segunda-feira, 9 de março de 2026

Nossa glória está tão somente no Senhor

                                                


Nossa glória está tão somente no Senhor

Sejamos enriquecidos por uma das homilias de São Basílio Magno, bispo (séc. IV):

Não se glorie o sábio de seu saber, não se glorie o forte de sua força, nem o rico de suas riquezas (Jr 9,22).

Qual é então o verdadeiro motivo de glória e em que consiste a grandeza do homem? Quem se gloria – diz a Escritura – glorie-se nisto: em conhecer e compreender que eu sou do Senhor (Jr 9,23).

A nobreza do homem, a sua glória e a sua dignidade consistem em saber onde está a verdadeira grandeza, aderir a ela e buscar a glória que procede do Senhor da glória. Diz efetivamente o Apóstolo: Quem se gloria, glorie-se no Senhor. Estas palavras encontram-se na seguinte passagem: Cristo Se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, ‘quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (1Cor 1,31).

Por conseguinte, é perfeito e legítimo nos gloriarmos no Senhor quando, longe de orgulhar-nos de nossa própria justiça, reconhecemos que estamos realmente destituídos dela e só pela fé em Cristo somos justificados.

É nisto que Paulo se gloria: desprezando sua própria justiça, busca apenas a que vem por meio de Cristo, ou seja, a que se obtém pela fé e procede de Deus; para assim conhecer a Cristo, o poder de Sua ressurreição e a participação em Seus sofrimentos, configurando-se à Sua morte, na esperança de alcançar a ressurreição dos mortos.

Aqui desaparece todo e qualquer orgulho. Nada te resta para que te possas gloriar, ó homem, pois tua única glória e esperança está em fazeres morrer tudo que é teu e procurares a vida futura em Cristo. E como possuímos as primícias desta vida, já a iniciamos desde agora, uma vez que vivemos inteiramente na graça e no dom de Deus.

É certamente Deus quem realiza em nós tanto o querer como o fazer, conforme o Seu desígnio benevolente (Fl 2,13). E é ainda Deus que pelo Seu Espírito nos revela a sabedoria que, de antemão, destinou para nossa glória.

Deus nos concede força e resistência em nossos trabalhos. Tenho trabalhado mais do que os outros – diz também Paulo – não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo (1Cor 15,10).

Deus nos livra dos perigos para além de toda esperança humana. Experimentamos, em nós mesmos, – diz ainda o Apóstolo – a angústia de estarmos condenados à morte. Assim, aprendemos a não confiar em nós mesmos, mas a confiar somente em Deus que ressuscita os mortos. Ele nos livrou, e continuará a livrar-nos, de um tão grande perigo de morte. N’Ele temos firme esperança de que nos livrará ainda, em outras ocasiões (2Cor 1,9-10).”

Quaresma, tempo favorável de conversão, reorientação de nossos passos, revisão de pensamentos e condutas, bem como superação de pecaminosas omissões.

Um sinal de conversão é tomar consciência de que nossa glória é verdadeira quando nos gloriamos no Senhor.

Não é pela sabedoria, poder ou riqueza que devemos nos gloriar, mas na força e poder que nos vêm do Senhor.

Nossa sabedoria é importante, mas em sintonia e aberta à Sabedoria divina, para que melhor correspondamos aos desígnios divinos, e caminhemos juntos ao encontro da felicidade tão desejada.

Sabedoria humana e divina não se contrapõem; fundamental que sabedoria humana seja sempre iluminada e conduzira pela Sabedoria divina, em abertura ao Santo Espírito que nos assiste e nos conduz.

Experimentar a força da onipotência divina em nossa fragilidade, pois nosso poder deve ser sempre expressão de doação e serviço, não despotismo ou tirania, como o Senhor nos ensinou ao lavar os pés dos seus discípulos (cf. Jo 13,1-5).

Todo poder é criador, quando movido pelo mandamento do amor que o Senhor nos confiou: poder sem amor é domínio e destrói a beleza da vida.

Riqueza possuída não é garantia de felicidade plena alcançada, pois tão somente o Senhor pode nos conceder a verdadeira alegria.

Apegos materiais demasiados, como deuses, nos cegam e nos levam aos abismos de possíveis desumanidades e cegueira diante dos clamores dos empobrecidos, dos “Lázaros” que suplicam migalhas de nossas mesas, como nos fala o Evangelho (Lc 16,19-31).

Gloriemo-nos tão somente no Senhor, para que a sabedoria, poder e riqueza estejam a serviço da fraternidade, comunhão e vida plena para todos. Amém.


PS: Apropriado para a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 16,1-8)
 

Sem conversão não haverá Alegria Pascal

                                                   


Sem conversão não haverá Alegria Pascal                         

                     “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) 

Conversão sim, perversão aos desígnios divinos, jamais!
Dureza de cerviz, “cabeça dura”, também jamais.
Coração contrito, arrependido, humilhado, Deus não despreza,
 
Somente Deus pode mudar nosso coração
de pedra em coração de carne,
E espera que reconheçamos nossa condição pecadora.
Perdão peçamos e concedamos:
Relações mais humanas e fraternas estabeleçamos,
na família e em qualquer lugar.
 
Somente Deus, com Seu poder, é capaz de dobrar
o que aparentemente é rígido; 
aquilo que para as forças humanas é impossível de ser dobrado:
Para vencermos a prepotência dos fortes, a arrogância dos sábios, 
abertos à sabedoria maior: o Saber Divino,
tendo do Senhor os mesmos sentimentos;
em nossa fraqueza, Sua Divina força testemunharmos.
 
Somente Deus, com Sua bondade e ternura,
pode aquecer o que é gélido,
Fazendo crepitar em nosso coração a chama do Seu Amor;
Encorajando-nos para sermos; instrumentos em Suas mãos.
Subindo e descendo do Monte Tabor,
Atentos à voz do Verbo, o Filho Amado,
Sua Palavra, na planície do cotidiano, vivermos.
 
Que a Palavra Divina, neste tempo forte de reconciliação, 
nos inquiete e nos desinstale de possíveis e indesejáveis apatias, 
que fragilizam nossos compromissos;
de preguiças paralisantes, 
de ilusões que nos deixem entorpecidos,  
de desejos manchados, que nos afastam da vontade divina a nosso respeito, de reconhecimento sem que o mereçamos.
 
Experimentemos a dor da contrição.
Deixemos que Deus toque o nosso coração;
Que provoque em nós um despertar,
Para que nos abramos ao Seu Amor, tão sublime e incomparável.
 
É Quaresma, tempo favorável de conversão e salvação.
Tempo favorável de jejum, partilha e oração.
Tempo de sermos mais fraternos, mais a Cristo configurados.
Com os compromissos batismais renovados na Eucaristia.
Amém.

Em poucas palavras...

                                               


Ser cristão 

“«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) 

Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um ‘mandamento’, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro»” (1)

 

 

(1)    Papa Bento XVI – em Deus Caritas Est, n.1

Enriquecidos e fortalecidos pelos Prefácios da Quaresma

        

    

Enriquecidos e fortalecidos pelos Prefácios da Quaresma

 
A fim de vivermos mais intensamente o itinerário quaresmal que iniciamos com a Quarta-feira de cinzas, sejamos enriquecidos por parte dos Prefácios, pela Igreja oferecidos neste Tempo (devendo ser escolhido conforme a indicação litúrgica do dia, de acordo com o Evangelho proclamado):

Prefácio da Quaresma I – O sentido espiritual da Quaresma:

“Todos os anos concedeis a vossos fiéis a graça de se prepararem para celebrar os sacramentos pascais, na alegria de um coração purificado, para que, dedicando-se mais intensamente à oração e às obras de caridade e celebrando os mistérios pelos quais renasceram, alcancem a plenitude da filiação divina."

 Prefácio da Quaresma II – A penitência espiritual:

"Pois estabelecestes este tempo privilegiado de salvação, para que vossos filhos e filhas, livres dos afetos desordenados, recuperem a pureza do coração, e, usando as coisas que passam, dediquem-se mais às que não passam."

Prefácio da Quaresma III – Os frutos da abstinência:

"Vós quisestes que vos rendêssemos graças, por meio da abstinência, para que, por ela, nós pecadores, moderemos nossos excessos, e, partilhando o alimento com os necessitados, sejamos imitadores da vossa bondade."

Prefácio da Quaresma IV – Os frutos do Jejum:

“Pelo jejum quaresmal, corrigis nossos vícios, elevais nosso espírito, e nos dais força e recompensa, por Cristo, Senhor nosso."

Prefácio da Quaresma V – O Êxodo no deserto Quaresmal:

'Vós reabris para a Igreja, durante esta Quaresma, a estrada do êxodo, para que ela, aos pés da montanha sagrada, humildemente tome consciência de sua vocação de povo da Aliança, convocado para cantar vossos louvores, escutar Vossa Palavra e experimentar os vossos prodígios."

Prefácio do Primeiro Domingo da Quaresma – A tentação do Senhor:

"Jejuando quarenta dias, Jesus consagrou a observância quaresmal, e desarmando as ciladas da antiga serpente, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade, para que, pela digna celebração do mistério pascal, passemos, um dia, à Páscoa eterna."

Prefácio do Segundo Domingo da Quaresma – A Transfiguração do Senhor:

"Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o Seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, nos ensina que, pela paixão, chegará à glória da ressurreição."

Prefácio do Terceiro Domingo da Quaresma – quando for proclamado o Evangelho da Samaritana:

“Ao pedir a Samaritana que lhe desse de beber, Jesus suscitava nela o dom da fé; e tão grande era sua sede pela fé dessa mulher, que acendeu nela o fogo do vosso amor."

Prefácio do Primeiro Quarto Domingo da Quaresma – quando for proclamado o Evangelho do cego de nascença:

“Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas, e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos da escravidão do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo.”
 
Prefácio do Quinto Domingo da Quaresma – quando for proclamado o Evangelho de Lázaro:
 

“Sendo Ele verdadeiro homem, chorou o amigo Lázaro e, Deus eterno, do túmulo o tirou. Compadecido da humanidade, leva-nos à vida nova pelos mistérios pascais"
 
Os Prefácios fundamentados nas páginas dos Evangelhos nos inserem profundamente no Mistério da Paixão e Morte do Senhor, para com Ele também ressuscitarmos.

Muito oportuno retomá-los, no silêncio de nosso quarto, conforme lemos na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 6,1-18).

Sejamos fortalecidos no bom combate da fé, vencendo as tentações que se apresentarem em nossa caminhada penitencial, ressoando em nossas vidas a Liturgia celebrada e em nosso coração mais que entranhada, para frutos pascais produzirmos. Amém.

A floresta de nossos sonhos

 


A floresta de nossos sonhos


Sonhos, quem não os tem, ora belos, ora nem tanto assim.

Sonhos que ora nos movem, ora nos inquietam...

Se somados um ao outro, formam uma grande floresta.

Não haveria floresta sem a menor das sementes, folhas e flores.

 

Viver é ter coragem de visitar a floresta de nossos sonhos.

Sonhos que podem ser simples devaneios,

Sem conexão com as marcas da realidade inserida;

Mas, se relidos, podem alargar horizontes de medos e mesquinhez.

 

Sonhos de loucos, de esperanças vãs e insensatas,

De impossível realização, poderão dizer alguns,

Ou apenas o silêncio, palavras contidas,

Pela ausência da coragem, de sincera expressão.

 

Sonhos acordados de poetas nas florestas encantadas,

Enamorados pela vida, olhar transcendente,

Que colore o cinza triste de paisagens sombrias

E emprega a luminosidade para vencer o horror da escuridão.

 

Adentrar as florestas de nossos sonhos em todas as estações.

No verão, refrescar nas fontes revitalizantes da Palavra divina;

Na primavera, não desistir de contar as flores de suave perfume;

No inverno, aquecer-se na fogueira com o Fogo Divino.

 

No outono, coragem de contemplar folhas caídas,

Podas necessárias para um novo germinar, florescer,

Na certeza de que frutos não haverão de faltar:

Saborosos frutos do Espírito, Ele há de nos conceder.

 

Assim são as florestas de nossos sonhos a serem visitadas.

Nelas, por vezes, espaços desertificados ou ajardinados.

Dias difíceis, tempos de escuridão e secura da alma,

Outros, nutridos em “cascatas de leite e mel”. Adentremos...

Como se fossem pássaros... Mas... por onde andam?

                                              

Como se fossem pássaros...
Mas... por onde andam?

Temos pessoas que nos lembram os pássaros...
Pássaros humanos que Deus coloca em nosso caminho
Em alguns momentos marcantes na caminhada de fé.

Há pessoas que como águias nos levam a voos maravilhosos,
Ao encontro da sabedoria do Altíssimo, tão divina, tão bela.
Voamos nas asas das palavras carregadas desta sabedoria.

Como águias nos apontam o destino que marca a fé:
Buscar as coisas do alto e não debaixo, incansavelmente,
Lá onde Deus habita, como bem disse Paulo aos Colossenses.

Como águias nos ajudam a olhar para baixo, para o cotidiano...
Ensinam-nos que, para fazer a travessia do vale de lágrimas, A fé é mais do que preciso, pois com Deus tudo é possível.

Há pessoas que como gaivotas nos levam a buscar o alimento no mar,
Em voos certeiros, e sempre com o alimento à boca para sobreviver,
Mergulham no mar tão profundo que oculta tantos mistérios...

Como gaivotas nos apontam a busca do tão apenas essencial,
Para que não procuremos o supérfluo, o acúmulo.
Tão apenas o necessário: o pão de cada dia nos dai hoje...

Como gaivotas nos apontam onde se encontra o Alimento,
Não mais no mar propriamente dito, mas na Mesa Santa da Palavra
E em outra inseparável: a Mesa do Pão Eterno, dulcíssimo Sacramento.

Há pessoas que como beija-flores nos ensinam a sugar o néctar das flores.
Incansável no abanar das asas, sem pouso, sem descanso, o tempo suficiente,
Para que alimentado, retome o voo para retornar noutro momento.

Como beija-flores nos ensinam a sugar o néctar da vida,
Que encontramos naqueles que são puros de coração;
Naqueles que promovem a justiça, comprometidos com a paz.

Como beija-flores nos ensinam a ir e vir à procura do néctar,
Do mais precioso néctar da eternidade que encontramos
No coração daqueles que não se furtam dos compromissos com a fraternidade.

Águias, gaivotas, beija-flores, os vejo voando...
Águias, gaivotas, beija-flores os vejo anunciando.
Águias, gaivotas, beija-flores, a Palavra pregando.

Assim foi e será a vida da Igreja.
Assim é a missão evangelizadora.

Com a Igreja, dando os  passos na caminhada de fé,
Precisamos de alguém que nos ensine sagrados voos:
Águias, gaivotas, beija-flores, são mais que precisos.

Por onde eles andam? Eu bem sei.
Por onde eles andam? Bem sabemos.

Sejamos também como eles...
Ouçamos cada um deles
cantando na janela de tua alma...

Que os sonhos não morram jamais

                                                               

Que os sonhos não morram jamais

“Nunca deixe seus sonhos morrerem,
porque a vida sem sonhos
é como um pássaro com a asa quebrada
que não pode voar”. (Martin Luther King)

Sonhos adormecidos, outros esquecidos, alguns motivadores.
Sonhos que com paciência, empenho renovado, realizados serão.

Sonhos que nos movem ao encontro do Absoluto: Deus,
Na mais bela dedicação, a serviço do Reino de Deus, sem omissão.

Sonhos que nos permitem voos mais altos,
Ao encontro das coisas sagradas onde Deus habita.

Sonhos que nos permitem voos que possibilitam
Ultrapassar as montanhas das dificuldades, terríveis empecilhos.

Sonhos que nos levam ao reencontro conosco mesmo,
E que nos orientam para que a vida siga suavemente seu curso.

Sonhos que, silenciosamente vividos, nos humanizam:
Um mundo sem violência, guerras, dominação, mais irmão.

Sonhos que se somam a sonhos de outros,
Passo indispensável para que realidade se tornem.

Sonhar sozinho é preciso, mas não para sempre.
Sonhar com o outro no milagre da multiplicação.

Sonhos que a outros se somam, maravilhosamente multiplicam.
Sonhos que outros subtraem, indesejável fragilização.

Sonhemos, busquemos, avancemos,
Curemos as asas se for preciso.

Quando alimentados pela Santa Palavra e pela Eucaristia,
Nada faz morrer nossos sonhos, nada impedirá nossos voos.

Sonhemos! Avancemos! Jamais recuemos...
Com a presença do Santo Espírito que nos conduz em todos os momentos.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG