sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Portadores da mais bela notícia

                                         

Portadores da mais bela notícia 

“João declarou: ‘Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor – conforme disse o Profeta Isaías’.”
 (Jo 1,23) 
 
No dia 02 de janeiro, ouvimos a passagem do Evangelho de São João (Jo 1,19-28), que nos apresenta João Batista, a voz que clamou no deserto, como anunciara o Profeta Isaías (Is 40,3).
 
Reflitamos sobre a importância do testemunho do precursor (v.19): sua pessoa, e resposta aos sacerdotes, aos quais declara que não é o Messias, nem Elias, nem o profeta esperado no fim dos tempos.
 
João se autodefine como tão somente “uma voz que clama no deserto para preparar os caminhos do Senhor” (vv.19-23).
 
Quanto ao seu Batismo, é feito somente ‘na água’, à espera d’Aquele que o fará com ‘fogo’, que ‘está no meio de vós’ e que ‘vós não conheceis’(vv.25-26).
 
Santo Agostinho assim falou de João: “João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna”.
 
Ontem João, hoje a nossa vez, a nossa missão, como batizados, discípulos missionários do Senhor.
 

Oremos: 

Senhor, por mais breve, simples e escondida que possa ser nossa vida, saibamos dar-lhe um valor infinito, tirando as pedras de tantos nomes do caminho, do coração de nosso próximo e do nosso, a fim de aplainar a estrada para a Vossa vinda gloriosa.

Senhor, que aprendamos com João Batista que, fortalecido na solidão do deserto, pela meditação e a penitência, procurou quase desaparecer ante de Vós, que deveis de fato ser ao mundo apresentado, Vossa Pessoa, Palavra e Projeto.

Senhor, renovai-nos em nós a graça e a alegria de sermos cristãos, e assim vivermos a missão de precursores Vosso, uma voz que grita no deserto do mundo, portadores Vosso e de Vossa Palavra, alegres mensageiros do Vosso Evangelho, sobretudo nas periferias existências que nos desafiam.

Senhor, colocamos em Vossas mãos nossa pobreza e impotência; nossa voz, nossas forças e toda a nossa vida, a serviço da Evangelização, como Igreja Sinodal, misericordiosa, alegre e missionária.

Senhor, que todos os dias do próximo ano, nos deixemos invadir pelas chamas de Vosso amor, a ponto de nos deixarmos queimar, como círios no altar, irradiando e testemunhando a Vossa Luz da Verdade, a serviço da vida e da esperança, sinais de Vossa Salvação presente entre nós. Amém.

 

 

Fontes: Lecionário Comentado – Volume Advento/Natal – pág.297-300 e Missal Cotidiano – Editora Paulus – pág. 127

 

Lágrimas do cotidiano

                                                       


                               Lágrimas do cotidiano
 
 “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar”. (Ecl 3, 1-4)

Ontem, minhas lágrimas se confundiram com as gotas da chuva,
Quando pensava nas estatísticas dos que partiram cedo demais,
Porque quando amamos, assim repetimos, em súplica de dor.
 
Confundiram-se quando ouvi o que não nunca deveria ser dito,
Sobretudo de lábios dos quais só poderiam sair palavras edificantes
E que revigorasse a coragem, acenando para sinais de esperança.
 
Confundiram-se quando chorei a dor absurda dos que passam fome,
Privados do pão cotidiano, que precisa ser melhor partilhado,
Em alegres sinais de comunhão e partilha como o Senhor o fez.
 
Ora minhas lágrimas eram mais fortes que as gotas dos céus,
Mas não tão maiores e intensas do que a Graça que nos vem do alto,
Nos cumulado de bênçãos, luz, sabedoria para o árduo caminho.
 
Mas minhas lágrimas também se confundiram com as gotas chuva,
Por contemplar, com emoção, tantas histórias de doação e coragem,
Dos que arriscam a vida em solidariedade e cuidado de vidas enfermas.
 
Da mesma forma pela gratidão de sinais da bondade divina,
Lágrimas derramadas por nada merecermos, pela miséria que somos,
Mas pela eterna misericórdia divina, que nos acolhe, ama e perdoa.
 
Lágrimas vertidas sobre a face e gotas de chuvas se misturavam.
Ora em expressão de angústia e tristeza, ora esperança e alegria,
E que quando de tristeza, secas pelo calor do Sol Nascente.
 
Lágrimas e gotas de chuva presentes no cotidiano humano:
Se preciso chorar pela dor, choremos, mas em Deus confiemos,
e vertamos também lágrimas a Deus, de eterna dívida e gratidão. Amém.
 

Como gotas de chuva...

Como gotas de chuva...

As gotas caem suavemente lá fora, regando o chão e com a perspectiva de que as sementes florescerão nos jardins, quer dos campos, quer das cidades.

E assim, todas as reflexões postadas neste blog são escritas com muito carinho e o propósito de não ser apenas mais um, mas que seja como uma gota de chuva, que a outra se irmana em perfeita e suave melodia.
  
Algumas nascem diretamente da Sagrada Escritura, das Liturgias Dominicais ou Feriais. Outras da realidade, do cotidiano por vezes sombrios, outras vezes nem tanto. Outras ainda vêm como que num ato relâmpago, como uma ânsia de expressão da alma.

Ora brotam de sofrimentos, ora brotam de momentos alegres, pois a vida comporta em si os contrários.

Brinco com as palavras para falar do amor humano que concretiza o Amor divino. Como crer no amor ao Invisível se não o concretizarmos na pessoa do outro, tornando-o visível e crível?

Por vezes, alguns “posts” brotaram de uma esperança nascente; outros de uma esperança não apenas nascente, mas com força maior, pois de uma esperança da morte ressuscitada.

Em outros, vou à riquíssima tradição da Igreja e seus textos memoráveis, iluminados e iluminadores. Alguns absolutamente desconhecidos da maioria, mas que quando conhecidos tornam-se fonte genuína de espiritualidade, como a pureza de uma gota de chuva.

Aos poucos vão desvelando e descortinando uma nova realidade, um sonho, uma espera...

Assim, como gotas de chuva, acolhamos cada texto. Deixemos que eles reguem nosso coração, para que a Semente do Verbo possa cair, morrer e frutificar, como bem nos falou o Divino Mestre – Jesus – sobre o grão de trigo.

Se o grão de trigo não morrer não produzirá frutos. Se a chuva não cair e no chão não penetrar, vida também não haverá.

Desejo que cada “post” seja acolhido, para que corações sejam regados, sementes germinadas, o Jardim de Deus florescendo...

Evangelizadores com ardor missionário

 


Evangelizadores com ardor missionário

Iniciando mais um ano de intensas atividades pastorais, é oportuno refletirmos, à luz do parágrafo n. 875 do Catecismo da Igreja Católica, sobre a missão evangelizadora de toda a Igreja.

Na passagem da Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo nos apresenta instigante questionamento: «Como hão de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar, sem que alguém O anuncie? E como hão de anunciar, se não forem enviados?» (Rm 10, 14-15).

De fato, como afirma o apóstolo, «A fé surge da pregação» (Rm 10, 17), de modo que ninguém, nenhum indivíduo ou comunidade, pode anunciar a si mesmo o Evangelho.

Impensável que alguém possa dar a si próprio o mandato e a missão de anunciar o Evangelho, pois o enviado do Senhor fala e atua, não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo, em nome de Cristo, pela graça d’Ele recebida.

Deste modo, os bispos e presbíteros recebem a missão e a faculdade (o «poder sagrado») de agir na pessoa de Cristo Cabeça e os diáconos a força de servir o povo de Deus na «diaconia» da Liturgia, da Palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e com o seu presbitério.

