sábado, 6 de setembro de 2025

A Lei a serviço da vida

                                                     

A Lei a serviço da vida

No sábado da 22ª semana do Tempo Comum e na segunda-feira da 23ª Semana do Tempo Comum,  ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,1-5 e Lc 6,6-11 - respectivamente).

À luz destes acontecimentos, refletimos sobre o Dia do Senhor (sábado para os judeus, domingo para os cristãos), que devemos guardar a fim de fazer memória da ação criadora e redentora de Deus com Seu Povo que somos.

Voltemos à passagem do Livro do Deuteronômio (Dt 5,12-15), que nos recorda o preceito do terceiro Mandamento, de guardar o sábado para santificá-lo, sugerindo que seja um dia que exprime a unidade do Povo que celebra a ação libertadora de Deus, sem qualquer tipo de desigualdades.

Temos a enunciação do Mandamento, uma explicação didática de como devemos praticá-lo e uma fundamentação teológica para essa mesma prática.

O referido Mandamento funciona como um símbolo dos deveres para com Javé (Dt 5,6.15) e para com o próximo (Dt 5,14.21).

Urge regressar aos fundamentos da celebração do Dia do Senhor, tomando a sério o valor do verbo “santificar”.

Santificar o Dia do Senhor implica em adorá-lo, acima de tudo e de todos, mas também implica em viver relações mais justas e fraternas com o próximo, para não incorrermos em nova escravidão.

Voltando aos fundamentos da celebração do Dia do Senhor, viveremos o sábado (ou Domingo), como memorial da libertação do Pecado na Páscoa de Cristo, que atualiza a obra libertadora de Deus da escravidão do Egito.

A celebração do Dia do Senhor tem uma grande dimensão social, sendo dia de descanso para todos, garantindo esse direito, sobretudo aos pobres que se veem assim protegidos pela Lei divina, como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica:

“O agir de Deus é o modelo do agir humano. Se Deus ‘descansou’ no sétimo dia, o homem deve também ‘descansar’ e deixar que os outros, sobretudo os pobres, ‘tomem fôlego’. O sábado faz cessar os trabalhos quotidianos e concede uma folga. É um dia de protesto contra as servidões do trabalho e o culto do dinheiro” (n. 2172).

O Papa Bento XVI nos ajuda a compreender a importância do Domingo para os cristãos:

“Precisamos do Pão da vida para enfrentar as fadigas e o cansaço da viagem. O Domingo, Dia do Senhor, é a ocasião propícia para haurir a força d'Ele, que é o Senhor da vida.

Por conseguinte, o preceito festivo não é um dever imposto pelo exterior, um peso sobre os nossos ombros. Ao contrário, participar na Celebração dominical, alimentar-se do Pão eucarístico e experimentar a comunhão dos irmãos e irmãs em Cristo é uma necessidade para o cristão, é uma alegria, e assim pode encontrar a energia necessária para o caminho que devemos percorrer todas as semanas.

Um caminho, aliás, não arbitrário: a via que Deus nos indica na sua Palavra vai na direção inscrita na própria essência do homem, a Palavra de Deus e a razão caminham juntas. Seguir a Palavra de Deus e caminhar com Cristo significa para o homem realizar-se a si mesmo; perdê-la equivale a perder-se a si próprio”. (1)

Voltemos à passagem do Evangelho em que se retoma a temática do terceiro preceito do Decálogo, nos episódios em que os discípulos colhem espigas para comer e um homem com uma mão atrofiada curado - ambos os episódios em dia de sábado.

A mensagem central: quando se faz uma interpretação demasiado rigorista dos preceitos da Lei, esta deixa de cumprir a sua missão de estar ao serviço do homem em cada tempo.

Jesus nos convida, por isso, a posicionar-nos ao serviço dos necessitados, tendo em conta que o Dia do Senhor foi feito para o homem, não para fazer do homem um escravo.

O Evangelista nos convida a centrar nas palavras de Jesus que ajudam a interpretar a sua liberdade diante da instituição do sábado judaico: "O Filho do homem é senhor do sábado" (Lc 6,5):


“Diante do poder de Jesus e das necessidades humanas, as coisas sagradas não têm um valor próprio (nem o pão do santuário, no caso de David, nem o sábado, no caso dos discípulos de Jesus ou do homem com a mão atrofiada), mas existem para o bem da humanidade (os pães da proposição para alimentar David e os seus homens, o sábado para o homem e para Jesus); na interpretação de Jesus, é fundamental que o que é sagrado esteja ao serviço do homem...

