segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Sejamos um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus

                                                 

Sejamos um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus

“Pela misericórdia de Deus...”

As palavras do Apóstolo Paulo, revigoram e iluminam nosso discipulado, a fim de que sejamos peregrinos da esperança, em plena  fidelidade à missão que Jesus nos confiou:

“Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: Este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. (Rm 12,1-2)

A vida do apóstolo Paulo é a história de um coração extremamente apaixonado e seduzido por Deus, e exorta-nos a assumir atitudes coerentes com a fé que professamos, ornando nossa vida um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, não nos conformando ao mundo em que vivemos, mas configurando-nos ao Senhor e Seu Evangelho, oferecendo nossa vida inteiramente a Deus.

Portanto, exige de nós transformação e conversão de nossa maneira de pensar e julgar, não nos deixando moldar pela lógica do mundo, mas pela lógica do Evangelho, procurando sempre o que é agradável a Deus.

O Apóstolo exorta em nome da misericórdia divina, para que façamos progressos espirituais cada vez maiores, e alguns verbos são expressivos nos ajudam a fortalecer nossos passos em processo contínuo de conversão e de configuração ao Senhor, como sacrifícios a Ele agradáveis:

1º – “a vos oferecerdes” - urge que sejamos sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, pois nisto consiste o verdadeiro e frutuoso culto espiritual. Fazer da vida uma eterna e agradável oferenda a Deus, sobretudo colocando nossa vida no Cálice Sagrado do Senhor, configurados a Ele no Seu Mistério de Paixão e Morte, celebrando piedosa, ativa e frutuosamente a Sua Memória.

2º – “Não vos conformeis com o mundo” – ou seja, não compactuar com a mentalidade do mundo, para que sal, luz e fermento sejamos, como bem nos falou o Senhor, nas passagens evangélicas, e próprio Apóstolo Paulo na Carta aos Filipenses, sobre ter os mesmos sentimentos de Jesus (Fl 2,5).

3º – “transformai-vos” – implica viver em permanente atitude de conversão, para que melhor correspondamos aos desígnios de Deus, dando passos sucessivos na escala da perfeição e santidade.

4º – “renovando vossa maneira de pensar e julgar” – a fim de que sejamos moldados pela mão de Deus, porque obras imperfeitas e inacabadas somos.

5º – “distinguir o que é a vontade de Deus” – discernir entre bem e o mal; a mentira e o ódio; o justo e desejável por Deus; o pecado e a graça; o que conduz à vida ou à morte; enfim, fazer o bom uso da liberdade de arbítrio, que por Ele nos foi concedida.

Deste modo, viver um culto agradável a Deus, consiste em viver no amor, no serviço, na doação em entrega a Deus e aos irmãos, com a revisão do grande sinal que nos identifica, o Sinal da Cruz, que tantas vezes fazemos, e, por vezes, sem pensar no que o gesto implica: carregar a cruz com fé, coragem e fidelidade, como ponte necessária para a eternidade. Sem cruz, não há como conceber e alcançar a eternidade.

Fundamental que integremos o culto e a vida, fortalecendo os pilares de nossas comunidades, como tão bem expressaram as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora do Brasil – Conferência Nacional do Brasil – CNBB – 2019-2023): os pilares da Palavra, do Pão, da Caridade e da Ação Missionária.

Quando o culto e a vida andam de mãos dadas, tornam-se agradáveis a Deus, e Jesus Cristo é, verdadeiramente, Senhor de nossa vida e Rei do Universo.

Reflitamos:

 - O que precisamos rever em nossa vida de fé (pensamentos, palavras e ações), para melhor correspondermos aos desígnios de Deus, de tal modo, que nossa vida seja um culto agradável ao Senhor?

 - Como estamos carregando nossa cruz de cada dia e quais são as renúncias necessárias?

- Como vivemos as  palavras que o Senhor nos ensinou, na Oração do “Pai-Nosso”  – “Seja feita a Vossa vontade...”?

Concluindo, se necessário e possível, procuremos o Sacramento da Penitência, para confessarmos nossos pecados.  

Absolvidos, iniciemos um novo caminho, com santos propósitos de progressos maiores ainda no caminho de santidade, a vocação de todos nós, vivendo a vida nova que recebemos no dia do Batismo, e assim irradiaremos a luz divina em todo tempo e em todo o lugar.

Sejamos discípulos do Senhor, e não há outro caminho, senão o caminho da cruz; viver corajosamente a “A loucura da Cruz”, de tal modo que o sacrifício vivo seja acompanhado da necessária conversão.

 

Fonte: Lecionário comentado – Tempo Quaresma e Páscoa – Editora Paulus – 2011 – p. 202

PS: Oportuno para o Tempo da Quaresma e em todo o tempo.

Acolhamos a Palavra do Senhor, com humildade e afeição íntima

                                                 


Acolhamos a Palavra do Senhor, com humildade e afeição íntima

Sejamos enriquecidos com um texto do Livro da Imitação de Cristo (séc XV):

“Ouve, filho, minhas palavras suavíssimas, que superam toda a ciência dos filósofos e sábios deste mundo. Minhas palavras são espírito e vida (cf. Jo 6,63), não ponderáveis por humanas inteligências. 

Não devem ser puxadas para a vã complacência, mas escutadas em silêncio, acolhidas com total humildade e afeição íntima. 

Eu disse: Feliz a quem instruis, Senhor, e lhe ensinas tua lei para que o alivies nos dias maus (Sl 93,12-13) e para que não se sinta abandonado na terra. 

Eu, diz o Senhor, ensinei no início aos profetas e até hoje não cesso de falar a todos. Porém muitos, à minha voz, são surdos e endurecidos. 

Muitos se comprazem em atender ao mundo mais que a Deus; com maior facilidade seguem os apetites de sua carne do que a vontade de Deus. 

O mundo promete coisas temporárias e pequeninas e é servido com imensas cobiças. Eu prometo bens sublimes e eternos e se entorpecem os corações dos mortais. 

Quem me serve e obedece com tanto empenho em todas as coisas, quanto se serve ao mundo e aos seus senhores?

Cora de vergonha, servo preguiçoso e descontente, porque aqueles estão mais prontos para se perderem do que tu para viveres.

Mais se alegram aqueles com a vaidade do que tu com a verdade. 

E, no entanto, por vezes se frustra sua esperança, ao passo que jamais falha a alguém minha promessa, nem sai de mãos vazias quem em mim confia. 

O que prometi, darei; o que falei, cumprirei. 

Sou eu o remunerador dos bons e inabalável acolhedor de todos os fiéis. 

Escreve minhas palavras em teu coração e rumina-as com cuidado; serão muito necessárias no tempo da tentação.

O que não entendes ao ler, entenderás quando te visitar. 

Costumo visitar de dois modos meus eleitos: pela tentação e pela consolação. 

E lhes leio diariamente duas lições: uma, arguindo seus vícios; outra, exortando a progredir na virtude. 

Quem tem minhas palavras e delas faz pouco caso, terá quem o julgue no último dia (cf. Jo 12,48).”

Intensifiquemos e aprofundemos a oração, com a Sagrada Escritura, e seja a Leitura Orante (leitura, meditação, oração e contemplação) um modo privilegiado para que nossa oração nos ajude a viver mais configurados a Jesus Cristo (Fl 2,1-11).

Que a Palavra de Deus seja para nós, como foi para todos os profetas, como assim o foi para Jeremias:

“Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me; elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração, o modo como invocar eu nome sobre mim, Senhor Deus dos exércitos” (Jr 15,16).

Por isto, Senhor, ainda que não mereça...

                                                               

Por isto, Senhor, ainda que não mereça... 

Uma pergunta sem sentido:
“Que sinal fazei, Senhor, para que em Vós creia?”.

