quinta-feira, 18 de junho de 2026

“Pai Nosso que estais nos céus...”

                                               


“Pai Nosso que estais nos céus...”
 
Disse o Senhor na passagem do Evangelho de João (Jo 16,23b-28): “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16,23b).
 
Oportuno um aprofundamento sobre a autêntica oração, que deve acompanhar a vida do  discípulo missionário do Senhor, pois esta, feita em Seu nome, deve nascer da profunda intimidade com Ele, de tal modo que, a Ele configurados, haveremos de ter mesmos sentimentos (Fl 2,1-11).
 
Tudo isto nós vemos e encontramos na mais bela oração que Ele mesmo no-la ensinou: o “Pai-Nosso” (Mt 6,7-15; Lc 11,1-4), que ora refletimos:
 
- A manifestação da glória do Pai – “Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome” amar a Deus sobre todas as coisas; santificar Seu nome por uma vida que expresse nossa filiação, como imagem e semelhança D’Ele criados; profunda e perfeita sintonia com Deus em todos os momentos;
 
- A vinda do Reino de Deus – “Venha a nós o Vosso Reino” – o Reino de Deus, como assim rezamos no Prefácio da Missa da Solenidade de Cristo Rei: “Com óleo de exultação, consagrastes Sacerdote Eterno e Rei do universo Vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso. Ele, oferecendo-Se na Cruz, vítima pura e pacífica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao Seu poder, toda criatura entregará à Vossa infinita majestade um Reino eterno e universal: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz...” 
 
-  amorosa  vontad divina  –  ―”Sej feita   voss vontad assi na  terr com nos céus” Nada pode sobrepor à vontade divina, de modo que não podemos nos submeter à busca de fins mesquinhos e egoísticos. Ser capaz de sacrificar caprichos e vontades de tal modo que estas sejam cada vez mais em conformidade à vontade divina, que nem sempre poderá corresponder à nossa, na mais perfeita sintonia;
 
- A súplica pelo pão cotidiano – “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” é preciso pedir o pão cotidiano, porque a salvação atua neste mundo e na história. Peçamos O Pão de Eternidade, O Pão da Eucaristia e com ele o amor, a vida, a alegria, a paz, a solidariedade, a salvação. Podemos e devemos, como cristãos, também, pedir as coisas temporais, mas desde que sejam fundamentais para o nosso viver com sobriedade, numa vida fugaz, sem ficarmos presos às armadilhas do consumo supérfluo, sem critérios ou sem medidas, numa insaciabilidade prejudicial a si mesmo, sem a solidariedade com os mais empobrecidos do essencial para uma vida digna;
 
- O perdão dos pecados – “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” – Suplicar o perdão divino é necessário, mas não nos dispensa de viver o mesmo em relação ao nosso próximo. Se experimentarmos o amor e o perdão divinos, verdadeiramente, poderemos viver a graça do perdão também concedido “Pois, se perdoardes aos homens os seus pecados, também Vosso Pai celeste vos perdoará: mas se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará vossos delitos” (Mt 6,14);
 
- Preservação e libertação da tentação “Não nos deixeis cair em tentação” as tentações do Maligno, que Nosso Senhor venceu no deserto (ter, poder e ser acúmulo, domínio e prestígio respectivamente) – (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13), e nos ensinou o mesmo a fazer, para que vivamos na liberdade, pois é para ela que Ele nos libertou, para que sejamos verdadeiramente livres (Gl 5,1); e ainda nos falou o Senhor – “Se permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 31-32);
 
- A libertação do mal – “Mas livrai-nos do mal” – para isto precisa da ação e presença dos dons do Espírito Santo para o discernimento, orientação dos passos e perseverança no testemunho das virtudes divinas (fé, esperança e caridade). Aqui lembramos as palavras que rezamos na conclusão do Pai Nosso ao celebrar a Santa Missa: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto aguardamos a feliz esperança, e a  vinda do nosso Salvador, Jesus Cristo. Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém!”.
 
Concluímos com a leitura orante da passagem da Carta de São Paulo aos Gálatas (Gl 5,1-26), na qual ele nos exorta a viver a verdadeira liberdade e caridade, que devem ser marcas fundamentais dos discípulos missionários do Senhor, não satisfazendo os desejos da carne, mas conduzidos pelo Espírito.
 
Fonte: Missal Cotidiano Editora Paulus 1998 p. 468-469.
 

“Quão grande e admirável é a caridade”

                                                              

“Quão grande e admirável é a caridade”

Sejamos enriquecidos pela arta aos Coríntios, escrita pelo Papa São Clemente I (séc. I):

Vede, diletos, quão grande e admirável é a caridade. A sua perfeição ultrapassa as palavras. Quem é capaz de possuí-la a não ser aquele que Deus quiser tornar digno?

Oremos, portanto, e peçamos-lhe misericórdia para sermos encontrados na caridade, sem culpa nem qualquer inclinação meramente humana. Todas as gerações, desde Adão até hoje, já passaram. Aqueles, porém, que pela graça de Deus foram consumados na caridade, alcançam o lugar dos santos e serão manifestados na parusia do Reino de Cristo.

Está escrito: Entrai nos quartos por um momento até que passe minha cólera acesa; e lembrar-me-ei dos dias bons e vos erguerei de vossos sepulcros.

Felizes de nós, diletos, se cumprirmos os preceitos do Senhor na concórdia da caridade, para que pela caridade sejam perdoados nossos pecados. Pois está escrito: Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cobertos os pecados. Homem feliz, a quem o Senhor não acusa de pecado nem há engano em sua boca. Esta felicidade pertence aos eleitos de Deus, mediante Jesus Cristo, Nosso Senhor, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

De tudo quanto faltamos e fizemos, seduzidos por alguns servos do adversário, peçamos-lhe perdão. Aqueles, porém, que se tornaram cabeças de sedição e discórdia, devem meditar sobre a comum esperança.

Quem vive no temor de Deus e na caridade, prefere o próprio sofrimento ao do próximo, prefere suportar injúrias a desacreditar a harmonia, que bela e justamente nos vem da tradição. É de fato melhor confessar o seu pecado do que endurecer o coração.

Quem entre vós é o generoso, quem o misericordioso, quem o cheio de caridade? Que esse diga: ‘Se por minha causa surgiu esta sedição, esta discórdia e divisão, então eu me retiro, vou para onde quiserdes e farei o que o povo decidir; contanto que o rebanho de Cristo tenha a paz com os presbíteros estabelecidos’.

Quem assim agir, alcançará grande glória em Cristo e será recebido em todo lugar. Do Senhor é a terra, e tudo o que contém. Assim fazem e farão aqueles que vivem a vida divina, da qual nunca se têm de arrepender”.

A Carta é um convite para a reflexão sobre os Preceitos do Senhor, no fortalecimento dos laços e vínculos de concórdia e da caridade na vida de comunidade.

Sete vezes a palavra caridade é mencionada nesta Carta, e bem sabemos quão necessária ela é na vida da comunidade, para que se fortaleçam os vínculos entre seus membros.

Sem ela, a missão se fragiliza, a Igreja não se rejuvenesce, e perde o ardor da missão que o Senhor confiou.

A caridade vivida nos coloca em abertura ao sopro do Espírito, que anima e conduz Sua Igreja, para que seja aberta aos sinais dos tempos e os clamores que emergem por uma solidária e corajosa resposta.

Roguemos a Deus para que nossas comunidades sejam espaços privilegiados de aprendizado e da prática da caridade, na correção fraterna, na conversão de todos ao que delas se espera, e que jamais sejamos motivos de discórdia delas participando.

Rezando com os Salmos - Sl 58(59),2-5.10-11.17-18

 



O Senhor é a minha força, refúgio e proteção

“–2 Libertai-me do inimigo, ó meu Deus,
e protegei-me contra os meus perseguidores!
–3 Libertai-me dos obreiros da maldade,
defendei-me desses homens sanguinários!

–4 Eis que ficam espreitando a minha vida,
poderosos armam tramas contra mim.
=5 Mas eu, Senhor, não cometi pecado ou crime;
eles investem contra mim sem eu ter culpa:
despertai e vinde logo ao meu encontro!

=10 Minha força, é a Vós que me dirijo,
porque sois o meu refúgio e proteção,
11 Deus clemente e compassivo, meu amor!
– Deus virá com Seu amor ao meu encontro,
e hei de ver meus inimigos humilhados.

–17 Eu, então, hei de cantar Vosso poder,
e de manhã celebrarei Vossa bondade,
– porque fostes para mim o meu abrigo,
o meu refúgio no dia da aflição.

=18 Minha força, cantarei Vossos louvores,
porque sois o meu refúgio e proteção,
Deus clemente e compassivo, meu amor!”

O Salmo 58(59),2-5.10-11.17-18 é a oração do justo perseguido:

“Ameaçado por gente poderosa, o salmista protesta sua inocência; numa prece confiante invoca o socorro divino contra os que desejam matá-lo.” (1)

Segundo Eusébio de Cesareia, estas palavras ensinam a todos o amor filial do Salvador para com Seu Pai.

Também deve ser esta a nossa atitude diante de Deus em meio às provações e dificuldades. E sempre que preciso for, façamos deste Salmo a nossa oração e, no Senhor, em quem colocamos toda a confiança, busquemos refúgio e proteção, não evasão ou omissão dos sagrados compromissos. Amém.

 

(1) Comentário Bíblia Edições CNBB – pág. 774

Renovemos a Esperança

                                                       

Renovemos a Esperança

É sempre necessário o aprofundamento da virtude teologal da esperança, que nos leva ao desejo do Reino dos céus e da vida eterna, como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos no socorro da graça do Espírito Santo, e não apenas em nossas forças.

Retomemos, portanto, para este aprofundamento, alguns parágrafos do Catecismo da Igreja Católica.

Esta virtude corresponde ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração de todo o homem; assume as esperanças que inspiram as atividades dos homens, purifica-as e ordena-as para o Reino dos céus.

Ela também protege contra o desânimo; sustenta no abatimento; dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna, de modo que o ânimo que a esperança dá, preserva do egoísmo e conduz à felicidade da caridade.

A esperança cristã, por sua vez, retorna e realiza a esperança do Povo eleito, que tem a sua origem e modelo na esperança de Abraão, o qual, em Isaac, foi cumulado das promessas de Deus e purificado pela provação do sacrifício: – “Contra toda a esperança humana, Abraão teve esperança e acreditou. Por isso, tornou-se pai de muitas nações” (Rm 4, 18).

As Bem-Aventuranças desde o princípio presente nas pregações de Jesus, elevam a nossa esperança para o céu, como nova terra prometida e aponta o caminho através das provações que aguardam os discípulos de Jesus.

O Apóstolo Paulo também nos faz compreender que, pelos méritos do mesmo Jesus Cristo e da Sua paixão, Deus nos guarda na “esperança que não decepciona” (Rm 5, 5), e assim escreveu a Tito: -  “O Espírito Santo, que Ele derramou abundantemente sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, para que, justificados pela Sua graça, nos tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna” (Tt 3, 6-7).

Ainda nos diz o Apóstolo, que ela é arma que nos protege no combate da Salvação: “Revistamo-nos com a couraça da fé e da caridade, com o capacete da esperança da salvação” (1 Ts 5, 8). Proporciona-nos alegria, mesmo no meio da provação: “alegres na esperança, pacientes na tribulação” (Rm 12, 12)

O autor da Epístola aos Hebreus, por sua vez, exorta: –“Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel” (Hb 10, 23), e esta é “a âncora da alma, inabalável e segura” que penetra [...] “onde entrou Jesus como nosso precursor” (Hb 6, 19-20).

Ela se exprime e se nutre na oração, particularmente na oração do Pai-Nosso que o Senhor nos ensinou, resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar.

Podemos nutrir a esperança da glória do céu prometida por Deus àqueles que O amam e fazem a sua vontade.

Em todas as circunstâncias, ainda que marcada por adversidades, devemos esperar contando com a graça de Deus e permanecer fiel até o fim (Mt 10,22), e alcançar a alegria do céu, como eterna recompensa de Deus pelas boas obras realizadas.

Finalizemos com as palavras de Santa Teresa de Jesus:

“Espera, espera, que não sabes quando virá o dia nem a hora. Vela com cuidado, que tudo passa com brevidade, embora o teu desejo faça o certo duvidoso e longo o tempo breve. Olha que quanto mais pelejares, mais mostrarás o amor que tens a teu Deus, e mais te regozijarás com teu Amado em gozo e deleite que não pode ter fim”.


Fonte de pesquisa: Catecismo da Igreja Católica – parágrafos n.1817-1821

Jesus Cristo: nossa maior e mais valiosa riqueza

 


Jesus Cristo: nossa maior e mais valiosa riqueza
 
A passagem da Epístola aos Hebreus (Hb 4,12-13) nos exorta: é preciso acolher a sabedoria de Deus, revelada em Jesus Cristo, como nossa maior e mais valiosa riqueza, pois a vida de quem crê é marcada pelo sacrifício de louvor e entrega de amor.  
                                        
Num contexto de monotonia e mediocridade, o autor tem a preocupação de levar a comunidade a viver uma fé comprometida, coerente, empenhada com a construção do Reino, numa acolhida frutuosa da Palavra de Deus. É preciso retomar, reavivar o entusiasmo inicial.
 
A Palavra de Deus, quando acolhida com sinceridade, transforma sentimentos, pensamentos e orienta nossos valores, opções e atitudes. Ela é força decisiva, dá conteúdo salutar à história e comunica a vida e a salvação, portanto é preciso confrontar sempre a nossa vida diante das exigências da Palavra de Deus.
 
Deste modo, haveremos de:
 
- Viver de acordo com as propostas de Deus – é preciso disponibilidade e abertura para escutar a Deus e por Ele ser desafiado;
 
- Integrar-se à comunidade do Reino que toca o coração de todos para a abertura à Comunidade do Reino;
 
- Viver as exigências de quem se coloca a serviço do Reino, não centrando sua vida nos bens que passam; viver a partilha e solidariedade; seguir Jesus Cristo no caminho de amor e entrega.
 
Oremos:
 
“Fazei, ó Deus, que os acontecimentos deste mundo decorram na paz que desejais, e Vossa Igreja Vos possa servir, alegre e tranquila. Por N.S.J.C. Amém.”  (1)
 
(1)  Oração do dia – VIII Domingo do Tempo Comum 

Batismo: dom, graça e missão

                                           


Batismo: dom, graça e missão

“Recebe por este sinal o Espírito Santo, o dom de Deus”

Acolhamos a Instrução sobre os ritos depois do batismo, contida no Tratado sobre os Mistérios, escrita por Santo Ambrósio (séc. IV).

“Em seguida banhado nas águas do Batismo, subiste em direção ao sacerdote. Pensa no que se seguiu. Não foi aquilo que Davi cantou: Como o bálsamo na cabeça que desce pela barba, pela barba de Aarão? É o mesmo bálsamo de que fala Salomão: Bálsamo derramado é o Teu nome, por isto as jovens Te amaram e Te atraíram.

Quantas almas renovadas hoje te amam, Senhor Jesus, dizendo: Atrai-nos em Teu seguimento, correremos ao odor de Tuas vestes, para que respirem o odor da Ressurreição.

Entende de que modo se faz, pois os olhos do sábio estão em sua cabeça. A unção escorre pela barba, isto é, pela beleza da juventude; pela barba de Aarão para te tornares da raça eleita, sacerdotal, preciosa. Porque todos no Reino de Deus somos também ungidos pela graça espiritual para o sacerdócio. Recebeste depois a veste branca, indício de teres despido a crosta dos pecados e revestido a casta túnica da inocência, lembrada pelo Profeta quando diz:

Asperge-me com o hissopo e serei limpo, lavar-me-ás e serei mais branco do que a neve. Ora, quem é batizado vê-se purificado pela lei e pelo Evangelho: segundo a Lei, porque como um ramo de hissopo Moisés aspergia o sangue do cordeiro; segundo o Evangelho, porque eram brancas como a neve as vestes de Cristo quando revelou a glória de Sua Ressurreição.

Mais do que a neve se torna alvo aquele a quem se perdoa a culpa. O Senhor, por intermédio de Isaías, diz: Se vossos pecados forem como a púrpura, Eu os alvejarei como a neve.

Trazendo esta veste, recebida no banho do novo nascimento, a Esposa diz, nos Cânticos: Sou escura e formosa, filhas de Jerusalém. Escura, pela fragilidade da condição humana; formosa pela graça. Escura, por vir dentre os pecadores; formosa, pelo sacramento da fé. Vendo tais roupas, exclamam estupefatas as filhas de Jerusalém: Quem é esta que sobe tão alva? Ela era escura; donde lhe veio agora de repente este brilho?

 

Cristo, que assumira uma veste sórdida, como se pode ler em Zacarias, por causa de Sua Igreja, ao vê-la em vestes brancas, com a alma pura e lavada pelo banho do novo nascimento, diz: Como és formosa, minha irmã, como és formosa, teus olhos parecem-se com os da pomba, sob cuja forma desceu do céu o Espírito Santo.

Lembra-te então que recebeste a marca espiritual, o Espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de força, o espírito de ciência e de piedade, o espírito do santo temor. Guarda o que recebeste. Deus Pai te assinalou, o Cristo Senhor te confirmou e deu o penhor do Espírito em teu coração, como aprendeste com a Leitura do Apóstolo”.

Esta Instrução é enriquecedora, para que reflitamos sobre a graça que no dia do Batismo recebemos, assim, como o dia em que fomos confirmados com o Dom do Espírito Santo, quando ungidos e assinalados pelo Óleo do Santo Crisma, e enriquecidos com os sete dons, como ele mesmo assim o descreveu.

Em todo o tempo, agradeçamos a graça que Deus nos concedeu pelo Batismo, de sermos Templo do Espírito Santo, e agraciados pelos sete dons quando confirmados na fé.

Agradecer e viver esta graça e missão: dom de Deus e resposta nossa ao amor Seu Amor e confiança em nós, ainda que não mereçamos, como vemos nesta afirmação do Bispo:

Sou escura e formosa, filhas de Jerusalém. Escura, pela fragilidade da condição humana; formosa pela graça. Escura, por vir dentre os pecadores; formosa, pelo sacramento da fé.”

Oportuno retomar esta Instrução em nossas Pastorais, de modo especial, na Pastoral do Batismo e do Crisma.

Oremos:

“Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do Vosso povo na renovação da festa Pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o Batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu a vida e o Sangue que nos redimiu. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo. Amém”.


Misericórdia Divina e humana são inseparáveis

                                                                 

Misericórdia Divina e humana são inseparáveis

A Liturgia das horas nos oferece um Sermão do Bispo São Cesário de Arles (séc. VI), que nos convida a refletir sobre a misericórdia divina e a misericórdia humana. 

Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. É suave a palavra misericórdia, meus irmãos. E se a palavra assim é, o que não será a realidade? Apesar de todos a desejarem, não agem de modo a merecer recebê-la, o que é mau. De fato, todos querem receber a misericórdia, mas poucos querem dá-la.

Ó homem, com que coragem queres pedir aquilo que finges dar! Deve, portanto, conceder misericórdia aqui na terra quem espera recebê-la no céu. Por isto, irmãos caríssimos, já que todos queremos misericórdia, tenhamo-la por padroeira neste mundo, para que nos liberte no futuro.

Há no céu uma misericórdia a que se chega pelas misericórdias terrenas. A Escritura assim diz: Senhor, no céu, Tua misericórdia.

Há, então, a misericórdia terrena e a celeste, a humana e a divina. Qual é a misericórdia humana? Aquela, é claro, que te faz olhar para as misérias dos pobres.

E a misericórdia celeste? Certamente a que concede o perdão dos pecados. Tudo quanto a misericórdia humana distribui pelo caminho, paga-o na pátria a misericórdia divina.

Neste mundo, Deus, em todos os pobres, sofre frio e fome; Ele mesmo o disse: Sempre que o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes. Deus, pois, que no céu se digna dar, quer na terra receber.

Que espécie de gente somos nós que, quando Deus dá, queremos receber, quando Ele pede, nós nos recusamos a dar? Se um pobre tem fome, Cristo sofre necessidade, conforme disse: Tive fome e não me destes de comer. Por conseguinte, não desprezes a miséria dos pobres, se queres esperar confiante o perdão dos pecados. Agora Cristo passa fome, irmãos. Em todos os pobres Ele se digna ter fome e sede. Mas aquilo que recebe na terra, paga-o no céu.

Pergunto-vos, irmãos, que quereis ou que buscais quando vindes à igreja? Não é a misericórdia? Dai, então, a misericórdia terrena e recebereis a celeste. O pobre pede a ti e tu pedes a Deus. O pobre pede um pedaço de pão; tu, a vida eterna.

Dá ao mendigo o que merecerás receber de Cristo. Escuta o que Ele diz: Dai e dar-se-vos-á. Não sei com que coragem queres receber aquilo que não queres dar. Por isto, vindo à Igreja, dai, segundo vossas posses, esmolas aos pobres.”

Diante da misericórdia divina, reconheçamos nossa condição pecadora, a fim de que sejamos mais misericordiosos com aqueles que padecem a miséria no tempo presente. 

Se a misericórdia vivida para com o outro o for, de fato, somos acolhedores e aprendizes da mais bela, perfeita e imensurável misericórdia: a misericórdia divina.

A vivência da misericórdia humana em gestos concretos e solidários com o outro que se vê, é a mais bela e pura expressão da misericórdia divina, que se busca, se deseja, se quer viver, mas que não se vê.

Bem afirma São João que é mentiroso quem diz que ama a Deus que não se vê e não se ama o irmão que se vê (1 Jo 4,20-21).

Aprendizes assíduos da misericórdia divina e humana o sejamos, de fato, e como bem expressa o refrão da Oração Eucarística da Reconciliação:

“Como é grande, ó Pai, a Vossa misericórdia”, e como o próprio Senhor o disse: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).


PS: As obras de misericórdia corporais (dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos); e as obras de misericórdia espirituais (aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as fraquezas do próximo, rezar a Deus pelos vivos e defuntos).

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