sexta-feira, 3 de abril de 2026

“Iluminai, Senhor, as profundezas de nosso coração!”

                                                               


“Iluminai, Senhor, as profundezas de nosso coração!”

Uma Oração que se encontra na Liturgia das Horas, e retomo para reflexão.

“Acolhei, Senhor, as preces desta manhã, e por Vossa bondade iluminai as profundezas de nosso coração, para que não se prendam por desejos tenebrosos os que foram renovados pela luz de Vossa Graça. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!”
                                     
Em primeiro lugar, colocamos nas mãos divinas as preces da manhã em alegre confiança: “acolhei”. Ele que é nosso auxílio e proteção, nosso refúgio, fortaleza e abrigo!

“Desta manhã”:
Implica na constância da Oração: há de ser cotidiana; ininterrupta.

A cada dia o pão, as preocupações, o bom combate da fé, as súplicas... 

A cada dia o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia (tanto quanto possível para os leigos e sempre para nós Presbíteros).

“Por Vossa bondade”:
Indubitavelmente, Deus nos atende não porque sejamos bons, mas porque Ele é sumamente bom e nos atende para que sejamos bons, como Ele o é.

“Iluminai as profundezas de nosso coração”: O verbo é denso: “iluminai”:

- Somente Deus tem a plenitude da luz que pode iluminar nossos caminhos, projetos, obscuridade, dúvidas, temores...

- Somente Ele pode penetrar no mais profundo de nós mesmos, nas profundezas de nosso coração, sentimentos, pensamentos...

- Somente Ele é capaz de penetrar no mais profundo de nós mesmos, e muito mais do que nós mesmos, como disse Santo Agostinho...

- Somente Ele pode manter viva a chama que ainda fumega em nosso coração; mantê-la inflamável, inapagável...

“Para que não se prendam por desejos tenebrosos”:

“Desejos tenebrosos” podem ser a cobiça, a volúpia, a inveja, a rivalidade, o indiferentismo, os preconceitos velados, a ânsia e busca frenética do poder, a tentação da fama, privilégios.

"Desejos tenebrosos" que afloram no deserto nosso de cada dia, que o Senhor venceu para que também pudéssemos vencer: as tentações fundamentais do ter, ser e poder...

- Quem destes desejos está verdadeiramente liberto?
- Qual coração se encontra plenamente livre e imune de seduções sem fim?

“Por N. S. J. C., Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”
Como toda Oração, é confiança absoluta na Trindade Santa. Nela estamos e conosco Ela sempre está em imprescindível relacionamento.

Refaçamos a Oração acima com fé, trazendo ao coração:
Luz radiante,
Alegria inebriante,
 Serenidade contagiante...
Aleluia! Aleluia!

A Cruz e a Glória

                                                                  

A Cruz e a Glória

“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer:
O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens” (Lc 8,44)

Senhor, ouvindo Tuas palavras, contemplo-Te caminhando entre os pobres e os pequenos, teus preferidos, rumo a Jerusalém, onde consumaste teu divino projeto de amor em favor de nós, amando-nos até o fim, na morte do Inocente, do justo na Cruz.

Senhor, antes, Te vejo caminhando no meio do povo, uma presença mansa, discreta. Portadora de bem, vida plena para todos, atraindo ódio daqueles que à Tua Palavra e anúncio do Reino se fecharam, porque incomodados em seus privilégios e interesses.

Senhor, ajudai-nos a Te ver além das aparências e dos entusiasmos fáceis, amando-Te por aquilo que és: verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus, nosso Redentor, que nos chama para Te seguir, em fidelidade incondicional, com renúncias necessárias.

Senhor, afastai de nós toda a tentação de falsas esperanças de soluções fáceis diante das provações e dificuldades que possamos enfrentar, confiando em tua Palavra, que não engana e nos pede coragem e maturidade para o carregar da cruz cotidiana.

Senhor, afastai a tentação do desejo da glória da Ressurreição sem passar pelo Mistério da Cruz, e ensinai-nos a seguir Teus passos, e viver como viveste, em total fidelidade à vontade do Pai, entregando-Te nas mãos dos homens, Tu, que recebeste do Pai todo o poder.