Vossa morte crudelíssima, como epifania do grande Amor pela humanidade, coroada pela Ressurreição que creio, o que mais seria preciso?

Haverá maior sinal, maior manifestação de Amor que se possa experimentar? Indubitavelmente não. Porém, se não bastasse morrer na Cruz e Ressuscitar quisestes perenizar Vosso Amor em cada Banquete Eucarístico e em Vossa Palavra proclamada, acolhida, crida, vivida.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Fazei-me compreender Vossos Projetos, que muitas vezes se apresentam tão diferente dos meus, por que imunes de todo sentimento de egoísmo, individualismo, asfixias, pois tendes o Sopro do Espírito que dá uma nova vida.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Ajudai-me a compreender, ao menos em parte, Vosso imensurável e incompreensível Amor reconciliador para com os pecadores (entre os quais me incluo); este Amor gratuito que tão apenas deseja uma resposta de amor e a minha eternidade.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Fazei que, como Jonas, eu seja instrumento de conversão, não somente para os outros, mas para o mais difícil no itinerário da conversão: eu mesmo e meu frio e por vezes duro coração, que pouco aprendeu sobre a Vossa misericórdia e perdão.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Ajudai-me na minha necessária “metanoia”, na mudança de pensamentos, sentimentos e atitudes, para que eu possa resplandecer Vossa imagem, que em mim foi impressa desde o princípio da criação, para poder alcançar a tão desejada Salvação.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Não deixai que eu naufrague em meus mesquinhos esquemas, juízos e condenações, colocando-me diante do outro, e de mim mesmo, com maior ternura, mansidão e bondade.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Concedei-me a Vossa imprescindível Sabedoria, para contemplar Vosso agir e querer nas mais diversas e adversas situações, sem jamais desistir de aprender a mais bela lição da Loucura da Vossa Cruz Redentora.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Iluminai-me com a Vossa luz, para que não ande nas trevas dos que nada mais creem e esperam, pois Vós mesmo dissestes: “Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). 

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Ajudai-me na renúncia ao que aparentemente a mim se apresenta como necessário, mas de fato tão supérfluo, pois tão necessário somente é o Vosso Amor, Vossa Palavra, Vossa Vida, Vosso Reino.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Ensinai-me a prática do silêncio necessário para o diálogo na Oração, acolhendo em intimidade intensa e imensa Vossa Palavra, abrindo-me aos Vossos desígnios para o encontro maravilhoso do deleite da alma, num abraço interminável convosco.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Ajudai-me no refinar da sensibilidade e no fortalecer da solidariedade, para que me faça mais humano e atento com as necessidades pequenas e grandes daqueles que me rodeiam, porque tudo que diz respeito à pessoa humana, diz respeito a Vós e a Vossa Igreja.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Não consenti e libertai-me da tentação de me apoiar nas âncoras de minhas seguranças e pseudosseguranças, mas na necessária confiança em Vós, em Vossa Palavra e Poder, Força, Bondade e Graça.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Curai-me de toda paralisia que não me permite a abertura para  os novos horizontes; para os indescritíveis horizontes do Vosso Reino de amor, verdade, justiça, fraternidade, liberdade, serenidade...

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Não permiti que eu vacile na Fé, tampouco esmoreça na Esperança, para que tenha sempre inflamada a chama da Caridade Operosa, da qual sois a mais bela e inextinguível Divina Fonte.

Por isto, Senhor, ainda que não mereça,
Permiti-me Vos pedir, agradecer, louvar e uma resposta de amor dar, para que as riquezas Pascais possa celebrar e, abundantemente no coração, Vossa alegria transbordar.

domingo, 30 de agosto de 2026

Sejamos fortalecidos no carregar da Cruz! (XXIIDTCA)

                                                                

Sejamos fortalecidos no carregar da Cruz!

A Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano A) traz um convite que a muitos assusta e desaponta: “A loucura da Cruz”. No entanto, se quisermos ser discípulos do Senhor não há outro caminho, senão o caminho da Cruz.

Somos, portanto, convidados a rever o grande sinal que nos identifica, o Sinal da Cruz, que tantas vezes fazemos, e por vezes sem pensar no que o gesto implica: carregar a Cruz com fé, coragem e fidelidade como ponte necessária para a eternidade. Sem Cruz não há como conceber e alcançar a eternidade.

Mais uma vez nos deparamos com a necessária decisão: a lógica do mundo - dominação, poder, sucesso - ou a lógica de Deus - o caminho do amor, doação, fidelidade e Cruz, que é o amor até as últimas consequências.

Na passagem da primeira Leitura (Jr 20,7-9), temos as “confissões de Jeremias”. A sua vocação vivida enfrentando sofrimentos, solidão, maledicência, perseguição, cárcere, e também acusado de traição. Sofrimentos suportados por que coração seduzido e inflamado pelo Amor divino.  Ao realizar a vocação profética é chamado de “profeta da desgraça”.

Jeremias sentiu os apelos irresistíveis da Palavra, impulsionando à ousadia e confiança, num contexto social e político extremamente difícil. Ele, por tudo que viveu e pelo compromisso com Deus assumido, foi o “grito de um coração humano dolorido”, apenas curado pela Caridade Divina.

O profeta não é profeta por livre escolha, mas por desígnios divinos. Cada tempo precisa de profetas, de Jeremias que se apaixonem pela Palavra de Deus e Seu Projeto de vida, justiça e paz para todos; e  encontrem na Palavra Divina um fogo devorador. Somente assim viveremos intensamente nosso Batismo.

O testemunho de Jeremias questiona nossa coragem, fidelidade, ousadia, no trilhar do caminho profético:

- Teremos nós mesma sedução e coragem?
- Nossa “boca” é a boca que proclama sem medo o Projeto Divino?

O Apóstolo Paulo, na segunda Leitura (Rm 12,1-2), séculos mais tarde, outra grande história de um coração extremamente apaixonado e seduzido por Deus, exorta-nos a assumir atitudes coerentes com a fé que professamos, tornando nossa vida um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, não nos conformando ao mundo que vivemos, mas configurando-nos com o Senhor e Seu Evangelho, oferecendo a vida inteiramente a Deus.

O Apóstolo insiste que o culto que Deus espera de nós é uma vida vivida no amor, no serviço, na doação em entrega total a Deus e aos irmãos.

Com a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 16,21-27) somos desafiados a trilhar o caminho da Cruz, o caminho da entrega incondicional a Deus e do dom da vida colocada, por amor, a serviço, à luz das intervenções e inquietações do Apóstolo Pedro dirigidas ao Divino Mestre, Jesus.

O discípulo de Jesus não deve buscar o sofrimento pelo sofrimento, porém se eles vierem, desde que não sejam sofrimentos sem causa, o seguidor de Jesus sabe que este não pode prescindir da Cruz, sabe que está sujeito a perseguições, sofrimentos, incompreensões. Mas jamais será um sofredor sem causa. Sua causa é a paixão pelo Reino, que o faz irremovível.

O discípulo de Jesus sabe que “Quem busca um Cristo sem Cruz, acabará encontrando uma Cruz sem Cristo”; assim também, sabe que se quiser descomplicar seu existir terá que fazer da sua vida uma doação ao outro. Tudo se torna menos difícil quando nos colocamos no caminho do amor, da fidelidade, doação e serviço ao outro.

Nossa cruz torna-se suportável, seu peso mais leve, porque Ele mesmo já dissera – “Vós que estais cansados, vinde a mim porque meu fardo é leve e meu jugo é suave” (Mt 11,28-30).

Finalizando, Jeremias, Paulo, Pedro e outros tantos, muito nos ensinaram no caminhar da fé.

Reflitamos:

- O que nos ensinam no caminhar da fé?
- O que precisamos rever em nossa vida, pensamentos, palavras e ações para que melhor correspondamos aos desígnios de Deus?

- O que fazer para que nossa vida seja um culto agradável ao Senhor?
- Como estamos carregando nossa Cruz de cada dia?
- Quais as renúncias necessárias?

O discípulo de Jesus tem que renunciar a si mesmo, oferecer sua vida por amor,  colocando-se à serviço do Reino; discernindo, entre as coisas, os bens que passam que devem ser utilizados, e os bens eternos que devem para sempre ser abraçados.

O discípulo sabe que, como disse o Presbítero Santo Tomás de Aquino, “O menor bem da graça é superior a todo bem do Universo”.

Amor e Cruz na fidelidade ao Senhor (XXIIDTCA)

                                                                               

Amor e Cruz na fidelidade ao Senhor

“Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24)

Como discípulos missionários do Senhor, no Seu seguimento, precisamos das renúncias necessárias, e o tomar da cruz cotidiana para segui-Lo, como lemos nas passagens dos Evangelhos (Mt 16,21-27; Lc 9,18-24).

Sejamos enriquecidos por estas afirmações de Santa Teresa de Jesus (séc. XVI), neste bom propósito de todos nós:

“Estou convencida de que a medida da capacidade de levar cruz grande ou pequena é a do amor...

Cumpra-se em mim, Senhor, Vossa vontade de todos os modos e maneiras que vós, Senhor meu, quiserdes.

Se me quiserdes enviar sofrimentos, dai-me forças para suportá-los, e venham!

Se perseguições e enfermidades, desonras e mínguas, aqui estou!

Não afastarei o rosto, ó meu Pai, nem há motivo para virar as costas. Não quero que haja falha da minha parte depois que vosso Filho, em meu nome, deu esta minha vontade, oferecendo a vontade de todos os homens.” (1)

Jesus jamais prometeu facilidades para segui-Lo, e o Mistério da Cruz estava sempre presente no horizonte de Sua pregação e ação.

O discípulo de Jesus sabe que “Quem busca um Cristo sem Cruz, acabará encontrando uma Cruz sem Cristo”; assim também, sabe que precisa fazer da sua vida uma doação ao outro.

Deste modo, tudo se torna menos difícil quando nos colocamos no caminho do amor, da fidelidade, doação e serviço ao outro.

Nossa cruz torna-se suportável, seu peso mais leve, porque Ele mesmo já dissera – “Vós que estais cansados, vinde a mim porque meu fardo é leve e meu jugo é suave” (Mt 11,28-30).

Da mesma forma, também nos assegura, em todos os momentos, a Sua presença enquanto estava com eles, e depois a presença do Paráclito que haveria de ser enviado, e assim se fez, para que não sucumbissem diante das dificuldades, provações e perseguições, como mencionara na conclusão das Bem-Aventuranças (Mt 5,1-12).

Portanto, aprendamos com esta Santa e Doutora da Igreja, a pedir sempre a Deus “coragem” para enfrentar os sofrimentos, e muito “amor” para carregar a cruz, seja ela pequena ou grande, pois como Santa Teresa afirmou, este é a medida da capacidade para suportarmos o seu peso e levá-la no anúncio e testemunho de nossa fé e esperança, como discípulos missionários do Senhor.


(1) Santa Teresa de Jesus – O Caminho da perfeição – Editora Paulus -  pp.189.191

Quando o céu se torna escuridão… (XXIIDTCA)

                                                       


Quando o céu se torna escuridão…

A Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano A),  retrata as dores e alegrias, angústias e esperanças do Povo de Deus, à luz da Palavra de Deus proclamada.

Como a realidade da cruz, do sofrimento, marca a vida do Povo de Deus! 

Acorre-se a Deus em busca de uma Palavra, um alento, um reacender da chama da esperança, uma luz, um impulso… Não uma fuga, não uma evasão da realidade, mas abastecimento para poder enfrentá-la, transformá-la, renová-la, a partir do mistério da Fé, celebrado na Mesa da Eucaristia.

Na passagem da primeira Leitura (Jr 20,7-9), o Profeta Jeremias, seduzido pelo Amor de Deus levou-nos ao mesmo desejo: deixar nosso coração pelo Amor de Deus ser seduzido, como fogo que o queima por dentro. Vocação profética que não é vontade nossa, mas iniciativa de Deus, dom de Deus, resposta nossa…

Na passagem da segunda Leitura (Rm 12,1-2), o Apóstolo Paulo nos exorta, pela misericórdia de Deus, a nos oferecermos como sacrifício vivo, santo e agradável a Ele, no autêntico culto, na transformação e conversão de nossa maneira de pensar e julgar, não nos deixando moldar pela lógica do mundo, mas pela lógica do Evangelho, procurando sempre o que é agradável a Deus…

Na passagem do Evangelho (Mt 16,21-27), Jesus fez Seu primeiro anúncio da Paixão e Morte: o caminho da glória passa inevitavelmente pela Cruz, para além da compreensão de Pedro que recebeu de Jesus seríssima advertência, por não pensar como Deus: Afasta-te de mim Satanás…”. Quem quiser seguir Jesus deverá renunciar a si mesmo, tomar sua cruz e segui-Lo com coragem, fidelidade, ousadia, confiança, perseverança…

Deste modo, a verdadeira Oração não deve ser nunca para que Deus nos tire a cruz, que a reduza, tão pouco lamento estéril, angustiante. 

A verdadeira Oração é glorificar a Deus por Sua bondade, força, graça e ternura que nos acompanha dando possibilidade de poder carregá-la, transformando a cruz (aparente sinal de fracasso) em sinal de vitória. Cruz: loucura para os gregos, escândalo para os judeus (1 cf. 1 Cor 1,18-25).

De fato, Deus faz renascer a vida das cinzas (o maravilhoso ipê amarelo que neste tempo teimosamente desafia o cenário das cinzas e enfeita os campos com o esplendor de suas flores); faz nascer a imortal obra de arte de Beethoven para Elisa, nascida da experiência fracassada da mesma ao não conseguir tocar sua peça na frente de Beethoven.

Enfim, “quando o céu se torna escuridão pela privação da luz do sol, Deus acende as estrelas”, e o provérbio “no auge da noite se anuncia o nascer de um novo dia”

Sigamos em frente, tomemos livremente nossa cruz, saciados pelo Pão Nosso de cada dia. A cada dia suas preocupações, inquietações, desafios…

Oremos: 

“Pai nosso...

Seduzidos pelo Senhor (XXIIDTCA)

                                                              

Seduzidos pelo Senhor

 “Tu me seduziste, Senhor,
e eu deixei-me seduzir” (Jr 20,7)

No 22º Domingo do Tempo Comum (ano A), ouvimos a passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 20,7-9).

Trata-se de um trecho das “confissões” amarguradas e dolorosas do Profeta Jeremias, decorrente do exercício do seu ministério, paradigma do Profeta perseguido.

A narração é a continuação dos acontecimentos da saída do cárcere do Profeta, preso devido a um oráculo que dirigiu contra o reino de Judá (Jr 19,14 - 20,6).

Jeremias, chocado com a experiência da prisão, queria fugir da missão por Deus confiada, mas não teve forças e sentiu-se incapaz para esta fuga.

O Profeta se sente enganado por Deus que, através de sua missão, o colocou à margem da sociedade (v. 7); quanto à Palavra de Deus, se tornou para ele motivo de opróbrio, vergonha e desonra.

O Profeta desejaria rebelar-se contra Deus, mas tem consciência da inutilidade de sua impotência diante do Mistério de Deus: a Sua voz é como fogo e não há como abafá-la, extingui-la, apagá-la (v.9).

No texto, com matizes de Oração, sobressai a sequência facilmente perceptível: sedução, dominação, violência (v. 7-8).

O profeta Jeremias só vê um caminho: responder a este chamado de Deus. O Senhor é mais forte do que ele e sua rebelião (Jr 20,14-18).

Assim diz o Comentário do Missal Dominical:

O ministério profético, sobretudo, não é uma vocação à tranquilidade: é incômodo para quem fala e para quem ouve.

Jeremias desejaria subtrair-se à ingrata tarefa, mas a Palavra de Deus queima-o por dentro com tal veemência, que não pode contê-la.

Sua alma é terreno de batalha, onde batem forças dificilmente conciliáveis entre si: Deus, o mundo, a busca de si mesmo. Só resta ao Profeta uma possibilidade: deixar-se seduzir por seu Senhor.” (1)

Jeremias é definitivamente vencido por Deus, e assim é um exemplo para todo cristão que é chamado a reconhecer em si mesmo o sinal da vocação ao amor e ao testemunho:

Quem se deixa seduzir pelo Senhor, porque descobre que é objeto do Seu amor, encontra em si mesmo a força e não se furta à oferta contínua de todas as provas que lhe vêm do seu testemunho.

Olhemos para Jeremias, mas, sobretudo para Cristo que cumpre a figura d’Ele.

Ele é o verdadeiro Servo, que sofre e oferece a vida em sacrifício. A Sua obediência nos conforte e coloque entusiasmo no nosso testemunho...

Entreguemos a nossa vida ao Senhor, para que iluminada por Ele, saiba crescer e cumprir constantemente a Sua vontade.” (2)

Jeremias, um Profeta provado até o extremo, mas definitivamente vencido por Deus. Ele oferece a sua vida como sacrifício espiritual agradável a Deus. E isto é o que Deus espera de cada um de nós, paradoxalmente, no carregar da cruz cotidiana, sem esmorecimentos, com a certeza de que a vida perdendo, por Ele consumindo, na fidelidade a Jesus, com a força do Espírito Santo, alcançaremos a plena felicidade e eternidade.

Concluindo:

Seduz somente quem ama, e somente o amado se deixa seduzir. De igual modo é apenas na experiência vital do Amor de Deus que amadurece a coragem de poder partilhar perspectivas tão duras, como as da livre aceitação da prova ou de suportar com fé o sofrimento e a dor.

Isto significa estarmos apaixonados por Cristo, no verdadeiro sentido da palavra: isto é, no significado etimológico de poder ‘sofrer’, de poder passar através do Gólgota, oferecendo a nossa vida ao Pai, juntamente com Cristo e na força de Oração mais verdadeira que se possa pensar...

Toda a nossa vida, em todas as suas manifestações, inclusive a amargura e a tristeza, está orientada para Cristo e deve ser envolvida na caminhada em direção ao grande dia do Senhor que esperamos.” (3)

Que nossa vida cristã seja uma resposta ao Amor de Deus que nos seduz, como seduziu a Jeremias, a tantos Profetas, homens e mulheres de todos os tempos.

O autêntico relacionamento com Deus somente ocorre numa intensa e contínua relação de amor e sedução. Não procuremos um Cristo sem Cruz, porque certamente encontraremos uma Cruz sem Cristo.

E renovando a graça da vocação profética, recebida no dia de nosso Batismo, elevemos a Deus esta Oração:

“Espírito Santo, iluminai o nosso coração, para que possamos colocar todos os sofrimentos, nossos e alheios, à luz esplêndida da Cruz do Senhor Jesus.

Fazei que não desprezemos as cruzes da vida, tornando-nos próprios obstáculos para a propagação do Reino de Deus e ‘escândalo’ para nossos irmãos.

Reavivai em nós a consciência de sermos filhos, filhos amados e socorridos sempre pela ternura e pelo amor do Pai. Amém.” (4)



(1) Missal Dominical - p. 787.
(2) Lecionário Comentado – Editora Paulus - pp. 229-231
(3) (4) Idem p. 233

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