quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Jó: modelo de confiança e serenidade

                                                  

Jó: modelo de confiança e serenidade

Na sexta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum (ano par), ouviremos a passagem do Livro de Jó (Jó 38,1.12-21;40,3-5).

Reflitamos sobre a necessária confiança na presença e ação de Deus, que jamais nos abandona na realização de Seu Projeto de vida plena e salvação para a humanidade, bem como a realidade do sofrimento, das dificuldades e das adversidades presentes em nossa vida, e a manifestação amorosa de Deus, que quer de nós confiança e entrega total em Suas mãos, com toda humildade.

É o que compreendemos ao refletir sobre a pessoa de Jó, o seu sofrimento e a inquietante interrogação: onde Deus está no sofrimento do inocente?

“Jó é convidado a aceitar que um Deus de quem depende toda a criação, que até submete o mar, que cuida da criação com cuidados de pai, sabe o que está a fazer e tem uma solução para os problemas e dramas do homem...

O homem, na situação de criatura finita e limitada, é que nem sempre consegue ver e perceber o alcance e o sentido último dos projetos de Deus... só Deus tem todas as respostas; ao homem resta reconhecer os seus limites de criatura e entregar-se nas mãos desse Deus onipotente e majestoso, que tem um projeto para o mundo. Ao homem finito e limitado resta confiar em Deus e ver n’Ele a sua esperança e salvação” (1)

A fé vivida por Jó nos permite afirmar que fé em Deus é compromisso contínuo, e não a busca de Deus como consolação imediata. É preciso entregar-se, abandonar-se nas mãos de Deus e não se isolar do mundo:

“O verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender totalmente os projetos de Deus, aprende a entregar-se a Ele, a obedecer-lhe incondicionalmente, a vê-lO como a razão última da sua vida e da sua esperança” (2)

A confiança em Deus não nos coloca numa postura de espera passiva, de modo que todos os problemas (terrorismo, violência, doenças, catástrofes, injustiças, insegurança etc.) devem nos inquietar em busca de respostas e saídas. Deus, que nos conduz através das armadilhas da história, nos ilumina nesta procura para que tenhamos vida plena e definitiva.



Fonte inspiradora e citações (1) (2):

A humildade: mãe e mestra de todas as virtudes

                                                          


A humildade: mãe e mestra de todas as virtudes

Reflexão à luz dos Livros "Moralia" sobre Jó, escrito pelo Papa São Gregório Magno (Séc. VI)

“Ouve, Jó, minhas palavras e escuta tudo o que digo. A ciência dos arrogantes tem isto de próprio, que eles não sabem comunicar com humildade o que ensinam e não conseguem apresentar com simplicidade as coisas boas que sabem.

Vê-se bem, pelo modo como ensinam, que se colocam, por assim dizer, em lugar muito elevado e olham de cima para os discípulos, postos embaixo, à distância, e não se dignam examinar juntos a questão mas apenas se impor.

Com razão disse deles o Senhor pelo Profeta: Vós os governáveis com severidade e tirania. Governam, na verdade, com severidade e tirania os que não se apressam em corrigir seus súditos, expondo-lhes serenamente as razões, mas em dobrá-los com aspereza e predomínio.

Bem ao contrário, a verdadeira ciência foge pelo pensamento, com tanto maior ímpeto desse vício da soberba, quanto com maior ardor persegue com as setas de suas palavras o próprio mestre da soberba.

Cuida de não apregoar por suas atitudes o vício que procura extirpar do coração dos ouvintes, mediante as palavras sagradas. Esforça-se por mostrar a humildade, que é a mestra e a mãe de todas as virtudes, tanto com as palavras quanto com a vida. Deste modo procura transmiti-la aos discípulos da verdade, mais por seu modo de ser do que pelas palavras.

Por isso, Paulo, falando aos tessalonicenses, como que esquecido das alturas de seu apostolado, disse: Fizemo-nos pequenos no meio de vós. Também o apóstolo Pedro ao dizer: Preparados sempre a dar satisfação a quem vos pede explicações sobre a esperança que tendes, afirma o dever de, na própria ciência da doutrina, manter a virtude do que ensina, acrescentando: Mas com modéstia e temor, em boa consciência.

Quando Paulo diz ao discípulo: Ordena e ensina com toda a autoridade, não fala de um domínio, mas se refere ao dever de persuadir pela autoridade da vida. Com autoridade se ensina aquilo que se vive antes de dizê-lo, pois não se tem confiança na doutrina quando a consciência impede a fala. Por conseguinte, Paulo não lhe sugeriu a força de palavras soberbas, mas a confiança da vida reta.

Sobre o Senhor está escrito: Ensinava como quem tinha poder, não como os escribas e fariseus. De modo singular e essencial foi ele o único a pregar o bem com autoridade, porque nunca cometeu mal algum por fraqueza. Com efeito, pelo poder da divindade, possuía o que nos ministrou pela inteireza de sua humanidade.” (1)

Peçamos a Deus o dom da ciência e jamais sejamos soberbos ou nos falte a necessária humildade que é mãe de todas as virtudes como afirmou o Papa:

“Esforça-se por mostrar a humildade, que é a mestra e a mãe de todas as virtudes, tanto com as palavras quanto com a vida. Deste modo procura transmiti-la aos discípulos da verdade, mais por seu modo de ser do que pelas palavras.”

(1) Liturgia das Horas – Volume III Tempo Comum – Editora Paulus - p.270-271

“O eloquente Sangue de Cristo”

                                                              

“O eloquente Sangue de Cristo”

Sejamos enriquecidos pelos Comentários sobre o livro de Jó, de São Gregório Magno, Papa (Séc. VI), sobre “o eloquente Sangue de Cristo”.

“O bem-aventurado Jó, como figura da santa Igreja, ora fala em nome do corpo, ora em nome da cabeça. Mas, às vezes, ocorre que, quando fala dos membros, toma subitamente as palavras da cabeça. Eis por que diz: Sofri tudo isso, embora não haja violência em minhas mãos e minha oração seja pura (Jó 16,17).

Sem haver violência alguma em Suas mãos, teve também que sofrer Aquele que não cometeu pecado e em cuja boca não se encontrou falsidade; no entanto, pela nossa salvação, suportou o tormento da Cruz. Foi Ele o único que elevou a Deus uma Oração pura, pois mesmo em meio aos sofrimentos da Paixão, orou por Seus perseguidores, dizendo: Pai perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! (Lc 23,34).

Quem poderá dizer ou pensar uma Oração mais pura do que esta em que se pede misericórdia por aqueles mesmos que infligem à dor? Por isso, o Sangue de nosso Redentor, derramado pela crueldade dos perseguidores, Se transformou depois em Bebida de salvação para os que Nele acreditariam e o proclamariam Filho de Deus.

Acerca deste Sangue, continua, com razão, o texto sagrado: Ó terra, não cubras o meu Sangue, nem sufoques o meu clamor (Jó 16,18).E ao homem pecador foi dito: És pó e ao pó hás de voltar (Gn 3,19).

A terra, de fato, não ocultou o Sangue de nosso Redentor, pois qualquer pecador, ao beber o preço de sua redenção, o proclama e louva e, como pode, o manifesta aos outros.

A terra não cobriu também o Seu sangue porque a santa Igreja já anunciou em todas as partes do mundo o mistério de Sua redenção.

Notemos no que se diz a seguir: Nem sufoques meu clamor. O próprio sangue da redenção, por nós, bebido, é o clamor de nosso Redentor. Por isso diz também Paulo: Vós vos aproximastes da aspersão do Sangue mais eloquente que o de Abel (Hb 12,24). E do sangue de Abel fora dito: A voz do sangue de teu irmão está clamando da terra por mim (Gn 4,10).

O Sangue de Jesus é mais eloquente que o de Abel, porque o sangue de Abel pedia a morte do irmão fratricida, ao passo que o Sangue do Senhor obteve a vida para Seus perseguidores.

Assim, para que não nos seja inútil o Sacramento da Paixão do Senhor, devemos imitar aquilo que recebemos e anunciar aos outros o que veneramos.

O clamor de Cristo fica sufocado em nós, se a língua não proclama aquilo em que o coração acredita. Para que esse clamor não seja sufocado em nós, é preciso que, na medida de suas possibilidades, cada um manifeste aos outros o mistério de sua vida nova”.

Eloquente é o Sangue do Senhor, o Sangue do Justo, do Filho muito amado, porque ao derramá-lo, por amor de nós, foi a verdadeira expressão da misericórdia divina na redenção da humanidade, e por ele fomos reconciliados.

Oremos:

Ó Deus, dai-nos a firmeza e a coragem, a graça e a força 
para que sejamos Vossas verdadeiras testemunhas.

Que Vosso Sangue nos lave, e o fogo do Vosso Amor nos queime,
para nos afastarmos  de todo contágio do mal,
e não sermos seduzidos  pelas falsas alegrias,

Cremos que  somente em Vós  encontramos o Sumo Bem
e a Verdadeira Alegria. 
Amém!

Simplicidade, retidão e temor a Deus

                                                               

Simplicidade, retidão e temor a Deus

Senhor, ajudai-nos a não nos afastarmos da pura simplicidade, procurando incansavelmente a virtude da retidão, nos pensamentos, palavras e ações, afastando-nos de todo mal, sem indesejáveis omissões, que fragilizam a novidade de Vosso Reino em nosso meio.

Senhor, dai-nos a graça de permanecer na inocência pela simplicidade, para que sejamos sábios no bem, e totalmente simples no mal; de modo que não nos façamos crianças pelo entendimento, maturidade de fé e sabedoria, mas sejamos pequeninos na malícia e em tudo que não nos torne puros de coração, como nos ensinais.

Senhor, dai-nos Vosso Espírito, para que em tudo sejamos prudentes como serpentes e simples como pombas, inseparavelmente, pois com a astúcia da serpente prevenimos a simplicidade da pomba, e assim, com a simplicidade da pomba temperamos a astúcia da serpente em nós e em nosso agir.

Senhor, que Vosso Espírito Se manifeste a nós, como presença, pela figura da pomba, recordando-nos a necessária simplicidade, mas também pela figura do fogo para que jamais descuidemos do zelo e do ardor, do amor que queima e arde sem se ver.

Senhor não permiti que caiamos na tentação de entrar por dois caminhos, pois assim poderíamos multiplicar obras em Vosso nome, mas tendo o coração distante de Vós, porque movidos por outros interesses, como o poder, a riqueza, o prestígio; e não a pura realização de Vossa vontade acima de todas as vontades.

Senhor, dai-nos a graça do temor divino, e também o afastar-se todo mal, pois o amor que segue o temor, esmaga toda a culpa na consciência pelo firme propósito da Vossa vontade, e tão somente assim, nos tornamos verdadeiros discípulos missionários Vossos, com renovados compromissos com um mundo novo, com ânsias sagradas de eternidade. Amém.



PS: Oração à luz dos Livros “Moralia” sobre Jó, do Papa São Gregório Magno – (Séc. VI).

Precisamos de companheiros de viagem nas tribulações

                                              


Precisamos de companheiros de viagem nas tribulações

“Frequentemente, um fato humano difícil como o de Jó é a ocasião para alguém enveredar pelo caminho nada fácil do sentido real das coisas, de um significado que possa realmente dar valor à luta quotidiana pela vida.

Nesta caminhada, tão profundamente humana, todos podemos descobrir-nos irmãos, companheiros de viagem e iluminar-nos reciprocamente com os dons que Deus concede a cada um.” (1)

 

(1)               Lecionário Comentado – Tempo Comum – Volume II – Editora Paulus – Lisboa – p. 474 - passagem do Livro de Jó (Jó 38,1.12-21;40,3-5)

Evangelizar é missão de todos nós

                                                         

Evangelizar é missão de todos nós

Reflexão sobre a missão evangelizadora de todos nós, à luz da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 6,34-44).

Assim lemos no comntário Missal Dominical, em que nos apresenta uma pequena citação do Documento “Lumen Gentium” (n.32):

“A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes deem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores.

Deste modo, todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo místico de Cristo: a própria diversidade de graças, ministérios e atividades, consagra em unidade os filhos de Deus, porque «um só e o mesmo é o Espírito que opera todas estas coisas» (1Cor 12,11).”

Pela condição batismal, todos somos responsáveis pela evangelização, e dentro desta missão as funções se diferenciam para formar a “admirável unidade do Corpo místico de Cristo”.

A mútua colaboração torna-se mais do que indispensável dentro da Igreja, para que avançando em águas mais profundas encontremos respostas para as questões mais inquietantes de nosso tempo.

Os ministros, ordenados ou não, devem ter no mais profundo de si o desejo de ser a imitação do exemplo do Senhor no serviço feito com zelo, entusiasmo, para que todos tenham mais vida e vida plena.

O grande sopro que o Espírito Santo trouxe para a Igreja com a realização do Vaticano II foi a graça de todos, pelo Batismo, continuarem a missão do Senhor, com o Sacramento da Ordem ou não.

“Ai de mim se eu não evangelizar” (1Cor 9,16), disse Paulo. Que cada um de nós, ordenados, consagrados ou como cristãos leigos e leigas, renovemos constantemente a alegria de sermos membros do rebanho, e ao mesmo tempo cuidadores deste, pois assim Deus quis e nos confiou.

Não nos omitamos na consolidação da santidade a que fomos chamados, nem percamos tempo com questões pequenas e insignificantes, com quirelas que nos consomem inutilmente, enquanto há um povo faminto e sedento de Deus, sedento de vida, de amor e de paz.

Em poucas palavras...

                                                             


“Não és acaso um ladrão ...” 

“Não és acaso um ladrão, tu que te apossas das riquezas cuja gestão recebeste? ... Ao faminto pertence o pão que conservas; ao homem nu o manto que manténs guardado; ao descalço, os sapatos que estão estragando em tua casa; ao necessitado, o dinheiro  que escondeste. Cometes assim tantas injustiças quantos são aqueles a quem poderias dar.” (1) 

 

(1)São Basílio Magno (séc. IV) 

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