta leviana que leva ao imediato esquecimento, insensibilidade e indiferença à Palavra ouvida?

- Estamos totalmente disponíveis para o Plano de Deus, abrindo  mão de planos próprios?
- Como passar do conhecimento à prática da Palavra de Deus?
- Como não cair num ativismo frenético, sacrificando o precioso tempo do recolhimento, da familiaridade, da amizade, intimidade e diálogo com Deus através da Oração?

Oremos:

“Espírito de Jesus, 
Vós que conheceis a nossa vida, as nossas provações, 
o perigo em que vivemos, 
abri os nossos corações, 
para que possamos acolher a Vossa Graça, 
e possamos  compreender aquilo que, 
em nós, atenta à esperança.

Dai-nos luz para discernir os caminhos 
do adversário na nossa vida, 
para não os subestimarmos, 
para estarmos vigilantes, 
para os prevenirmos, 
para podermos lutar corajosamente 
e sermos vitoriosos, 
permanecendo firmes na fé. Amém”.

A eficácia da Palavra Divina (XVDTCA)

                                                

A eficácia da Palavra Divina

Inesgotável a mensagem da Parábola do Semeador (Mt 13,1-23; Mc 4,1-9: Lc 8,4-15):

“A Palavra de Deus é sempre eficaz em si mesma; o homem, todavia, pode resistir-lhe com sua liberdade e torná-La estéril. Também a chuva pode ser estéril se cai sobre as pedras. É o mistério da relação entre graça e livre arbítrio, entre onipotência de Deus e liberdade do homem. Como a luz é única, mas suscita várias cores – branco, vermelho, amarelo etc. – de acordo com a constituição dos corpos sobre os quais se reflete, assim a palavra de Deus é sempre viva e eficaz, mas produz efeitos e frutos diversos de acordo com os corações sobre os quais ela chega”. (1)

Todo discípulo missionário é ao mesmo tempo semeador e chão para a acolhida da Palavra, de modo que precisa estar sempre vigilante, para que não incorra numa espiritualidade vã e estéril.

Abrir-se sempre à graça divina, que cai copiosamente sobre todos, como a chuva que cai sobre os bons e os maus, mas precisa encontrar a acolhida para que possa tornar fecunda nossa vida.

Vigilância para que não sejamos como a semente a cair à beira de um caminho endurecido, por onde transitam os que por ele passam; tão pouco falte profundidade, porque pedregoso ou espinhoso que não suporte as adversidades e provações próprias da condição humana.

Terreno fértil e fecundo seja nosso coração, nutrindo-nos da Seiva do Amor do Santo Espírito: Deus além de conhecer o chão do nosso coração, nos dá a Palavra como semente, a Seiva garantia de fecundidade e abundância de frutos produzidos (Jo 15).

Oremos:

Humildes e confiantes, Vos pedimos, Senhor:
Livrai-nos do mal da esterilidade espiritual;
Do mal do fechamento à Vossa graça santificante;
Da má escuta superficial da Vossa Palavra,
Quando a enterramos no vale da mediocridade,
Porque não a acolhemos com fé profunda e autêntica.

Livrai-nos, Senhor, do mal da incredulidade
Ou da indiferença à Vossa Palavra, tão viva e eficaz,
Quando acolhida com retidão de coração,
E com sagrados compromissos de vivê-la e praticá-La.

Livrai-nos do mal da dureza do coração,
Da fraqueza de ânimo e espírito,
Inevitável quando nos fechamos ao Vosso Santo Espírito,
E nos fragilizamos, porque não nos nutrimos
Do Vosso Pão e do Vosso Sangue,
A nós oferecidos no Banquete Eucarístico de eternidade.

Tão somente libertos destes males e de tantos outros,
É que Vos amaremos e Vos conheceremos,
Adorando-Vos em espírito e verdade
E nos credenciaremos, na solidariedade com nosso próximo,
à graça de um dia alcançar a glória da eternidade. Amém.