Este ministério é recebido por um Sacramento próprio. E na missão recebida os ministros ordenados, na sinodalidade vivida, o fazem em comunhão com os diversos ministérios assumidos pelos cristãos leigos e leigas das comunidades, pela graça do Batismo recebido.

Urge que todos os batizados, com o Sacramento da Ordem ou não, pela graça do batismo, se tornem alegres discípulos missionários do Senhor, para anunciar e testemunhar a Palavra do Senhor em todo o tempo e em todo o lugar - “E disse lhes: ‘Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura’” (Mc 16,15).

Amizade verdadeira! Quem dela não precisa?

                                                       

Amizade verdadeira!
 Quem dela não precisa?

No dia 2 de janeiro, quando celebramos a memória de São Basílio Magno e São Gregório de Nazianzo, Bispos e Doutores da Igreja (séc. IV), acolhamos esta reflexão sobre a importância de amizades verdadeiras, por Deus queridas e abençoadas, e também por Ele, Jesus, vivenciadas:

“Encontramo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo da única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões.

Mas voltamos a nos reunir como se nos tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis. Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação. Que acontece então?

Ele foi quase o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato.

Este foi o prelúdio de nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo. Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo: a filosofia era o que almejávamos.

Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando aos mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade.

Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável: A ciência; no entanto, não tínhamos inveja, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro.

A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir.

Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro a regra e o modelo para discernir o certo e o errado.

Assim como cada pessoa tem um sobrenome recebido de seus pais ou adquirido de si próprio, isto é, por causa da atividade ou orientação de sua vida, para nós a maior atividade e o maior nome era sermos realmente cristãos e como tal reconhecidos.”

Um  belo exemplo de amizade verdadeira, que são tão imprescindíveis em nossa vida, mesmo que bem poucas tenhamos, já teremos tesouros, como nos assegura a Palavra Divina.

Reflitamos sobre a amizade a partir desta bela e santa amizade. Sim, bela e santa amizade, sem qualquer sombra de malícia.

Na Bíblia Sagrada, também encontramos várias páginas de amizades que se tornaram eternas.

De fato, amizades edificadas sobre o altar e iluminadas pela Palavra têm o germe da eternidade. Amizades verdadeiras são como laços eternos, indestrutíveis.

Amizade verdadeira, onde Cristo Se faz presente. Lembra-nos o Livro do Eclesiastes: “O cordão de três dobras não se arrebenta com facilidade” (Ecl 4,12). A terceira dobra é Cristo!

Reflitamos:

- O que mais me toca em tão belo testemunho de amizade?
- Tenho amizades semelhantes a esta?
- Como cativar e cultivar verdadeiras amizades?

Urge que se multipliquem santas, belas, e verdadeiras amizades! Ainda que não muitas, substanciais.

Oremos pelos nossos amigos e amigas:
“Pai Nosso...”

PS: São Basílio morreu em 1º de janeiro de 379 e São Gregório em 25 de janeiro de 389.

Revendo as linhas da história

                                                           

Revendo as linhas da história

Quando olho ao meu redor, vejo pessoas com posturas diferenciadas:

Há quem...

Há quem diga palavras belas, mas sem conteúdo necessário.
Há quem promova a guerra, com discurso enganador de paz;
Há quem convença a muitos, apresentando uma mentira como verdade,
Há quem verta lágrimas, como se a dor lhe consumisse, e acreditamos.
Há quem não consiga ver a presença divina no próximo;
Há quem semeie a discórdia por onde passe ou conviva.

Há quem acredite que a felicidade reside no quanto se possui.
Há quem se envenene com o poder, e dele faz dominação e até tirania.
Há quem se deixe devorar pelo sabor da fama e sucesso a qualquer preço.
Há quem se curve diante de ídolos de mil nomes: dinheiro, fama e poder.
Há quem queime incenso para os que nos roubam a beleza da vida e sua sacralidade.
Há quem mate, vele e enterre sonhos, esperanças e utopias.

Há quem se asfixie numa enganadora onipotência, 
sucumbido e fragilizado pela soberba.
Há quem desaprenda a conjugar e a viver o verbo partilhar, 
porque curvado pela avareza.
Há quem se distancie do verdadeiro amor e felicidade, 
entorpecido pela luxúria.

Há quem se consuma velozmente, 
porque se deixa fermentar pelo pecado da ira.
Há quem nunca se sinta feliz, 
porque voracidade insaciável, face dolorida da gula.
Há quem não desenvolva as capacidades que tem, 
porque se deixa consumir pela inveja.
Há quem se omita, acomodado num canto, 
por vezes perdido no vale da preguiça.

Mas vejo...

Vejo também muitos que sobem e, 
sentados aos pés do Senhor, ouvem o Sermão da Montanha.
São os que sabem calar as palavras diante da Palavra que Se fez Carne: Jesus.
São os pobres em espírito, que plenamente em Deus confiam, 
com Seu Reino comprometem.
São os que choram, mas sabem que seu choro não é em vão, 
por Deus serão consolados.
São os mansos que se comprometem com um novo céu e uma nova terra, herdeiros da divina promessa.
São os famintos e sedentos de justiça, 
comprometidos com o bem para todos assegurado.

São os que se empenham para serem, no mundo, 
“misericordiosos como o Pai”.
São os puros de coração, não maculando as mãos e mente e a história, na espera de um dia a Deus ver face a face.
São os que promovem a paz, porque promovem a fraternidade, 
de fato, filhos de Deus.
São os perseguidos por causa da justiça e de todos os valores que devolvem a vida beleza e dignidade.
São os injuriados, perseguidos pela causa do Evangelho e do nome do Senhor.
São os que sabem que a grande recompensa só pode vir do Alto, onde Deus habita.

São os que acolhem o dom da Sabedoria, para viver os Mandamentos da Lei Divina.
São os que acolhem o dom do Entendimento, 
discernindo o que é bom e justo, sem ilusões e erros.
São os que acolhem o dom do Conselho, para viver e ensinar a vontade divina a quem precisa.
São os que acolhem o dom da Fortaleza, para testemunhar a fé com serenidade e firmeza.
São os que acolhem o dom da Ciência, com sede do conhecimento pleno da Verdade do Evangelho.
São os que acolhem o dom da piedade, numa relação com Deus marcado pela ternura e fidelidade.
São os que acolhem o dom do temor, adorando  a Deus em espírito e verdade.

São os que buscam em primeiro lugar o Reino dos céus, 
na planície do cotidiano,
Porque sabem que tudo o mais por Deus será acrescentado, 
e um dia na glória eternizados.

Quando olho ao meu redor,
Vejo pessoas com atitudes diferenciadas...

Quando olho para mim...
Vejo que é preciso sempre rever as linhas da história; 
rever minha própria história.

Sejamos Profetas de um novo tempo!

                                                               

Sejamos Profetas de um novo tempo!

Há uma história que nos inspira para as diversas interpretações iluminadoras para o nosso cotidiano:       
                                                                   
“Num lugar não muito longe daqui havia um poço fundo e escuro onde, desde tempos imemoriais, uma sociedade de rãs se estabelecera.

Tão fundo era o poço que nenhuma delas jamais havia visitado o mundo de fora. Estavam convencidas de que o universo era do tamanho do seu buraco. Havia sobejas evidências científicas para corroborar essa teoria, e somente um louco, privado dos sentidos e da razão, afirmaria o contrário.

Aconteceu, entretanto, que um pintassilgo que voava por ali viu o poço, ficou curioso e resolveu investigar suas profundezas. Qual não foi sua surpresa ao descobrir as rãs! Mais perplexas ficaram elas, pois aquela estranha criatura de penas colocava em questão todas as verdades já secularmente sedimentadas e comprovadas em sua sociedade. O pintassilgo morreu de dó. Como é que as rãs podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair?

Claro que a ideia de sair era absurda para os batráquios, pois se o seu buraco era o universo, não poderia haver um ‘lá fora’. E o pintassilgo se pôs a cantar furiosamente.

Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cristalinos, borboletas, flores, nuvens, estrelas… o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiram. Algumas acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coaxaram canções novas.

As outras fecharam a cara. Afirmações não confirmadas pela experiência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras. E se puseram a fazer a crítica filosófica, sociológica e psicológica do seu discurso.

A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes dominadas? Seu canto seria uma espécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva? Dúvidas não havia de que o tal canto tinha criado muitos problemas.

Tanto as rãs-dominantes como as rãs-dominadas (que secretamente preparavam uma revolução) não gostaram das ideias que o canto do pintassilgo estava colocando na cabeça do povão.

Por ocasião de sua próxima visita o pintassilgo foi preso, acusado de enganador do povo, morto, empalhado e as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensinara…”.

Refletindo...

É possível que, em algum momento de nossas vidas, possamos nos encontrar como que num fundo de poço, envoltos pela escuridão e afundados na lama do pecado ou da desesperança, com falta de perspectivas, e em nada mais crendo – muito menos em “boas-novas de pintassilgos”.

Ou talvez, acomodados em nosso fundo do poço, na nossa zona de conforto, sem desejo de desinstalação, não querendo, de modo algum, ser importunados, porque, talvez, submersos em nossos desejos, planos, não havendo lugar para a busca do novo, que inquieta, desinstala, e por vezes atemoriza. É mais seguro e confortável ficar no já conhecido – por que se arriscar? Por que acreditar em outras possibilidades que nos cantam os “pintassilgos”?

No entanto, haverá os que se encontram no fundo do poço, esperando a visita de “pintassilgos”, que acenem para um universo muito maior que o universo empobrecedor e repetitivo de um fundo de poço.

Há “pintassilgos” que trazem cantos de alegria e de esperança, e os vejo em nossas comunidades, assim como também em outros lugares, porque pessoas de boa-vontade, que semeiam a verdade da beleza da vida humana, com sua sacralidade.

Há “pintassilgos” que, teimosa e corajosamente, cantam e anunciam seus sonhos, utopias de um novo mundo possível.

Há “pintassilgos” engravatados e outros esfarrapados, com seus belos cantos, pois o canto está para além das vestes e dos lugares que se ocupa, porque trazem no coração a fé de que a humanidade precisa reencontrar o caminho da dignidade promovida, felicidade para todos garantida, o bem comum como possibilidade e realidade, e não apenas princípio sacro de uma sã doutrina.

Há “pintassilgos” de idade pouca e de idade tanta, mas com mesma vivacidade, porque voam nas asas do Espírito, que nos levam ao reencantamento e reapaixonamento pela vida, e nos elevam na busca das coisas do alto onde habita Deus. Cantam que o céu já é possível aqui na terra, e não para um amanhã que se reduza apenas a uma ilusão, evasão ou quimera.

Há “pintassilgos” com cantos belos que nos querem fora do poço da mediocridade, medo, indiferença, mesmice: estão eles atrás de mesas; educando em salas de aula; assentados em reuniões de mobilização, conscientização e reivindicação...

Há “pintassilgos” embalando seus filhos no colo, acarinhando, amamentando, e um mundo melhor para os seus desejando; ou mesmo, à beira de um fogão cantarolando a mais bela melodia de um novo amanhecer, para os que em seu coração se encontram, e no fundo de um poço jamais os querem ver.

Há “pintassilgos” profetas de um novo amanhã, em templos ou fora deles, a Palavra divina proclamando, cantores do Reino, em nosso meio já presente.

Queremos e precisamos destes “pintassilgos”. Mas não basta. Sejamos para o mundo, dos que se encontram no “fundo do poço”, como “pintassilgos”, com cantos dos que sabem reler o passado, para iluminar o presente, acenando para um futuro pleno de vida, amor, alegria e esperança.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG