quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Padre e a vocação à perfeição

                                                              

O Padre e a vocação à perfeição

Obrigado, Senhor, porque pelo Sacramento da Ordem, tornei-me  Presbítero e fui configurado com Cristo Sacerdote, na qualidade de ministro da Cabeça, para construir e edificar todo o Seu Corpo, que é a Igreja, como cooperador da Ordem Episcopal.

Bem sei que muito antes, pela consagração do Batismo, recebi, como todo cristão, o sinal e o dom de tão grande vocação e graça para que, apesar da fraqueza humana, procurasse a perfeição, segundo a Palavra do Senhor: “Sede perfeitos como o Vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48).

Senhor, fortalecei-me nesta graça a que todo sacerdote está obrigado:  atingir tal perfeição, uma vez que, consagrados a Deus de modo novo pela recepção do Sacramento da Ordem, transformar-se em instrumentos vivos de Cristo, Eterno Sacerdote, para continuarem,  através dos tempos, Sua obra admirável, que reuniu com suma eficiência toda a família humana.

Embora não mereça, como sacerdote, sou chamado a fazer às vezes da própria Pessoa de Cristo, enriquecido por uma graça especial, para que, no serviço ao Povo de Deus a mim confiado, possa alcançar melhor a perfeição d’Aquele a quem represento, e por isto tenha eu a fraqueza carnal, própria da condição humana,  curada pela santidade d’Aquele que por nós Se fez Pontífice Santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores (Hb 7,26).

Que eu tenha os mesmos sentimentos Vossos, Senhor Jesus Cristo (Fl 2,5), a quem o Pai santificou, consagrou e enviou ao mundo, Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para Si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem (Tt 2,1), e assim, pela Paixão, entrou na Sua glória.

Senhor, ao ser consagrado pela unção do Espírito Santo e enviado por Cristo, que eu saiba mortificar em mim mesmo as obras da carne, e dedicando-me totalmente ao serviço do Povo de Deus,  progredindo no caminho de santidade, enriquecido em Cristo, até atingir a estatura do homem perfeito.

Deste modo, Senhor, exercendo o ministério do Espírito e da justiça, dócil ao Espírito de Cristo, que me vivifica e me dirige, solidifique a cada dia minha vida espiritual.

Que pelas próprias ações sagradas de cada dia, como também por todo o ministério, com ardor e paixão vivido, exercido em comunhão com o bispo e com os outros presbíteros, tenha como meta a perfeição da vida.

Senhor, que jamais me esqueça que a santidade dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho frutuoso do próprio ministério; pois, embora a graça divina possa realizar a obra da Salvação também por meio de ministros indignos, contudo preferis, manifestar as Suas maravilhas através daqueles que, dóceis ao impulso e direção do Espírito Santo, pela sua íntima união com Cristo e santidade de vida, possam dizer como e com o Apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim “(Gl 2,20).
Amém.



PS: Inspirado no “Decreto Presbyterorum Ordinis” - sobre o ministério e a vida dos presbíteros, do Concílio Vaticano II - (N.12).

Santificar e santificar-se, eis a missão do Presbítero!

                                               

Santificar e santificar-se, eis a missão do Presbítero!

É sempre tempo oportuno de refletir a razão de ser da Igreja, bem como a missão do Presbítero nela. Cada tempo possui seu contexto, desafios, interpelações, mas a missão é a mesma, na irrenunciável e intransferível fidelidade ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, jamais conformando com este século, como nos falou São Paulo em suas Epístolas.

Na missão evangelizadora caberá ao Presbítero participar da santificação dos fiéis a ele confiados. Mas, como favorecer esta santificação  se não se propuser também a colocar-se neste mesmo caminho de santificação?

Para aprofundamento, retomo parte da catequese do Papa Bento XVI sobre esta Missão de santificação do Padre, principalmente mediante os Sacramentos e o culto da Igreja.

Mas em que consiste a santidade? O que é ser santo se não a qualidade específica do ser de Deus, isto é, absoluta verdade, bondade, amor, beleza, pura luz? Conforme as palavras do Papa:

“... Santificar uma pessoa significa, portanto, colocá-la em contato com Deus, com este seu ser luz, verdade e amor puro. É óbvio que tal contato transforma a pessoa...”.

Nessa afirmação está implícito um precioso desafio para o próprio Presbítero: fazer ele próprio a experiência do ser de Deus, deixando-se envolver por Seu amor puro; iluminando-se por Sua Palavra que, além de luz para o escuro dos caminhos, é a verdade que o liberta de tudo que o impossibilita de, alegremente e com o fogo da caridade, colocar-se a serviço do Amor Maior: Deus.

Evidentemente, o Presbítero ao celebrar os Sacramentos deve fazer este profundo contato, possibilitando que os fiéis também o façam. Celebrando com zelo e piedade cada Sacramento introduz os fiéis, ao mesmo tempo em que é introduzido, no Mistério do Amor Trinitário, experimentando o amor salvífico do Senhor, em profunda vivência do Mistério Pascal, sobretudo no augustíssimo Sacramento da Eucaristia. E quando do Banquete Eucarístico participamos, de amor nos envolvemos, de alegria nos inebriamos e com um novo mundo mais que sonhado nos comprometemos!

Sacramentos bem celebrados, e na vida prolongados, farão o Presbítero e os fiéis mais santos, e consequentemente, santificarão o mundo, no empenho irrenunciável e incansável porque, por amor, se cumprirá o que o Senhor disse - seremos sal da terra que dá sabor, luz que ilumina e fermento de um mundo novo.

Não há modo mais sublime de corresponder à bondade e ternura divina: Deus quer apenas nossa resposta de amor na missão assumida, com alegria, confiança e serenidade...

Santidade assim entendida jamais será evasão do mundo, o fugir das emaranhadas teias da realidade política, cultural, econômica, religiosa, pelo contrário, será inserção concreta e solidária, impregnando o mundo com os valores do Evangelho para que um novo céu e uma nova terra aconteçam.

O Apóstolo Paulo dirigindo-se a Timóteo assim diz: “Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas. Segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual fostes chamado, como reconheceste, numa bela profissão de fé, diante de muitas testemunhas...” (1 Tim 6,11-12).

A vida do Presbítero e dos fiéis deve transbordar nestas palavras exortadas pelo Apóstolo Paulo: justiça, piedade, fé, amor, perseverança, mansidão.  Somente assim a santidade poderá ser vivida e a esperança da eternidade alcançada no amor que se traduz em partilha, solidariedade e sensibilidade com os clamores dos que mais precisam.

Que a justiça seja compreendida como retidão em relação às pessoas, em relação ao nosso próximo; a piedade como a nossa relação de retidão para com Deus em estreita intimidade e fidelidade; a como a nossa adesão incondicional e plena a Jesus Cristo; o amor seja a bela e desejável concretização de nossa fé e norma de comportamento em tudo e em todos os momentos e lugares.

Que a perseverança se renove na capacidade de superação de conflitos internos e externos, e a mansidão, como desejável virtude, nos identifique como cristãos, como o Senhor no-la apresentou no Sermão da Montanha. E assim indubitavelmente seremos sinais do Bom Pastor.

Nunca é demais repetir: na Missão de Santificar os fiéis o Presbítero deve também se santificar...

Em todo tempo, santificar e santificar-se é preciso!
Eis a meta, a vocação e o ideal de cada vida cristã: tornar-se
um prolongamento de Jesus - Presbíteros e fiéis.

Presbítero: a fecundidade da fidelidade no Ministério Presbiteral

                                                                


Presbítero: a fecundidade da fidelidade no Ministério Presbiteral

“Uma fidelidade que gera futuro”

A fecundidade do ministério presbiteral é diretamente proporcional à fidelidade vivida, garantia de um futuro fecundo.

Deste modo,  o presbítero viverá com zelo de Pastor a identidade presbiteral, para que seja sacerdote segundo o amor do Coração de Jesus.

A cada dia, será renovada a chama do primeiro amor do encontro pessoal com Cristo, que deu um novo horizonte e um rumo decisivo à sua vida; aquele memorável encontro que o Senhor o amou, escolheu, chamou e confiou a graça da vocação de discípulos Seu.

Nos passos do Bom Pastor, a Ele configurado, tem os passos firmados e cresce na familiaridade e íntima amizade com Ele, de tal modo que, é envolvida toda a sua pessoa, coração e inteligência, sem cansaço ou desânimo indesejáveis.

A fidelidade deve ser expressa no serviço, na fraternidade, na sinodalidade, na missão gera futuro:

- Fidelidade e serviço uma vida oferecida ao celebrar o Sacrifício de Cristo na Eucaristia; no anúncio da Palavra de Deus; na absolvição dos pecados; na generosa dedicação a serviço da comunhão e no necessário cuidado dos que mais sofrem e passam necessidades.

Conta com a sabedoria divina para viver o chamado ao ministério ordenado, como dom livre e gratuito de Deus, e sua vida é generosa resposta marcada pela graça, gratidão e gratuidade, envolvido pela divina ternura que sabe trabalhar com as fragilidades e limitações humanas.

Tão somente aberto ao sopro do Espírito, que conduz a Igreja, cuida da formação permanente, acompanhada da cotidiana conversão e vigilância, para que não caia na tentação do imobilismo ou o fechamento.

- Fidelidade à fraternidade - imprescindível o estabelecimento de vínculos de comunhão com os bispos e presbíteros, superando toda tentação de individualismo; de tal modo que a fraternidade presbiteral é elemento constitutivo do ministério pela Igreja confiado; jamais mergulhado na empobrecedora solidão ou reclusão em si mesmo.

A concórdia e harmonia na caridade será um hino a Jesus Cristo, na vida em comum, unidade irrepreensível, para que cada vez mais  inserido na fecunda comunhão de Amor da Vida Trinitária.

- Fidelidade e sinodalidade - aberto ao sopro do Espírito, que conduz e anima a Igreja, vive sadia e fecunda relação no cuidado das  comunidades, sem jamais concentrar tudo em suas mãos ou cair na tentação de trabalhar sozinho; e assim vive o ministério da síntese e não a síntese de todos os Ministérios na edificação de uma Igreja ministerial, sinodal, misericordiosa e missionária.

- Fidelidade e missão exala o odor do óleo que ungiu as suas mãos em alegre atitude de doação, serviço, com humildade e mansidão; vivendo a compaixão, proximidade e coerência, sem cair na tentação da eficiência expressa na preocupação com a quantidade de atividades e projetos realizados, ou em empobrecedor quietismo, fechado em si mesmo, assustado pelos contexto nos qual inserido.

Na graça da missão, o fogo da caridade pastoral garante o equilíbrio e a unificação da vida de todo presbítero na vida cotidiana, de tal modo que a missão alcança todas as dimensões da sociedade, em particular a cultura, a economia e a política, para que tudo seja recapitulado em Cristo (cf. Ef 1,10).

Na missão vivida com sabedoria, cuida da necessária harmonia entre a contemplação e a ação, afastando toda a tentação do individualismo e a celebração de si mesmo, em empobrecedora autorreferencialidade; e com João Batista, aprende a se fazer pequeno para que Ele, Jesus, cresça e seja conhecido e glorificado (cf. Jo 3,30).

Na necessária presença no mundo midiático, usa as redes sociais e todos seus instrumentos à disposição com discernimento e sabedoria, para ver o que de fato contribui para a sadia evangelização, lembrando as palavras do Apóstolo Paulo – “Tudo me é lítico! Sim, mas nem tudo convém.” (1 Cor 6,12).

- Fidelidade e futuro empenha-se na vivência do ministério, por um renovado Pentecostes vocacional dentro da Igreja, cuidando das pastorais e dentre elas a pastoral familiar e juvenil, sem jamais se esquecer que “não há futuro sem cuidar de todas as vocações!”.

Por fim, pode contar e confiar na intercessão da Virgem Imaculada, Mãe do Bom Conselho, e de São João Maria Vianey, padroeiro dos párocos, para que viva “um amor tão forte que dissipa as nuvens da rotina, do desânimo e da solidão: um amor total que nos é dado em plenitude na Eucaristia. Amor Eucarístico, amor sacerdotal.” Amém.

 

PS: Reflexão inspirada na Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro” – Papa Leão XIV -8/12/25 – Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria.

O Senhor nos refaz de todos os cansaços (Papa Francisco - 2015)

                                                         

O Senhor nos refaz de todos os cansaços

Ofereço alguns trechos da Homilia feita pelo Papa Francisco na Missa do Crisma, Quinta-feira Santa, dia 2 de abril de 2015:

«A minha mão estará sempre com ele / e o meu braço há de torná-lo forte» (Sl 89/88, 22).... Assim pensa o nosso Pai cada vez que «encontra» um Padre. E acrescenta: «A minha fidelidade e o meu amor estarão com ele / (...) Ele me invocará, dizendo: “Tu és meu Pai, / és o meu Deus e o rochedo da minha salvação”» (vv. 25.27)

...E, se o Senhor pensa e Se preocupa tanto com o modo como poderá ajudar-nos, é porque sabe que a tarefa de ungir o povo fiel não é fácil, é dura; causa fadiga e leva-nos ao cansaço. E nós experimentamo-lo em todas as suas formas: desde o cansaço habitual do trabalho apostólico diário até ao da doença e da morte, incluindo o consumar-se no martírio.

O cansaço dos Sacerdotes! Sabeis quantas vezes penso nisto, no cansaço de todos vós? Penso muito e rezo com frequência, especialmente quando sou eu que estou cansado. Rezo por vós que trabalhais no meio do povo fiel de Deus, que vos foi confiado; e muitos o fazem em lugares demasiado isolados e perigosos. E o nosso cansaço, queridos Sacerdotes, é como o incenso que sobe silenciosamente ao Céu (cf. Sl 141/140, 2; Ap 8, 3-4). O nosso cansaço eleva-se diretamente ao coração do Pai.

Estais certos de que também Nossa Senhora se dá conta deste cansaço e, imediatamente, fá-lo notar ao Senhor. Como Mãe, sabe compreender quando os seus filhos estão cansados, e só disso se preocupa. «Bem-vindo! Descansa, filho. Depois falamos... Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?»: dir-nos-á ao abeirarmo-nos d’Ela (cf. Evangelii gaudium, 286). E dirá, ao seu Filho, como em Caná: «Não têm vinho!» (Jo 2, 3).

Pode acontecer também que, ao sentir o peso do trabalho pastoral, nos venha a tentação de descansarmos de um modo qualquer, como se o repouso não fosse uma coisa de Deus. Não caiamos nesta tentação! A nossa fadiga é preciosa aos olhos de Jesus, que nos acolhe e faz levantar o ânimo: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28)...

Sei repousar recebendo o amor, a gratidão e todo o carinho que me dá o povo fiel de Deus? Ou, depois do trabalho pastoral, procuro repousos mais refinados: não os repousos dos pobres, mas os que oferece a sociedade de consumo? O Espírito Santo é verdadeiramente, para mim, «repouso na fadiga», ou apenas Aquele que me faz trabalhar? Sei pedir ajuda a qualquer sacerdote experiente? Sei repousar de mim mesmo, da minha autoexigência, da minha autocomplacência, da minha autorreferencialidade?

Sei conversar com Jesus, com o Pai, com a Virgem Maria e São José, com os meus Santos padroeiros e amigos, para repousar nas suas exigências – que são suaves e leves – nas suas complacências – eles gostam de estar na minha companhia – e nos seus interesses e referências – só lhes interessa a maior glória de Deus? Sei repousar dos meus inimigos, sob a proteção do Senhor? Vou argumentando, tecendo e ruminando repetidamente cá para comigo a minha defesa, ou confio-me ao Espírito Santo que me ensina o que devo dizer em cada ocasião? Preocupo-me e afano-me excessivamente ou encontro repouso, dizendo como Paulo: «Sei em quem acreditei» (2 Tm 1, 12).

Repassemos brevemente os compromissos dos Sacerdotes, que proclama a liturgia de hoje: levar a Boa-Nova aos pobres, anunciar a libertação aos cativos e a cura aos cegos, dar a liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor. Isaías diz também cuidar daqueles que têm o coração despedaçado e consolar os aflitos.
Gostaria agora de partilhar convosco alguns cansaços, em que meditei.

Temos aquele que podemos chamar «o cansaço do povo», o cansaço das multidões»: para o Senhor, como o é para nós, era desgastante – di-lo o Evangelho – mas é um cansaço bom, um cansaço cheio de frutos e de alegria.

O povo que O seguia, as famílias que lhe traziam os seus filhos para que os abençoasse, aqueles que foram curados e voltavam com os seus amigos, os jovens que se entusiasmavam com o Mestre… Não Lhe deixavam sequer tempo para comer. Mas o Senhor não Se aborrecia de estar com a gente. Antes pelo contrário, parecia que ganhava nova energia (cf. Evangelii gaudium, 11)...

É o cansaço do Sacerdote com o cheiro das ovelhas, mas com o sorriso de um pai que contempla os seus filhos ou os seus netinhos. Isto não tem nada a ver com aqueles que conhecem perfumes caros e te olham de cima e de longe (cf. ibid., 97).

Somos os amigos do Noivo: esta é a nossa alegria. Se Jesus está apascentando o rebanho no meio de nós, não podemos ser pastores com a cara azeda ou melancólica, nem – o que é pior – pastores enjoados. Cheiro de ovelhas e sorriso de pais... Muito cansados, sim; mas com a alegria de quem ouve o Seu Senhor que diz: «Vinde, benditos de meu Pai!» (Mt 25, 34).

Existe depois aquele que podemos chamar «o cansaço dos inimigos». O diabo e os seus sectários não dormem e, uma vez que os seus ouvidos não suportam a Palavra de Deus, trabalham incansavelmente para a silenciar ou distorcer.

Aqui o cansaço de enfrentá-los é mais árduo. Não se trata apenas de fazer o bem, com toda a fadiga que isso implica, mas é preciso também defender o rebanho e defender-se a si mesmo do mal (cf. Evangelii Gaudium, 83)... Eis a Palavra do Senhor para estas situações de cansaço: «Tende confiança! Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33). E esta palavra dar-nos-á força.

E, por último (...) há também «o cansaço de nós próprios» (cf. Evangelii Gaudium, 277). É talvez o mais perigoso. Porque os outros dois derivam do fato de estarmos expostos, de sairmos de nós mesmos para ungir e servir (somos aqueles que cuidam).

Diversamente, este cansaço é mais autorreferencial: é a desilusão com nós mesmos, mas sem a encararmos de frente, com a alegria serena de quem se descobre pecador e carecido de perdão, de ajuda; é que, neste caso, a pessoa pede ajuda e segue em frente...

Gosto de lhe chamar o cansaço de «fazer a corte ao mundanismo espiritual». E, quando uma pessoa fica sozinha, dá-se conta de quantos sectores da vida foram impregnados por este mundanismo e temos até a impressão de que não há banho que o possa lavar. Aqui pode haver um cansaço mau.

A palavra do Apocalipse indica-nos a causa deste cansaço: «Tens constância, sofreste por causa de mim, sem te cansares. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primeiro amor» Ap 2, 3-4).

Só o amor dá repouso. Aquilo que não se ama, cansa de forma má; e, com o passar do tempo, cansa de forma pior.

A imagem mais profunda e misteriosa do modo como o Senhor cuida do nosso cansaço pastoral – «Ele que amara os Seus (…), levou o Seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1) – é a cena do lava-pés...

O seguimento de Jesus é lavado pelo próprio Senhor para que nos sintamos no direito de ser e viver «alegres», «satisfeitos», «sem medo nem culpa» e, assim, tenhamos a coragem de sair e ir, «a todas as periferias até aos confins do mundo», levar esta Boa-Nova aos mais abandonados, sabendo que «Ele estará sempre conosco até ao fim dos tempos». E, por favor, peçamos a graça de aprender a estar cansados, mas com um cansaço bom!”

Voltamo-nos a esta Homilia para reencontrar as forças e nos refazer de nossos cansaços, como Presbíteros ou como cristãos, cada um de modo próprio.

Além das passagens pelo Papa citadas, a Homilia nos remete a inúmeras passagens bíblicas. Entre elas: Salmo 23, “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará”; vários textos dos Evangelhos, em que o Senhor chamou quem Ele quis pelo nome e muitas vezes depois os chamou em lugar a parte para que se refizessem e descansassem; além de várias passagens das Cartas do Apóstolo Paulo; e, por fim, o Livro do Apocalipse, que se refere ao abandono do “primeiro amor”.

Oremos por todos os Sacerdotes...



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Em poucas palavras...

 


Os inseparáveis Montes: das Bem-aventuranças e do Calvário

Dois montes se relacionam como se fosse o primeiro e o segundo atos de uma dramaturgia em dois atos: o Monte das Bem-aventuranças e o Monte do Calvário.

Ele que subiu o primeiro monte para pregar as Bem-aventuranças, teve necessariamente de subir o segundo para praticar o que havia pregado...

No Monte das Bem-aventuranças, Cristo ordenou aos seres humanos que se lançassem na cruz da abnegação; no Monte do Calvário, Ele abraçou essa mesmíssima cruz.

Embora a sombra da Cruz não viesse a escurecer o Lugar da Caveira senão três anos depois, ela já estava no Seu Coração no dia em que pregou sobre ‘como ser feliz’” (1)

 


(1)  Vida de Cristo – Fulton J Sheen – Editora Molokai – 2024 – p.249.264

Peregrinos da esperança, aprendamos com Tobias

                                                      

Peregrinos da esperança, aprendamos com Tobias

Um pequeno decálogo do discípulo missionário do Senhor, à luz do Livro de Tobias:

01 – Ser vigilante em todas as obras.
02 – Mostrar-se prudente na conversação.
03 – Não fazer a ninguém o que para si não desejar.
04 – Dar do próprio pão a quem tem fome.
05 – Dar as próprias vestes aos que estão despidos.
06 – Dar de esmola todo o supérfluo.
07 – Bendizer ao Senhor em todo o tempo.
08 – Pedir ao Senhor que sejam retos os caminhos.
09 – Pedir ao Senhor êxito em todos os passos.
10 – Pedir ao Senhor êxito, também, em todos os projetos.

Dez bons propósitos a serem vividos, como discípulos missionários, para que sejamos sal da terra e luz do mundo, como nos disse o próprio Senhor (Mt 5,13-16), e sejamos peregrinos da esperança.

Estejam, portanto, presentes estas orientações em nosso pensar, falar e agir: vigilância, prudência, bondade, partilha, a súplica confiante ao Senhor para êxito em nosso discipulado, no anúncio e testemunho, acompanhado do louvor e gratidão por Sua presença que nos fortalece, porque nos envia o Seu Espírito para maior fidelidade ao Pai.


Fonte inspiradora: Tb 4,14b-15a.16ab.19a

Fidelidade na provação

                                                  


Fidelidade na provação

Reflexão à luz da passagem do Livro de Tobias (Tb 1,3;2,11a-8).

Tobias (quer dizer – “Deus é bom”) andava no caminho da verdade e da justiça em total fidelidade a Deus a todo custo, como rezamos no refrão do Salmo da Missa (Sl 111/112):

“Feliz o homem que respeita o Senhor e que ama com carinho a sua Lei...”

Tobias viveu a fidelidade desde a sua juventude. Mesmo desterrado (sob o domínio dos assírios), manteve-se fiel a seus compromissos religiosos; tornando-se rico, servia-se do que tinha em favor dos outros. Mesmo colocando em risco a própria vida, dava sepultura aos justiçados e assassinados.

A cena descrita na passagem, bem como em todo o livro, coloca em evidência a sua generosidade.

Tobias mesmo dando tudo, Deus lhe pede tudo:

“Quando menos o esperamos, pode vir a ‘provação’ decisiva, a confirmar a própria doação e é o pressuposto da retribuição de Deus.” (1)

A preocupação e interesse pelos seus irmãos que padecem, exigiu sacrifícios, renúncia às próprias comodidades, afastamento das vozes da própria razão – “Só indigência do irmão dá a medida de seu interesse.” (2)

Reflitamos:


- Quais são as lições a aprender com Tobias?

- Qual a autenticidade da fidelidade à Lei Divina em nossa vida?


- Qual é o nosso compromisso solidário com os que mais precisam?

- Como enfrentamos as provações em nosso cotidiano?

Peçamos a Deus: “Dai-nos força para resistir à tentação, paciência na tribulação, e sentimentos de gratidão na prosperidade”.

Oremos:

“Senhor Deus, que nos convocais para a mesa santa, sinal de unidade e de amor, concedei-nos a graça de cumprirmos com confiança a obra que nos confiastes, para atendermos às necessidades da vida e cooperarmos na edificação do vosso Reino.” Amém.

 

(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – 1988 – pág. 844-845.

(2)Lecionário Comentado – Tempo Comum – Volume I – Editora Paulus – Lisboa - p.427

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