Jesus escolheu fazer o bem e colocar-Se ao serviço das necessidades humanas, satisfazendo-as, mesmo se isso lhe acarreta a decisão do conluio das autoridades políticas e religiosas contra Ele, para O condenarem à morte” (2)

Não se trata, portanto, da interpretação libertina ou relativista do sábado, mas de fazer dele o dia da relação com Deus, que vem em auxílio de quem está em necessidade.

As interpretações rigoristas da Lei – como são as dos fariseus no nosso texto – cegam e não deixam ver as necessidades humanas que, na perspectiva de Jesus, são o verdadeiro critério para manter uma atitude livre diante da Lei, sendo assim o cristão prolonga a existência da vida de Cristo, e no Dia Maior, o Domingo, a Ele consagrado, não pode perder de vista os que foram os Seus prediletos, com gestos de amor, solidariedade e partilha.

Por fim, concluímos que todas as instituições, sejam elas religiosas ou civis, devem estar ao serviço da vida humana, para que possam realizar a missão para a qual nasceram, do contrário, perderão a razão de existir.


PS: Citações extraídas de www.Dehonianos.org/portal 

Misericórdia acima de tudo

                                                                  

Misericórdia acima de tudo

No sábado da 22ª semana do Tempo Comum e na segunda-feira da 23ª Semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,1-5 e Lc 6,6-11, respectivamente).

O Evangelista nos apresenta dois episódios na vida de Jesus: em dia de sábado Seus discípulos colhem espigas para comer, e Ele cura um homem que tinha a mão seca.

Na conclusão, vemos que os escribas e fariseus encheram-se de raiva e começaram a discutir sobre o que fariam contra Jesus.

Sejamos enriquecidos por este Comentário do Missal Dominical:

“Nas mãos dos doutores da Lei e dos escribas, o sábado se transformara numa série de minuciosa e pesada de prescrições e proibições, a ponto de se tornar sinal de nova escravidão, a de um culto formalista e exterior.

Mas Jesus vem corrigir todas essas inúteis e opressoras prescrições. Ele não Se coloca contra o sábado eliminando-o ou transtornando-lhe o sentido, Observa o sábado, mas vai diretamente ao essencial, afirmando duas ideias:

o primado da misericórdia sobre as exigências culturais e as prescrições relativas ao repouso sabático (cura o homem da mão paralítica):

o primado da consciência sobre a regra, do homem sobre a Lei (o sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado).”

Para Jesus, o mais importante é que o bem seja feito em todo o tempo, o mal jamais.

A prática da misericórdia ressalta o valor sagrado da vida humana, que está acima de toda prescrição legalista e fria que não gera vida, empobrecendo, assim, o sentido da Lei e sua prática.

Fundamental que, como Igreja, aprendamos com Jesus o primado da misericórdia e da consciência, para nos colocarmos sempre a serviço da vida plena e definitiva.

  
Missal Dominical – Editora Paulus – 1995 – pp.918-919

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Sedentos do Vinho Novo

                                                         

Sedentos do Vinho Novo

 “O Amor de Deus foi
derramado em nossos corações.”

Na sexta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 5,33-39), em que Jesus nos questiona: “Acaso podeis fazer que os amigos do noivo jejuem enquanto o noivo está com eles?” (Lc 5,34).  E nos disse: “Põe-se, antes vinho novo em odres novos” (Lc 5,38).

Sejamos enriquecidos por um dos Sermões de um autor anônimo do século VI, que nos leva a refletir sobre a unidade da Igreja que, recebendo o dom do Espírito Santo, fala todas as línguas, de modo que todos se comunicam e se entendem.

“Os Apóstolos começaram a falar em todas as línguas. Aprouve a Deus, naquele momento, significar a presença do Espírito Santo, fazendo com que todo aquele que O tivesse recebido, falasse em todas as línguas.

Devemos compreender, irmãos caríssimos, que se trata do mesmo Espírito Santo pelo qual o Amor de Deus foi derramado em nossos corações.

O amor haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. E como naquela ocasião um só homem, recebendo o Espírito Santo, podia falar em todas as línguas, também agora, uma só Igreja, reunida pelo Espírito Santo, se exprime em todas as línguas.

Se por acaso alguém nos disser: ‘Recebeste o Espírito Santo; por que não falas em todas as línguas?’ devemos responder:

‘Eu falo em todas as línguas. Porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da Sua Igreja, que se exprime em todas as línguas. Que outra coisa quis Deus significar pela presença do Espírito Santo, a não ser que Sua Igreja haveria de falar em todas as línguas?’

Deste modo, cumpriu-se o que o Senhor tinha prometido: Ninguém coloca vinho novo em odres velhos. Vinho novo deve ser colocado em odres novos. E assim ambos são preservados (cf. Lc 5,37-38).
       
Por isso, quando ouviram os Apóstolos falar em todas as línguas, diziam alguns com certa razão: Estão cheios de vinho (At 2,13).

Na verdade, já se haviam transformado em odres novos, renovados pela graça da santidade, a fim de que, repletos do vinho novo, isto é, do Espírito Santo, parecessem ferver ao falar em todas as línguas.

E com este milagre tão evidente prefiguravam a universalidade da futura Igreja, que haveria de abranger as línguas de todos os povos.

Celebrai, pois, este dia como membros do único Corpo de Cristo.

E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorporados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro.

Esta Igreja Ele reconhece como Sua e é por ela reconhecida como seu Senhor. O Esposo não abandonou sua esposa; por isso ninguém pode substituí-la por outra.

É a vós, homens de todas as nações, que sois a Igreja de Cristo, os membros de Cristo, o corpo de Cristo, a esposa de Cristo, é a vós que o Apóstolo dirige estas palavras:

Suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos em guardar a Unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4,2-3).

Reparai como, ao lembrar o Preceito de nos suportarmos uns aos outros, falou-nos do amor, e quando Se referiu à esperança da unidade, pôs em evidência o vínculo da paz.

Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela Seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre Seus filhos.”

Acolhendo o dom do Espírito Santo, e com Ele o Amor de Deus, que é derramado em nossos corações; tornamo-nos membros do único Corpo de Cristo, e assim devemos viver e agir.

Somos membros de uma Igreja, edificada com pedras vivas, e todo esforço deve ser feito para que se supere o “triste espetáculo da divisão entre Seus filhos”, como refletimos na conclusão do Sermão.

Envolvidos pelo Amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que preenche nossos corações, com coragem e ousadia, sejamos arautos contumazes e intrépidos da “Alegria do Evangelho”.

Deste modo seremos eternos aprendizes da mais bela linguagem universal: a linguagem do Espírito Santo, a linguagem de Deus, que consiste na linguagem do Amor.

Com o coração renovado, a cada dia, acolhamos o Vinho Novo do Amor de Deus e, uma vez transbordante, seja derramado a quantos precisarem, porque sedentos de amor, vida, alegria e paz.

Como preciso de Tua Palavra, ó Senhor

                                          


Como preciso de Tua Palavra, ó Senhor

No caminho, em todo o tempo, preciso de Tua Palavra: enquanto Pão para saciar a fome, enquanto Luz para iluminar as noites escuras, e quando da ausência de luz, em pleno meio-dia.

Tenho fome de Tua Palavra, e quero acolhê-la com respeito; conservando sua imutável pureza, sem nada alterar, nada acrescentar.

Vivê-la sem me inclinar às interpretações ao sabor de minhas vontades e caprichos, mas curvar-me à Tua vontade, que não necessariamente seja a minha, ainda que com renúncias e sacrifícios.

Tenho sede de Tua Palavra, como água cristalina, e saciada toda a sede, pôr-se a caminho na travessia de possíveis desertos cotidianos, até que possa fazer necessárias travessias.

Acolha eu Tua Palavra purificada, livre de escórias; a Palavra santa, na vigilância e atento para captá-la, compreendê-la e vivê-la a serviço do Reino, alcançado a graça da salvação.

Te peço, com humildade e confiança, um coração reto, sincero e livre de preocupações desnecessárias, sem apegos, a fim de que tenha tão apenas o pouco necessário, sem acúmulos, usar os bens necessários e abraçar os eternos.

Assim, dá-me sabedoria, para que saiba pedir o absolutamente necessário, sem incorrer em posturas medíocres, para que eu seja livre da opulência e da indigência, e tenha total disponibilidade e adesão a Ti no carregar da Cruz, tendo de Ti mesmos sentimentos. Amém.

 

PS: Fonte: Missal Cotidiano -  Editora Paulus – passagem da Leitura – Provérbios (Pr 30,5-9) – p.1305

Rezando com os Salmos - Sl 78(79),1-5.8-11.13

 


Peregrinos de esperança e os clamores que sobem aos céus

“=1 Invadiram vossa herança os infiéis,
profanaram, ó Senhor, o vosso templo,
Jerusalém foi reduzida a ruínas!

–2 Lançaram aos abutres como pasto
os cadáveres dos vossos servidores;
– e às feras da floresta entregaram
os corpos dos fiéis, vossos eleitos.

=3 Derramaram o seu sangue como água
em torno das muralhas de Sião,
e não houve quem lhes desse sepultura!

=4 Nós nos tornamos o opróbrio dos vizinhos,
um objeto de desprezo e zombaria
para os povos e àqueles que nos cercam.

=5 Mas até quando, ó Senhor, veremos isto?
Conservareis eternamente a vossa ira?
Como fogo arderá a vossa cólera?

=8 Não lembreis as nossas culpas do passado,
mas venha logo sobre nós vossa bondade,
pois estamos humilhados em extremo.

=9 Ajudai-nos, nosso Deus e Salvador!
Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos!
Por vosso nome, perdoai nossos pecados!

–10 Por que há de se dizer entre os pagãos:
'Onde se encontra o seu Deus? Onde ele está?'

= Diante deles possam ver os nossos olhos
a vingança que tirais por vossos servos,
a vingança pelo sangue derramado.

=11 Até vós chegue o gemido dos cativos:
libertai com vosso braço poderoso
os que foram condenados a morrer!

=13 Quanto a nós, vosso rebanho e vosso povo,
celebraremos vosso nome para sempre,
de geração em geração vos louvaremos.”

O Salmo 78(79),1-5.8-11.13 é uma lamentação sobre a destruição de Jerusalém:

“O triste espetáculo de Jerusalém destruída pelos babilônios é interpretado como resultado das infidelidades do povo à Aliança com o Senhor. Diante disso, o salmo pede castigo para os inimigos e o perdão para o seu povo.” (1)

Jesus também chorou sobre Jerusalém como vemos na passagem do Evangelho de Lucas (Lc 19,41-44):

“Se tu também reconhecesses, hoje, aquilo que conduz à paz! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos!”

Trata-se, portanto, de uma das páginas evangélicas em que aparece mais claramente a profunda humanidade de Jesus. Ele como qualquer pessoa Se comove e chora diante de fatos que provocam sofrimento, como também  aconteceu na morte de Seu amigo Lázaro (Jo 11,35).

Ainda hoje muitos são os sinais que devem também nos interpelar pela compaixão e solidariedade, e nossas lágrimas vertidas devem ser expressas em sagrados compromissos com a promoção e edificação de um mundo mais justo e fraterno. Amém.

 

(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – pág. 795

O Amor de Deus cura as feridas da alma

                                                                         

O Amor de Deus cura as feridas da alma

Há Missas que ecoam para sempre,
Como deve ecoar sempre o Mistério celebrado,
A Palavra proclamada, na homilia explicada...
Quero então a uma delas voltar.

À Missa se volta? Desde quando?
A Missa continua, prolonga-se, eterniza-se...
Momento de graças vivenciado,
Para sempre eternizado.

O Profeta Isaías cantou a missão do Servo,
Sobre o qual pousaria o Espírito do Senhor,
Para o ano da graça anunciar
E a libertação dos cativos propiciar.

Nesta missão algo maravilhoso fará.
A mais preciosa cura que precisamos
Em grau maior ou menor, vejamos:
“Ele vem curar a ferida da alma”

“Ferida da alma” Sem espiritualizações fúteis.
Quantas vezes ela nos marca e teima permanecer...
O que fazer para curá-la, cicatrizá-la?
Haverá ferida mais difícil a ser curada?

Desconheço, pois ela está no mais profundo do nosso ser.
Para curá-la somente o Seu Extremo Amor.
Reconhecê-la, assumi-la, desejar curá-la.
Sem reminiscências, cicatrizes ardentes.

Somente o Amor de Deus tem poder pleno para curá-la.
O Amor de Deus cura as feridas da alma.
O Amor de Deus cura todas as feridas.
Se assumidas, pelo Amor Divino serão redimidas.

Seu Extremo e Indizível Amor
Que contemplamos em Suas chagas e feridas.
Amor, bondade, mansidão, ternura exaladas,
Para que tantas almas feridas sejam curadas.

Sejamos curados pelo Amor Divino
Destas indesejáveis feridas do íntimo.
Sejamos também desta cura instrumentos.
Bem ao lado há alguém que dela precisa.

Curados para curar com a ação do Santo Espírito.
Curados de nossas feridas para curar do outro as feridas.
Haverá graça maior que Deus possa por nós realizar?
Por isto, Seu Espírito age revitalizando nossas vidas.

Para quem em Deus confia
Não há feridas eternas.
Que Seu Amor imensurável
Nos acompanhe a cada dia!

“Deuteronômio”: História do amor de Deus por nós

                                                        


“Deuteronômio”: História do amor de Deus por nós

Setembro com beleza própria, primavera se anuncia;
Os ipês florescem com a exuberância da beleza das cores.
Em meio às cinzas das queimadas no campo e à poluição das cidades.
Encontros de reflexão bíblica tão esperados.

Olhemos o chão que pisaram nossos pais,
O tempo e a distância nos separam,
Mas a fé no mesmo Deus nos aproxima,
E ilumina nossos sombrios e árduos caminhos.

“Deuteronômio”, quinto Livro do Pentateuco,
“Debarim”, “Palavras”, digamos como aprouver.
Importa ouvir e acolher sagradas Palavras,
Que no outro lado do Jordão, por Moisés, ao Povo dirigidas. (Dt 1,1)

Nele encontramos temas fundamentais
Para sadia e fecunda espiritualidade.
Fé em Deus enraizada; esperança, âncora
Em travessias, caridade vivenciada.

Escrito por mãos tantas, em tempos diversos,
Mas sempre a mesma fonte inspiradora.
Pelo sopro do Espírito escrito silenciosamente,
E em nosso coração, indelevelmente inscrito.

Livro Santo, no Novo Testamento tão presente,
Mais de duas centenas, ricamente citados.
Memoráveis nos lábios do Senhor no deserto,
E com Sua Palavra, diabólicas tentações vencidas. (1)

Sete luzes divinas no Livro acesas a iluminar,
Para que a escuridão da noite possamos enfrentar,
Em todo tempo e em todo lugar,
Para horizontes do inédito alcançar.

Brilho da primeira luz: o perfume do amor de Deus,
Exalado e comunicado no Egito, o povo libertando,
Em novo modo de sagrados relacionamentos
Com Deus e com o próximo, nosso irmão e irmã.

Luminosidade da segunda luz: a memória histórica.
Jamais perder a memória da ação divina,
De Suas maravilhas incontáveis em nosso favor.
Ontem, hoje, e sempre a Ele nosso louvor.

Fulgor da terceira luz: revelar o rosto de Deus
“Abre tua mão para teu irmão, teu necessitado, teu pobre em tua terra” (Dt 15,11)
Ser Povo de Deus não é privilégio e ostentação,
Mas amor e serviço, uma sagrada missão.

Resplendor da quarta luz: viver em “saída”
Em saída da terra da escravidão e sofrimento
Para terra onde corra leite e mel, nova terra, novo céu;
“Igreja em saída”, misericordiosa e missionária!

Claridade da quinta luz: não há lugar para a pobreza.
“Com efeito, não haverá pobres no meio de ti” (Dt 15,4).
Se Aliança com Deus vivida, o grito do pobre
Encontrará de todos nós resposta, acolhida e solidariedade.

Fulguração da sexta luz: libertos de toda escravidão.
“Eu sou Yahweh teu Deus, Aquele que te fez sair
Da terra do Egito, da casa da escravidão” (Dt 5,6-8)
Jamais outros deuses, idolatria, tirania, servidão.

Lume da luz final: Aliança de Deus com Seu Povo.
Compromisso mútuo entre Deus e a humanidade para sempre,
Renovado e celebrado cotidianamente,
Nas Sagradas Mesas da Palavra e da Eucaristia. Amém.



(1) (Mt 4,4; Dt 6,16; Mt 4,7); Dt 6,13; Mt 4,10)
Fonte: Revelar o Amor de Deus – uma chave para o Livro do Deuteronômio – Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino -  Vida Pastoral  - setembro/outubro 2020 – ano 61 n. 335 – pp.14-22

Escrito em 2020

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