Senhor, como membros de Tua Igreja, ajudai-nos a fortalecer os vínculos da comunhão fraterna, convictos que também no interior da vida da comunidade, o caminho da harmonia comunitária passa pela caridade e humildade; o caminho para a glória passa pela Cruz.

Senhor, enviai o Teu Espírito sobre nós, para que na fidelidade ao Teu Pai de amor, compreendamos melhor a missão que a nós confias, para que cristãos de fato sejamos, seguindo-Te primeiro nos sofrimentos e depois na glória. Amém.

O Mistério da Cruz e o encontro de três Amores

                                                        

O Mistério da Cruz e o encontro de três Amores

“Deus não quis poupar Seu próprio Filho,
mas o entregou por todos nós” (Rm 8, 32)


Contemplemos o Mistério da Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Na fraqueza do Filho, que se deixa atraiçoar e crucificar, revela-se o poder do Seu amor ablativo e do Pai que O ressuscitará. A Glória de Deus manifesta-se então ao através do insucesso” (1)

De fato, Ele que tinha condição divina, despojou-se totalmente de tudo, experimentando a fragilidade da condição humana, suportando a dor, a agonia, o abandono, a flagelação, a paixão e Morte.

Assim o fez porque viveu um amor oblativo, na doação e entrega de Sua Vida por amor de Deus, livremente, a fim de que nos redimir e nos reconciliar com Deus, purificando-nos de toda infidelidade e de todo o pecado.

Amor que ama até o fim. Amor que ama, simplesmente ama, a fim de gerar, no coração dos que ama, o bem, o belo, a verdade, a alegria, pois é próprio do Amor de Deus querer sempre o melhor para nós, ainda que não o mereçamos, porque pecadores o somos.

Amor que suporta o aparente insucesso, o aparente gosto da derrota na Cruz, mas que tem sabor de vitória, porque pelo Pai foi Ressuscitado, envolvido pela ação do Espírito Santo, amor que O acompanhou em todos os momentos.

Este é o Mistério da Cruz: o encontro de três Amores: o Pai, o eterno amante; o Filho, o eterno amado; e o Espírito Santo, o eterno Amor.

Unamo-nos ao Mistério da Paixão e Morte do Senhor, para com Ele também ressuscitarmos, e então cantaremos o Aleluia Pascal, na Noite Santa tão esperada. Amém.


(1) Lecionário Comentado - Volume Quaresma/Páscoa - Editora  Paulus  - Lisboa - 2009 - p.287

Em poucas palavras...

                                                     



Celebremos e vivamos O Mistério da Semana Santa

 

Somos discípulos missionários do Senhor, do Servo Sofredor e vencedor, porque o Pai O Ressuscitou, e em Seu nome, nos enviou o Seu Espírito: acreditemos, contemplemos e imitemos a Paixão do Senhor, morrendo com Ele, para com Ele também ressuscitarmos.

 

 

O ilimitado amor de Deus por nós

                                                    

O ilimitado amor de Deus por nós

Vejamos o que nos disse o teólogo bizantino medieval Nicolau Cabásilas (1322-1392) a fim de melhor entendermos sobre a qual a novidade da Cruz de Cristo, de Sua Paixão e Morte:

"Duas características revelam o amante e o fazem triunfar: a primeira consiste em fazer o bem ao amado em tudo o que é possível, a segunda em escolher sofrer por ele e sofrer coisas terríveis se necessário. Esta última prova de amor muito superior à primeira não podia, no entanto, concordar com Deus que é impassível a todo o mal [...]. Portanto, para nos dar a experiência do seu grande amor e para mostrar que nos ama com um amor ilimitado, Deus inventa a sua aniquilação, realiza-a e fá-lo de modo a tornar-se capaz de sofrer e de sofrer coisas terríveis. Assim, com tudo o que Ele suporta, Deus convence os homens do seu extraordinário amor por eles e fá-los voltar para Si”.

Podemos falar, portanto, em duas formas de amor: o amor de beneficência e o amor de sofrimento.

Na Cruz, Jesus testemunha o amor em sua expressão sublime e máxima: o amor de sofrimento.

Imitá-lo em nossa vida, implica em muito mais do que fazer tantas coisas por Cristo e pela Igreja, é ser capaz de sofrer por Ele e por sua Igreja, com a maturidade necessária de suportar incompreensões, abandonos, cansaços, dificuldades que possam se fazer presentes em nosso discipulado.

Precisamos permanentemente fazer este salto qualitativo, do amor beneficente ao amor em sua expressão máxima, “o amor de sofrimento”.

E isto somente poderemos fazer se abraçarmos nossa Cruz com fidelidade e viver a loucura da Cruz como falou o Apóstolo Paulo aos Coríntios:

"Uma vez que na sabedoria de Deus o mundo não o reconheceu pela sabedoria, Deus quis servir-se da loucura da pregação para salvar os que creem. Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos. Porque o que se julga loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais forte do que os homens." (I Cor 1,21-25).

Viver e testemunhar o “amor de sofrimento” como o fez Nosso Senhor, implica em reconhecer seu poder que se revelou na impotência, a sabedoria que se revelou na loucura, e a glória que se revelou na sua ignomínia, e finalmente, a riqueza que se revelou em sua pobreza.

Concluo com as palavras do Papa São Leão Magno (séc. V):

“Através d’Ele (Jesus Cristo morto na Cruz) é dado aos crentes a força na fraqueza, a glória na humilhação, a vida na morte”.

A Crudelíssima Morte ou a Pleníssima Vida! (I)

                                                             

A Crudelíssima Morte ou a Pleníssima Vida!

Contemplemos o Amor de Jesus, Sua humanidade, Sua divindade, Sua entrega por Amor na Cruz, Sua crudelíssima Morte na Cruz por causa de nossa infidelidade, crueldade, pecado…

Vejamos o que nos disse o Papa Bento XVI, quando ainda Cardeal Joseph Ratzinger, de nossa responsabilidade diante da morte de Jesus, do Deus Homem, Homem Deus:

“Deus morreu e nós O trespassamos. Nós O matamos encerrando-O no invólucro deteriorado das ideias rotineiras, exilando-O em forma de piedade sem conteúdo ou em preciosismos arqueológicos; matamo-Lo pela ambiguidade da nossa vida que lançou um véu obscuro sobre Ele”.

Dito de outra forma: Deus morreu e nós O matamos.
Quando?

Quando O fechamos no revestimento apodrecido das ideias superficiais, nos pensamentos sem densidade de conteúdo evangélico, desacompanhado do germe do novo, mas de braços dados com a falta de sinceros e vitais compromissos éticos…

Assim como disse o Papa:

“O encerramos no invólucro deteriorado das idéias rotineiras”
Quando não nos deixamos transformar por Sua Palavra, tão lida, ouvida e conhecida e tão pouco vivida… Para além do conhecimento e acesso, a Palavra deve ser vivida…

“O exilamos em forma de piedade sem conteúdo”.
Quando lançamos Deus para fora de nossa existência, quando nossa vida de oração fica a desejar, ou ainda, quando expressa é em tantas horas e momentos, mas sem conteúdo de vida, sem testemunho. Belas liturgias, como há de ser sempre, mas sem belas ressonâncias na vida, para que se tornem mais belas, mais bonitas também…

Matamos Deus pelos preciosismos arqueológicos, sofisticados estudos que não levam a novos renascimentos, ao compromisso com o Reino.

Quando se procura conhecer o Homem Jesus no Seu tempo, sem a acolhida da Boa Nova de Seu Evangelho que transcende todo tempo – Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre!

Matamos Jesus pela ambiguidade de nossa vida, percebida tristemente na incoerência do que se crê e do que se vive; incoerência entre propósitos e atitudes; divórcio e distanciamento da fé professada e da fé vivida.

Matamos Jesus quando:

- perdemos a característica própria do fermento que somos na massa. Não mais levedamos o mundo com o fermento do amor;

- deixamos de ser sal, deixamos de dar o sabor de Deus à vida, porque somos muitas vezes seduzidos por outros sabores que a vida nos oferece;

- empanturramos com o pão que passa, empanzinados pelo consumo materialista que não nos satisfaz, porque preterimos o Pão da Vida, desprezando-O ou menosprezando Sua força que nutre toda a nossa vida;

- lançamos véu obscuro sobre Ele. Pode ser que não vejam em nós, Cristo e Sua luz, porque deixamos morrer a luz que no Batismo foi acesa. Apaga-se a luz quando perdemos a esperança, quando não revitalizamos a fé, não mantemos acesa a chama da caridade.

Estamos na Semana Santa, a Semana Maior e é tempo de novas posturas, novos e salutares compromissos com a Boa Nova do Senhor.

Não entremos no cortejo dos que promovem a crudelíssima morte de Jesus.

Procuremos dar nossa resposta de amor ao Deus de Amor, assumindo nossa cruz, diremos um sim ao Amor autêntico.

Não vivamos promovendo crudelíssima morte de Jesus, e tudo que temos que fazer é multiplicar esforços para que Ele não morra mais em cada criança famélica, abandonada, desassistida, vítima da prática abortista, assim como em outras inúmeras situações...

Sejamos, portanto, atraídos por Ele, tenhamos a coragem de ser como grão de trigo que morre ao cair na terra, para não ficar só e produzir muitos frutos.

Chorar a crudelíssima morte de Jesus ou fazer da mesma, compromisso com a sacralidade da Vida, em sinais e gestos Pascais.

Depende de cada um de nós:
A Crudelíssima Morte ou a Pleníssima Vida como
Ele nos propôs! 
Amém.

A crudelíssima morte ou a pleníssima vida! (II)

                                                       


A crudelíssima morte ou a pleníssima vida! 

Na Semana Santa, contemplando os Evangelhos, refletimos sobre a Hora na qual Jesus Se prepara para ser glorificado, não fugindo da cruz, onde testemunhará, com Sua entrega, a expressão máxima do amor de Deus.

Chegando a Hora, como ainda não o era nas Bodas de Caná, com Seu Sangue derramado, sela a Nova e Eterna Aliança de Amor de Deus com a humanidade…

Do Coração trespassado jorra a tinta do Amor: Seu Sangue, para escrever no coração da humanidade esta Aliança irrevogável, esta reconciliação tão desejada.

A Hora de Jesus possibilita-nos eternizar nossa vida, concede-nos força para a hora presente, leva-nos a alcançar a Hora da eternidade do Amor Divino.

Ressoa em nosso coração Suas próprias palavras, em que transborda toda Sua humanidade dizendo – “Agora sinto-Me angustiado...” (Jo 12,27), e a Carta aos Hebreus (Hb 5,7-8)  – “Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. E foi atendido, por causa de Sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus, por aquilo que sofreu” .

Contemplemos Jesus, verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus!

O Papa São Leão Magno (séc V), assim se referiu a Jesus:
“Como poderá ficar fora da comunhão com Cristo, quem recebe Aquele que assumiu a sua própria natureza e é regenerado pelo mesmo Espírito, por obra do qual nasceu Jesus?

Quem não reconhece n'Ele as fraquezas próprias da condição humana? Quem não vê que alimentar-se, buscar o repouso do sono, sofrer angústia e tristeza, derramar lágrimas de compaixão, eram próprios da condição de servo?” (Lit. Horas p. 281 – Vol.II).

Nossas horas terão densidade de vida, sentido, esplendor… se assumirmos a grande Hora de Jesus, na radicalidade da proposta, de tomar nossa cruz de cada dia para segui-Lo.

Em empenho sincero com a vida, com a realização do Reino, superando todo e qualquer sinal de morte que nos cerque: analfabetismo, fome, nudez, violência, conflitos étnicos, gastos com armas, exploração de toda forma, destruição do meio ambiente, enfermidades...

Vivendo cada hora até a hora de nossa morte, 
quando pelo mérito da Hora de Jesus, 
poderemos adentrar na eternidade, 
vivendo intensamente e eternamente a Hora de Deus, contemplando-O, 
ao lado da Rainha dos céus, 
dos Seus Santos, Santas 
e Anjos! 
Amém.

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG