quarta-feira, 1 de abril de 2026

Semana Santa: “entrega-traição, entrega-amor-dom”

                                                            

Semana Santa: “entrega-traição, entrega-amor-dom”

Na Quarta-feira da Semana Santa, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 26, 14-25).

Significativo é o uso teológico do verbo “entregar”, em alusão à traição de Judas Iscariotes e à entrega de Jesus.

A primeira, trata-se de uma “entrega-traição”, da parte dos homens, e a segunda, de Jesus, de uma “entrega-­dom”, da parte do Pai, que entrega o Filho, e da parte do Filho que Se entrega a Si mesmo até à morte na Cruz (Jo 19, 30).

A entrega de Jesus é a entrega de Si mesmo – “A traição torna-se ocasião para o dom voluntário e total de Jesus. A Sua morte torna-se fonte de vida. O Seu Coração vence a morte e transforma-a em vida para o mundo”. (1)

Nela, temos a entrega de Si mesmo, num contexto do anúncio da entrega-traição, de modo que os discípulos mergulham num clima de insegurança e de desconfiança.

Jesus deseja ardentemente celebrar a Ceia e comê-la com os discípulos, pois, nela, o antigo memorial dará lugar ao novo, deixando-nos o Seu Corpo e o Seu Sangue como Alimento e Bebida.

Nas interrogações dos discípulos sobre quem O trairia, os discípulos chamam Jesus de “Senhor” (Kyrios), enquanto Judas O chama simplesmente de “Mestre” (Rabi).

No entanto, Jesus é, de fato, Senhor, e conhece o traidor e reconhece que nele se cumprem as Escrituras.

Na insegurança dos discípulos, vemos representada a nossa própria insegurança perante a possibilidade de também nós atraiçoarmos e negarmos a Jesus.

Vivendo a Semana Santa, contemplando o Mistério da Paixão e Morte do Senhor, é tempo favorável para rever o modo como estamos vivendo nosso discipulado: na “entrega-doação” como Jesus o fez, por amor a Deus e ao nosso próximo, ou se vivemos uma “entrega-traição”, como fez Judas, e da qual não estamos imunes.

Oremos:

Ó Deus, concedei-nos a graça de imitar Vosso Amado Filho, vivendo o amor-doação, amor-entrega de si mesmo, em favor de nosso próximo. Pois, tão somente assim, seremos verdadeiramente discípulos missionários do Senhor, com a presença e ação do Vosso Espírito. Amém.
  

(1)         www.dehonianos.org

Semana Santa: fidelidade plena ao Servo Sofredor, Jesus

                                               

Semana Santa: fidelidade plena ao Servo Sofredor, Jesus

“Contemplemos e fiquemos abismados diante
da mais bela História do Amor de Deus por nós:
Jesus Cristo, 0 Filho Amado do Pai.”


Na primeira Leitura da quarta-feira da Semana Santa, ouvimos a passagem do Livro do Profeta Isaías (Is 50,4-9a).

O Profeta nos apresenta a figura do Servo de Javé (terceiro Cântico do Servo de Javé), no contexto do final do exílio.

Ele tem a difícil missão de consolar os exilados anunciando um novo êxodo e a reconstrução de Jerusalém. Sofre, confia, é amado por Deus e não perde a serenidade, porque possui n’Ele total confiança.

Convida o povo a superar a tentação das facilidades, do comodismo, do medo de arriscar rumo ao novo.

É preciso confiar somente em Deus, a nossa rocha segura; viver livre do medo, seguros e protegidos pela mão divina.

O Servo sofredor escuta, sofre, resiste e confia na intervenção de Deus que jamais abandona aqueles a quem chama. O Profeta tem convicção de que não está só, e que a força de Deus é sempre mais forte que a dor, o sofrimento e a perseguição, e que jamais ficará decepcionado.

Quem é este Servo de Javé? Por vezes é identificado com um Profeta desconhecido, com o povo exilado, como uma recordação histórica (dos Patriarcas, Moisés, Davi, Profetas), e a releitura do Antigo Testamento vê nesta figura o próprio Jesus, que viveu o Mistério da Paixão e Morte:

“A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na Ressurreição que gera vida nova”. (1)

Reflitamos:

- Temos coragem de fazer da nossa vida uma total entrega ao Projeto de Deus, no compromisso de libertação de tudo que seja sinal de morte e opressão?
- De que modo vivemos a vocação profética que Deus nos concedeu pela graça do Batismo?

- Temos confiança na força de Deus, como o Servo sofredor que é o próprio Senhor?
- Como vivemos a radicalidade de nossa entrega nas mãos de Deus?

- O que fazemos para gerar uma vida nova para todos?
- Temos plena confiança na presença e ação de Deus?

Vivendo a Semana Santa, a Semana Maior, renovemos nossa  fidelidade ao Senhor, o Servo Sofredor e Vitorioso.

Somente n’Ele, e com Ele, a alegria, a vida, a realização, a paz, porque  Ele é a nossa mais bela e inesgotável Divina Fonte de Amor.


Semana Santa: o desígnio divino e a liberdade humana

                                                     


Semana Santa: o desígnio divino e a liberdade humana

Na quarta-feira da Semana Santa, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 26,14-25), que nos apresenta os momentos que  antecederam à Paixão e Morte do Senhor: O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito d’Ele. Contudo, ai daquele que O trair.

Oremos:

Senhor Jesus, na traição de Judas vemos o entrelaçamento dos desígnios de Vosso Pai e o livre agir de cada um de nós.

Senhor Jesus, não podemos negar que Judas agiu livremente, pois seu gesto foi prenunciado por Vós e consumado quando chegou a Sua Hora.

Senhor Jesus, reconhecemos o quão perigoso é brincar com nossa própria liberdade, e não a vermos como um dom, cujo reto agir é uma conquista.

Senhor Jesus, quanto nos afastamos de nossa realização, quando não a vivemos como fruto de correspondência à graça divina.

Senhor Jesus, não nos permita acostumar com a graça, sem que em nós nada se transforme, e com isto danos irreparáveis.

Senhor Jesus, que não nos acostumemos com a Eucaristia, com o Rosário, com a  Vossa presença em nós, sem em nada nos transformarmos.

Senhor Jesus, afastai de nós todo esvaziamento dos Mistérios que cremos e celebramos, e que devem ser vividos, e em nossa vida ressoados, corações e vidas transformados.

Senhor Jesus, concedei-nos a graça de celebrar e viver a Semana Santa como a mais trágica celebração da liberdade humana, em seu mistério mais profundo.

Senhor Jesus, afastai de nós a tentação do livre e irrevogável não de Judas a Vós, e a vivermos o livre e irrevogável sim que destes à vontade do Pai. Amém.


PS: Fonte de pesquisa: Missal Cotidiano – Editora Paulus – p.327

Semana Santa: a dor de um amor não correspondido

                                                    

Semana Santa: a dor de um amor não correspondido

Na Quarta-feira da Semana Santa, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 26, 14-25), que nos fala da traição de Judas, que entrega Jesus por trinta moedas.

Retomo um trecho do Sermão do Papa e Doutor da Igreja, São Gregório Magno (séc. VI):

“Nós sofremos menos pelos males causados por estranhos, porém nos são mais cruéis os tormentos que sofremos da parte daqueles em cujo amor confiávamos; porque, além do tormento do corpo, sofremos o amor  perdido, eis por que de Judas, Seu traidor, diz o Senhor pelo salmista:

Na verdade que, se o ultraje viesse de um inimigo meu, teria sofrido com paciência; e se a agressão partisse daqueles que me odeiam, poderia ter-me salvo deles; mas tu, meu companheiro, meu guia e meu amigo; com quem me entretinha em doces colóquios, que andávamos juntos na casa de Deus’.

E novamente: ‘Até o próprio amigo em quem Eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar’. Como se de Seu traidor dissesse claramente: ‘sua traição me é tanto mais dolorosa quanto mais íntimo me parecia ser aquele de quem a sofri’”.

São Gregório retrata possíveis experiências que possamos já ter vivido e sofrido por um amor perdido, como assim vivenciou nosso Senhor, em relação à traição de Judas, a quem tanto amou, e não foi correspondido, e nem por isto deixou de amá-lo.

Quem mais poderia amá-lo e nos amar tanto assim?

Quanto ainda temos que nos converter e amadurecer para amar, incondicionalmente, como Jesus nos ama?

Vivendo a Semana Santa, temos que aprofundar nosso aprendizado na prática do Mandamento Maior do amor a Deus, que se expressa no amor ao próximo.

Aprofundar nossa espiritualidade genuinamente Pascal, para não incorrermos em infidelidades e traições ao amor de Deus por nós, para que não reescrevamos novas páginas de traição, como Judas o fez.

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes – 2013 – p.755

Novos horizontes

                                                        

Novos horizontes

 “... continuai firmes no Senhor,
ó meus queridos” (Fl 4,1)

Recebi a graça de ocupar este espaço para partilhar a missão, a mim confiada pela Igreja, como Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte – MG, em abril de 2017.

A Palavra de Deus, que é sempre uma Boa-Nova, expressa a minha relação com a Diocese de Guarulhos, neste novo momento de graça que estou vivendo, do mesmo modo que marcou e iluminou minha vida quando fui enviado em missão à Diocese de Ji-Paraná – RO, onde permaneci por três anos: “Portanto, meus queridos irmãos, dos quais sinto tanta saudade, minha alegria e minha coroa, continuai firmes no Senhor, ó meus queridos” (Fl 4,1).

Entretanto, apesar da saudade, a vida segue... E ancorado no lema da minha ordenação episcopal: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21), no dia 08 de abril, na Paróquia São Gonçalo – Contagem – MG, com a presença do Arcebispo, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, dos Bispos Auxiliares, de um grande número de Presbíteros, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, e o Povo de Deus, teve início o meu Ministério, propriamente dito.

Belo Horizonte, bem como a Cidade de Guarulhos, nos apresenta grandes desafios, em que somos chamados a lançar redes em águas mais profundas, proclamando a Palavra, insistindo oportuna e inoportunamente, convencendo, repreendendo e exortando, com toda a paciência e preocupação de ensinar (2 Tm 4,2).

A Arquidiocese, que tem em torno de cinco milhões de habitantes, está dividida em 37 Foranias, com 270 Paróquias e, aproximadamente, 1400 comunidades, atendidas por 700 padres (diocesanos e religiosos), que são auxiliados pela expressiva presença de Congregações Religiosas, masculinas e femininas.

Devido à dimensão, a Arquidiocese está dividida em quatro Regiões Episcopais, confiadas, cada uma, a um Bispo Auxiliar, sendo a minha, a RENSA - Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida.

Na RENSA, tínhasmos 69 Paróquias, 464 comunidades e 112 padres. Como tantas outras realidades, precisamos de mais santas vocações sacerdotais e religiosas, para melhor acompanhar o rebanho, pois a messe é grande e poucos são os operários.

E é nesta realidade que estou aprendendo a ser Bispo, procurando conduzir o rebanho com carinho e zelo de pastor, empenhado em ser presença amiga e paterna junto aos padres, como tão bem nos exorta o Papa Francisco.

Ressalto, de modo especial, a receptividade do Povo de Deus desta Igreja particular de Belo Horizonte, que me acolhe carinhosamente. Com ele, celebramos a Semana Santa, vivenciando momentos fortes de espiritualidade, como o Sermão do Encontro e do Descendimento do Senhor da Cruz, além de Procissões e Vias-Sacras, Celebração Penitencial com os padres, no Santuário de Nossa Senhora da Piedade, a Missa da Unidade, na manhã da Quinta-feira Santa, com a Bênção dos Santos óleos e a renovação das promessas pelos Presbíteros. Desta celebração, aproximadamente 15 mil pessoas participaram, no Ginásio Mineirinho. Uma emoção indescritível!

Concluindo, asseguro minhas orações à Diocese de Guarulhos, e peço que não deixem de rezar por mim, para que eu cumpra o tríplice múnus de santificar, ensinar e governar o Povo de Deus.

Vivendo a alegria da Páscoa do Senhor, coloquemo-nos sob o amparo maternal de Maria, que nos acompanha em todos os momentos, ela que é Padroeira da Diocese de Guarulhos e da Arquidiocese de Belo Horizonte: Imaculada Conceição e Nossa Senhora da Boa Viagem, respectivamente.


PS: Publicado no jornal “Folha Diocesana” – Guarulhos – Edição nº243 - maio de 2017 - Escrito quando era Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte - MG

Virtudes divinas vividas para vencer as turbulências

                                                           

Virtudes divinas vividas para vencer as turbulências

Estamos numa barca, e os ventos são assustadores. Inquietos, recolhidos, revendo atitudes, valores, passos dados. Tempo de se rever como se vivia, para novos caminhos redescobrir.

São lições que estamos todos aprendendo, por um preço muito alto: vida de tantos e tantas, assim como a vida de nossa casa comum.

Tempo de revigorar a fé em nosso coração, de renovar o mais profundo de nós e plenificar o coração do absolutamente essencial: o amor, o amor que jamais passará.

Reflitamos sobre as virtudes divinas que nos ajudam nesta travessia em meio às turbulências a serem enfrentadas, conscientes de que estamos todos na mesma barca, e o Senhor conosco e nos diz – “Por que sois tão medrosos, ainda não tendes fé?” (Mc 4, 35-41).

Passagem do Evangelho -  Lc 17,5-6: sobre a virtude da fé:
“Os apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé!’ O Senhor respondeu: ‘Se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.

Todo o tempo e de modo especial neste tempo, temos que testemunhar nossa fé, confiantes na Palavra do Senhor, e crer na  onipotência do amor de Deus e de seu poder, que veio, vem e virá sempre ao nosso encontro, por meio do Seu Espírito.

Tempo de crer no melhor de Deus para todos nós, pois Deus é fiel à Sua Aliança de amor com a humanidade, e nunca nos abandonou e jamais nos abandonará.

Deus que tanto nos ama, espera que nos voltemos para Ele de coração puro e sincero, reconciliados com Ele e conosco, em novas relações mais humanas, justas, simples, fraterna; sem marcas de egoísmo, inveja, maldade, arrogância, prepotência, petulância que tão apenas nos afastam da vida e da felicidade querida por Ele para todos nós.

Passagem da Sagrada Escritura - (1 Pd 3,15): sobre a virtude da esperança:

“Antes, ‘santificai o Senhor Jesus Cristo’ em vossos corações e estais sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir”.

Esperança como virtude divina, jamais poderá ser compreendida com uma espera passiva, mas acompanhada de sagrados compromissos no testemunho da fé, em gestos multiplicados de amor, a virtude maior que nos conduz.

Esperança, portanto, é somar com o outro para o milagre do amor multiplicar; ousar na busca do inédito do melhor de Deus para todos nós; é não desistir jamais dos sonhos, das metas, das utopias, da alegria da contemplação do Reino já presente no meio de nós.

Passagem da Sagrada Escritura – 1 Cor 13, 1-13 – sobre a virtude divina do amor:

“Se eu falasse as línguas dos homens e a dos anjos, mas não tivesse amor; eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine...”

O Apóstolo nos apresenta o Hino ao amor-caridade, que a humanidade tem que reaprender e está reaprendendo, sobretudo neste momento tão obscuro, inquietante que a todos nos envolve.

É tempo de acolhermos e vivermos a essência da fé cristã, o novo Mandamento do Amor que Nosso Senhor nos ordenou:

“Eu vos dou um novo Mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com os outros”. (Jo 13, 34-35).

Sigamos em frente, iluminados e fortalecidos pelas palavras divinas fazendo nossa travessia, ora em mar agitado, ora deserto. Ambas as imagens representam bem o momento que todos estamos vivendo.

Se em mar agitado, ventos e tempestades não serão capazes de nos naufragar; urge que tenhamos fé na Palavra e Presença do Senhor, que dá sentido à nossa esperança e nos envolve com seu amor e sua presença por meio do Seu Espírito, enviado pelo Pai, em Seu nome.

Se no deserto, provação, aridez, privação se fizerem presentes,  tenhamos fé, supliquemos ao Senhor o colírio da fé, para ver o amanhecer com esperança, fazendo cada dia um tempo favorável e irrenunciável para amar, solidarizar e novas relações com o outro e com o planeta estabelecer. O Senhor sempre nos concederá um oásis, para saciarmos nossa sede de água viva de amor, vida e paz.

Mar ou deserto, Ele está conosco: coragem! Tenhamos fé, esperança e caridade.

Um refrão para concluir: “Eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor...”

PS: Escrito em abril de 2020

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