(1) O Verbo Se faz Carne – Raniero Cantalamessa – Ed. Ave Maria  – 2013 – p.153

Em poucas palavras... (XVDTCA)

                                                  


A Sagrada Escritura

"Se conforme o Apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, e quem ignora as Escrituras ignora o poder de Deus e Sua Sabedoria, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. (1)

 

(1) São Jerônimo: Presbítero e Doutor da Igreja (340-420)  tradutor da Bíblia para o Latim, que até então era em hebraico e grego, por longos 35 anos.

Citado no parágrafo n.133 do Catecismo da Igreja Católica

 

Palavra do Senhor: escutar e viver (XVDTCA)

                                                        

Palavra do Senhor: escutar e viver

Para aprofundamento da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 13,18-23), acolhamos o Sermão do Papa e Doutor da Igreja São Gregório Magno (séc. VI).

“Retenham em vosso coração as Palavras do Senhor que escutastes com os vossos ouvidos; porque a Palavra de Deus é o alimento da alma; e a palavra que se ouve e não se retém na memória é precipitada como o alimento, quando o estômago está mal; mas preocupa-se com a vida de que não retém os alimentos no estômago.

Vede que tudo o que fazeis passa, e cada dia, quer queirais ou não, vos aproximais mais ao último juízo, sem nenhum perdão de tempo. Então, por que se ama o que se vai abandonar?

Por que não se dá importância sobre o fim aonde se vai chegar? Lembrai-vos de que se diz: ‘Se alguém tem ouvidos para ouvir, que ouça’. Todos os que escutavam ao Senhor tinham os ouvidos do corpo; mas aquele que diz a todos os que têm ouvidos: ‘Se alguém tem ouvidos para ouvir, que ouça’, não há dúvida alguma que se referia aos ouvidos da alma.

Procurai, portanto, guardar no ouvido de vosso coração a palavra que escutais. Procurai que a semente não caia à beira do caminho, não aconteça que venha o espírito maligno e arrebate a palavra de vossa memória.

Procurai que se a semente não caia em terra pedregosa e produza o fruto das boas obras sem as raízes da perseverança. A muitos lhe agrada o que escutam, e se propõem a fazer o bem; mas assim que começam a serem molestados pelas adversidades abandonam as boas obras que tinham começado. A terra pedregosa não teve seiva suficiente, porque o que tinha germinado não o levou até o fruto da perseverança.

Existem muitos que, quando ouvem falar contra a avareza, a rejeita, e exaltam o menosprezo das coisas deste mundo; mas assim que a alma vê uma coisa que desejar, esquece daquilo que louvava.

Existem também muitos que, quando ouvem falar contra a impureza, não somente não desejam saciar-se com as imundícias da carne, mas até se envergonham das máculas com as quais se mancharam; mas assim que a sua vista se apresenta a beleza corporal, de tal forma é o coração arrastado pelos desejos, como se nada houvesse feito nem determinado contra estes desejos, e realiza o que é digno de condenar-se, e, que ele mesmo havia condenado ao recordar que o havia cometido.

Muitas vezes nos contristamos por nossas culpas e, contudo, voltamos a cometê-las depois de já tê-las chorado”

Assim devemos fazer: guardar no ouvido do coração a Palavra de Deus que lemos, ouvimos ou meditamos e, sobretudo quando proclamada na Mesa da Palavra.

Quando elas entranham os ouvidos da alma, devem ser postas em prática, pois tão somente assim poderemos nos céus entrar, como bem nos disse o Senhor: somente quem ouvir Sua Palavra e a puser em prática é que entrará no Reino dos Céus (Mt 7,21).

Não podemos ser meros ouvintes da Palavra, mas devemos nos empenhar, com a graça de Deus, para colocá-La em prática.
Não ocorra que a Palavra caia como chuva em nosso coração, e seja como a mais bela chuva sobre as pedras, que por mais abundantes que sejam, não as tornarão fecundas.

Que os ouvidos do nosso coração sejam abertos e fecundos à Palavra de Deus, para que, através de nosso discipulado produza os frutos por Deus esperados.



Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – p. 176-177

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