terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um olhar transcendente

                                                 

Um olhar transcendente

Caminhando pela praça, meus olhos se fixam ao que me toca a alma. Em um cenário diferenciado, com um chão tortuoso, tendo o cuidado para não tropeço descuidado, volto meu olhar de modo especial sobre aqueles que edificam e fazem iluminar minha alma, e me levam a voos diferenciados às alturas de um céu azulado.

Meus pensamentos voam contemplando as crianças correndo ao encontro dos braços da mãe, e por elas fotografadas, deitadas na cama que a natureza nos presenteia: a grama do jardim, roseada pelas pétalas do ipê caídas depois do tempo útil e necessário, num eterno círculo de reflorescimento: cair, morrer, fecundar, e um tempo depois novamente vir a florescer e florir.

Na praça, por vezes, somos surpreendidos com pessoas, que rompendo o anonimato, se aproximam, para uma informação ou com o simples propósito de conversar, ainda que aparentemente futilidades, podendo até mesmo vincular relacionamentos, acolhida, orientação, palavras partilhadas, renovando-se para pôr-se a caminho.

Outras vezes os pensamentos voam contemplando pessoas trêfegas, cansadas, agitadas, depois de um dia extenuante, que não percebem que o sol está se pondo no horizonte, para um novo amanhecer, com seus raios e luz que virão nos iluminar e aquecer; e num retorno em meio ao tráfego, quando o semáforo que não abre, embora  programado, como que tivesse que se esperar uma eternidade.

Olho a praça como lugar do aprendizado da expressão da beleza da vida, da convivência harmoniosa, para além das diferenças e anonimatos a serem rompidos. Meus olhos, pela natureza encantados, pelo canto dos pássaros, meus ouvidos e alma tocados.

A sensibilidade para os mínimos acontecimentos nos dão a devida dimensão da grandiosidade e sacralidade e dignidade da vida humana e o zelo pela totalidade da divina criação.

Urge que nossas praças sejam mais valorizadas e cuidadas; um lugar agradável de caminhadas, para cuidado do corpo e do espírito, dos sonhos, dos encontros e reencontros, do refazer-se para o árduo caminho; espaço da convivência, das manifestações, da cordialidade e fortalecimentos de vínculos de justiça, paz e fraternidade.

Enfim, seja a praça a prefiguração da praça celestial, o novo céu e a nova terra, onde caminharemos entre anjos e santos, com a graça da comunhão plena de vida e de amor, em que o Senhor reinará no coração de toda a humanidade, quando o Filho, Jesus, submeterá Àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos.

“E quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, 
então o próprio Filho Se submeterá Aquele que tudo Lhe submeteu, 
para que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,28).

Oração cristã com a criação

                                 

Oração cristã com a criação

Nós Vos louvamos, Pai,
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença
e da vossa ternura.
Louvado sejais!

Filho de Deus, Jesus,
por Vós foram criadas todas as coisas.
Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado.
Louvado sejais!

Espírito Santo, que, com a vossa luz,
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!

Senhor Deus, Uno e Trino,
comunidade estupenda de amor infinito,
ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão
por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos
intimamente unidos
a tudo o que existe.
Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo
como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.

Iluminai os donos do poder e do dinheiro
para que não caiam no pecado da indiferença,
amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:
Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz,
para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o vosso Reino
de justiça, paz, amor e beleza.
Louvado sejais!
Amém”.


PS: Encíclica “Laudato Si” – Papa Francisco (n. 246)

Ela está gritando

                                         

Ela está gritando

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente,
está gemendo como que em dores de parto...”
(Rm 8,22)

Posso ouvir seus gritos, porque sugada, pisoteada.
Impossível secar suas lágrimas, porque são como um mar.
Há que se ter um limite para ambição desmedida,
Sobretudo quando movida pelo interesse insano
Da produção, consumo, venda e lucro sem fim.

Posso ouvir seus gemidos, clamores subindo aos céus;
Ela não suporta nossa arrogância e falta de escrúpulos,
Com exploração abismal, graves consequências,
Muitas vezes, pagas por vidas de pobres e indefesos,
Que se sobrevivendo, sem direitos sagrados garantidos.

Posso ouvir seus suspiros profundos de esperança,
Como que dizendo: “convertam-se, enquanto é tempo!”
Retomemos o projeto do Criador no Paraíso:
“Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” (Gn 1,18),
Desde que “dominar” não seja sinônimo de “destruição”!

Ela, nossa “casa comum”, Planeta Terra, apesar do que façamos,
Por desígnio divino, nos sacia, como um milagre, todos os dias,
Como rezamos ontem, hoje e sempre com o Salmista:
“Eu o sustentaria com a fina flor do trigo e
saciaria com o mel que escorre da rocha” (Sl 81,16).

Ela está gritando, agonizando...
Urge rever com ela nossa postura.
Amar e cuidar de nossa casa comum,
Recriar o Paraíso, sem adiamento,
Missão que Deus a nós confia. Amém.

Solidariedade fraterna: A face humana do Amor Divino

                                              


Solidariedade fraterna:
A face humana do Amor Divino

Reflitamos sobre o caminho para a eternidade, o caminho da salvação, que nos alcance a felicidade também para o tempo presente: este único caminho passa pelo amor a Deus e ao próximo, e que são coordenadas que orientam a nossa vida.
  
Deste modo, mais importante do que saber quem é o próximo a quem devo amar, é tornar-me próximo de quem precisa; de quem se encontra à beira do caminho.

Deste modo a Lei de Deus não é posta fora de nosso alcance. É inscrita em nosso coração e em nossa mente, proclamada pela nossa boca, mas principalmente com a nossa vida: a adesão ao Projeto Divino implica a vivência dos Seus Mandamentos.

Quando Cristo, a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda a criatura, a Cabeça da Igreja que somos é o centro de nossa vida e da comunidade, abrimo-nos ao outro, fazemo-nos próximos daqueles que estão à beira do caminho, no amor vivenciado, misericórdia, compaixão e solidariedade.

O Senhorio de Jesus se dá na vivência do Mandamento Novo do Amor que nos deu, somente assim revelamos Sua supremacia, centralidade, soberania e poder.

O Papa Bento XVI em sua Encíclica Deus caritas est”, assim nos enriqueceu com estas breves e profundas palavras:

“O amor ao próximo é também uma estrada que conduz a Deus. Não amar o próximo é tornar-se míope de Deus”.

Ao mesmo tempo em que Jesus é o Caminho, Ele nos desafia ao amor e solidariedade com aqueles que se encontram marginalizados à beira do caminho, o nosso próximo, seja quem for, é aquele que necessita de nós, amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido...
É, portanto, qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessite da nossa ajuda e amor para se levantar... Eis o amor sem limites que Ele viveu e nos ensinou a viver!

Reflitamos:

- Como estou vivendo a verdadeira religião que nos permite experimentar a proximidade divina para uma maior proximidade humana, em gestos de comunhão fraterna?

- Qual é a diretriz de minha vida? Leis, ritos ou o amor?

Concluindo:

Somente quem ama e se aproxima solidariamente do outro alcança a eternidade!

Amar é criar condições para que o outro “se levante” e caminhe!
Eis aqui a essência da missão de uma comunidade que professa sua fé no Senhor Jesus.

Exortação Apostólica “Gaudete Et Exsultate”




Exortação Apostólica “Gaudete Et Exsultate”

A Exortação Apostólica “Gaudete et exsultate” – sobre a chamada à Santidade no mundo atual, escrita pelo Papa Francisco (2018), nos orienta para que vivamos a alegria da santidade.

Deus nos quer santos e espera que não nos resignemos a uma vida medíocre, superficial e indecisa (n.1).

A Exortação não é um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções, mas tem um humilde objetivo: “fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na Sua presença, no amor» (cf. Ef 1, 4)” (n.2).

A CHAMADA À SANTIDADE (Capítulo I)


Capítulo I

A CHAMADA À SANTIDADE

Na Carta aos Hebreus, temos a menção de várias testemunhas que nos encorajam a «correr com perseverança a prova que nos é proposta» (Hb 12, 1): Abraão, Sara, Moisés, Gedeão e vários outros (Hb 11).

Há outras testemunhas: “pode ser a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2 Tm 1, 5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor”(n.3).

Contamos com a comunhão dos santos, que já chegaram à presença de Deus e mantêm conosco laços de amor e comunhão.

“Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (...) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me»” (n. 4).

O que se leva em conta nos processos de beatificação e canonização:

- os sinais de heroicidade na prática das virtudes;
- o sacrifício da vida no martírio;
- os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte;
- esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis. 

Não nos salvamos sozinhos:  “...ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo” (n. 6).

A santidade no povo paciente de Deus, uma “santidade ao pé da porta”, dos que vivem perto de nós:  “nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir...” (n. 7).

A santidade é o rosto mais belo da Igreja e também fora dela (ortodoxos, anglicanos e protestantes).

Todos somos chamados à santidade (Lumen Gentium n.11): Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. De fato, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse «a seu modo». Pois a vida divina comunica-se «a uns duma maneira e a outros doutra»” (n. 11).

Faz menção às mulheres que viveram a santidade: Santa Hildegarda de Bingen, Santa Brígida, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila ou Santa Teresa de Lisieux; tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho (n.12).

O que é preciso para ser santo: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra... Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (n.14).

Como batizados, deixar que a graça do Batismo frutifique num caminho de santidade: “Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gl 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade” (n. 15).

Devemos crescer em santidade a partir de pequenos gestos (n. 16).

Exemplo do Cardeal Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan, quando se encontrava na prisão, renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação - «aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária» (n.17).

Crescer na santidade sob o impulso da graça divina, com muitos gestos, vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Pd 4, 10) (n. 18).

Cada santo é uma missão: “é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspecto do Evangelho” (n. 19).

Santidade é viver em união com Jesus Cristo os mistérios da sua vida; associando de maneira única e pessoal à morte e Ressurreição do Senhor; morrer e ressuscitar continuamente com Ele (n.20).

Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao Seu povo (n. 21).

Perseverança não obstante nossas fraquezas – ser renovado pelo Espírito, e não haverá fracasso na missão (n. 24).

A santificação se alcança com a entrega de corpo e alma e dando o melhor de si (n.25).


Contemplação na ação: silêncio acompanhado do encontro; repouso da atividade e a oração do serviço (n. 26).

Na identificação com Jesus, falamos de espiritualidades: do catequista, do clero diocesano, do trabalho, da missão, ecológica, e da vida familiar... (n. 28).

Valorizar momentos de quietude, solidão e silêncio diante de Deus “Com efeito, as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo, às vezes, não deixam espaços vazios onde ressoe a voz de Deus. Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive”

Vigilância diante dos próprios meios de distração que invadem a vida atual, para não esmorecer no serviço generoso e disponível (n. 30).

“Precisamos de um espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor. Desta forma, todos os momentos serão degraus no nosso caminho de santificação” (n. 31). 

Não ter medo da santidade, pois cada cristão quanto mais santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo, e nos tornamos mais vivos e mais humanos (n. 32.33).


“Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida 'existe apenas uma tristeza: a de não ser santo'”.

DOIS INIMIGOS SUTIS DA SANTIDADE (Capítulo II)

Capítulo II
DOIS INIMIGOS SUTIS DA SANTIDADE

Há duas falsificações de santidade que poderiam nos extraviar: o gnosticismo e o pelagianismo (heresias dos primeiros séculos do cristianismo).

Transparece um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica:

“seja o individualismo neopelagiano quer o desprezo neognóstico do corpo descaracterizam a confissão de fé em Cristo, único Salvador universal (Congregação para a doutrina da Fé)( conforme n. 35 e nota.

O GNOSTICISMO ATUAL:

Este supõe «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos» (n.36).

“Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo» (n. 37)

Trata-se de uma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade do pensamento...” (n. 38).

Uma advertência: “Não estou a referir-me aos racionalistas inimigos da fé cristã. Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto nos leigos das paróquias como naqueles que ensinam filosofia ou teologia em centros de formação. Com efeito, também é típico dos gnósticos crer que eles, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam. Uma coisa é o uso saudável e humilde da razão para refletir sobre o ensinamento teológico e moral do Evangelho, outra é pretender reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo” (n.39).



“Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério», tanto o Mistério de Deus e da Sua graça, como o mistério da vida dos outros” (n. 40).

Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus” (n. 41).

Citando São Boaventura: “é necessário que se deixem todas as operações intelectivas e que o ápice mais sublime do amor seja transferido e transformado totalmente em Deus (...) Dado que, para se obter isto, nada pode a natureza e pouco pode a ciência, é preciso dar pouca importância à indagação, muita à unção espiritual; pouca à língua, e muita à alegria interior; pouca à palavra e aos livros e toda ao dom de Deus, isto é, ao Espírito Santo; pouca ou nenhuma à criatura e toda ao Criador: ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”

“Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana. Isto faz parte do mistério que as mentalidades gnósticas acabam por rejeitar, porque não o podem controlar” (n. 42).

Na realidade, porém, aquilo que julgamos saber sempre deveria ser uma motivação para responder melhor ao amor de Deus, porque «se aprende para viver: teologia e santidade são um binómio inseparável» (n. 45).


Citando São Francisco de Assis: “...ao ver que alguns dos seus discípulos ensinavam a doutrina, quis evitar a tentação do gnosticismo. Então escreveu assim a Santo António de Lisboa: ‘Apraz-me que interpreteis aos demais frades a sagrada teologia, contanto que este estudo não apague neles o espírito da santa oração e devoção’” (n.46).


Na relação entre sabedoria e misericórdia, cita São Boaventura: “advertia que a verdadeira sabedoria cristã não se deve desligar da misericórdia para com o próximo: ‘A maior sabedoria que pode existir consiste em dispensar frutuosamente o que se possui e que lhe foi dado precisamente para o distribuir (...). Por isso, como a misericórdia é amiga da sabedoria, assim a avareza é sua inimiga’. Há atividades, como as obras de misericórdia e de piedade, que, unindo-se à contemplação, não a impedem, antes favorecem-na’”.  (n. 46).

O PELAGIANISMO ATUAL:

Com o passar do tempo, muitos começaram a reconhecer que não é o conhecimento que nos torna melhores ou santos, mas a vida que levamos (n.47).

Não há lugar para a atuação da graça de Deus: “...o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. Esquecia-se que ‘isto não depende daquele que quer nem daquele que se esforça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso’ (Rm 9, 16) e que Ele ‘nos amou primeiro’ (1 Jo 4, 19)” (n. 48).

“Quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, “no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico” (n. 49)

Ensinava Santo Agostinho: Deus convida-te a fazer o que podes e “a pedir o que não podes’; ou então a dizer humildemente ao Senhor: “dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes”(n.49).

“A graça, precisamente porque supõe a nossa natureza, não nos faz improvisamente super-homens. Pretendê-lo seria confiar demasiado em nós próprios. Neste caso, por trás da ortodoxia, as nossas atitudes podem não corresponder ao que afirmamos sobre a necessidade da graça e, na prática, acabamos por confiar pouco nela...”  (n. 50).

Um ensinamento da Igreja dos Padres da Igreja, frequentemente esquecido – “A Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa” (n. 52).

São João Crisóstomo: Deus derrama em nós a própria fonte de todos os dons, “antes de termos entrado no combate” (n.52).


São Basílio Magno: o fiel se gloria apenas em Deus, porque “reconhece estar privado da verdadeira justiça e que é justificado somente por meio da fé em Cristo” (n.52).

O II Sínodo de Orange ensinou, com firme autoridade, que nenhum ser humano pode exigir, merecer ou comprar o dom da graça divina, e que toda a cooperação com ela é dom prévio da mesma graça: “até o desejo de ser puro se realiza em nós por infusão do Espírito Santo e com sua ação sobre nós” (n. 53).


O Concílio de Trento, mesmo reafirmou tal ensinamento dogmático: «Afirma-se que somos justificados gratuitamente, porque nada do que precede a justificação, quer a fé, quer as obras, merece a própria graça da justificação; porque, se é graça, então não é pelas obras, caso contrário, a graça já não seria graça (Rm 11, 6)» (n.53)

O Catecismo da Igreja Católica: o dom da graça «ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da vontade humana» e que, «em relação a Deus, não há, da parte do homem, mérito no sentido dum direito estrito” (n. 54)

Santa Teresa de Lisieux: os santos evitam de pôr a confiança nas suas ações: “Ao anoitecer desta vida, aparecerei diante de Vós com as mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos Vossos olhos” (n.54).

A caridade torna possível o crescimento na vida da graça, porque, “se não tiver amor, nada sou” (1 Cor 13, 2).  (n. 56).

Os novos pelagianos: “Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo”. (n. 57).

“Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos. Assim se habituam a reduzir e deter o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do seu sabor. É talvez uma forma sutil de pelagianismo, porque parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas. Isto diz respeito a grupos, movimentos e comunidades, e explica por que tantas vezes começam com uma vida intensa no Espírito, mas depressa acabam fossilizados... ou corruptos” (n. 58).

“Sem nos darmos conta, pelo fato de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue” (n. 59).

Citando São Tomás de Aquino: “lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, para não tornar a vida pesada aos fiéis, (porque assim) se transformaria a nossa religião numa escravidão” (n. 59).

O resumo da Lei: o amor a Deus e ao próximo (n. 60, 61): a fé agindo pela caridade (Gl 5.6).

UMA SÚPLICA E UM QUESTIONAMENTO:

“Que o Senhor liberte a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que a complicam e detêm no seu caminho para a santidade! Estes desvios manifestam-se de formas diferentes, segundo o temperamento e as caraterísticas próprias. Por isso, exorto cada um a questionar-se e a discernir diante de Deus a maneira como possam estar a manifestar-se na sua vida” (n. 62).

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